Julho/Agosto
05
Costa
do Sol e Mikado: Locais incontornáveis
da diversão nocturna
Conversa
com José da Silva, um dos proprietários da discoteca Costa do Sol, em
Villeneuve Saint-Georges, e da Mikado, em Paris.
Quer
falar-nos das discotecas Costa do Sol e Mikado?
A
Costa do Sol é uma discoteca vocacionada para os jovens de origem
portuguesa e que nela encontram além da música portuguesa, não a
saudade, como outrora os pais ou avós, mas uma certa forma de
divertimento diferente da que podem usufruir nas discotecas francesas.
A
“Costa” tornou-se um fenómeno que muitos ainda não compreendem,
sobretudo em Portugal. Há dez anos atrás alguns começavam a
interrogar-se sobre o que era essa discoteca dos emigrantes, apareceram
jornalistas, a televisão, rádios e, hoje em dia, é um
“partenaire” incontornável na área da diversão nocturna, tanto em
Portugal como em França.
Bastará
dizer que durante as férias produzimos os nossos shows em quase todas
as discotecas do país, de norte a sul.
Para
dar um exemplo dessa evolução, este ano fomos convidados pela Queen,
uma das mais reputadas discotecas de Lisboa, frequentada por todo o
jetset.
Achamos
graça ao facto das discotecas de Portugal, que pouca ou nenhuma música
portuguesa passam, convidarem a Costa do Sol, que tem como principal
bandeira a difusão da música portuguesa.
A
música portuguesa regressou às discotecas em Portugal nestes últimos
anos, em parte devido ao sucesso das tunas junto dos jovens. Tornou-se
frequente a apresentação de espectáculos com tunas e isso criou
outras exigências por parte dos jovens que começaram também a
interessar-se pela música popular tradicional.
As
queimas das fitas têm agora mais sucesso com Quim Barreiros que com
artistas internacionais.
A
Costa do Sol passa música portuguesa, mas de qualidade. Há certos
artistas que não têm lá lugar por não possuírem os níveis de exigência
que temos.
De
facto quando em Portugal, seja a políticos ou a empresários, damos
como exemplo os 3 ou 4 mil jovens luso-descendentes que se encontram
todos os fins de semana na Costa do Sol, as pessoas ficam atónitas e
impressionadas...!
Isso
revela efectivamente uma necessidade de identificação com as raízes
por parte destes jovens, que na sua grande maioria já são netos dos
primeiros emigrantes, totalmente desconhecida pela classe política em
Portugal. Mas em alguns sectores, tais como nas discotecas e outros
locais de divertimento já existem sinais de tentativa de aproveitamento
desses jovens que se deslocam ao nosso país no período de férias.
É
evidente que o nosso “savoir faire” também tem sido determinante.
Renovamos periodicamente a decoração, propomos sempre em primeira mão
todas as novas tecnologias e cuidamos da programação dos espectáculos
de forma meticulosa. Por exemplo, o site internet da Costa do Sol
(www.costadosol.net) foi um
investimento importante e inovador que se tem revelado bastante
produtivo. Por outro lado, tal como já referi, não vamos na conversa
de certos empresários artísticos que andam por aí a vender artistas
sem talento e ao desbarato.
A
culpa de existirem também é de certas associações que “compram”
má qualidade, depois queixam-se da falta de público e algumas
desaparecem. Diga-se na verdade que algumas só existem como alternativa
económica de famílias que as constituem para realizar benefícios com
espectáculos.
Existem
aquelas em tem que se beber um garrafão de vinho para se poder fazer
negócio, mas ainda bem que existem outras bem sólidas e eficientes.
Quanto à discoteca Mikado, é diferente, mais pequena, leva cerca de
500 pessoas, um público variado que vai dos 18 aos 50 anos e está
aberta das 5as aos Domingos à noite.
Propomos
igualmente ao longo do ano uma grande diversidade de espectáculos
exclusivamente portugueses.
Isso
leva-nos à questão seguinte, o José da Silva possui igualmente uma
empresa de espectáculos, pode dar-nos pormenores sobre esta segunda
actividade?
Efectivamente.
Chama-se Mundial Show, é uma empresa portuguesa que vende espectáculos
completos e tem dois parceiros importantes e essenciais para se poder
obter resultados positivos nesta área: uma das editoras mais
conhecidas, a Vidisco, e o grupo “Santamaria” que dispõem
provavelmente do maior e mais bem equipado estúdio de gravação de música
em Portugal. Além dos artistas consagrados que promovemos regularmente,
tais como os “Santamaria”, os “Canta Bahia” e outros, neste
momento apostamos na descoberta de novos talentos, o que nos é
frequentemente solicitado por canais de televisão e outros promotores
de espectáculos. Podemos obviamente responder a todas as necessidades
de um artista principiante, desde que possua as qualidades exigidas,
fornecendo-lhe um estúdio de gravação, uma editora, a promoção e um
vasto leque de propostas de espectáculos. Naturalmente estamos
igualmente preparados para receber artistas consagrados que, por razões
diversas, desejem mudar de editora de produtor ou de promotor.
Percebemos
que a ideia foi de reunir através de parecerias todas as competências
na área da edição e promoção musical para que um artista se possa
consagrar inteiramente ao seu trabalho...
Exactamente.
Actualmente estamos também a criar três grupos, reunindo talentos
diversos para desenvolver este sector. Constatando que muitos acabam por
razões de entendimento interno ou de zangas momentâneas, estes grupos
beneficiarão de um conceito musical nosso mas que nos permitirá de
mudar um ou outro elemento que não se assimile ou deixe de se enquadrar
num conceito destinado a uma pequena revolução no seio da música
portuguesa..
Está
a referir-se a algo que começou em Itália no princípio dos noventa e
que culminou com inúmeros processos nos tribunais ?
A
diferença é que não tencionamos mudar os vocalistas, mas sim os músicos
quando isso se tornar necessário. Também deve compreender que, quando
se investe durante 4 ou 5 anos num grupo, não se pode estar à mercê
dos humores de um ou outro músico que de repente quer estragar tudo.
Registamos
e somos obviamente proprietários do nome do grupo que constituímos. Se
um elemento sair não poderá utilizar o nome do grupo, é tudo.
Quais
são os mercados que a Mundial Show pretende abranger ?
Infelizmente,
a nossa língua exporta-se mal em termos musicais. Concentramo-nos por
isso logicamente no mercado nacional e junto das comunidades espalhadas
pelo mundo.
Qual
é para si a razão da ausência da música portuguesa nos mercados
internacionais ?
Além
do problema da língua, julgo que não sabemos vender-nos como deveríamos.
Em Portugal as editoras distribuem toda a música estrangeira. Se em
França, em Inglaterra, nos Estados Unidos e noutros países não se
vende música portuguesa fora das comunidades, isso deve-se
essencialmente à falta de conhecimento e neste caso temos todos de
assumir as culpas dessa situação, particularmente as editoras e os
empresários artísticos portugueses. O problema é também que andam
por aí umas pessoas com cassetes gravadas na mão, convencidas que os
filhos são artistas, a vendê-los em tudo o que é sítio e isso
dificulta a acção dos profissionais que propõem qualidade.
Felizmente
há exemplos que nos enchem de orgulho. Ainda
há pouco tempo estive em Barcelona e constatei que os bilhetes para os
concertos dos Madredeus estavam esgotados um ou dois meses antes.
Neste
momento já tenho uma proposta para os Santamaria actuarem no mês de
Outubro para franceses. Viram-nos ocasionalmente e mostraram-se
imediatamente interessados.
É
pois um longo e lento trabalho que também me proponho desenvolver,
nomeadamente com estes grupos que queremos lançar.
AC
Julho/Agosto
05
Entrevista
com o Embaixador de Portugal em França, Dr. João Rosa Lã:
“O
ensino do Português é uma das nossas principais preocupações”
Senhor
Embaixador, chegou há quase um ano a Paris, já se poderá começar a
falar do primeiro balanço?
Cheguei
em Novembro, ainda não faz um ano… Tivemos no entanto uma intensa
actividade e acontecimentos de grande relevo, dos quais destacaria a
visita de Estado de Sua Exa. o Presidente da República, Dr. Jorge
Sampaio, a única visita de Estado este ano e a primeira a França de um
presidente português desde 1989, e as visitas do Sr. Primeiro-Ministro,
Dr. Santana Lopes e a do Sr. Ministro dos Negócios Estrangeiros, Dr.
Freitas do Amaral.
Preparámos
igualmente a Cimeira Luso-francesa de Angoulême que foi finalmente
anulada devido à preparação das eleições legislativas. Visitei já
Toulouse, Lyon, Bordeaux, Nice, Lille e Rouen para contacto com as
nossas comunidades. Tivemos um Seminário Consular que permitiu melhorar
a nossa coordenação e criar, por exemplo, um telefone de emergência
em todos os Consulados em França.
A
ministra da Educação e o secretário de Estado das Comunidades
Portuguesas anunciaram recentemente que o Governo não tinha meios para
continuar a enviar professores de português para o estrangeiro. Quando
se conhece o contributo dos emigrantes portugueses para o
desenvolvimento do nosso país, estas declarações serão provavelmente
mal interpretadas por alguns...
Ainda
não tenho conhecimento dessas declarações, mas não creio que a intenção
seja de prejudicar o ensino do português no estrangeiro. Essa tem sido
uma das nossas principais preocupações e continuará a ser. Esse foi
aliás um dos temas principais da visita do Sr. Presidente da República
a França, que atribui a esse assunto uma importância primordial.
Continuamos todos mobilizados nesse sentido e regozijo-me pessoalmente
pelo excelente trabalho desenvolvido pela Sra. Coordenadora do Ensino,
Dra. Gertrudes Amaro. Quanto à possibilidade de recrutamento local dos
professores, não vejo porque é que um professor contratado nessas
circunstâncias teria menos competência do que alguém que venha de
Portugal. O problema é a necessária racionalização dos meios que
temos ao nosso dispor e uma melhor adaptação à evolução da própria
comunidade, que não é a mesma de há trinta anos.
Abrimos
recentemente novos cursos em Lille e em Lyon, há contactos permanentes
com responsáveis franceses para implementarmos cada vez mais o ensino
do português como língua viva estrangeira e abrem-se todos os dias
novas perspectivas nesse campo, porque o português tem de ganhar espaço
como língua estrangeira nos diferentes currícula. Ainda há poucos
dias estabelecemos uma parceria com a Caixa Geral de Depósitos para
facultar maior informação aos pais dos alunos e existem outras
iniciativas do mesmo género no sentido de promover o ensino do português
junto da população francesa.
Um
dos problemas apontados é a falta de coordenação dos professores,
fala-se justamente de cursos fechados em Lille, devido a múltiplas ausências
de professores, que dão também aulas em associações...
Isso
não é bem assim, não há falta de coordenação. Haverá realmente
alguns problemas que deverão ser resolvidos. O ensino da língua
facultado pelas associações, bem como o ensino a nível privado tem
sido e continua a ser extremamente importante. Agora há que estabelecer
regras para que exista a necessária complementaridade entre todas as
ofertas.
Um
proprietário de uma discoteca que entrevistámos para esta edição
refere-nos que recebe todos os finais de semana cerca de 4 mil jovens
luso-descendentes que têm necessidade de se encontrar e conviver entre
eles ao som da música portuguesa. Lamenta que em Portugal, nomeadamente
certos responsáveis políticos, considerem que estes jovens já estejam
completamente integrados nos países de residência e por consequência
perdidos para o nosso país. Que pensa disso?
Não
posso concordar com isso, considero extremamente positivo que esses
jovens procurem discotecas portuguesas para se divertir e isso deixa-nos
antever perspectivas muito positivas para o futuro. Por isso os nossos
esforços têm sido constantes no sentido da manutenção desses laços,
mesmo se defendemos uma boa integração no país onde vivem. Uma coisa
não impede a outra e a melhor prova disso é o contributo e o apoio que
damos à reunião dos eleitos municipais de origem portuguesa que
decorre todos os anos no Senado francês e que terá lugar dentro de
alguns meses. Como até aqui, continuarei, assim, a insistir na
participação cívica dos portugueses em França, onde lhes foi
reconhecido desde 2001 o direito de participar nas eleições europeias
e autárquicas. Hoje mais de 50 000 portugueses estão já recenseados
nas listas eleitorais francesas, mas este número está muito longe de
corresponder à dimensão demográfica da nossa Comunidade e ao seu peso
na sociedade francesa. Um especial esforço de mobilização tem de ser
levado a efeito para convencer as centenas de milhares de portugueses a
recensearem-se, tanto aqui em França, nas "Mairies", como em
Portugal, através dos Consulados.
À
semelhança do que acontece com outras comunidades que dispõem de
importantes “lobbys”, apoiamos obviamente a criação de estruturas
que possam dar mais força e mais visibilidade à nossa comunidade.
Contamos por isso com todos mas, sobretudo, com os jovens e os empresários
junto dos quais vamos tomar em breve algumas iniciativas nesse sentido.
Senhor
Embaixador, porque razão a festa do Dia de Portugal decorreu este ano
no Consulado de Portugal em Paris, quando habitualmente por hábito a
comunidade é convidada à Embaixada?
Não
vejo nada de anormal no facto que seja o Cônsul-Geral de Portugal em
Paris a convidar a comunidade a festejar o 10 de Junho, Dia de Portugal
e das Comunidades Portuguesas.
Como
sabe, ainda há pouco tempo a Embaixada recebeu cerca de 900 pessoas da
comunidade, por ocasião da visita de Estado do Presidente da República,
e pouco tempo antes aconteceu a mesma coisa quando cá esteve o
Primeiro-Ministro. Este ano decidi ir ao encontro dos portugueses da
região de Toulouse, onde a cidade de Lisboa foi a convidada de honra na
“Marathon des Mots”, e que poucas oportunidades têm de conviver com
o Embaixador.
Desde
que cheguei, já percorri uma boa parte deste país para me encontrar
com portugueses de outras regiões e tenho a intenção de continuar
nessa via.
O
Governo decidiu voltar a separar o ICEP do IAPMEI, espera-se uma
desvinculação das delegações do ICEP das embaixadas e consequentes
alterações em relação à chamada “diplomacia económica”?
Não,
o que está em causa é a reorganização das estruturas por forma a
torná-las mais produtivas e eficientes. Este governo já tornou público
o seu empenhamento no desenvolvimento da chamada "diplomacia económica".
Aliás esta tem sido, desde a minha chegada, outra das prioridades,
tentando reforçar os laços empresariais luso franceses e atrair
investimentos franceses para Portugal.
Tenho
muita esperança nos desenvolvimentos que ultimamente têm nascido no
seio da própria comunidade, tais como a nova Câmara de Comércio
Franco-Portuguesa e o Clube Atlântico.
António
Cardoso
Junho
05
Pauleta:
“Temos todas as condições para fazermos um grande Mundial”
Quase
no final da época futebolística 2004/2005, que certamente não ficará
na memória de Pedro Pauleta como a melhor da sua carreira, fomos ao
encontro do avançado açoriano para fazer um balanço deste segundo ano
no Paris Saint Germain e traçar algumas linhas para o futuro da sua
carreira e da selecção das quinas.
Está
muito próximo do recorde de Eusébio de golos marcados ao serviço da
selecção portuguesa. O que significa para si alcançar esta marca?
A
determinada altura bater esse recorde passou a ser também um dos meus
objectivos na selecção. Não vai ser fácil porque cada vez faltam
menos jogos, mas espero ainda conseguir alcançá-lo. No entanto, o meu
objectivo principal é ajudar Portugal a estar presente no Mundial.
O
que significa para si representar a selecção nacional?
A
selecção é o sonho de qualquer jogador de futebol, é representar o
seu país. Já estou na selecção há alguns anos, cerca de 9 ou 10, e
é obvio que sinto um orgulho enorme em representar a equipa das quinas.
Quais
são para si as melhores selecções europeias neste momento? Quem acha
que vai ter uma boa performance no próximo Mundial?
Penso
que actualmente na Europa a Alemanha e a Inglaterra são duas selecções
muito fortes. A Inglaterra porque cada vez mais os jogadores ingleses
estão a afirmar-se nos grandes clubes europeus. E a Alemanha, sendo a
anfitriã, de certeza que vai aparecer muito forte e vai contar com o
apoio do seu público.
E
Portugal? Até onde podemos ir?
Acho
que temos todas as condições para, primeiro, nos classificarmos e,
depois, fazermos um grande Mundial.
Fala-se
do eventual regresso do Figo. Acha isso possível? Gostaria que
acontecesse?
O
Figo é sempre bem-vindo na selecção. É um grande jogador que
conhecemos muito bem. Ficaria muito contente que ele voltasse, porque
sou bastante amigo dele e acho que é um dos grandes emblemas futebolísticos
de Portugal.
O
que é que correu mal no último Europeu, o que faltou?
Passou-se
muita coisa. Houve muitos problemas com o treinador, com a federação.
Depois, com a falta de sorte e a falta de organização, os desaires
acontecem com mais facilidade. Mas também não podemos descarregar toda
a culpa nestes factores, temos de assumir igualmente a nossa parte. O
futebol é assim, umas vezes ganha-se, outras não.
Uma
das razões invocadas para o desaire foi o desgaste físico de alguns
jogadores, devido a épocas longas e cansativas nos respectivos clubes.
Acha que esta alegação é legítima?
Não.
Isso não é uma desculpa, pois os outros jogadores também tiveram a
mesma carga de trabalho. O que aconteceu foi que entrámos mal no
primeiro jogo e depois, como já disse, existiram muitos problemas que
influenciaram.
Este
ano ainda faltam dois jogos, ambos difíceis. Quais são as perspectivas
para esta fase de qualificação?
Faltam
dois jogos importantes este ano. Um deles é com o adversário directo,
a Eslováquia. Se a conseguirmos eliminar em casa ficamos mais perto de
estar apurados, senão as coisas complicam-se. Mas estamos na frente e
queremos manter essa posição, pois queremos estar no Mundial, que é o
nosso principal objectivo.
Quais
os pontos fortes e os pontos fracos da equipa das quinas, na sua opinião?
Não
acredito que haja pontos fracos. Temos uma grande selecção, constituída
por grandes jogadores, o ambiente no balneário é bom, temos um bom
treinador... penso que a selecção mudou muito e que hoje somos uma
equipa bastante forte. O que poderíamos chamar de ponto fraco é a
nossa mentalidade, a mentalidade portuguesa de pessimista, mas isso está
a mudar. Estamos cada vez mais fortes a esse nível.
Nos
últimos anos tem-se assistido à afirmação dos clubes portugueses na
Europa. O Porto primeiro e agora o Sporting. Como vê este prestígio
crescente?
É
principalmente bom para o futebol português, porque quanto mais se
falar de Portugal na Europa, melhor. Quando se trabalha muito e se
consegue chegar onde as nossas equipas têm conseguido chegar é
gratificante. Há dois anos e o ano passado, o Porto e, este ano, o
Sporting, são um bom exemplo desse sucesso. É muito bom para o futebol
português.
Qual
é o balanço que faz desta época do Paris Saint Germain?
Foi
uma época que começou mal. Houve a mudança de treinador e de
jogadores, o que foi difícil de gerir. Muitas coisas se passaram
durante este ano e ainda recentemente tivemos um novo presidente. Tudo
isso contribuiu para desestabilizar a equipa. O problema com as claques
também não ajudou a motivar. Estamos ainda a fazer tudo o que é
humanamente possível para terminar da melhor maneira, mas nunca vai
deixar de ser uma má época.
Houve
uma altura em que o Pauleta também não estava bem. O que aconteceu?
O
que se passou comigo passou-se com todos os jogadores. Quando se joga
numa equipa que não está bem, o seu próprio rendimento acaba
afectado. É normal que houvesse momentos em que eu estivesse menos bem.
Foi uma má época para todos. Desde que cheguei a França foi a minha
época menos conseguida, mas espero ainda terminá-la bem. E, com
optimismo, pensar que a próxima vai ser melhor.
Por
vezes sente-se uma certa dependência da equipa em relação ao seu
rendimento pessoal. O que pensa disso?
Isso
não pode ser. Um clube como o PSG, que quer jogar para os três
primeiros lugares, não pode depender só de um jogador. Esse é um dos
problemas da equipa.
Sente-se
essa pressão? Como lida com ela?
Pressão,
não. Não existe pressão no futebol para mim. É a minha profissão,
que faço o melhor que posso. Tenho alguns momentos menos bons como
qualquer pessoa.
A
pressão não contribuiu para o momento menos bom que atravessou no início
do ano?
Não.
O meu rendimento depende muito da forma como a equipa joga. É natural
que quando a equipa não esteja a jogar bom futebol, não ganhe, não
ataque, o atacante sinta falta disso.
No
decorrer da época houve uma mudança de treinador, Laurent Fournier
substituiu Vahid. Quais as principais diferenças entre os dois?
São
mentalidades diferentes. Vahid tinha uma personalidade muito forte,
muito vincada, era muito agarrado às suas ideias e esse conjunto fez
com que houvesse um momento de saturação e, como os resultados não
acompanhavam, houve a tal mudança.
Mas
isso é frequente no futebol, quando as coisas não correm bem, o
treinador é o primeiro a sair.
O
que mudou com Fournier?
Foi
um alívio para alguns jogadores que não se sentiam bem com o Vahid.
Libertaram-se, soltaram-se mais e desse modo integraram-se com mais
facilidade no grupo.
E
para si, foi um alívio?
Não.
Eu tinha uma boa relação com o Vahid, tenho igualmente uma boa relação
com o Fournier. Mas é verdade que com o Fournier a equipa melhorou a nível
psicológico, os jogadores descontraíram-se mais desde a saída do
Vahid. Mas a culpa também não é só dele.
Quem
é que acha que seria o treinador indicado para a próxima época?
Na
minha opinião não há enquanto não se resolverem todos os outros
problemas internos do clube. É a mesma coisa que começar a construir
uma casa pelo telhado ou pelas janelas, não vai dar uma casa muito boa,
não vai durar muito tempo. Logo, enquanto não houver uma organização
no PSG, as coisas vão ser sempre assim.
Francis
Graille também acabou por ser despedido. Veio para o clube pelas mãos
dele, o que significa para si este despedimento?
Era
uma pessoa de quem eu gosto bastante, sou amigo dele, mas actualmente no
futebol até os presidentes estão sujeitos a serem despedidos. Vamos
esperar para ver os projectos do novo presidente.
Continuas
a ser o melhor marcador da equipa com 13 golos. O que significa para ti
marcar um golo?
Para
mim significa tudo, é a minha principal missão. Só me sinto bem
quando marco, pois fui contratado para isso. E o golo, ou os golos, é
que dão as vitórias, e elas é que dão os pontos. Os golos são a
parte mais importante do futebol.
E
quando não marca, o que sente?
Fico
triste, penso bastante no jogo e sobretudo penso em me preparar o melhor
possível para no próximo jogo poder marcar.
O
público é apelidado muitas vezes de 12.° jogador. O PSG e os seus
adeptos andaram de costas viradas durante toda a época, houve momentos
de verdadeira tensão, um deles inclusive com o Pauleta, o que se
passou?
Os
adeptos do PSG são muito expressivos. Num jogo contra o Toulouse,
chegou a minha vez de ser assobiado. No momento não aceitei muito bem,
porque não pensei que fosse justo. Mas isso é perfeitamente normal,
faz parte do futebol quando uma equipa não joga bem e um jogador tem de
aceitar.
E
o futuro próximo? Como e onde o vê?
Tenho
mais um ano de contrato com o PSG, até 2006, e em princípio devo ficar
e cumprir até ao final. Vamos ver. Só vou decidir no final da época.
Já
teve outras propostas?
Existem
alguns clubes interessados, algumas propostas. Mas como tenho contrato,
não penso nisso.
Algumas
dessas propostas vieram de Portugal?
Também.
Houve alguns contactos de Portugal, mas nada de concreto por enquanto.
Se
houvesse uma proposta concreta de um clube onde gostasse de jogar, vamos
dizer, por exemplo, em Portugal, mas se isso implicasse um salário
inferior, aceitaria?
O
dinheiro nunca foi determinante. Claro que a um dado momento foi
importante, mas nunca foi determinante para as escolhas que tomei. Agora
é obvio que tenho de pensar bem. A minha carreira está a terminar,
tenho 32 anos, e não vai ser neste momento que vou sair do PSG por
ganhar mais ou menos, essa escolha será sempre em função do meu bem
estar e da minha família.
Há
algum campeonato, tirando o português, onde gostasse ainda de jogar?
O
inglês é um campeonato de que gosto imenso, mas com a idade que tenho
não me meto isso como objectivo. Talvez se tivesse sido há alguns
anos... Agora dificilmente jogarei noutros campeonatos que não o francês,
o português ou o espanhol, onde já joguei e de onde tenho uma proposta
de um
clube.
Acabar
a carreira em Portugal...
ainda pensa nisso?
Já
não é uma prioridade. Não penso nesse sentido. Se tiver de acabar
aqui, acabo.
Quanto
mais tempo pensa jogar?
Mais
dois ou três anos. Tudo depende se ficar no PSG, se renovar ou não.
Vive
em Paris há algum tempo. O que prefere na cidade?
Paris
é uma grande cidade, de que toda a gente gosta.
Quase tudo está à nossa disposição.
É
difícil eleger um sítio, uma coisa em particular. É uma cidade fantástica.
Criou
uma escolinha de futebol nos Açores e, em Março último, deu-se o
primeiro torneio. Como correu este primeiro evento?
Correu
muito bem. Foi bastante satisfatório tanto para mim como para os pais
e, principalmente, para os miúdos. A escolinha do Simão (Sabrosa) e do
Benfica estiveram presentes. Espero
dar continuidade ao projecto e quero já a partir do ano que vem levar
uma equipa francesa, se possível o Paris Saint Germain.
Ana
Carvalho
Fevereiro
05
Cristina
Branco em entrevista
“Sou
um camaleão que canta o que quer”
Poucos
dias depois do lançamento de “Ulisses”, o novo disco de Cristina
Branco, a artista esteve em Paris para uma apresentação ao Senado
francês e um encontro organizado pela Cap Magellan. A Vida Lusa
conversou com a cantora.
Depois
de uma digressão pela Holanda, um país onde tens um óptimo
acolhimento desde muito cedo, como foi o espectáculo no Senado francês?
Frio.
Era um ambiente muito formal, num espaço muito barroco que pouco tem a
ver comigo.
Mas
eles gostaram imenso. Na Radio Classique (que organizou o evento)
disseram-me que receberam imensos e-mails dos senadores a dizer que
tinham gostado muito, que tinha sido uma iniciativa fantástica. Foi até
engraçado porque a certa altura pedi para cantarem comigo e, para minha
surpresa, os velhos senadores, que estavam muito silenciosos, começaram
todos a cantar.
Em
relação a este CD que acabas de lançar, “Ulisses”, li em várias
entrevistas que o consideravas um “disco de ruptura”. Há alguns
temas que de facto suscitam mais surpresa, mas parece-me que se mantêm
determinadas referências que fazem parte do teu universo.
Não
é uma ruptura num sentido muito radical. As pessoas sabem que eu não
sou propriamente agarrada ao fado. Além disso, sempre tive muito
interesse em muitos géneros musicais. Então, neste disco, para além
de estar a cantar aquilo que me apetece, o que aliás é básico para
mim em qualquer disco, comecei a cantar noutras línguas. Isso não é
vulgar dentro da música portuguesa, porque é quase uma ousadia.
Este
trabalho prova também uma outra coisa, para mim muito importante. Vem
mostrar que, se for de facto cantora de fado, não canto só fado. Sou
uma espécie de camaleão que canta o que quer. Enquanto que um fadista
só canta fado, eu canto também fado. Canto fado, entre outras coisas.
É
um álbum muito ecléctico.
Este
álbum fala do meu gosto pessoal, da música que eu gosto de ouvir e de
interpretar. E também daquilo que gosto de re-interpretar, porque uma
parte das músicas são re-interpretações de coisas que outras pessoas
fizeram.
É
curioso como, apesar de ser comum ouvir-te sublinhar alguma distância
em relação ao fado, as pessoas genericamente se referem a ti como
“Cristina Branco, a fadista”.
Nem
fui eu que fiz questão de sublinhar a diferença. Quando saiu o meu
primeiro álbum e ouviram--me a cantar, por exemplo, Zeca Afonso e Sérgio
Godinho, à mistura com fados tradicionais, os velhos do Restelo iam
morrendo. Houve uma polémica enorme porque as pessoas associavam-me só
ao fado.
Então,
eu própria vim a público dizer que nunca tive qualquer intenção de
ser fadista. Só há pouco tempo, para uma cena dum filme inglês,
cantei numa casa de fados! Fora isso, nunca cantei numa casa de fados e
nunca hei-de cantar. Para mim a música passa por outros universos,
nunca por aquelas quatro paredes e as toalhinhas aos quadradinhos.
Fizeste
questão de não te definires como fadista para depois não teres de
seguir as regras do fado. No fundo, foi para teres mais liberdade?
Exactamente.
Aliás, a propósito disso, a FNAC agora vai mudar os meus discos da secção
de fado para a secção da música portuguesa. Eu acho bem. É mais
verdadeiro.
Este
disco tem muitos sabores - encontramos uma música da Joni Mitchell,
outra da Mercedes Sosa - esta recolha tem a ver com os teus gostos
musicais quando eras mais nova, ou são coisas que tens descoberto
agora?
Há
muita influência em todos os meus álbuns da música que fui ouvindo
desde muito nova. Os meus pais são grandes melómanos e sempre tiveram
em casa uma colecção enorme de discos. Quando cheguei à adolescência
não tive necessidade de pegar na minha mesada, comprar discos e
descobrir a música da moda. Fui ouvindo os discos dos meus pais, que
eram muito eclécticos, e não fiquei apenas na música da minha época.
Jazz, blues, música de intervenção portuguesa, música francófona,
tudo isso constituiu a minha educação não só musical como também
intelectual. Se começasse a dizer do que gosto, a lista não parava!
Quais
são os primeiros nomes que te vêm à cabeça?
Fora
do mais óbvio, gosto de Bruce Springsteen, dos Pink Floyd sabia os
discos todos de cor, adoro Simon & Garfunkel, Maria Bethânia, Chico
(Buarque). São os que tenho comprado ultimamente.
Foi
uma pequena surpresa encontrar neste álbum “Alfonsina y el mar”...
a Mercedes Sosa fazia parte dos discos dos teus pais?
O
interesse pelo poema “Alfonsina” é mais recente, surgiu através de
uma viagem à Argentina, onde fui há pouco tempo. Mas já conhecia a música
e tinha uma relação com o país sem nunca lá ter estado, através das
músicas da Mercedes Sosa que os meus pais ouviam. O tema
“Alfonsina” nunca me tinha despertado qualquer coisa de especial,
mas depois da viagem, quando comecei a trabalhar neste disco houve uma
fase em que ouvi muito a Mercedes. Voltei aí a encontrar a
“Alfonsina” e pensei “isto tem tanto a ver com a saudade e a
nostalgia”. Então decidi explorar a música que, aliás, é linda de
morrer. Penso que é mais uma contradição dentro deste álbum, onde
digo que quero cantar coisas alegres e aí no meio surge esta história
de um suicídio tristíssima que é a da “Alfonsina y el mar”.
É
também uma provocação o facto de o tema em que cantas os sentimentos
da saudade, da tristeza, do fado, ser interpretado em espanhol?
(Risos)
Sim, isso ocorreu-me. No fundo, “Ulisses” foi a minha desculpa para
fazer uma viagem geográfica que me desse a oportunidade de cantar
noutras línguas.
E
depois da viagem, chegaste a algum destino?
Sim,
já sei o que vou fazer a seguir. Os discos saem com uma frequência
quase anual, portanto na Universal assim que sai um começa-se logo a
trabalhar no seguinte. Mas independentemente disso ou de quaisquer
constrangimentos externos, tenho uma definição musical muito grande
dentro de mim.
Neste
álbum encontramos uma colaboração com o Júlio Pomar. De onde surgiu
esse projecto?
O
Júlio Pomar é a minha mais recente paixão. No Verão passado recebi
um telefonema dele quando estava em casa, depois de ter o meu filho, a
dizer-me que ia lançar um livro e que queria que cantasse um poema seu
na noite do lançamento. Eu fiquei muito entusiasmada.
Fui
a casa dele à espera de encontrar um velhinho fragilizado e encontrei
um guerreiro, um doce de pessoa tão segura de si e com um carácter tão
forte.
Ele
tinha um poema específico que queria que interpretasses?
Não.
Ele tem centenas de poemas e está sempre a mexer-lhes. Por isso é que
os publica, porque senão continuaria eternamente a alterá-los. Mesmo
assim, o poema que escolhi para este disco já foi mexido e já está
diferente, apesar de ter sido publicado em livro e também no meu álbum.
É
muito conhecido o facto de teres uma recepção muito maior no
estrangeiro do que em Portugal. Como é no caso dos portugueses que estão
fora?
Os
emigrantes não vão muito aos meus concertos, seja em que país for.
Curiosamente, a promoção de um espectáculo que fiz há pouco tempo na
Suíça foi muito direccionada para os portugueses. Por entre a maioria
suíça, havia cerca de vinte portugueses na sala, o que para mim já
foi uma vitória. Eles gostaram imenso, mas confessaram-me que não iam
à espera de ouvir o que encontraram.
Neste
caso foi uma surpresa pela positiva para eles, mas de qualquer modo eu não
gosto de estar a enganar as pessoas, ou seja, não gosto que promovam os
meus concertos como sendo concertos de fado. Para os estrangeiros é um
pouco indiferente porque não conhecem muito rigorosamente o fado. Mas
os portugueses criam expectativas de irem assistir a um espectáculo
mais tradicional e podem sentir-se defraudados ao ouvir-me cantar em
inglês ou francês músicas de muitos géneros. Por isso faço questão
de não promover como fado os meus concertos. É mais honesto e
verdadeiro.
Mas
genericamente os portugueses cá fora não vão muito aos meus
concertos. Primeiro, a promoção não é especialmente dirigida para
eles. Segundo, porque mesmo que fosse são pessoas culturalmente pouco
atentas.
Achas
que isso se aplica também às novas gerações?
Não,
referia-me mais àqueles que estão cá, no caso da França, há 40
anos. Hoje, das novas gerações tenho conhecido gente interessantíssima,
pessoas que cultivam a língua, a cultura e vão à descoberta do que se
está a fazer agora nestas áreas. Mas a verdade é que não posso
afirmar que sejam muitos os que têm chegado até mim.
Convives
bem com o público?
Com
as pessoas sim, com a exposição não. Convivo muito mal com a questão
da imagem. Detesto as sessões fotográficas. Sinto-me mal com as câmaras.
A exposição, para mim, é o pior desta profissão.
Não
é um pouco contraditória essa dificuldade em expor-se, não só com a
tua actual actividade, mas também com o desejo que tiveste desde cedo
de ser jornalista?
Eu
queria ser jornalista do lado de lá. O jornalismo que me interessava
era o da imprensa escrita, o de investigação, ou seja, nunca numa
perspectiva de dar a cara. Simplesmente não gosto de me mostrar. Mesmo
o facto de ter de me apresentar em público é uma dificuldade enorme,
é um processo de interiorização que demora algum tempo. É estranho,
não é?
Imagina
a paixão que é preciso ter para conseguir suportar tudo aquilo.
E
projectos para o futuro?
Neste
momento tenho um projecto que já tem dois anos e que é para
concretizar no próximo Natal. Fui convidada pela orquestra do
Concertgebouw para fazer um concerto muito especial, com música
tradicional de Natal portuguesa. Eu, o Ricardo Dias e o João Paulo
Esteves da Silva estamos a fazer uma busca de material, de música que
nunca ninguém gravou e ninguém ouviu em palco. Vai ser muito especial.
Carolina
Borges
Novembro 04
Entrevista
com Maria Mendes de Oliveira
TARIKAVALLI,
uma estrela portuguesa!
Maria
Mendes de Oliveira - TARIKAVALLI, é
uma luso-descendente, nascida em França. Os seus pais chegaram a este
país como, tantos outros, nos anos sessenta, em busca de uma vida
melhor.
Maria
estudou na Sorbonne, em Paris, especializou-se em dança indiana depois
de ter assistido a vários espectáculos e ter ficado subjugada. “À
medida que descobria e aprendia tudo o que envolvia essa dança, mais
vontade tinha de continuar”.
Mas
o verdadeiro ponto de partida foi quando assistiu a um desses espectáculos
interpretado por uma bailarina profissional francesa : “se uma
francesa pode fazer isto e ter sucesso, eu também posso”, concluiu.
Deslocou-se
inúmeras vezes à Índia para participar em grupos de trabalho,
impregnou-se durante vários anos de cultura e hábitos locais e acabou
por conseguir uma bolsa de estudo atribuída pelo Ministério dos Negócios
Estrangeiros francês que lhe permitiu estudar nesse país.
Perguntámos
a Maria Oliveira a origem do nome Tarikavalli : “é o nome concedido
pelo Mestre de formação no fim do ciclo. Os professores indianos dão
um nome aos alunos quando consideram que estes estão
“transformados” e dominam finalmente a arte ensinada. “Tarika”
é uma estrela e Valli é uma grinalda, a tradução em português de
TARIKAVALLI, será “grinalda de estrelas” ou ainda uma “trepadeira
de estrelas”. É um presente que os indianos oferecem a Deus, tendo
por isso um significado tradicional e profundamente religioso para este
povo”.
Lembra-nos
que não mudou de nome : “chamo-me Maria Mendes Ferreira de Oliveira,
Tarikavalli, transformou-se num nome artístico...”.
Agora,
o seu Mestre indiano instalou-se também em Paris e acompanha Maria por
todo o lado nos seus espectáculos.
Maria
não tem muitos contactos a nível da comunidade portuguesa em França,
mas desloca-se a Portugal uma ou duas vezes por mês para ensinar esta
dança aos portugueses e participar em grupos de trabalho dedicados a
esta actividade. “O facto de ser convidada a ensinar em Portugal é
muito importante para mim e dá-me grande alegria pelo facto dos meus
pais terem emigrado por razões económicas e saber que têm orgulho por
aquilo que eu faço”.
Confessa
que gostaria de ir viver para Portugal onde não tem concorrência na
sua arte, “por enquanto, porque estou a formar bailarinas que amanhã
estarão no mercado, mas é uma decisão difícil de tomar”.
No
espectáculo do dia 10 de Novembro, Maria vai actuar com um ou dois
textos traduzidos em português : “já resultou em Portugal, o público
foi muito receptivo, espero ter muitos portugueses no meu espectáculo e
que apreciarão”, disse à Vida Lusa.
Nós
também, esperamos que a nossa comunidade vá descobrir esta estrela que
também quer brilhar entre nós.
AC
Setembro
04
A
ressurreição do Fado?
Entrevista
com a fadista Mané
O
autor desta entrevista conhece e aprecia a Mané, há mais de vinte
anos. Reconhece gostar de fado, da voz, da maneira como esta ela o
interpreta, da artista e da pessoa. Ver pois na FNAC, o antro da promoção
da música francesa, grandes cartazes e uma secção consagrados ao seu
último álbum, foi um enorme prazer que não ousaria tentar disfarçar.
Depois
de ouvir os temas do CD, não nos admira tal empenhamento na promoção
e na produção por parte de franceses que amam a nossa canção
nacional.
Não
quisemos aqui elogiar ou até comentar o disco de Mané, deixamos isso
ao critério dos leitores, queremos apenas alertar aqueles que gostam
realmente de fado, dizer-lhes que existe qualidade, que temos grandes
talentos artísticos entre nós e que… vale a pena procurá-los.
Encontrámo-nos
obviamente num restaurante português para falar do seu último álbum e
sobretudo de Fado.
Foi
uma surpresa muito agradável constatar que o seu último disco de fado
está a ter grande sucesso em termos de vendas, em França. Quer
contar-nos a história deste álbum?
Conheci
duas pessoas francesas, ligadas ao mundo do disco. Um dia apareceram em
minha casa perguntando se eu estaria interessada em gravar um disco. Um
deles era um produtor que gostava muito de fado e já tinha produzido três
grandes nomes portugueses em França. Fiquei muito admirada mas aceitei
com muita alegria, claro.
O
disco foi gravado no ano passado e está à venda nos canais habituais
franceses, nomeadamente na FNAC com quem foi estabelecido um
partenariado. Vende-se efectivamente bem tendo em conta que não houve
grande promoção com excepção da própria FNAC que o colocou várias
vezes em destaque com grandes cartazes nos pontos de venda.
Estou
bastante orgulhosa, primeiro por me terem convidado e em seguida por ter
feito este trabalho.
Quais
são as características deste seu último trabalho?
Eu
dei-lhe o nome de “Subtil” porque na realidade julgo ter havido
alguma subtileza em ter introduzido fados clássicos.
Tenho alguns inéditos e depois tenho alguns do chamado “fado
canção”, não existe este nome, mas enfim chamemo-lhes assim. Fui
cantando à minha maneira privilegiando efectivamente o tradicional para
fugir um pouco àquilo que se vem fazendo ultimamente e me parece
desvirtuado.
Ou
seja, o que é que se está a fazer agora no fado?
Eu
penso que o facto de se andar a dizer que o fado vem do Jazz, que vem do
Blues, da Morna ou de não sei o quê e o que algumas pessoas em
Portugal - que eu não vou citar - andam a fazer foge a meu ver, àquilo
que é o fado.
Quer
dizer que o fado está a ser descaracterizado por alguns interpretes de
sucesso de hoje, quer dar exemplos?
Sim,
é isso. Há pessoas que cantam excepcionalmente bem, mas as interpretações
que fazem descaracterizam o fado deixando-se levar por essa onda de
inovação. Quanto a exemplos não quero nomear ninguém.
Não
quer falar de nomes devido à tal solidariedade que dizem existir no
meio do fado?
Ainda
bem que existe alguma, não estou a criticar ninguém, tenho alguns anos
de carreira e de experiência, penso por isso poder permitir-me tecer
algumas considerações que julgo serem construtivas e não negativas.
Nós
vamos avançar com alguns nomes : Carlos do Carmo, Nuno da Câmara
Pereira, António Pinto Basto, Mísia, Mariza, Cristina Branco…
Carlos
do Carmo não é novo no fado, tem interpretações que fogem talvez um
bocadinho àquilo que é considerado o fado pelos puristas. Agora será
também necessário reflectir se os puristas não pararam no tempo
mantendo convicções que impedem o fado de evoluir. O fado é música,
e como qualquer música de qualquer país do mundo sofre evoluções. O
Carlos do Carmo não o desnatura, o Nuno da Câmara Pereira já não é
bem fado, é mais balada e o António Pinto Basto é na mesma linha, são
pessoas que cantam muito bem, mas quanto a mim não é fado. A Mísia,
disse ultimamente numa reportagem que aquilo que ela cantava não era
fado, contrariamente ao que dizia no início da sua carreira. Em relação
à Mariza ou à Cristina Branco, estão sem dúvida a fugir bastante ao
fado. A única que me parece, a mim, para a minha sensibilidade e para
os meus conhecimentos, que está a efectivamente a seguir a tradição
fadista, introduzindo novas cores e dando ao fado novas oportunidades,
novas melodias, novas harmonias, com uma forma de dizer amor diferente,
é a Katia Guerreiro.
Não
acha que para o fado ter sucesso a nível internacional era necessária
uma grande evolução de estilo, tanto musical como na interpretação e
que os artistas citados têm conseguido impor-se graças a isso?
Estou
de acordo, tenho obrigatoriamente que estar de acordo, daí que eu tenha
dito à instantes que o fado necessita de evolução. Essa evolução
passa pela busca das raízes, das influências africanas das nossas
antigas colónias ou da música internacional, mas não fujamos das
bases porque senão estamos mal.
Num
outro registo vou dar-lhe um exemplo do que fiz nos meus dois últimos
concertos : Decidi cantar “Uma casa portuguesas” e a “Lisboa
antiga” que já não cantava há anos. Os meus músicos ficaram atónitos
mas foi o que vi noutros concertos de colegas que têm grande sucesso no
estrangeiro. Não é para copiar mas creio que todos nós temos o
direito de tirar ilações das coisas que funcionam. O público tem memória
auditiva e com o repertório da Amália associa tudo ao fado.
Salvo
raras excepções de concertos de alguns dos artistas que citámos nas
grandes salas de espectáculo parisienses o fado, em França, só se
ouve nos restaurantes. Tendo em conta a fraca capacidade financeira dos
restaurantes e por vezes as carência profissionais de certos proprietários,
a oferta de fado de qualidade parece-nos muito pobre. O resultado é que
essas casas são frequentadas quase exclusivamente por portugueses e o
fado vive praticamente num gueto. Qual é a opinião da Mané, que anda
por cá há cerca de vinte anos?
Tudo
isto é muito complicado : para fazer evoluir o fado com dignidade, é
preciso estudar vários parâmetros tais como, de onde vem, como se faz,
para onde se vai e, é preciso qualidade. O público francês é mais ávido
de qualidade que o português que é muito mais saudosista, o que se
compreende. Dificilmente, sobretudo nos ditos restaurantes portugueses,
frequentados essencialmente pela massa trabalhadora portuguesa, saudosa
de ouvir fado, se pode produzir qualidade adequada a um público
conhecedor e exigente como é o francês. Essa pergunta tinha eu vontade
de a colocar : qual é o futuro do fado em França?
No
início, quando solicitámos esta entrevista, tendo em conta o sucesso
do seu álbum e as enchentes das salas de concertos com esta nova geração
de talentos, tínhamos pensado intitulá-la de “A ressurreição do
fado”. Afinal ainda é cedo?
A
música é considerada em toda a parte do mundo, como toda a arte, um
luxo. Quando o mundo vai mal, a arte vai mal. Todos nós sabemos que a
indústria do disco em França, e não só, anda mal, está com uma
baixa violentíssima. Artistas de grande reputação são despedidos de
um dia para o outro, ainda hoje li no jornal que Mariah Carey está sem
editor. Acontece-nos obviamente o mesmo a nós. Falta dinheiro, faltam
investidores produtores.
No
nosso caso, voltando à clientela dos restaurantes portugueses com fado,
tenho a impressão que as pessoas não vão ouvir fado no restaurante, vão
jantar e acessoriamente ouvir fado, é como se estivessem a ouvir uma música
de fundo. É por isso também que raramente as pessoas res-peitam o
necessário silêncio durante as interpretações. Se reparar, nas
grandes salas como o Olympia e outras, as pessoas ouvem em silêncio,
porque são pessoas que estão ávidas de fado.
António
Cardoso
Maio
04
Agora
também tenho… A televisão de Portugal
Com
o aproximar do Euro2004 em Portugal, os mais reticentes à televisão
portuguesa começam agora a procurar equipar as suas casas com os canais
do nosso país. Fomos naturalmente interrogar um dos nossos anunciantes
especializados nesse ramo, o Sr. Fernando da Silva da empresa TéléGare
em La Varenne St-Hilaire (94).
Explique-nos
o que é a empresa TéléGare.
A
TéléGare é uma loja que está aberta ao público desde 1968. Eu nasci
em 1968, portanto não estava cá, fiquei com o negócio há cinco anos.
Já tinha a sua clientela, mas era uma clientela francesa.
Qual
é exactamente o ramo?
Reparações,
venda de aparelhos de electrodomésticos, televisões, video-projecção...
e sendo as antenas a minha especialidade, especializei-me um pouco mais
para que os portugueses possam ter acesso a todos os canais portugueses,
através da TV Cabo.
As
pessoas já sabem que podem captar a RTPi através de uma parabólica ou
do cabo, o que as pessoas menos conhecem é como obter todos os canais
portugueses, incluindo a TV Cabo. Como é que se procede tecnicamente?
Tecnicamente,
o sistema é uma parabólica também. É num satélite naturalmente
diferente do da RTPi, é numérico, é digital e não tem nada a ver com
o antigo que era analógico. É um sistema mais complicado do que era a
RTPi, que qualquer pessoa instalava. O numérico tem que ser com certos
aparelhos para poder sincronizar os satélites.
É
necessário instalar uma antena parabólica e um descodificador munido
de um cartão. Como é que as pessoas podem fazer para ter acesso?
Tem
que saber que há muitas pessoas que confundem a TV Cable com a TV Cabo.
A TV Cabo é o nome dum operador português tal como a TPS ou Canal Satéllite
em França. Só se pode aceder através de uma assinatura anual a
debitar todos os meses numa conta em Portugal. O preço depende do
“bouquet”.
Resumindo
: as pessoas
têm de dispor de uma conta à ordem em Portugal, o número de
contribuinte e do Bilhete de Identidade português. Quanto custa e quais
são as garantias?
O
aparelho é garantido, pela TV Cabo, dois anos, o preço do aparelho é
para toda a gente igual, é de 395e, pertence ao cliente, é dele.
Depois tem o preço da instalação. Se for um cliente que já tem a
RTPi, é muito mais fácil, já tem uma parabólica, a gente já pode
guardá-la e mudar só a LMB, ou seja a cabeça e dirigi-la para o satélite.
Quer
dizer, pode continuar a captar a RTPi...?
Não
no mesmo satélite, noutro. São dois satélites completamente opostos :
um é a 30 e o outro é a 13°.
E
as pessoas que já têm, por exemplo, Canal Satéllite ou TPS?
Com
a parabólica do Canal Satéllite ou do TPS não podem captar. Têm de
instalar outra parabólica e outro descodificador.
Nós
conhecemos outros profissionais nesta área. Qual a diferença entre a TéléGare
e outros operadores?
Na
TéléGare a assinatura é feita para Portugal. Quer dizer, as pessoas
pagam a um operador português, em Portugal, não pagam em França.
Todos aqueles que pagam em França, pagam muito mais caro a assinatura.
Um exemplo, em vez de estar a pagar 21e vai pagar 31 por mês pelos
mesmos canais.
Quais
são os preços?
O
primeiro preço começa a 13,59_, tem trinta canais, depois há o serviço
de Família que são 16,85 euros, e seguidamente há aquele que mais se
faz, que toda a gente quer, o Super Sport TV, que inclui a Sport TV mais
os canais nacionais.
Há
algo que não percebemos muito bem. Há pessoas que pagam em Portugal, e
outros fazem pagar em França. Mas afinal, quem é que debita a conta do
cliente, num caso e noutro?
É
um pouco complicado. As pessoas que fazem debitar aqui em França, pagam
a intermediários, o contracto nunca está em nome do cliente, mas em
nome dessas empresas que por sua vez vão pagar à TV Cabo a Portugal.
Isso
quer dizer que se essas empresas, por uma razão ou por outra tal como
abrirem falência, o cliente não estando vinculado à TV Cabo deixa de
receber os canais...
Exacto,
os clientes ficam sem acesso aos canais e depois com os aparelhos que já
têm, não podem fazer nada, porque eles não existem como clientes
actuais na TV Cabo.
Então
além do preço a diferença principal é essa. Essas empresas agem por
conta própria, compram um determinado número de acessos e aparelhos à
TV Cabo em Portugal que vendem aos seus clientes.
Exactamente,
a TéléGare é um agente da TV Cabo em França. Vende para a TV Cabo.
Os contratos são feitos em nome da TV Cabo.
Quais
são as perspectivas e próximos projectos da TéléGare?
O
desenvolvimento na área do multimédia, como há muitos restaurantes e
comércios portugueses, é fazer video-projecção, para se ver o
campeonato Europeu em grande. São ecrãs plasma, home-cinemas, como lhe
chamam... É algo que já fazemos mas queremos desenvolver este ramo um
pouco mais.
A
TéléGare tem publicidade por todo o lado, tem um site internet. É uma
empresa dinâmica que tem tido sucesso...
É
também devido à seriedade que temos tido com os clientes, à rapidez
no serviço, e o serviço “après-vente”, que conta muito. Estamos
dispostos à hora que convém ao cliente. Tentamos dar o melhor que
podemos e estar à disposição deles.
Temos
constatado que grande parte dos cafés, restaurantes e as associações
já estão equipados. Pensa que este desenvolvimento vem reduzir a
importância da RTPi?
Sim
porque a RTPi, muitos dizem que devia ser reformada. Quer dizer ser
feita por emigrantes. As pessoas costumam dizer, quando falam da RTPi,
que é uma cassete, enlatados, é sempre a mesma coisa que está a
passar. E as pessoas querem ver, cada vez mais, o directo. Precisam de
mais informação, de mais proximidade... O que eu gostaria é que todos
os português pudessem dizer : Agora também tenho… a televisão de
Portugal.
Fernando
da Silva nasceu em Chaves, diz ser flaviense de gema. Foi livreiro na
terra mas quando chegou a Paris, em 1989, tinha vinte e um anos, começou
a trabalhar nas antenas parabólicas com a comunidade judaica.
Conta-nos
com ar desapontado que nessa altura um dos seus colegas lhe disse que
“se a comunidade portuguesa fosse tão unida como a deles teria sem dúvida
nenhuma um grande sucesso”.
Diz
que os portugueses estão a mudar, “somos demasiado individualistas,
em praticamente todos os ramos há um português, pensa-se muitas vezes
que não temos qualidade para fazer coisas boas, mas somos um milhão e
tal aqui, felizmente que as novas gerações têm outras ideias.
Lembro-me dos emigrantes quando iam lá a Portugal de férias. Dou-me
conta que no fundo é isso, somos individualistas. Devíamos ser mais
unidos, fazer-mos mais pela comunidade e mostrar daquilo que somos
capaz, não nos esconder tanto. Mostrar o que valemos, mostrar o nosso
valor”.
Respondendo
ao que seria necessário para alterar alguns comportamentos e alheamento
ao interesse comum dos nossos compatriotas, Fernando da Silva diz não
ser especialista mas sugere que as pessoas se encontrem mais, se reunam
mais a nível associativo, a nível político, “se toda a gente der um
bocadinho de si mesmo, havemos de conseguir”.
Referindo-se
à mau tratamento que se dá à língua portuguesa nas comunidades, “às
vezes, as pessoas podiam dar, como prenda para os filhos mais pequenos o
Asterix em português, em vez da versão francesa que eles já sabem
ler. É um exemplo para as pessoas, que é por ai que se começa, dando
aos pequenos um livro em português. Antes de vir para aqui, era
livreiro, gostava muito de ler, mesmo se agora tenho menos tempo. Mas é
verdade que é por ai que se começa. Os portugueses deviam comprar mais
livros em português”.
António
Cardoso
Março 04
"A
medicina legal é muito mais uma ciência de vivos do que
uma ciência de mortos", Prof. Pinto da Costa
O Prof. José
Eduardo Lima Pinto da Costa nasceu no Porto no ano de 1934.
Terminou a sua Licenciatura em Medicina e Cirurgia no ano de 1960,
com a tese de dissertação de licenciatura intitulada “Morte
por acção do óxido de carbono. Estudo médico-legal”, a qual
mereceu a classificação de 18 valores e foi referenciada na
Revista Internacional da Interpol. Ingressou no quadro do
Instituto de Medicina Legal do Porto, como preparador, em 1960,
após estágio voluntário efectu-ado em 1959, em 1967, mediante
concurso e por proposta unânime do Conselho escolar da Faculdade
de Medicina foi nomeado para o lugar de chefe de serviço do
Instituto de Medicina Legal do Porto.
Em 1961, mediante proposta, por votação unânime do Conselho
Escolar da Faculdade Medicina do Porto, foi nomeado assistente de
medicina legal e toxicologia forense, dessa faculdade, cargo que
manteve até 1974, quando após prestação de provas de
doutoramento, em 1973, em ciências médicas, medicina legal com
prova complementar em psiquiatria forense, obteve a
classificação máxima de distinção e louvor e foi convidado
para Professor Auxiliar, passando a Professor Associado em 1979 e
a Professor Catedrático, entre 1996 e 2001, tendo pedido a
exoneração deste cargo após o seu afastamento da direcção do
Instituto de Medicina Legal do Porto. Frequentou o curso Superior
de Medicina Legal do Porto, pós-graduação, em 1961, com a
classificação de muito bom.
Actualmente é Professor Catedrático Convidado no Instituto de
Ciências Biomédicas de Abel Salazar e na Faculdade de Direito da
Universidade do Porto.
Foi considerado como uma das 100 personalidades da Cidade do Porto
no Século XX, e deixa uma obra inegável, sólida e ímpar no
Norte do País, a nível médico-legal e se mais não conseguiu é
porque as suas propostas, conselhos e exigências nem sempre foram
devidamente contempladas. Respeitado por uns e odiado por outros,
o seu percurso continua linear e igual a ele próprio.
O Sr. Prof.
dedicou a sua vida a estudar os seres humanos. Ao fim destes anos
todos, qual é a mensagem que nos pode transmitir?
Em primeiro lugar, tornarmo-nos ainda mais humanos. Na medida
em que compreendemos melhor os outros, também temos mais
hipóteses de nos compreender a nós próprios. Nas nossas
ansiedades, nas nossas angústias, nas nossas dificuldades.
Aprender a dar a volta às dificuldades, que na realidade surgem
no dia a dia, porque a vida, mesmo a chamada vida linear, resulta
de uma conjugação de efeitos positivos e negativos. E portanto,
o que é preciso é a que a pessoa tenha confiança em si
próprio, nas suas possibilidades, sem as exceder, mas também sem
as minimizar. Isso varia de pessoa para pessoa, porque está de
acordo com a sua personalidade prévia com factores hereditários
e, inclusive, com a aprendizagem que teve desde os primeiros
tempos, em regra, sublinha-se, os dois primeiros anos. Eu vou um
bocado mais atrevidamente dizer que ainda na barriga da mãe já
se começa a estruturar o futuro do ser humano. De qualquer das
maneiras, com as suas virtualidades, ou eventuais defeitos, se for
amparado, se alguém o ajudar a compreender melhor a vida, se por
si só cada um de nós não for capaz, isso é altamente positivo.
Não é só nós vivermos para nós próprios, mas darmos também
aos outros. A entrega aos outros, como aliás a minha vida tem
sido até agora, dá-nos uma certa à vontade, uma alegria de
viver, mesmo nos momentos mais difíceis, se nós tornarmos esses
momentos menos maus às pessoas, isso já é um objectivo
importante.
O Sr. Prof.
tem um currículo invejável. Será que lhe falta fazer ainda
algo?
Continuar a viver. Eu gosto muito mais, apesar de tudo, gosto
muito mais de aprender do que ensinar. Embora ensine, e ponha à
disposição dos outros os poucos conhecimentos que tenho
adquirido nestes tempos, de qualquer das maneiras, penso continuar
igual a mim próprio. A defender com frontalidade os princípios
que acredito e estimulando os outros sem impor, dando-lhes a
conhecer a possibilidade de decisão, porque as pessoas o que têm
que estar é suficientemente informadas. Porque sem informação
não há responsabilidade. Eu costumo dizer até, que as pessoas
decidam mal, mas primeiro informem-se, porque se decidiram mal,
mas se decidiram em consciência se calhar foi mau para mim mas
foi bem para eles. Porque do ponto de vista ético nós temos que
respeitar o pensamento dos outros.
Na Medicina
Legal, existe a espiritualidade?
Existe. A Medicina Legal é uma medicina global nos pontos do
mundo mais avançados. Portanto, quer dizer, trata-se dos
problemas classicamente ditos do corpo, e trata-se dos problemas
ditos do espírito. Considerando o Homem na sua globalidade, como
pessoa humana, bio-psíquica ou psíco-biológica, como quiser. A
tónica prioritária de um ou de outro, depende muito da
formação e das convicções de cada um. Mas hoje é
indissociável o comportamento humano dessa mesma pessoa.
Muitas
vezes as pessoas olham para a Medicina Legal com uma certa
reserva.
Será que é o medo da própria morte?
O desconhecimento implica sempre medo. E como as pessoas não
têm a noção exacta do que é a Medicina Legal, associam-na
sempre à Medicina dos Mortos, e isso leva a uma certa rejeição.
Mas é curioso, em boa verdade, a Medicina Legal é muito mais uma
ciência de vivos do que uma ciência de mortos. Em números
redondos, por exemplo, eu posso-lhe dizer que 7 mil e tal exames
de vivos correspondem mil exames de mortos, por ano. A proporção
mostra evidentemente, que se trata muito mais de problema dos
vivos do que dos mortos.
O Sr. Prof.
é docente Universitário. À parte da ciência que ensina, qual
é a mensagem que tenta transmitir aos seus alunos?
Que as pessoas sejam as mais humanas, mais reflexivas, que
consigam abarcar o conhecimento, o que hoje é muito difícil.
Hoje as pessoas acabam por perder-se na Internet, não conseguem
seleccionar sequer qual é o conhecimento que lhes poderá ser
mais favorável em determinada ocasião. Tenho sempre uma
preocupação de ajudar os estudantes, estou a falar de estudantes
que por vezes têm 40 anos, 50 e até mais do que isso. Porque
todas as pessoas que frequentam os meus cursos, não só de
pré-graduação, como de pós-graduação, têm idades variadas,
mas aconselhar : “Olhe, talvez esta matéria seja de se
reflectir sobre ela, ou talvez não interesse tanto”. E assim
sucessivamente. Pois a Internet que, nos proporciona uma
informação geralmente grande, tem, digamos, hoje, uns certos
prejuízos no efeito da aprendizagem porque nós não sabemos o
que é que devemos seleccionar.
Existem
alguns fenómenos de individualismo, egoísmo e de falta de
solidariedade.
Que é que o Sr. Prof. pode dizer a este respeito?
Devemo-nos debruçar sobre estes fenómenos porque a realidade
mostra-nos que tudo é favorável ao egoísmo actualmente. Muitos
dos valores actuais, em qualquer parte do mundo, sobretudo no
mundo que se diz mais documentado, mais civilizado, entre aspas,
porque civilizados somos todos com civilizações diferentes, o
egoísmo é na realidade um carimbo, é uma espécie de paradigma
traduzido pelo dinheiro. O dinheiro é um valor máximo que
substitui a moral, substitui a religião, substitui todos os
valores convencionais. Quem tem dinheiro tem muito poder. Quem
não tem dinheiro nenhum, não tem poder. Portanto haverá que
estabelecer uma solução de equilíbrio, que foque o problema da
pessoa humana e não propriamente outros valores para que haja
pessoas humanas com capacidade para resolver os seus próprios
problemas, de maneira tão diferente como se verifica e cada vez
mais com uma certa preocupação, devido a esta falta de valores
que são essenciais para que nós nos aproximemos uns dos outros.
Basta dizer um “Bom dia” à pessoa que não conhece, que
encontra na rua, quando está numa fila, quando está num
ascensor, quando está num sítio qualquer. Mas que tenha a
presença de que outro está ali da mesma maneira que nós
próprios estamos também.
Adelino
de Sá - Gazeta Lusófona
Janeiro 04
Secretário
das Comunidades Portuguesas entregou primeiros Bilhetes
de
Identidade feitos no Consulado de Paris
A
reestructuração consular é também a emissão de bilhetes de
identidade nos consulados?
É bom que as pessoas tenham em consideração que a
reestructuração da rede consular implica um conjunto de medidas
muito vastas. A primeira das quais é exactamente a
modernização. Esta é a questão central da reestructuração da
rede. Restruturar, em primeiro lugar, é modernizar. A primeira
medida prática de modernização foi esta, em Paris. Noutros
sítios foram outras, que já estão executadas há algum tempo.
Mas no caso de Paris, a primeira medida no âmbito da
modernização e de reestructuração consular foi exactamente a
emissão de bilhetes de identidade. Depois, seguir-se-iam outras,
nomeadamente a informatização de postos consulares, a evolução
deste sistema de criação de centros emissores de bilhetes de
identidade, e igualmente medidas de racionalização da rede, que
passam por fechar postos num sítio, abrir outros noutros.
Portanto, a esse nível, as coisas estão a decorrer conforme o
planeado, num ou noutro ponto com ligeiro atraso em relação
àquilo que inicialmente tínhamos pensado, mas naturalmente, há sempre questões práticas de execução que são
inicialmente incomparáveis.
Quantos
consulados vão poder emitir os bilhetes de identidade?
De cinco postos evoluiremos para quinze a vinte, primeiro.
Segundo, alargamento da rede de passaportes a postos em que tal se
justifique. Há poucos meses, fizemo-lo em Santos, no Brasil,
vamos continuar. Mas num ou noutro, em que tal seja ainda muito
evidente, a modernização da rede de vistos, de acordo com o novo
programa europeu, que obriga a uma padronização ou uma
uniformização dos vistos no espaço Shengen.
Quanto ao alargamento da rede de informatização dos postos
consulares, neste momento, depois de tudo o que foi anunciado no
passado, só trinta e cinco postos consulares, de cento e vinte e
um, é que estão informatizados. Ora, ao longo de 2004, vamos
ter, em França, mais quatro postos que serão informatizados,
Lyon, Clermont-Ferrand, Tours e Toulouse, são estas as medidas
mais imediatas que estão em curso. Há igualmente ligações
informáticas que serão estabelecidas, não estamos no entanto a
falar já de informatização total a pequenas antenas consulares
que nós temos nalguns sítios. Temo-las sobretudo em locais onde
existiram postos que encerraram. O caso, por exemplo, de Rouen, é
um caso que vai ter uma ligação em rede a Paris. Osnabruck, vai
ter uma ligação em rede a Hamburgo. Agora, em França, Rouen é
o único caso que se justifica. Estamos a estudar igualmente a
forma de tentar ter um serviço de proximidade para os portugueses
que estão na Córsega, a nossa intenção de abrir um escritório
consular, está a ser analisada.
E para os
que vivem longe dos Consulados...?
A ligação em rede permite fazer várias coisas, mas há
coisas que jamais conseguirão ser assim feitas. Há actos que
têm de ser tratados pessoalmente, não é possível tratar por
via electrónica o bilhete de identidade, o passaporte, a
procuração, o testamento, o divórcio, o registo de
nascimento... senão poderíamos estar a abrir um campo às mais
variadas ilegalidades e irregularidades. Portanto aí não podemos
deixar de ter as pessoas presentes nos serviços onde nós temos
antenas consulares. Agora o consulado virtual integrado num portal
das comunidades, está em evolução, e posso dizer que, entre
Janeiro e Fevereiro, a primeira experiência de consulado virtual
vai passar a funcionar em São Paulo. E vamos ver como vai
decorrer esta experiência. Isto vai integrar-se num portal das
comunidades. O Portal das Comunidades que poderá estar pronto, em
princípio, ainda em 2004, vai permitir a muita gente de
informar-se ou até tratar alguns actos. Agora repito, há coisas
que nunca dispensarão a presença da pessoa nos serviços
consulares, porque a pessoa tem de ir lá assinar, dizer que é
ela, que está presente, senão poderíamos, a certa altura, estar
a tratar do processo de pessoas que já desapareceram, pessoas
mortas, que têm problemas da mais variada natureza, ou até
registar nascimentos que não existem. Portanto, como não podemos
fazer isso, o que temos de fazer, nalguns casos em que temos
comunidades com expressão e muito distantes de postos consulares,
é ir abrindo serviços. Posso dizer que nestes últimos meses,
nomeámos novos cônsules honorários, estamos à espera dos “agréments”
das autoridades locais, que vão ter apoios para fazer funcionar
estruturas consulares em locais como Kingstone, London, Lemington
no Canadá, em Los Angeles, na Ilha Margarita, na Venezuela.
Estamos a utilizar, pequenas entidades, pequenas estruturas
consulares em comunidades que não precisam mais do que isso. É a
forma que nós temos de atender algumas comunidades que estão a
quinhentos, mil, dois mil quilómetros, do posto consular mais
próximo.
Como está
a evoluir a situação da contagem do tempo de tropa para os ex.
militares?
O processo está em fase de resolução, não está ainda
resolvido, nem para os portugueses que foram atingidos pela lei
que foi aprovada ainda em 2002 pelo Parlamento. É uma situação
que espero que se venha a resolver ao longo dos próximos meses
para aqueles que não têm descontos em Portugal para a Segurança
Social. Não vale a pena ter ilusões, é uma solução que não
é fácil executar visto que implica em termos financeiros um
esforço muito elevado da parte do governo português. Em qualquer
caso, com a colaboração que tem havido entre os diversos
ministérios, neste momento, julgo que estão criadas as
condições para esta situação evoluir e para que dentro de
algum tempo surjam respostas concretas.
Que chama
“dentro de algum tempo”?
Será o tempo possível, não podemos pôr uma medida destas
em marcha sem termos a certeza que temos meios para a atender.
Esta
questão não se põe só agora, os governos anteriores já
trabalharam sobre este assunto...
Não, esta questão nunca foi tratada em Portugal, começou a
ser tratada agora e é por isso que ainda não foi resolvida. A
grande questão é esta : há mais de trinta anos que o problema
existe, existe pelo menos desde que os portugueses começaram a
cumprir o serviço militar, sobretudo aqueles que estão aqui e
foram atingidos mais directamente pela guerra colonial. Foram
obrigados a sair de Portugal depois de regressaram da guerra
colonial, encontraram o país sem emprego, foram obrigados a
emigrar, não fizeram os descontos em Portugal e, por causa disso,
automaticamente são confrontados com esta questão. Mesmo alguns
que tenham feito os descontos em Portugal, também tinham
problemas, porque fizeram descontos para sistemas que não eram
públicos. Todos estes têm este problema por resolver.
O que se está a fazer? É exactamente encontrar, quer em termos
de legislação, quer em termos práticos, formas de resolver esta
questão. No fundo poder dizer à pessoa: o seu tempo conta para
efeitos da sua aposentação, quer esteja em Portugal, quer esteja
algures, noutro país qualquer, desde que, com esse país, haja
acordos em matéria de segurança social, porque se não houver,
não há qualquer forma de resolver esta questão.
No momento
em que o bilhete de identidade português vai substituir aqui a
famosa “carte de séjour”, o problema do reconhecimento do
divórcio em França pelos tribunais portugueses continua na
mesma...
O divórcio é um problema judicial, dos tribunais. O
divórcio é um acto litigioso ; porque é um acto litigioso
implica sempre a possibilidade de haver contestação por parte do
Ministério Público e a possibilidade de existir sempre
contestação por uma das partes. Portanto, é impossível
permitir que esse processo deixe de passar pelos tribunais. Não
há acordos entre os tribunais franceses e portugueses, e esse é
um problema que existe. Existe e existirá! Até que um dia, no
espaço da União Europeia se encontre uma política judicial
única. Mas com toda a franqueza, não tenho condições para
garantir às pessoas um mínimo de expectativas relativamente a
isso.
O Conselho
das Comunidades continua a queixar-se de não ser ouvido nem
consultado em relação às políticas para as comunidades.
Não sei de quê porque nós temos falado de tudo. Ainda vou
falar com eles outra vez. Amanhã irei a Orléans, depois do
Conselheiro local me ter feito sentir que havia necessidade de lá
ir. O que é que é possível fazer mais com o Conselho das
Comunidades? Francamente, não sei. Pessoalmente já esgotei todas
as formas de diálogo e mantê-las-ei. Mas estou convencido que o
diálogo tem sido bem evidente. Agora há uma coisa. Nós não
vamos fazer tudo o que o Conselho das Comunidades quer que se
faça. Nalguns aspectos, até porventura, eu próprio considero
até como erros. O Conselho das Comunidades não admite que a rede
consular tem de ser racionalizada. Acho que é um erro crasso.
Manter alguns consulados abertos, é um erro grave, porque não
servem, é desperdício de meios, e nós temos de racionalizar os
meios. Não há nenhum país que não o faça. Agora manter
abertos consulados que têm dois ou três mil actos consulares por
ano com quatro, cinco, seis funcionários é um erro. É
desperdício de meios para a administração pública, o Conselho
não admite isto, lamento. Mas em qualquer circunstância, a minha
vontade, relativamente ao Conselho, é de ter toda a colaboração
e dialogar sobre tudo.
As
associações e federações queixam-se de não ter apoios
suficientes para exercer as suas actividades. A CCPF e a FAPF
debatem-se com graves problemas financeiros. Qual é a realidade
sobre este assunto e qual é a estratégia do Secretário de
Estado?
Os problemas que existem, essencialmente, existem com as
grandes federações e confederações. Eu considero que os apoios
têm de ser dados prioritariamente a actividades concretas, não a
estruturas administrativas. E por isso temos apoiado actividades
em concreto, tais como o Festival de Teatro, nas condições que
nós temos. Há outros casos em que as questões são diferentes,
porque nós não vamos manter estruturas administrativas. Eu sei
que algumas associações ou federações estão a atravessar
dificuldades, porque também estão a acabar apoios por parte das
autoridades francesas, isso é inultrapassável. A França
continua com bom nível, apesar do nosso esforço para ter maior
igualdade entre as comunidades, o que não existia. A França
absorvia mais de 80% dos meios, e ainda hoje absorve a parte do
leão. Agora vamos ser muito selectivos. Por outro lado, nós
temos inte-resses estratégicos em certos países, o caso do
Brasil, o caso de Espanha, o caso dos Estados Unidos, são
incomparavelmente diferentes. E temos movimentos associativos
muito mais fortes nesses países. Não vamos comparar a quantidade
de pequenas associações que aqui (em França) existem com, por
vezes, meia dúzia de associados, com associações que têm por
vezes, milhares. Não podemos comparar um país como França, em
que nós temos uma estrutura de ensino português, - que não é
minha mas do governo português, ainda com dezenas largas de
professores, com países que não têm um único professor, como
é o caso dos Estados Unidos, do Canadá ou da Austrália. Nós
teremos de fazer alguma selectividade. Mas há projectos que têm
sido apoiados. Claro que as pessoas desejariam ser apoiados com
mais dinheiro, claro. Dei há pouco um exemplo de um projecto em
que nós vamos investir, o caso das comemorações dos trinta anos
do 25 de Abril aqui em França.
Para
resumir, apoio administrativo não, apoio a iniciativas, sim...
Exacto, eu fui dirigente associativo, participei nas mais
variadas associações ; com toda a franqueza, acho que há um
espaço de empenhamento que não passa pela profissionalização.
A profissionalização pode ser garantida, mas há custa dos
recursos próprios. Repito, fui dirigente de grupos folclóricos,
fui presidente duma associação de estudantes, fui dirigente das
mais variadas associações, sei muito bem o que é a vida
associativa, o que se pode e não pode fazer. Nós estamos muito
empenhados em encontrar as melhores soluções, mesmo para essas
estruturas federativas. Agora há uma coisa que não podemos
fazer, é mantê-las, ajudar a manter a estrutura burocrática das
mesmas, isso não temos condições para o fazer.
Existe
alguma relação entre as remessas enviadas pelos emigrantes e o
orçamento que lhes é globalmente destinado?
Isso é uma questão antiga, efectivamente. As remessas dos
emigrantes justificam ou não que haja mais políticas, em prol
dos próprios emigrantes. Posso dizer que em 2004, os meus
serviços vão gastar, com as comunidades, mais de três vezes
aquilo que se gastou em 2003, e em 2002. Recentemente, só agora
é que nós conseguimos encontrar um novo quadro legal que
permitisse que as acções em prol das comunidades portuguesas
fossem contempladas também pelo Fundo para as Relações
Internacionais. É muito recente, tem meses apenas. Demonstra bem
qual é o nosso empenhamento nisto. E por causa disso é que nós
vamos ter mais meios disponíveis, exactamente por estas razões.
É à custa desses meios que nós vamos pagar estas medidas de
informatização e modernização das redes consulares.
Aurélio
Pinto e António Cardoso
Dezembro 03
Entrevista
com Agnès Pellerin, jovem autor de um livro intitulado
"Le Fado",
lançado pelas Edições Chandeigne
Agnès
Pellerin, gostaríamos que se apresentasse aos nossos leitores.
Tenho 25 anos, sou francesa, não tenho origens portuguesas e
descobri Portugal há 5 anos. Fui lá de férias, participei num
campo de trabalho perto de Castelo Branco e foi assim que descobri
este país, a sua língua e que tive vontade de o conhecer melhor.
Tendo trabalhado na Universidade, sobre um assunto que tinha
ligação com a cidade e com a cultura portuguesa, procurava ao
mesmo tempo um tema para a minha “maîtrise”, quando um
professor meu, que era bastante aberto, me propôs “o fado”,
do qual eu não conhecia nada. No ano seguinte, tive a
oportunidade de passar um ano em Lisboa para fazer a minha “maîtrise”
sobre este tema.
Era um
professor português?
Não, era francês. Era professor na Universidade de Nanterre,
professor de Filosofia mas interessava-se muito por Artes, dava
aulas de Teatro e conhecia o fado, dizendo-me logo que seria bom
que eu fizesse uma pesquisa no terreno. Foi assim que eu fui,
durante um ano, para Lisboa, pesquisar sobre o fado, sabendo que
havia muitos fadistas que cantavam nesta cidade.
O que é
que fazia como curso na Universidade?
Estudava Filosofia, e nessa linha, resolvi pesquisar sobre a
ideia de fatalidade no fado, e a coexistência entre a fatalidade
e a liberdade de expressão. Foi o eixo que consegui para começar
a minha pesquisa e para descobrir o fado.
Então,
antes do seu professor lhe ter falado, nunca se tinha interessado
nem pela língua nem pela cultura portuguesa?
Ainda não. Ainda vivia em França. Só depois fiz contactos
em Portugal, onde aprendi a língua ; assim que comecei a falar um
pouco, logo entrevistei os cantores e as pessoas ligadas ao mundo
do fado.
O fado nasceu em Lisboa, nas margens do Tejo, como todos sabem,
num ambiente de porto, mas também nasceu de uma experiência de
distância, de separação, do desconhecido, ligada entre outras
à vida dos marinheiros, que através do canto, contavam às vezes
de maneira humorística, as dificuldades e as vissitudes da vida
que levavam no mar.
Mas o fado que se canta longe de Portugal, em França por exemplo,
baseia-se bem na partilha de um sentimento muito forte, gerado
pela experiência do exílio.
Cantar o fado, em certos bares de Paris e da região parisiense,
serviu como em Lisboa, para lutar contra a solidão, imposta por
uma grande cidade e criar em pequena escala, meios de
convivialidade e solidariedade.
Foi fácil
conseguir contactos em Lisboa?
Sim, acho que as pessoas gostam muito de falar do fado, que
aliás faz parte da vida deles, é uma coisa muito quotidiana,
vê-se bem como o fado parece vital para essas pessoas. Tenho
orgulho em mostrar e dar a conhecer melhor, a arte deles.
Ouviu fado
em França e em Portugal. Achou diferente?
Sim, acho que há algumas especificidades. Os fados que falam
das pessoas daqui, não se ouvem em Portugal. Também há fados
que contam como o fado atravessou as fronteiras. Mas acho que o
fado em França, encontrou alguns espaços que têm mais a ver com
os de Lisboa. Depois há algumas questões de língua, ás vezes
ouve-se o sotaque francês.
A experiência da imigração deu origem por vezes a uma
criatividade própria. Se os portugueses continuaram a cantar o
fado e a tocar guitarra em França, como em Portugal, outros
começaram a cantar em França e a escrever poemas aqui, para o
fado.
Encontra-se em França, como em Portugal, a distinção entre um
fado de concerto e um fado popular. O fado de concerto, passa-se
em grandes salas, representado por artistas sobretudo mulheres,
apresentadas muitas vezes como “herdeiras” de Amália, tais
como Cristina Branco, Mísia, etc., que cantam músicas
sofisticadas com poemas literários, dirigidos a um público de
apreciadores, que tem o hábito de frequentar concertos de
músicas do mundo.
Por outro lado o fado popular e tradicional, é uma prática
expontânea, cantada no seio da comunidade, em família, nos
restaurantes, onde a qualidade do fado reside mais na transmissão
da vivência, que na autenticidade.
Acha que os
jovens em França se interessam pelo fado?
Muitos jovens de origem portuguesa, descobriram o fado
bastante tarde, como Bévinda a quem a voz de Amália suscitou a
vontade de ser cantora. Atrás do fado, está sempre o problema da
identidade portuguesa.
Desde a ditadura em Portugal, quando o fado começou a ser
mediatizado assim como o folclore rural, numa espécie de cultura
oficial, o fado é designado representar “a alma portuguesa”.
E mesmo certos discursos utilizados aqui, no seio da comunidade
portuguesa, jogam com esta fibra nacionalista, forçando uma
legítima saudade do país, veiculada pelo fado o que não
favoriza a integração*.
Nunca houve
nada que a chocasse nas letras do fado, as histórias tristes, de
morrer…?
Não fiquei chocada, porque guardei uma certa distância da
pesquisa. Mas é claro que há alguns fados como “Uma casa
portuguesa”, que falam da alegria e da pobreza, é bastante
chocante, parece uma banalização da aceitação da pobreza. Mas
acho que no fado acontece uma coisa que vem ultrapassar isto tudo,
e muitas vezes as letras são também um pretexto para partilhar
uma dificuldade de viver e acho que o sofrimento transmitido no
fado consegue tornar-se numa expressão artística. Acho que as
pessoas sentem uma certa libertação.
Visitou
todos os sítios característicos onde tinha nascido o fado e onde
ele se canta ?
Descobri mais o fado através de fadistas amadores que
cantavam em tabernas, que é uma forma bastante específica do
fado. Para mim era a mais acessível, talvez por causa da minha
timidez, era mais fácil encontrar-me com estas pessoas que são
mais anónimas, do que outras do meio do fado, consideradas
artistas. Encontrei depois pessoas que também faziam pesquisas
sobre o fado, frequentavam casas onde o fado é uma arte, uma
expressão musical. Por vezes as casas de fado são turísticas.
Para mim o contexto é um pouco mais distante.
Acha que
há uma distância entre essas pessoas, quando são vedetas, são
mais difíceis de aproximar?
Sim e também reparei que às vezes, para o fado amador havia
uma maior escuta das pessoas presentes, apesar do barulho, do que
em casas onde o fado tem uma visão maior, que é um ritual, um
bocado privilegiado.
Chama fado
amador àquele que se canta de uma maneira espontânea ?
Sim, isso é o que eu chamo o verdadeiro fado. Em casas de
espectáculos por vezes, têm um carácter completamente
diferente, têm que fazer mais atenção ao cenário, às pessoas
que estão presentes. Enquanto o outro não, sai da alma. Não há
preocupações de estar a pensar : “será que está a agradar a
alguém ?”.
O que existe no fado amador é a participação das pessoas, não
há só uma pessoa a cantar. Fisicamente há, mas todos os
espectadores desafiam o cantor, é colectivo, é espectacular.
Chama-se a
isso uma desgarrada...
Quando vejo os cantares, também vejo o público a desafiar,
fazer sentir que está presente, conseguir provar alguma coisa.
Esse estudo
durou um ano ? Quando voltou à Universidade, qual foi a
reacção?
Acho que ficaram bastante interessados, há muitos estudantes
e professores que nem sempre estão muito envolvidos nestes
assuntos.
No meio
disto tudo, acabou por fazer amigos em Lisboa?
Sim. Fiz contactos com músicos, que cada vez que ia lá, ia
vê-los. Também é interessante seguir a evolução turística de
Lisboa, ver como as pessoas vivem e depois comecei a trabalhar
para completar as informações que tinha para o trabalho de
Filosofia, e escrever algo de mais geral, de mais simples.
E o livro ?
serviu de mémoire para a universidade?
O livro não.
O livro foi
feito graças às pesquisas para o “mémoire”?
Sim. O “mémoire” foi uma base e depois fiz o livro.
E agora
continua a interessar-se pelo assunto, ou considera que acabou ?
Acho que fazer um livro assim, é bastante reduzido em termos
de espaço de páginas, por exemplo fiz perguntas que merecem dez
páginas cada uma. Por exemplo, estou muito interessada na
ligação do fado com a propaganda da ditadura. E acho que isto
fazia mais uns detalhes...
Agnès
nunca pensou em interessar-se pelas diferenças entre o fado de
Lisboa e o de Coimbra?
A pergunta é muito interessante... e poderia fazer um assunto
de tese...
M.
F. Pinto
*Teremos que
convidar um dia Agnès Pellerin, se ela aceitar, a vir falar-nos
de integração, pois o assunto interessa-nos.
Outubro 03
Entrevista
com a nova coordenadora do ensino,
Dra. Gertrudes Amaro
Gertrudes
Amaro foi professora do ensino secundário, passou em seguida para
o ensino politécnico. Fez o mestrado em Boston, nos
Estados-Unidos, regressando a Lisboa por convite do Instituto da
Inovação Educacional, onde foi Directora de Serviços durante 9
anos.
Enquanto foi professora de ensino politécnico, leccionou na
Universidade da Beira Interior, deu colaboração na Faculdade de
Ciências de Lisboa, professora de mestrado na Universidade
Católica e na Universidade dos Açores, nalguns cursos
intensivos.
Enquanto esteve em Castelo Branco, coordenou o polo do projecto
Minerva, ligado à implantação de computadores nas escolas
básicas e secundárias e coordenadora da Unidade Matemática e
Informática
Já em Lisboa, no Instituto da Inovação Educacional, passou a
ser a representante de Portugal junto da rede de avaliação da
aprendizagem dos alunos na OCDE, durante 7 anos. Foi igualmente
Coordenadora do projecto internacional “TIMSS”, sobre a
avaliação dos alunos em matemática, que se tornou mais
conhecido após a publicação dos resultados de estudos feitos
sobre alunos de 43 países.
A coordenação de vários projectos, alguns deles internacionais,
permitiram-lhe conhecer muitos sistemas educativos e escolas em
todo o mundo, desde Inglaterra até à Austrália, passando pelo
Japão, Estados-Unidos...
Em termos de relações com as Comunidades, reconhece que se
limitam às “informações que recebia no Instituto, mas estava
até agora a representar o Ministério, numa rede internacional de
sistemas educativos que tinha essas dimensões contempladas”.
No
ano passado, o início das aulas foi bastante atribulado com
muitos problemas. Como estão a correr as coisas este ano? Os
professores já foram todos colocados?
Neste momento, (20 de Setembro) creio que só temos para colocar
quatro professores devido à passagem à reforma de alguns
professores e não ter havido uma comunicação correcta entre o
Ministério da Educação e a Coordenação. Entrei como
Coordenadora no dia 1 de Setembro, havia ali uma pequena
imprecisão e foi por isso que se atrasou um pouco a atribuição
destes quatro lugares. Mas já está tudo em curso, os professores
já foram indicados, agora é a questão do processo que demora
sempre um bocadinho. O resto já está tudo atribuído e colocado,
quer os professores destacados, quer os professores contratados.
Haverá uma ou outra situação que escape e que tem a ver com
alguma indecisão ou desistência de alguns professores. Há
horários pequenos e as pessoas constatam que com aquele
vencimento não podem viver em França.
Penso que a situação está dentro da normalidade, dentro de
aquilo que tem sido os anos anteriores, mas haverá uma zona ou
outra em que haverá alguns ajustamentos, em relação às
escolas, aos horários dos professores ou dos próprios cursos dos
alunos. Os cursos funcionam também consoante o número de alunos,
têm uma determinada atribuição de horas e por vezes é preciso
fazer alguns ajustamentos.
Depois também há que ter em conta que as autoridades francesas
não são todas iguais na resposta e com o problema do “Arrêté
d’acceptation”, os processos burocráticos não correm todos
ao mesmo tempo, há pessoas que são mais céleres,
outras menos e é bom também ter isso em conta. Penso que nos
próximos dias estará tudo a funcionar em pleno.
Numa
entrevista ao jornal Encontro, o Embaixador de Portugal, Dr.
António Monteiro, declarou que o ensino do português era das
suas principais prioridades. Acha que continua a sê-lo para o
actual governo?
Sim, o ensino do português como língua viva. Temos que dedicar
com todo o apoio, toda a divulgação, sobre o que significa
aprender português como língua viva para quem vive num país que
não é Portugal. Quando vivemos na Europa, temos línguas da
comunidade, a nossa língua é uma língua da comunidade, é uma
língua obrigatória nas comunicações da comunidades. Podemos
viver em França, em Espanha, em Inglaterra, na Dinamarca, etc.,
mas tendo a língua portuguesa o seu papel muito importante na
comunidade, é a dimensão forte que o governo quer desenvolver.
Alias,
o Embaixador falou na integração do ensino da língua e da
cultura a todos os níveis no ensino francês.
Exactamente. Se nós conseguirmos que na primeira opção de línguas,
os alunos do primeiro ciclo façam opção por língua portuguesa,
se tivermos muito bons alunos que são de origem portuguesa mais
os alunos que começam a ter vontade de aprender português, e que
isso seja oferecido dentro do sistema educativo francês, é claro
que estamos a caminhar muito bem.
Nessa
altura, o Ministro Jack Lang, referiu essa vontade, mas depois no
terreno não se concretizou como se esperava...
Mas acho que voltou a repensar a sua posição, e temos neste momento
indicadores de que, para o ano, vão abrir os concursos para os
professores franceses, para o ensino do português língua viva.
Mas
hoje o ministro é o Luc Ferry e terão decorrido recentemente
negociações inter-governamentais entre os dois países...
É a questão da redefinição das redes, é o que acontece em todos os
países. Definir uma rede e vê-la corresponder às necessidades
em qualquer país, é sempre uma controvérsia, é sempre muito
difícil. Portanto, o problema que se passa em França, também se
passa em Portugal, e em qualquer outro país da comunidade. O
estudo das redes e a oferta de cursos também têm a ver com as
nossas crianças que nós temos, e é a nossa principal
preocupação, porque não temos muitos milhares de crianças,
deveríamos ter milhões para nos garantir o futuro.
Acho que não houve nenhum retrocesso em relação a essa
política. O que poderá ter havido é uma vaga de acalmia para
situar exactamente as necessidades em termos do corpo docente e de
oferta e procura. Mas tivemos, da parte de algumas Academias,
pedidos de mais horas de ensino do português como língua viva,
nos chamados cursos integrados.
Na
última década, o número de professores de português em
França, foi reduzido de 415 para cerca de uma centena, é o
princípio do fim...?
Eu não aceito assim. Eu acho que estamos a fazer um esforço muito
grande em termos de política externa. Numa época em que nós
estamos a dar o apoio ao ensino da língua portuguesa, em primeiro
na escola primária, em todos os sítios onde haja realmente essa
vontade por parte das escolas francesas, da parte do sistema
educativo francês, e nós conseguirmos lá chegar, acho que é
muito bom. Mas é verdade que em Portugal também ensinamos o
francês como língua estrangeira, e quem dá francês são os
professores portugueses. Acho que essa questão não deve ser
escamoteada. As comunidades têm todo o apoio naquilo que é uma
oferta que será em função das necessidades dessas próprias
comunidades.
Que
pensa do ensino da língua no meio associativo tal como tem vindo
a acontecer?
Esse assunto, digo-lhe com muita franqueza, é um assunto que precisa de
ser estudado com muito cuidado. Há, realmente, que compreender
bem a dinâmica das associações e ver bem como esse ensino é
feito, a qualidade que tem. É um assunto para ser estudado.
Há
10 ou 15 anos que ouvimos dizer a mesma coisa, nomeadamente por
parte dos políticos. “É um assunto que tem de ser estudado,
que tem de ser avaliado... e finalmente continua sempre na mesma.
Daquilo que está para traz, da acção da antiga coordenação, não
posso falar. A nível político, acho que há um interesse de
perceber a oferta e a qualidade da oferta. Neste momento é ordem
do dia, em todas as dimensões. Toda a gente quer que se estude a
qualidade da oferta porque esta tem a ver com os clientes. Não é
possível definir uma política sem ter noção da qualidade da
oferta. É evidente que o apoio tem muito a ver com essa
qualidade.
Temos
visto professores que se queixam permanentemente de nunca serem
ouvidos pela Coordenação e dizem que quem está no terreno é
que conhece a situação porque tem experiência...
As pessoas, normalmente, têm sempre muitas experiências pessoais.
Experiências de dimensão de grupo, eu acho que há instâncias
em que isso acontece. Eu tenho essa preocupação, acho que é
possível, a médio ou a curto prazo ponderar essa experiência
que os professores têm e tomá-la em consideração.
Qual
é o papel do Instituto Camões...
Não lhe posso responder porque não é da minha área. Terá de ver com
o Instituto Camões.
Mas
há uma interligação com a Coordenação?
Nós vamos tentar tudo no máximo. Tentar que os esforços a nível de
formação, de passagem de mensagens, tudo o que tem a ver com a
língua e cultura portuguesa. Temos que nos unir e fazer esforços
no mesmo sentido.
E
também alguma coordenação com a Gulbenkian?
Também. São coisas que, quem está no terreno pode ajudar, temos que
nos unir. Acho que acima de tudo, a comunicação social tem de
fazer passar uma informação séria, correcta, porque por vezes
querem-se grandes títulos e não se põem lá as respostas nem
aquilo que as pessoas disseram. Isso é uma coisa que me preocupa,
normalmente até me nego de dar entrevistas por causa disso. Acho
que não é bonito, não tem impacto, nem faz pensar as pessoas
sobre aquilo que devem pensar correctamente.
As pessoas, os pais, os encarregados de educação, as famílias,
estão interessadas em saber exactamente o que é o melhor para o
futuro dos seus filhos. Quando virem um texto escrito com clareza,
que lhes explica que, por exemplo, aprender a língua portuguesa
na perspectiva que ela é útil na África, na América, na
Austrália ou nas cinco partidas do mundo, como se dizia
antigamente, eu acho que isso é que é fundamental. Temos de ter
consciência que o português é falado por milhões de pessoas.
Em
muitas família portuguesas, os pais falam exclusivamente em
francês com os filhos. Também há cada vez mais casais mistos e
nem sempre é fácil. Para essas crianças, o português é uma
língua estrangeira...
A mãe é capaz de ter mais influência quando as crianças são
pequenas, mas hoje os casais já dividem tudo, os pais já
conversam tanto com os filhos quanto as mães, isso é lindo.
Quando a língua é falada em casa pelo pai e pela mãe, é claro
que isso ajuda para que as crianças se sintam mais próximas e
aprendam uma segunda língua, a língua materna e/ou a língua
paterna, com a mesma fluência. Agora os pais têm de ter a
preocupação de falar com eles nas duas línguas e não dar
predominância a uma se querem realmente que fiquem bilingues.
Isso são só vantagens para os filhos. Quanto mais línguas
tivermos a capacidade de aprender, mais versáteis somos, quer do
ponto de vista intelectual quer da comunicação, para sabermos o
que se passa à nossa volta com profundidade. Eu sofri, quando era
nova para aprender línguas, mas hoje sinto-me feliz, quando numa
reunião, por exemplo na OCDE, constato que sou das poucas pessoas
que ouve sem precisar de tradutor, inglês, francês, espanhol ou
italiano.
O
facto das crianças aprenderem simultaneamente duas línguas, tem
sido um vasto debate, nomeadamente entre psicólogos...
O problema é diferente, quando nascemos num meio em que se falam
duas línguas diferentes e quando vamos para a escola aprender a
língua. Aí é que o debate é diferente, é saber se é uma
vantagem ou não aprender outras línguas numa idade mais precoce.
Não sei se haverá alguma coisa provada em relação a isso,
objectivamente. Há realmente uma discussão por parte dos
psicólogos, dos puristas das línguas e outros assim como há
estudos contraditórios. Nas questões das ciências humanas não
há leis, não é como a matemática.
Quais
são as suas perspectivas? Quanto tempo tenciona ficar por cá?
Eu, normalmente, não ponho metas. Estarei enquanto eu achar que estou a
fazer um trabalho válido e enquanto achar que as respostas que
vamos encontrar serão mais coerentes e as mais de acordo com os
interesses de todos os intervenientes.
Gostaria
de acrescentar algo mais?
Desejo muitas felicidades ao vosso jornal, que se divulgue e que ajude a
divulgar. E se pudermos colaborar com o vosso jornal... que
colabore também com a coordenação para passar informações
objectivas aos pais, às famílias, aos professores. Isso é das
coisas mais importantes, e é aquilo que realmente precisamos. Que
esse esforço seja feito dos dois lados. Se for assim, acho que
estamos todos de acordo em colaborar.
Julho/ Agosto 03
Fernando
Afonso, la trajectoire d'un vice-champion d'Europe
de culturisme devenu homme d'affaires
Né au Portugal
et arrivé en France à l’âge de trois ans, Fernando Afonso a
très peu étudié, il est allé jusqu’au CAP de comptabilité,
et s’est lancé très jeune dans le travail.
Lorsqu'il avait 18 ans, ses parents retournent au Portugal, lui,
préfère rester en France, se retrouvant seul et sans un sous en
poche.
C’est sa passion pour les sports de haut niveau, tels que la
boxe et sa stature physique qui l'ont conduit naturellement à des
emplois de protection de biens et de personnes, à l’âge de 19
ans.
Cherchant du travail comme portier dans les boîtes de nuits, il s’est
fait engager dans une discothèque portugaise la Costa do Sol, à
Villeneuve Saint-Georges (banlieue parisienne).
A 33 ans, Fernando Afonso, est aujourd’hui à la tête d’une
PME de sécurité de 130 personnes, créée il y a 4 ans.
C'est l'expérience acquise et les relations tissées avec la
clientèle, alors qu’il était directeur dans une autre
société, durant trois ans, qui lui ont permis d'éviter les
erreurs et de gérer “convenablement ses affaires".
Certains clients l'ont suivi, l’aidant ainsi à démarrer son
activité. Aujourd’hui il s’est forgé une renommé et les
nouveaux contacts arrivent naturellement grâce à cela.
Malgré le succès, il a su rester humble, gardant la tête sur
les épaules, et “ne s'est jamais laissé aveugler par la
notoriété des stars" qu’il côtoie régulièrement.
Pour lui, “rien n’est jamais acquis”, mais avoue que sa plus
grande revanche sur la vie, est de pouvoir s’acheter une voiture
aujourd’hui aussi facilement qu'un paquet de cigarettes quelques
années auparavant.
Le sport reste sa passion, Fernando Afonso s'entraîne toujours en
salle, saute en parachute avec ses amis policiers du RAID, et s’exerce
au tir dans un club.
Toujours aussi intéressé et lié à ses racines, Fernando s’est
associé à un autre compatriote pour acheter un restaurant de
spécialités portugaises à Puteaux (banlieue parisienne).
Déjà consacré en couverture du journal Encontro, dans l’édition
de septembre 1998, lors de son titre de vice-champion d’Europe
de culturisme, nous avons repris contact afin de parler de sa
fulgurante ascension dans le milieu des affaires.
Qu'est ce
qu’une entreprise de sécurité ?
C'est principalement l'assistance et la protection de biens et
de personnes, mais le domaine d'application est très vaste et
cela va de la protection rapprochée à la surveillance de
magasins, la gestion de portiers des boîtes de nuit. Il y a la
sécurité publique, c'est l'affaire de la police et la sécurité
privée où intervient ma société.
Nous sommes
dans votre bureau à Boulogne-Billancourt. Accrochées aux murs,
il y a des photos de vous avec des stars internationales telles
que Luis Figo, Mariah Carey, Adriana Karembeu, Steven Seagal, Eddy
Barclay, Charles Aznavour et quelques dizaines d'autres. Pourquoi
et comment êtes-vous contacté par ces personnalités pour
assurer leur sécurité ?
C’est venu à travers des connaissances, du relationnel. J’ai
commencé comme portier de boite de nuit, c’est ainsi que j’ai
fait la connaissance de certaines personnes qui m’ont demandé
de travailler pour eux. Ce sont en général des gens riches qui
de par leur acti-vité ou leur statut, ont besoin d’être
protégés. J’ai été par exemple chauffeur et garde du corps d’une
danseuse-étoile russe et je devais l’accompagner partout ce qui
m’a permis de faire beaucoup de rencontres dans ce milieu.
Les
rencontrer c’est une chose, encore faut-il gagner leur confiance
pour travailler pour eux…
Oui, il faut avoir une structure, probablement une bonne
présence et un bon contact. C’est certainement l’un de mes
atouts et c’est pour cela que j’ai créé une société. Ce
sont des gens qui ne se laissent pas aborder facilement, il faut être patient,
discret et surtout recommandé par leurs semblables. Après cela
devient plus facile, à partir du moment où ils sont satisfaits
par le travail qu’on accomplit.
Finalement
votre fond de commerce repose sur le bouche-à-oreille ! …
La protection rapprochée, oui, mais aujourd’hui cela ne
représente plus grande chose sur l’ensemble de mon activité,
surtout depuis ce qui s’est passé aux Etats Unis, le 11
septembre et la crainte d’attentats. Il y a beaucoup moins de
demande car ces gens ne voyagent que quand c’est strictement
nécessaire, notamment les Américains. Ensuite, il y a les
budgets qui sont aussi plus réduits, donc cela ne m’intéresse
plus autant. Dernièrement j’ai refusé Elton John, quand il est
venu à Paris, à cause d’un problème de budget.
Il est
étonnant que des gens aussi riches discutent autant le montant à
allouer à leur protection ! …
Parfois, ce sont ceux qui en ont le plus qui discutent les
prix. Les moins aisés sont souvent moins regardants et payent d’avantage.
Quand il fallait me faire connaître je faisais des prix bas pour
gagner des parts de marché, aujourd’hui, je n’ai plus ce
besoin et c’est moi qui impose mes tarifs. S’ils n’acceptent
pas, je ne travaille pas.
Nous
présumons que vous êtes sous tension permanente lorsque vous
travaillez, il faut avoir les yeux partout, cela doit être
difficile de protéger Ricky Martin, Madonna ou Mariah Carey d’une
foule de fans.
Il en est de même pour les portiers des boîtes de nuit, ils
doivent pouvoir se maîtriser face à des situations parfois
délicates…
C’est un travail qui demande effectivement beaucoup de tension,
de vigilance, de présence et d’efficacité car le client doit
se sentir rassuré. Aujourd’hui dans le domaine de la
sécurité, on ne peut plus se permettre d’avoir une
agressivité. Les lois sont de plus en plus strictes et le rôle
du portier est quasiment de l’accueil. Il faut savoir parler et
recevoir la personne. Il faut aussi avoir la tête froide pour
supporter certaines personnes.
Vous nous
avez dit que vous aviez démarré votre société avec 5 employés
et que vous gérez aujourd’hui - 5 ans après - environ 130
personnes, il faut que la demande soit forte pour pouvoir les
payer.
Mon réseau est bien structuré, quand les radios telles que
NRJ et autres accueillent des vedettes internationales ils m’appellent
pratiquement en exclusivité, pour que je les accompagne et assure
leur sécurité notamment dans les discothèques et autres
endroits branchés.
Il faut dire que je fournis les portiers pour la plus part
des grandes et plus renommées boîtes de Paris.
L’autre partie importante de mon activité concerne la vigilance
dans la grande distribution, c’est-à-dire des centres
commerciaux tels que Carrefour, Auchan, Leclerc, etc. Il y a aussi
le gardiennage, des pompiers, des maîtres-chiens pour des sites
spécifiques tels que des endroits où il y a des manifestations,
des fêtes ou des immeubles.
Vous avez
acheté un restaurant portugais. Vous travaillez également de
plus en plus, en contact avec la communauté !…
C’est une sorte de retour aux sources pour moi. Je suis
portugais avant tout. Je vais pouvoir prouver aux jeunes, que les
Portugais peuvent arriver à faire quelque chose de bien, et qu’ils
peuvent évoluer comme tout le monde, ailleurs que dans le milieu
du bâtiment ou des entreprises de ménage.
Lorsque je suis devenu vice-champion d’Europe de culturisme, j’ai
participé en tant que portugais. C’est ainsi que j’ai eu
droit à la première page du journal Encontro, qui disait que j’étais
le “Portugais le plus musclé de France”. J’étais très
content et fier, et cela m’a apporté un peu de reconnaissance
des gens, notamment là où j’habite, au Portugal.
La
communauté portugaise, qu’en pensez-vous ??
J’espère
que je la verrai toujours du bon œil, que je serais toujours
aussi fier de travailler pour elle et avec elle. Je l’ai déjà
fait. Pour moi, il n’est pas question de foncer au Portugal, j’aime
beaucoup la France, et elle m’a apporté beaucoup, mais
travailler pour et avec les Portugais, c’est une fierté pour
moi.
A. C.
Julho/ Agosto 03
Entrevista
com o Ministro dos Negócios Estrangeiros
e das Comunidades Portuguesas, Dr. António Martins da Cruz
Nem sempre é
fácil obter declarações exclusivas dos ministros sem terem
havido contactos prévios com os assessores, para discussão
eventual dos assuntos a abordar.
Aproveitámos o momento em que Sr. Embaixador nos apresentou,
durante a recepção consagrada aos empresários, tendo o Sr.
Ministro acedido imediatamente à nossa solicitação de
entrevista.
O senhor
Ministro está estes dias em Paris, mais como Ministro dos
Negócios Estrangeiros ou como das Comunidades?
Estou aqui estes dois dias e meio, claramente como Ministro
das Comunidades Portuguesas. É obvio que, por exemplo, estou aqui
nesta recepção, a fazer diplomacia económica, porque já
arranjei aqui dois ou três negócios para Portugal, com contactos
franceses e portugueses. Sou o primeiro ministro que é
simultaneamente, dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades
Portuguesas, e tenho muito orgulho nisso, porque acho que chegou a
altura de tratarmos as Comunidades Portuguesas como Portugueses e
não como uma espécie de grupo de pessoas assistidas. Não sei se
leu a minha mensagem do 10 de Junho, que se chama “Horizontes do
Futuro”, porque acho que é o reencontro dos Portugueses que
vivem fora e dentro, neste projecto que é europeu e nacional.
Com o
acréscimo “Comunidades Portuguesas” a Ministro dos Negócios
Estrangeiros, não acha que o Secretário de Estado deste sector
tem menos poder, protagonismo e visibilidade que no passado ?
De maneira nenhuma. O Dr. José Cesário, não só é um
grande amigo meu, como é um grande político há mais de 20 anos
e um extraordinário Secretário de Estado das Comunidades.
Trabalhamos em equipa. No Ministério, trabalho em equipa com os
meus três Secretários de Estado: um nos assuntos da
Cooperação, outro nos assuntos Europeus e outro nos assuntos das
Comunidades Portuguesas. Dividimos o trabalho, quer dizer que, em
vez de haver uma hierarquia, há uma divisão de trabalho. Eu
estou aqui hoje, o Dr. José Cesário está com o nosso
Primeiro-ministro em Nova Iorque e em seguida no Canadá. Temos
uma diáspora portuguesa muito grande, alcança quase todos os
países do mundo, de maneira que nós os dois não somos
suficientes até, para cobrir todos os pedidos que nos fazem os
Portugueses.
Este
Governo considera provavelmente que atribui mais importância do
que qualquer outro, às expectativas das Comunidades Portuguesas e
ao valor acrescentado que estas podem representar para o nosso
país. No entanto, em Portugal, a Comuni-cação Social só fala
dos emigrantes quando há desastres ou crimes.
Qual é a sua opinião ?
Sabe, o assunto é muito difícil, é muito português. Nós
portugueses, somos muito dados ao sentimento da desgraça e ao
negativismo. Eu acho que a mensagem que temos procurado passar, e
fizemo-lo pela primeira vez, é a seguinte : os portugueses que
vivem e trabalham no estrangeiro têm que confiar neles próprios.
Têm que se integrar bem nos países onde vivem. Têm que adquirir
a nacionalidade desses países onde vivem, têm que participar na
vida política. Não é incompatível, as pessoas hoje em dia,
terem duas nacionalidades, não é incompatível continuar a ser
português e ensinar a língua e cultura portuguesa aos filhos, ou
ser eleito Presidente da Câmara, ou Deputado Regional, ou
Deputado Federal. Não é incompatível! Estamos já a reunir
portugueses com sucesso na política, em vários países, para que
eles transmitam a lição, para que transmitam o que aprenderam
como políticos, às gerações mais novas, para que estas possam
seguir o exemplo. Quanto mais integrados estiverem os Portugueses
no país onde vivem, melhor é para eles e para Portugal.
A língua
é um factor de identidade...
... Poderosíssimo, de identidade nacional. Nós temos, em
todo o mundo, cerca de 500 professores. Custam 40 milhões de
euros aos contribuintes portugueses, o ensino de português aos
filhos dos portugueses e aos luso-descendentes. Temos professores
em França, em Espanha, na Alemanha, só não temos nos países
onde o sistema de educação não é compatível, o que é o caso
dos Estados-Unidos ou do Canadá, porque as autoridades locais
não o permitem. Mas mesmo assim, apoiamos as associações
portuguesas que querem contratar professores portugueses, para
ensinarem aos mais novos.
Isso é a
grande novidade, como é que se passa com as associações no
Canadá?
Há vários casos no Canadá e nos Estados-Unidos. Algumas
recebem subsídios da nossa parte. Depois se gastam esse dinheiro
com professores ou com outras coisas, isso é lá com elas. Mas
são subsidiadas.
O Sr.
Ministro sabe que existe uma associação de órgãos de
comunicação social das comunidades, chamada PortPress21.
Sim, sei. Mas porquê 21?
Foi
constituída pelos 21 convidados a Lisboa aos “Encontros para a
Parti-cipação”, pela Secretaria de Estado das Comunidades e
pela Direcção Geral dos Assuntos Consulares. Estamos todos de
acordo com uma coisa: vamos ter muita dificuldade em manter a
nossa língua nestes órgãos porque não temos pessoal
qualificado suficiente e carecemos totalmente de apoios. Ao jornal
Encontro, foi-lhe suprimido o porte pago, por ser, segundo o
Instituto da Comunicação Social, um jornal das “Comunidades”
para as Comunidades. Não acha que com o desaparecimento destes
órgãos, a ligação com Portugal se vai extinguindo pouco a
pouco ?
Podem chegar por internet, hoje em dia...
O Sr.
Ministro sabe que não é suficiente !...
Não, não é. Eu acho que o problema do porte pago é
importante e é preciso encontrar uma solução. Os outros
problemas, como o problema da distribuição, são problemas em
que o Estado não pode ter mecanismos para fazer a distribuição
dos meios de comunicação social. O Estado inglês não subsidia
a venda do Financial Times. Então porque é que o Estado
português há-de subsidiar a venda do jornal Encontro?
Não foi
essa a minha pergunta...
Pode haver soluções de apoio indirecto, o porte pago é uma
delas. É preciso encontrar fórmulas com imaginação.
Sr.
Ministro, como é que resumiria este conjunto de comemorações
aqui em França,
à volta do Dia de Portugal ?
Eu acho que é importante, e, queria louvar o Embaixador de
Portugal em Paris, que é o grande arquitecto destes três dias,
que começaram com este encontro com empresários portugueses,
luso-descendentes e franceses. Vou continuar com um jantar no
Cercle de Paris, com decisores, com fazedores de opinião. Depois
darei uma entrevista, em directo, durante duas horas e meia na
Rádio Alfa, em que estarei acompanhado por representantes dos
Países da CPLP em França, para darmos a dimensão da CPLP.
Depois vou inaugurar uma exposição de Vieira da Silva, que é um
grande traço de união entre as culturas portuguesas. Estarei no
Domingo, durante o dia todo, em Pontaut-Combault, para celebrar
eventos culturais com a comunidade portuguesa, não só de
Pontaut-Combault, mas de todas as regiões que confluíram para
esta terra para celebrar o 10 de Junho.
Já
reparou, que o nosso dia nacional, é o dia de um poeta ? Na
maioria dos países, é o dia de uma revolução, como a França
ou os Estados-Unidos.
Acho que os portugueses deviam meditar mais isto.
Recentemente, o Governo português apoiou frontalmente a
iniciativa de George Bush e Tony Blair, no que diz respeito à
intervenção no Iraque. A posição da França era contrária.Que
consequência pode ter essa atitude para Portugal e para a
comunidade portuguesa de França?
Não põe problema de espécie alguma, visto que são
situações normais de política externa, vividas por países
independentes. O Primeiro Ministro Durão Barroso já se encontrou
com o Ministro Jean-Pierre Raffarin e com o Presidente Jacques
Chirac ; eu também já encontrei o meu homólogo francês e tudo
se passou bem. Para os portugueses daqui, também nada vai mudar.
António
Cardoso
Entrevista realizada no dia 8 de Junho
Julho/ Agosto 03
"La
Harissa" un groupe de musique à la sauce portugaise
Originaire de
Cergy-Pontoise en banlieue parisienne, le groupe “ LA HARISSA”
est devenue en l’espace de trois albums un incontournable
de la scène Hip-Hop, mais aussi et surtout pour les plus
de deux millions de Portugais résidant en France, première et
seconde générations confondues.
Composé des deux frères Malheiro, Christophe et Sébastien, 27
et 30 ans, plus connus sous leurs noms de scène, Sirando et Block
Pata, La Harissa a créé un nouveau genre, bien à lui, le
Hip-Hop Portos Latino. Leurs albums, “Portos Ricos”, en 1997,
“Conquistador” en 2000 et “Portugal Rap Star” en 2002,
sont un mélange de textes humoristiques, déjantés ou plus
sérieux, parfois en Portugais, et de Beat Hip-Hop. Ils ont
également fait un petit clin d’œil à la génération un peu
plus an-cienne dans leur dernier album, en faisant un duo avec
Linda de Suza intitulé Les gens des baraques.*
A l’occasion de leur tournée au Portugal cet été, avec de
nombreuses dates dans les plus grandes discothèques du pays, nous
les avons reçus pour en savoir un peu plus, sur leurs débuts,
sur cette tournée, et sur leurs projets.
A votre
avis, quelle tranche d’âge est la plus concernée par votre
musique ?
Les 15 - 40 ans. Mais ça dépend des morceaux. En gros c’est
la deuxième génération, mais comme c’est difficile de lui
donner un âge exact…
Comment
vous définissez la musique que vous jouez, que vous interprétez
?
C’est du Rap à la tendance
portugaise. En fait, le Rap c’est la diction et la musique qui l’accompagne
c’est du Hip-Hop. Et nous, on y a apporté la touche portugaise.
C’est donc là que La Harissa se différencie des autres
groupes. On a apporté une nouvelle touche, une nouvelle tendance,
tout en gardant les ori-gines latinos. C’est donc de là qu’on
a fait la contraction du nom du style musical, Portugais et
Latino, c’est devenu Portos Latino. Donc ce qu’on fait c’est
du Hip-Hop Portos Latino.
Si on prend
exemple sur Radio Latina, pour eux, les “latinos”, c’est
tout ce qui est hispanique.
Jusqu’à ce que les Portugais s’énervent un peu plus…
Heureusement,
il y a les Brésiliens pour rappeler qu’on est aussi des “latinos”.
Radio Latina surfe sur un
phénomène de mode latino-américain mais ils n’ont pas envie
de nous reconnaître en tant que “latinos”. La question à
leur poser, c’est qu’est-ce que la latinité en Europe sans le
Portugal ?
Il faut
donc s’imposer ?
Bien sûr !
Et c’est
ce que vous faites ! Vous êtes les seuls ?
Oui, on est les précurseurs du genre, il y en a d’autres,
on reçoit des maquettes et des cd de gens qui tentent et qui
revendiquent ça.
Parlez-nous
de vos débuts, lorsque vous avez commencé à vous produire en
public.
En majorité, c'était des jeunes d'origine portugaise qui
venaient nous voir.
Ça a commencé avec deux maquettes, avant de sortir l’album “Portos
Ricos”. C’était le genre Underground, c’est-à-dire qui ne
touchait que la population adepte de cette musique, en cercle
fermé, en fait. Et à partir de là, on a commencé à voir qu’il
y avait des problèmes, on a sentit que, comme on était ni noir
ni arabe, dans le milieu du Rap, on était pas à la mode. Donc le
fait d’être portugais et de revendiquer notre Portugal, c’était
pas bien vu, mais nous ça nous a amusés sur le coup et on s’est
dit “si c’est comme ça, on va encore insister”. Et puis du
coup, on a fait notre premier album “Portos Ricos” en 1997.
Portos, pour le terme péjoratif et puis en référence aux Porto
Ricains. Les Porto Ricains d’Europe, en fait, ce sont les
Portugais.
Vous avez
essayé d'abord dans votre quartier, devant des amis… ?
Oui, au départ, ll y a près de 8 ans, on a fait des concerts
MJC, dans les maisons de quartier, les maisons de la jeunesse. On
a réellement été découvert au Printemps de Bourges.
Votre
premier grand concert.
C’était avec “Portos Ricos”, au Divan du Monde, c’est
une salle parisienne branchée, c’est là qu’on a eu la grosse
sensation.
Vous avez
un producteur et un éditeur exclusif ?
C’est la maison Next Music. Ils s’occupent de la
production, ils éditent… ils font tout. Mais, il a eu un
changement de patron, et du coup avec le nouveau, on s’entend
encore mieux. C’est pour ça qu’il y a beaucoup de choses qui
sont en train de se faire, car on leur a fait prendre conscience
que La Harissa évoluait en travaillant sur un socle de
luso-descendent, de portugais et de ceux qui se sentent portugais.
On a réussit à vendre près de 80 000 exemplaires, ce qui veut
dire qu’on est pas loin du disque d’or. Les sociétés
françaises ne comprennent pas comment on arrive à générer tout
ça. On a passé beaucoup de temps à leur expliquer qu’il
fallait se concentrer sur quelque chose de précis.
Vous vous
êtes aussi produits dans des boîtes portugaises, bonne
expérience ?
Oui, bien sûr ! Le problème c’est que les boîtes
portugaises, il y en a pas assez. Il y a tellement de jeunes
portugais, et tellement peu de chose pour eux. Je trouve que les
dirigeants de ces boîtes de nuit sont un peu trop prétentieux.
Apparemment tous les jeunes portugais passeraient par leurs
discothèques, ce qui c’est faux.
La
participation de Linda de Suza, ça ne fait pas un peu trop
mélange des genres?
Non, c’était un clin d’œil. On s’est rencontré avec
Linda de Suza, elle nous a dit “c’est vous La Harissa ? J’ai
déjà beaucoup entendu parler de vous !” Elle était très
sympa, et nous a dit qu’on était le phénomène de mode du
moment, et c’est elle qui s’est proposée, pensant que se
serait marrant de faire un duo entre, elle qui est de la première
génération et nous de la seconde.
Cet été,
vous allez faire une tournée au Portugal, dans les grandes
discothèques du pays.
Qu'en est-il exactement ?
On va présenter un concept. Dans la plus grosse boîte du
Nord, le Pacha à Ofir, on va faire les trois premiers mardis du
mois d’août (le 05, le 12 et le 19 août). Chaque soir, on fera
un spécial album, c’est-à-dire, le premier mardi, “Portos
Ricos”, le deuxième mardi, “Conquistador”, et le dernier
mardi, “Portugal Rap Star”. On répétera la même chose dans
la grosse boîte du centre, Império Romano à Marinha Grande, les
trois premiers lundis du mois d’août (le 04, le 11 et le 18
août). On s’est concentré sur les deux grosses boîtes du
pays, une au nord, l’autre plus au centre et puis on s’est
offert un petit extra avec Discoteca & Companhia à Covilhã
le 14 août, pour les gens qui sont un peu plus vers l’intérieur.
Pour le Sud, c'est en négociation, notamment avec le Festival de
Paredes de Coura, qui est le plus gros festival au Portugal,
normalement on devrait le faire.
Vous
chantez en français. Vous ne pensez pas que ça peut vous
pénaliser au Portugal ?
Non ! On a déjà fait les trois plus grosses émissions
télé au Portugal, Herman Sic, Curto Circuito et Câmara da Cruz,
et on l’a fait en français. Eminem, il est numéro 1 là-bas et
il rap en anglais, donc c’est pas une barrière. Malgré tout,
il y a des textes en portugais, il y a des sonorités portugaises,
donc tout ça fait que les gens adhèrent aussi. Le problème qu’il
peut y avoir entre les jeunes de là-bas et ceux d’ici, c’est
que les jeunes d’ici sont très saudade (sentiment de tristesse
ou nostalgie, en portugais), très liés à leurs racines alors
que les jeunes de là-bas, finalement, au contraire, ils essayent
de se tourner vers l’extérieur.
D’où
vient l’idée pour le nom “La Harissa” ?
En fait c’est une sauce qui pique, qui vient de la rue, qui
n’a rien à voir avec le fait que se soit une sauce arabe. C’est
une sauce de la rue, qui pique, et le rap vient de la rue… donc
voilà !
D’autres
projets après la tournée Portugal ?
Oui, à la rentrée, des scènes, le cd actuel de “La vache
folle” encore en développement. En ce moment on enregistre un
remix avec Lord Cossidy. Il y a le DVD de la tournée aussi. Et
puis le lancement de la ligne de vêtements La Harissa Wear, le 5
juillet à La Bergerie à la Verrière (78).
*Pour plus d’infos :
www.la-harissa.com
Sandrine
dos Reis
Junho 03
Retalhos
de uma vida: Luci Bento, artista e mulher
Lucília Maria
Bento, nasceu numa pequena aldeia perto de Castelo Branco. Entrou
na escola com seis anos, onde o seu jeito para as
actividades plásticas foi imediatamente notado. Fazia
continuamente montes de desenhos e quando acabava, oferecia-os a
todos os que a rodeavam. Nessa altura, confessou que gostaria de
ser professora de desenho, mas apesar dos conselhos do professor
ao pai e das suas súplicas, não houve nada a fazer ; o pai
tirou-a da escola com dez anos, declarando que ela estava quase
uma mulher e como tal destinada a ser dona de casa, cozinhar e
fazer limpeza. Quanto à pintura nem pensar nisso, o papel era
caro e as tintas ainda mais !
Um jornalista suíço, que a entrevistou em 2000, disse : “fala-se
muito das mulheres islâmicas, mas ainda há poucos anos, os
portugueses agiam também de uma maneira muito esquisita”.
Lucília casou-se muito nova e o casamento não mudou em nada a
sua vida, a incompreensão do marido era a mesma que a do pai.
Teve dois filhos, o marido foi obrigado a emigrar para a Suíça
por questões financeiras, onde ela veio ter com ele pouco tempo
depois. Clandestina, Lucília Bento viveu fechada num pequeno
apartamento sem poder sair, nem ver ninguém e onde teve o seu
terceiro filho. O primeiro ia mesmo assim à escola e o outro
estava em França, em casa de família.
No primeiro dia em que pode sair daquela espécie de gaiola, foi
comprar uma tabuinha para cortar pão e tintas baratas, para
crianças, e pintou-a. O marido, ao chegar a casa, ralhou com ela,
dizendo : “porque é que estragaste a tábua” ?
A vida continuou, limpar, cozinhar, as crianças, donde a
última nasceu com grandes problemas de saúde, e sempre uma
enorme vontade de pintar à qual ninguém ligava, Lucília fez uma
grave depressão nervosa. O psiquiatra declarou ao marido
que a vontade que ela tinha de pintar era causada por uma
espécie de loucura, o que levou o marido a dizer-lhe que mesmo o
médico achava que ela era doida. Este médico, mais um que achou
que uma pequena portuguesa, quase iletrada, querendo ser pintora,
isso não podia ser um desejo ou uma vocação, só podia ser um
sintoma de loucura !!!
Lucília pediu o divórcio, obteve a guarda dos filhos e
lançou-se na vida artística, como o náufrago se agarra à
única tábua de salvação visível.
- Em 1998, fez um curso de pintura a óleo, na Escola de Artes
Virtuais em Lausana, SNC Grobéty e Vögeli.
- Em 1999, sempre na Escola de Artes Visuais de Lausana,
Lucília fez os : Curso de Pintura a óleo e
Curso de Desenho Académico.
Assim nasceu Luci
Bento, aos 37 anos de idade, tendo ao seu activo, hoje, mais de
800 telas. Luci vive exclusivamente da Arte, exercendo o seu papel
de mãe de família de dia, pintando incansavelmente de noite, no
seu pequeno “atelier”. Várias matérias entram na
composição dos seus quadros : fitas, pérolas, areia, mas com a
aplicação da sua técnica bem pessoal.
A sua pintura é figurativa, pode-se dizer que ela pinta
séries de temas, passando pelos nus, flores, aves, casas
imaginárias, projectando uma multitude de ideias, numa procura
desesperada dela mesma.
Neste momento, Luci pinta de novo em estilo figurativo, que é um
pouco um auto-retrato, com várias facetas, representando aquilo
que ela é e o que aspira a ser, numa procura de realização,
difícil de conseguir, sem ajuda talvez psicológica, de alguém
que possa compreender este “resultado” de dois países, duas
culturas, duas vivências, muita amargura e decepção.
Luci Bento fabrica também bonecas, possui uma enorme colecção
(400 na Suíça), que perfazem com as que tem na sua casa em
Portugal, mais ou menos um milhar de peças. Estas bonecas têm
sido expostas em museus de várias cidades, (como por exemplo o
Museu da Casa da Boneca, da Fundação Steineck, onde obteve um
êxito enorme, pois os amadores de “poupées”, são numerosos.
As bonecas de Luci, muito bonitas, sumptuosamente vestidas, de
olhar inquietante, são, diz-nos ela, a vingança da sua infância
sem bonecas, que a mãe nunca lhe comprou, mas que agora lhe
oferece de vez em quando, como para recuperar o tempo perdido,
agora já tão tarde…
Falando com Luci, sobre os seus pais, sentimos que ela teria muito
que dizer, mas que por pudor se cala, sendo mesmo assim com
bastante ternura que fala da mãe, como se quisesse partilhar com
ela a notoriedade que alcançou, uma necessidade absoluta de ser
“reconhecida” pelos seus, de afirmar que tinha razão quando
queria ser professora de Desenho. Luci fez várias exposições em
França e na Suíça, onde tem exposições permanentes.
Neste momento a nova paixão de Luci Bento, que faz furor na
televisão e imprensa, de tal modo que os estilistas começam a
procurá-la, é pintar sapatos (todos os motivos decorativos desde
as flores até à bandeira da Suíça), que estão patentes no
Salão Artes e Criações de Genebra.
Uma reportagem efectuada na Suíça, foi difundida pela televisão
portuguesa, o que encheu de orgulho, a família de Luci. Que
exaustivo caminho para chegar até aí !
Maria
Fernanda Pinto
Maio 03
Entrevista
com Daniel Ribeiro
Daniel Ribeiro,
correspondente da RDP-Antena1 e do EXPRESSO, trabalhou na Radio França
Internacional e é, desde há dois anos,
director de informação e programação da Rádio Alfa.
Daniel Ribeiro
aparenta ser um homem discreto. Alguns dizem que "morde pela
calada", que diz o que não pensa para tirar "nabos da
púcara" e assenta a machadada quando menos se espera.
É verdade que alguns dos artigos que este jornalista radicado em
França, publicou no Expresso e certas crónicas que ouvimos na
Antena 1, deixam por vezes pairar o que alguns consideram como
sendo insinuações.
Nós pensamos que o jornalismo é isso mesmo, é deixar dúvidas
para quem as queira esclarecer, relatar factos comprovados com
fontes seguras e deixar a interpretação a quem os ouve ou lê e
que quem de direito, tal como a justiça, faça o seu trabalho.
O problema de muitos jornalistas é confundirem funções.
Daniel Ribeiro criticou bastante a rádio Alfa no início, hoje
dirige essa estação, esperamos pois pelos resultados da prática
para também exercermos o nosso direito à crítica.
António
Cardoso
É um dos
poucos correspondentes para Portugal que fala da comunidade
portuguesa. Por que razão ?
Porque por vezes há assuntos com interesse. Há também
histórias engraçadas na comunidade, sobretudo alguns percursos
de pessoas que me interessam. Quando há por exemplo dados
estatísticos credíveis é necessário analisá-los e
publicá-los.
Como
explica que os outros correspondentes não o façam ?
Cada um faz as suas opções. Há poucos correspondentes
portugueses em França, designadamente das televisões – que
não têm cá ninguém.
Falar pouco
da emigração não corresponde às directivas dos próprios
órgãos de informação ?
Talvez. Portugal tem problemas com a sua emigração, assume
dificilmente ser um pais de emigrantes. Não é por acaso que hoje
os políticos, em Portugal, falam mais num pais de imigrantes...
Nos média para os quais trabalho sempre consegui ter apoio para
publicar as histórias sobre os emigrantes que proponho.
Fizemos uma
pequena experiência em Portugal e perguntamos a 20 pessoas se
sabiam quem era A. Sousa Mendes. Ninguém sabia…
Mas isso não é por falta de informação. Tem-se falado
muito desse grande homem, há filmes, homenagens, livros...
Perguntamos
também aqui a uma dezena de pessoas se sabiam o nome de tal ou
tal ministro… Também não sabiam.
É natural... aliás os ministros também lá estão há pouco
tempo. Eu sigo esta máxima : “os governos passam e os povos
ficam”. Isso é o mais importante.
Em França,
o jornal “A Bola” vendeu mais de cinco mil exemplares quando
do jogo Benfica/Marselha. Os outros só vendem 80 exemplares, em
média...
Comprova que as pessoas estão mais interessadas pelo futebol.
Se calhar o Figo ou o Jardel fazem coisas que dão mais nas vistas
do que os ministros.
Há quanto
tempo está em França e porque saiu de Portugal ?
Há 21 anos e vim por motivos pessoais.
Saiu da RFI
para dirigir uma rádio privada, comunitária. Quais são as
diferenças que notou ?
Foi um risco que assumo. O comendador Armando Lopes
convidou-me para modernizar a rádio. Aceitei porque sempre achei
possível fazer uma boa rádio de raiz portuguesa, mas lusofona,
em Paris.
É um
jornalista confirmado, cobriu várias guerras. O que o levou a
aceitar ir para a Rádio Alfa ?
Pelo que acabo de dizer. Avançando lentamente acredito que se
possa fazer uma grande rádio em Paris.
Fez
críticas no passado à Rádio Alfa.
A rádio parte de uma base comunitária para evoluir...
Para ser
uma radio de civilização ?
Tem de evoluir e prever o futuro. A primeira geração de
emigrantes chegou à idade da reforma e haverá cada vez mais
lusodescendentes. A ideia é manter uma rádio portuguesa com
grande abertura à lusofonia.
Porque
razão a Rádio Latina não se abre à lusofonia ?
Acho que passamos hoje melhor música portuguesa, brasileira
ou africana do que a Rádio Latina. Temos condições para
competir com a Latina se avançarmos cada vez mais para a
lusofonia.
E se as
pessoas criticarem por se falar demasiado dos outros países
lusofonos ?
Portugal nunca se limitou ao rectângulo. Portugal só é
importante porque tem um passado de abertura e porque está na
origem desse grande espaço cultural que é a lusofonia. Os
portugueses são abertos e a Rádio Alfa morreria se continuasse
ligada apenas à primeira geração de portugueses.
Que
liberdade tem com Armando Lopes, presidente da rádio Alfa ?
A liberdade de falar com ele livremente. Em todos os média o
director discute com os administradores as questões de fundo
ligadas neste caso à rádio.
Não há
boicote da parte do sector comercial ?
Não há boicotes na rádio. Há discussões.
Como se
pode conservar ouvintes da primeira geração mais ligados ao
folclore e ao fado e alargar
às novas gerações ?
Tem de se fazer programas para todos e há programas para
todos !
Há pouco
tempo uma fadista, Cristina Branco, ficou espantada e desagradada
por ter sido entrevistada pela Rádio Alfa em francês.
Se foi, porque não recusou e não falou em português ?
Aparentemente
as pessoas da entrevista só falavam em francês.
Respondo-lhe de uma forma mais larga. Eu defendo que devemos
introduzir cada vez mais programas bilingues e acho que há
pessoas, designadamente como essa fadista, que não devem ser
divulgadas só para os portugueses. Penso que a Rádio tem de
encontrar um equilíbrio, defendendo a língua, sempre, mas
divulgando a cultura também em programas bilingues para alargar o
auditório.
Mas a
cultura é a língua portuguesa ?
Uma coisa é a cultura, outra é a língua. Uma pessoa pode
ser culta, conhecer a cultura portuguesa a fundo e nem sequer
saber falar português !
O que é
para si o Conselho das Comunidades ?
Acho que tem funcionado mal. De quem é a culpa não sei –
os conselheiros acusam os governos.
A RTPi
pouco fala do CCP, a secretaria de estado vai nomear conselhos
consultivos nos consulados...
Percebo pouco dessas coisas. O que sei é que a Rádio Alfa
fala muito desses assuntos. Não compreendo muito bem qual é a
ideia do governo. O que sei é que a comunidade necessita de
órgão com força que os represente bem.
Há um
conselheiro nomeado para a RTPi mas nunca foi ouvido.
Acho mal. Se o nomearam e não o ouvem há um problema.
O que pensa
dos resultados para o CCP ?
Contava com uma fraca participação, mas ficou ainda mais
abaixo das minhas expectativas.
Pouca gente
vota também para a Presidência da República, para as
legislativas...
O que caracterizou a emigração foram projectos individuais
para sair da miséria. Penso que a tradição de votar não é
forte nos portugueses e que também talvez o movimento associativo
não se tenha adaptado às novas realidades ligadas à evolução
da emigração portuguesa em França.
Penso que muitos dos lusodescendentes e outros vão passar a votar
mais em França.
Qual a sua
opinião sobre a mesa redonda recentemente organizada no consulado
sobre a comunicação social em França ?
O que é preciso agora é ver o que vai acontecer. Se não
acontecer nada, não serviu para nada.
Notou que
na mesa não havia nem jornalistas nem empresários da
comunicação social ?
Notei e penso que a composição da mesa foi infeliz porque
dava um estatuto de menoridade aos profissionais do sector que
trabalham em França.
Porque há
tão poucos jornais na comunidade em França ?
As pessoas foram perdendo o hábito de leitura, que aliás a
primeira geração já não tinha em Portugal...
É, por
isso, inevitável manter um jornal ou uma revista ?
Mesmo em Portugal é difícil. Acho que aqui os jornais se
deveriam virar mais para as novas gerações e também para o
bilinguismo, bem como avançarem para a profissionalização, tal
como as rádios.
Sobre a
informação em Portugal o estilo é mais americano, de
informação espectáculo. Aqui em França é diferente. O que
pensa disso ?
Há
exageros em Portugal com noticiários televisivos de duas horas,
etc... Mas penso que por exemplo sobre a guerra no Iraque a TV
portuguesa cobriu melhor do que a francesa.
Maio 03
Entrevista
com o Secretário de Estado
das Comunidades Portuguesas
Exmo Senhor
Secretário de Estado, constata-se pelos números divulgados que as eleições para o
Conselho das Comunidades Portuguesas foram mais uma vez um
fracasso em termos de participação dos eleitores.
Muitos dos nossos compatriotas não compreendem que no mês que
antecedeu este acto eleitoral, a Comissão Nacional para as
Eleições tenha feito campanha na RTP I para o recenseamento e
tenha “esquecido” o CCP. É obvio que isso não explica tudo,
pois todos os órgãos de comunicação social independentes, das
comunidades, deram largo destaque a estas eleições.
Também não lhe vamos pedir para comentar as razões desta falta
de interesse dos emigrantes pelas estruturas que os poderiam
eventualmente representar, porque cada um deles tem a sua própria
resposta e a sua justificação.
Solicitamos em contrapartida que V. Exa tenha a amabilidade de
responder ao seguinte :
Os
ex-militares que lutam pela obtenção de direitos iguais aos dos
residentes em Portugal elegeram quatro conselheiros sobre quinze
em França. Deseja comentar ?
É um movimento cívico com expressão das comunidades.
Confesso que estava à espera que elegessem mais, mas não é por
isso que deixo de considerar a enorme importância nacional.
Cumpre aliás que se diga que não é um movimento exclusivamente
restrito e limitado a França, tendo cada vez maior expressão em
muitos outros países.
Que
benefício poderão retirar os portugueses que residem no
estrangeiro em participarem nos actos eleitorais de Portugal ?
Essa é uma questão básica de civismo. Para os portugueses
no estrangeiro poderem fazer sentir a sua força e a sua voz é
fundamental que participem cívica e politicamente na vida dos
países onde se encontram e na do seu país Natal. Como bem se
disse nos últimos tempos, em democracia, quem não vota conta
cada vez menos e ao não contar vê os seus direitos não
realizados completamente por falta de atenção de quem governa.
Quais são
os principais inconvenientes da falta de participação ?
A não participação conduz ao esquecimento por parte de quem
tem poder decisório. É fundamental que as pessoas contribuam com
a sua opinião para as grandes decisões colectivas e a verdade é
que se todos entendermos que os portugueses que estão no
estrangeiro devem fazer parte desse grande colectivo que é
Portugal, então eles devem ser os primeiros a participar o mais
activamente possível na vida pública portuguesa. Para que haja
mais e melhores políticas dirigidas à diáspora é essencial
acentuar decisivamente o número dos que votam.
O fecho de
vários consulados (quatro em França) foi anunciado, sem que os
utentes interessados tivessem conhecimento de possíveis
alternativas. É erro de comunicação, uma estratégia política
ou simplesmente cortes orçamentais e, é preciso escolher.
Está em causa uma reestruturação da rede consular. Não é
fechar consulados, bem pelo contrário é melhorar as condições
dos serviços prestados aos utentes na generalidade dos postos.
Esta reestruturação tem como grandes medidas já anunciadas o
início da emissão on-line dos Bilhetes de Identidade, o
desenvolvimento do programa de gestão consular a nível
informático e uma racionalização da rede consular. O Conselho
de Ministros já aprovou o decreto-lei que visa permitir a
criação dos centros emissores dos BI nos consulados, situação
em que curiosamente ninguém fala, sendo esta a maior reforma que
alguma vez se fez neste domínio, porém é evidente que uma rede
consular que não é mexida há décadas possui evidentes
desajustamentos relativamente à realidade concreta das diversas
comunidades. Não faz assim sentido manter consulados de carreira
em locais onde quase já não há comunidade, enquanto se deixam
outras com dezenas ou centenas de milhar de pessoas completamente
a descoberto. Por isso vamos abrir novas estruturas consulares em
muitos locais onde são, absolutamente, indispensáveis e fechar
outras em sítios, em localidades onde o trabalho consular se
encontra reduzido a níveis insignificantes. Tem sido muito bem
divulgado, pelo menos para quem quer ouvir que estamos a trabalhar
ponderadamente em situações locais que evitem uma excessiva
penalização para as pequenas comunidades atingidas pelos
encerramentos. Este é um processo moroso e delicado e está ainda
bem longe de estar concluído. Por isso espero que as pessoas
tenham paciência e que os mais responsáveis acalmem a sua sede
de protagonismo.
Como se
pode explicar o facto que se mantenham três consulados na região
de Paris, num raio de 40 km enquanto se obrigam outros portugueses
a deslocações de centenas de km para chegarem a um consulado ?
Essa é uma matéria difícil que mereceu enorme ponderação.
Inicialmente chegámos a pensar em encerrar esses consulados.
Porém, várias personalidades locais com quem falámos, com
destaque para o deputado Carlos Gonçalves, deram-nos os
argumentos que nos convenceram a não o fazer. Os hábitos das
comunidades aqui localizadas ainda não estão adequados a uma
mudança radical na área da grande Paris. Por isso vamos manter a
actual situação.
Alguns dos
Conselheiros recém eleitos já dizem que a sua ideia de criar
Conselhos Consultivos das Áreas consulares, tem como objectivo
diminuir o papel do CCP !...
Estou farto de ouvir asneiras sobre essa matéria. Há pessoas
que têm deturpado ostensivamente as nossas intenções com a
criação dos Conselhos Consultivos das Áreas Consulares. O que
nós queremos é ocupar um espaço perfeitamente vazio na
relação entre o consulado e a comunidade da respectiva área.
Trata-se de encontrar um conjunto de personalidades a nomear pelo
Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas
na sequência de convite pessoal que traduzam um retrato real de
cada comunidade e que periodicamente se sentam com o respectivo
Cônsul para tratar apenas e tão só os problemas específicos
daquela área consular. Pelo contrário, os Srs. Conselheiros das
Comunidades - se o entenderem também poderão ter acento neste
órgãos -, têm uma função muito mais global no aconselhamento
directo do Governo relativamente às políticas a dirigir à
totalidade das comunidades portuguesas no mundo. Há diferenças e
objectivos perfeitamente evidentes entre os dois órgãos e só
não os vê quem manifestamente não quer.
Entrevista
conduzida por António Cardoso
Março 03
Cristina
Branco, uma outra ideia do fado
Cristina Branco
nasceu em Almeirim. Estudante em psicologia e destinada a uma
carreira de jornalista, nada previa que esta jovem ribatejana se
apaixonasse pelo fado. O fado, de uma maneira diferente, mesmo se
o " déclic " terá sido um disco de Amália oferecido
como prenda de aniversário dos 18 anos pelo seu avô.
Cristina é agora "produto" da multinacional
"Universal", tal como Dulce Pontes. Estas editoras não
brincam em serviço, tem de haver qualidade, voz, graça,
sensualidade, espontaneidade, presença e força de vontade para
que se aposte e se invista num mercado mundial.
Depois de termos ouvido o seu último álbum, “Corpo iluminado”,
ficámos convencidos que Cristina Branco reunia isto tudo e ainda
muito mais. Ficámos logo atentos, à espera de oportunidade para
falar com ela, saber o que se escondia por detrás de tão
melodiosa e sensual voz. “Sensus” é o seu novo disco, ainda
mais sensual tal como o nome indica, provocante, quase erótico.
A escolha dos textos revela outra coisa, certamente a vontade de
propagar uma das mais bonitas e ricas línguas do mundo, de a
colocar em valor e lhe devolver a dimensão de outrora.
Cristina Branco já deu a volta ao mundo e segundo a responsável
da “Universal”, os seus espectáculos são garantia de “casa
cheia”. Estará em França em Maio, vai cantar em Bordéus, na
sala Fémina, no dia 24 e em Paris, no Olympia, no dia 26.
Aproveitámos a sua passagem por Paris em Fevereiro para a
entrevistar. Afinal foi uma conversa sem rodeios onde a artista
nos revelou a sua paixão pelo fado e pela língua portuguesa.
A escolha
dos seus textos, de grandes autores, tais como Fernando Pessoa,
David Mourão-Ferreira, Vasco de Graça Moura, não será
demasiado elitista ?
Não, eu sou uma ávida leitora, não tem nada a ver com o que
canto, mas é obvio que as minhas leituras tiveram que influenciar
a minha carreira. Não consigo conceber um disco sem literatura.
Há no entanto nomes como os de David Mourão-Ferreira, Pedro
Homem de Mello que estão ligados ao fado, que foram descobertos
pela grande maioria do povo através da voz de Amália, portanto
através do fado. Não é nada elitista, pelo contrario, tenho a
impressão que ao passar uma poema que eu gosto para um disco que
onde é traduzido pelo menos em três línguas diferentes, já lhe
dá uma universalidade complemente nova. Aquele poema deixou de
pertencer a um simples livro com uma edição de três ou quatro
mil exemplares para pertencer ao mundo inteiro e aos portugueses
todos, claro.
Como e qual
é o seu critério de escolha dos textos e quem os escolhe?
São sempre os textos que eu gosto, a procura é sempre minha,
exceptuando o poema do Vasco de Graça Moura. Foi ele que mo deu
porque sabia que eu estava a trabalhar em poesia erótica.
Curiosamente é o último soneto editado em português no século
XX. Esse foi-me oferecido, o resto é tudo escolha minha. Eu gosto
que todos os meus discos tenham uma temática, este é um dos que
tem uma temática mais vincada que é a sexualidade ou a
sensualidade para não sermos tão óbvios, isso é também uma
coisa que fere muito os portugueses. (risos)
Não concebo a ideia de cantar uma música sem que o poema me diga
tudo.
Que leva
uma estudante em psicologia e comunicação social a enveredar por
uma carreira artística e particularmente no fado ?
É comunicar, é a forma mais óbvia, muito mais do que
escrever ou fotografar, mais de que ouvir falar alguém, é ser eu
a falar.
Não é
demasiado simples ?
O canto surge por urgência, houve uma grande necessidade
interior de rir e de chorar as minhas emoções e que não me
importo de todo de partilhar com o público, que afinal de contas
é anónimo.
Não se
importa ou é um desejo de partilhar ?
Não me importo, não é o que quero. Tenho alguma dificuldade
mesmo se agora já não é tanto, tive grandes dificuldades a
encarar o público. No entanto, a vontade e urgência, como disse,
em fazer aquilo que se ama é tão forte, tão premente que tem
que se ser mais que outra coisa qualquer, independentemente do que
está à nossa frente.
Acha que a
música que interpreta é fado ?
Para mim é, acho que quando o fado chega, não há como
deixá-lo sair. O exemplo que eu dou é o do “Avec le temps”
de Léo Férré, que gravei há pouco tempo. É fado é a nossa
música, está lá Portugal inteiro, independentemente de ser de
um anarquista francês.
O que é o
fado para si ?
É a vida, não destino, não acredito nada disso. O fado
é... as emoções que passam e que podem passar na música, que
é o veículo mais extraordinário para exteriorizar o que está
cá dentro.
Não acha
que há uma predominância de tristeza no fado ?
No fado de hoje, penso que não, foi de facto para uma
geração que viveu essa tristeza por dentro e por fora, que
infelizmente viveu quase sessenta anos enclausurada nessa tristeza
e nessa deprimência da anti-liberdade. Mas não o é para a minha
geração porque apesar de sermos o último país da Europa,
estamos integrados nela, não estou a falar em termos políticos
mas exclusivamente em termos sociais. Temos internet, temos
milhares de coisas que nos aproximam do mundo inteiro e, é disso
que nós temos de falar.
Presumimos
que os seus amigos de Almeirim não viam com os bons olhos a sua
ambição artística,
como começou ?
Achavam que era uma estupidez. Comecei por cantar um pedacinho
de uma música e aquilo devia fica por ali, isto em 1996. Em 1997,
conheci o Custódio (Castelo), e as coisa ganharam outra
dimensão. Nessa altura, quando me ouviam cantar fado, achavam
estranhíssimo, cantava naquelas festas de amigos, aparecia uma
viola e éramos quinze a cantar. Cantar fado era uma coisa
inconcebível para uma miúda que tinha vinte e poucos anos : que
horror, que coisa tão caduca ! E era, eu também considerava,
até o meu avô me ter oferecido o tal disco da Amália que fez
todo o sentido para mim.
Regressando
aos textos do álbum “Sensus”, tem alguma vontade de provocar
ou é marketing ?
Também...(risos) é óbvio que é intencional, a primeira
ideia não é intencional mas a reacção do público em relação
ao “Corpo iluminado” de David Mourão-Ferreira - o álbum
acabou por ter o mesmo título - despertou-me essa imagem: porque
não, ousar? Não é marketing, é de facto uma ousadia e eu
assumo cem por cento, foi também a vontade de mostrar uma parte
do fado que não existe, ou que não existia até aqui. Porque
não cantar o corpo? Porque
é que só tem que se cantar a família, a casinha branquinha com
a toalhinha aos quadradinhos e o caldinho verde ?
Tenho a certeza que o público mais jovem está muito mais
desperto para este tipo de poesia e de sonoridade. Não é mostrar
vulgaridade de um texto que fala do corpo ou da sensualidade. Há
textos de Camões, de Shakespeare, autores do século XII, do
século XXIII e trata-se de mostrar como é que a sexualidade e a
sensualidade se viveu e se vive hoje.
António
Cardoso
Janeiro 03
Tânia Lobo, o
rosto do programa "Comunidades" na RTPi
Podemos
comprovar através de uma rápida sondagem que todos elogiam a
apresentadora. Qual é o seu segredo ?
Agradeço
muito esses elogios. É um prazer saber que as pessoas gostam do
que faço e que quem lhes entra em casa todas as semanas é alguém
que recebem com carinho. Para se ser pivot
o essencial é saber comunicar com pessoas, e não ver a câmara
como uma máquina que está ali a filmar, mas sim alguém com quem
falamo
Tento ser simpática e ao mesmo tempo delicada e pouco agressiva
nas entrevistas e na forma como apresento certos assuntos, se bem
que às vezes é difícil dar notícias com “boa cara”, como
por exemplo quando os portugueses estão a passar por situações
complicadas, mas não podemos ser parciais
Nota-se
que domina os assuntos que aborda. Num programa recente, a Dra.
Maria José Stock, presidente do Instituto Camões
pareceu-nos perturbada com as suas questões, em nossa opinião
pertinentes. Não submete as questões aos convidados antes do
programa
Nunca faço
isso. Aliás é uma regra jornalística, nunca mostrar as
perguntas aos entrevistados. Claro que as pessoas sabem o assunto
sobre o qual vêm falar ao programa, mas é impossível e pouco ético
dizer-lhes o que lhes vamos perguntar. Não sei se a Dra. Maria
José Stock ficou perturbada, mas o essencial quando se está
sentada na cadeira a apresentar um programa é ter perguntas
preparadas e claro, conforme as respostas dadas, conseguir
direccionar a entrevista para onde ela tiver de ir. Dando uma
imagem, uma entrevista é como um rio, tem que se adaptar ao
percurso que toma, sem claro, esquecer o objectivo principal que
é passar pelos sítios certos, por vezes incómodos, mas que são
necessários por serem actuais e informativos
Já
algum convidado exigiu obter as questões ?
Já me aconteceu
perguntarem se podiam ter as perguntas, e aí dou uma ideia do
assunto, não as perguntas em si. Quando me “exigem” saber as
perguntas tenho uma reunião com a coordenadora do programa, a
Marta Jorge e decidimos juntas se fazemos isso ou não. Pode haver
casos em que sim, mas depende da importância do assunto. Por
exemplo, temos que entrevistar o Jacques Chirac e o gabinete de
imprensa pede-nos as perguntas. Vamos pensar, é uma questão a
considerar se for um assunto de muita importância para a
comunidade portuguesa
Quais
são os critérios de selecção das notícias e reportagens do "Comunidades"
?
Actualidade, assuntos que sejam próximos à comunidade portuguesa em
Portugal e no estrangeiro. Histórias de vida de pessoas que
actualmente residem fora do país ou que já regressaram
Gostaríamos
de ter imagens de mais países, mas a rede de correspondentes é
limitada e como é impossível estar em todos os sítios do mundo,
muitas vezes recorremos a telefonemas
Quais
são as principais fontes
A nossa rede
de correspondentes, os jornais feitos nas comunidades, portais com
notícias sobre os portugueses no estrangeiro, assuntos ligados à secretaria de estado das comunidades. Contactos com associações,
clubes e instituições nas comunidades portuguesas no mundo
No dia em que estavam em Portugal 21 órgãos de Comunicação Social das
Comunidades, foi convidado ao seu programa o administrador de uma
publicação para os emigrantes, que reside em Lisboa. Podemos
apurar que o convite para o programa foi feito no próprio dia de
emissão. (28 de Novembro
Porque não ter aproveitado a presença
destes medias das comunidades e convidar ao seu programa um
director de um jornal, por exemplo o da Austrália, que teve 52
horas de voo para participar nos "Encontros para a Participação",
organizados pela secretaria de Estado das Comunidades ?
Todos os convidados seriam bons convidados.
Decidimos escolher a pessoa em Lisboa porque era a mais facilmente
disponível
Os
correspondentes da RTP que se ocupam de França, estão baseados
em Bruxelas. Não
pensa que esse facto prejudica a informação deste país para
Portugal
Concentrar
os correspondentes em Bruxelas foi uma decisão da RTP. Os
correspondentes viajam cada vez que a notícia assim o exija.
Segundo
afirmou Nuno Santos, director adjunto da RTP, vai haver uma nova
grelha de programação na RTP Internacional a partir de
Fevereiro. Vamos continuar a ver o seu bonito rosto ?
Estou como
estagiária profissional até dia 4 de Janeiro de 2003 por isso não
sei se vou continuar a apresentar o “Comunidades”. Será uma
decisão da administração. Eu adorava.
Foi quase um ano de experiência e contacto com uma realidade que
eu não conhecia assim tão bem e é fantástico e muito
enriquecedor o contacto com os portugueses que vivem no
estrangeiro.
Novembro 02
Entrevista Dan
Inger
Dan a questão das pessoas é sempre a
mesma, como pronunciar Inguer, ou Inger, qual a origem deste nome
?
A resposta é simples, em português é mais fácil ler-se da
maneira como está escrito, principalmente quando se tem dúvidas
da origem da palavra.
Quanto à origem de Dan Inger, foi quando saí da tropa, fiz uma
actuação num restaurante cujo proprietário era um português, e
Daniel, não correspondia àquilo que eu cantava (Elvis, Johnny
Halliday, Eddy Michel e outros), sempre relacionado com o
“Blues”. Daí surgiu a ideia de abreviar Daniel em Dan e Inger
do inglês “cantor”.
Após alguns anos de galera, parece que
conseguiste finalmente atingir alguns dos teus objectivos,
sobretudo com este último trabalho ?
Penso que, a partir do momento em que comecei a cantar em
português, encontrei uma estrela mais adaptada ao meu percurso,
uma estrela mais gira que entrou no meu coração. Não posso
explicar o que senti, mas uma coisa é certa, houve efectivamente
uma mudança, mas sobretudo uma mudança positiva. Canto em
português mas num outro estilo musical ao qual não estamos
habituados. Reconheço que talvez tenha sido ligeiramente e
involuntariamente influenciado por Rui Veloso, não só a nível
musical, mas também pessoalmente.
Gravaste e produziste um primeiro álbum e
um segundo que foi gravado ao vivo com um produtor, mas os
resultados ficaram aparentemente aquém das expectativas...
O primeiro disco foi muito positivo para a minha carreira, o
segundo teve mais impacto. Nesse segundo álbum está incluída
uma canção do Rui Veloso que interpretei pela primeira vez e em
português, “Morena de Azul”. “Atlântico Blues”, este álbum
que foi agora editado, já era uma ideia antiga.
Ainda não tinha encontrado autores portugueses, como sabes nasci
em França e não me sinto com capacidade de escrever em português.
Quanto à música, não é um problema para mim faço o que gosto,
depois o público é que decide. Já tenho um público francês
que, recebeu muito bem este último trabalho em português, agora
vamos a ver como é que ele vai ser recebido em Portugal.
Os dois primeiros álbuns foram mais
destinados a um público francês, não ?
Não, é verdade que todos os temas estão gravados em francês,
salvo como já disse, um tema do Rui Veloso no segundo álbum. O
resto, para quem me conhece, sabe nos temas que escrevi há sempre
uma alusão a Portugal, às minhas origens e a um certo mal estar
em relação às minhas interrogações pois não sou francês nem
português. Penso que este álbum permitiu-me de me situar um
pouco mais.
O álbum “Atlântico Blues” está a
obter grande sucesso não só na comunidade portuguesa em França,
mas também no meio hispânico e francófono. E em Portugal ?
Vou brevemente para Portugal para efectuar diversos “Show
Case”, mas já estive em Portugal durante o período de férias,
e sinto-me feliz, porque segundo as informações que tenho, o álbum
está a ser bem recebido mesmo se existe aquela imagem negativa do
português do estrangeiro. Felizmente na altura em que estive fui
bem recebido, fui convidado a diversas rádios e actualmente já
estão agendadas várias entrevistas em diversos médias.
Este álbum corresponde ao teu estilo
musical habitual ?
Não, este álbum é para mim uma grande viagem, como fizeram
os nossos antepassados navegadores que levavam para o mundo, mas
também traziam entre outras coisas a Cultura.
Este álbum considero-o igualmente uma viagem e um encontro de
culturas.
Não é por acaso que neste álbum participam diversos convidados
de horizontes diferentes, os quais aproveito para saudar.
Esta entrevista foi concedida algumas horas
antes da passagem de Dan Inger no Club Med World, a convite da
Radio Latina.
Juntamente com Dan Inger, foram
também entrevistados alguns dos convidados que participaram no álbum
Atlântico Blues, tais como Ricardo Vilas, Jorge de Sousa, Manuel
da Fonseca e Patrick Caseiro.
Outros
nomes conhecidos deixaram as suas vozes gravadas neste álbum que
convidamos a descobrir.
Texto e fotos José Lopes
Outubro 02
Air Luxor para
Portugal, em Orly Sud
Desde o dia 10 de Setembro, os voos regulares
da Air Luxor com destino a Paris são servidos pelo Aeroporto de
Orly, terminal Sud.
Entrevistada pela Vida Lusa, Linda do Vale, a jovem directora da
companhia em França, refere que “Orly é o aeroporto com acesso
mais fácil para as comunidades portuguesas que habitam em Paris,
e que se concentram maioritariamente ao sul daquela cidade”.
A Air Luxor, voa regularmente entre Paris e Portugal desde
Dezembro passado, utilizando o terminal 9 do aeroporto Charles de
Gaulle, que segundo Linda do Vale “é geralmente assimilado aos
voos charter”.
Agora, a partir do Aeroporto de Orly, a companhia contará com três
rotações por dia entre Lisboa, Porto e a capital francesa. “Um
destes voos da rota Lisboa-Paris terá ligação directa ao
Funchal (para onde a Air Luxor já voa diariamente desde Abril
2001), sem que os passageiros tenham que sair do avião. É muito
importante para a comunidade madeirense, que dispõe assim duma
ligação diária Funchal-Paris e vice-versa”, referiu a responsável.
A partir de 27 de Outubro haverá igualmente um voo semanal (Sábados)
Faro/Paris/Faro, via Lisboa.
Linda do Vale disse à Vida Lusa que a Air
Luxor, “é uma companhia aérea Portuguesa com 14 anos de experiência
que está a evoluir no transporte aéreo para novas rotas e
destinos. Espera que esta mudança para Orly seja mais um passo na
sua estratégia de expansão, do agrado de Portugueses e Franceses
que habitualmente voam nesta sua linha regular”.
Linda do Vale volta à aviação comercial
Depois da Tap a Linda ocupou funções de
responsabilidade na Air Liberté nomeadamente promovendo a
companhia junto da comunidade portuguesa. Abriu uma agência de
viagens quando saiu e agora volta de novo à aviação comercial,
é um novo desafio ?
Sempre estive na aviação comercial, a agência de viagens
foi um acaso, foi apenas a consequência do despedimento colectivo
da Air Liberté. Serviu-me para conhecer o outro lado da barreira,
no entanto enquanto estive na Air Liberté a agência já existia.
Fui ver mais de perto mas, sempre na expectativa de voltar àquilo
que eu prefiro, a aviação comercial. Surgiu esta oportunidade e,
fizeram-me confiança para este desafio e vou tentar vencê-lo.
Poder-se-á dizer que a experiência
adquirida na venda ao retalho através da agência de viagens foi
frutífera para uma melhor compreensão da problemática deste
sector, por vezes ignorado pelas companhias ?
Sem dúvida, embora tenha de dizer que, quando exerci funções
nas companhias, as agências sempre tiveram o meu apoio e creio
que isso é reconhecido. Tentei sempre transmitir às direcções
gerais das quais dependia os problemas vividos pelas agências,
foram sempre ouvidas e procurei sempre encontrar soluções. É
natural que hoje tenha uma visão e uma sensibilidade mais
adequadas às realidades e possa por isso ser um porta-voz mais
eficiente deste sector.
A Air Luxor é uma Companhia de Aviação
Portuguesa criada em 14 de Dezembro de 1988 pela família Mirpuri.
A família Mirpuri foi uma das primeiras em Portugal a dispor
de uma pequena frota de aviões privados que utilizava nas suas
viagens particulares e de negócios, sobretudo em Portugal e
Espanha.
No final dos anos oitenta, com a liberalização do sector do
transporte aéreo na Europa, decidiu-se a transformar o
departamento de aviação privado da família numa Companhia Aérea,
que servisse também outros clientes. Como o objectivo era prestar
um serviço de transporte aéreo de elevada qualidade e
personalizado, a palavra-chave escolhida foi luxo e assim nasceu a
Air Luxor.
A Companhia cresceu ao longo dos anos, primeiro dentro da área da
aviação executiva, e depois com aviões de grande porte. O
primeiro avião a jacto, um Citation I, chegou à Companhia no início
dos anos 90 e veio substituir os aviões a hélice utilizados até
então. A frota de “Jactos Executivos” foi sendo
progressivamente aumentada e actualizada e hoje a Air Luxor opera
os mais recentes modelos dos maiores construtores mundiais.
A sua frota inclui os aviões Falcon 2000, Falcon 900, Citation
Excel e Citation X, que podem voar não só dentro da Europa como
para qualquer parte do mundo.
Em 1997 a Air Luxor inicia a operação de aviões de grande
porte. Os primeiros modelos voados foram o Lockheed Tristar e o
Boeing 757-200, especialmente vocacionados para voos de longo
curso. Presentemente a Air Luxor opera sobretudo aviões Airbus da
última geração e de tecnologia “fly-by-wire”, o Airbus A320
para o médio curso e o Airbus A330 para o longo curso, este último
com uma capacidade para 355 passageiros e capaz de voar mais de 12
000 km sem abastecer.
A Air Luxor posiciona-se hoje como uma Companhia Aérea de referência
na Europa Comunitária, com bases em Lisboa e Paris, voando para
uma diversidade de destinos de médio e longo curso, tanto em voos
regulares como em voos charter. Os principais mercados são
Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Bélgica, Brasil, Tailândia,
Estados Unidos, Cuba e República Dominicana.
Para além do seu negócio principal, o transporte aéreo de
passageiros e carga, a Air Luxor desenvolveu ao longo da última década
uma série de negócios derivados, como a ambulância aérea, a
carga aérea, consultoria e gestão de jactos executivos, manutenção
de aviões e ainda o desenvolvimento de terminais aeroportuários
privados em vários aeroportos, sobretudo na Ásia, Europa e África,
especializados na assistência a “Jactos Executivos”.
A Air
Luxor é ainda proprietária de um dos principais “Tour
Operators” em Portugal, a Air Luxor Tours, especializado na criação
e venda de pacotes turísticos para os destinos Air Luxor de médio
e longo curso.
Maio 02
Entrevista com Jorge Ruivo
“Portugais et population
d’origine portugaise” Um livro de Jorge Ruivo que
apresenta e analisa a
imigração portuguesa em França desde os anos 60 até hoje, com
base nos recenseamentos
e estudos estatísticos.
Biografia: Né le 21 mars 1967 à Cartaria - au Portugal -
il est arrivé en France très jeune (à l’âge de deux ans), et
y a fait toute sa scolarité. A l’issu de son parcours
universitaire il obtient un diplôme de Maîtrise d’économie
internationale à l’Université Panthéon-Sorbonne à Paris et
un diplôme de troisième cycle d’économie européenne à
l’Université Paris-Nord. Préoccupé par l’image du Portugal
et des portugais en France, il s’implique dans un projet
associatif qui lui permet d’agir afin d’essayer de commencer
à faire évoluer les clichés. Parallèlement à son activité
professionnelle il reste toujours attentif aux activités et à
l’évolution de la communauté portugaise de France.
Qual é o público-alvo do seu livro ?
Apesar do livro ter um grande número de dados estatísticos,
este não é um livro científico. O livro pretende fazer um
apanhado da evolução da emigração portuguesa durante os últimos
quarenta anos isto sob o aspecto estatístico (censos, localização,
origens, vida social e profissional,...) analisando os dados sobre
um outro ponto de vista salientando algumas particularidades próprias
à comunidade portuguesa de França. Sendo assim, os primeiros
interessados pelo livro são, sem dúvidas, os portugueses e
descendentes de Portugueses em França. Os emigrantes portugueses,
em geral, não tem forçosamente uma visão global da situação
da comunidade neste país. O livro permite saber que em geral o
emigrante português é cada vez mais proprietário da sua habitação,
que as segundas gerações fizeram poucos estudos mas que
conseguiram subir um pouco na escala social, que apesar de existir
ainda fortes ligações com Portugal os jovens casam cada vez mais
com franceses(as), que os emigrantes de França continuam a ser a
comunidade que mais transfere dinheiro para Portugal,... O livro,
segundo algumas informações, também interessa franceses que tem
um bom relacionamento com os portugueses de França e que desejam
obter uma importação mais genérica.
Qual é o objectivo do autor ?
Não foi apenas um. Foram vários. Um deles foi de realizar um
documento que nunca tinha sido feito sob esta forma. Também foi
para escrever sobre a comunidade portuguesa de França sob ponto
de vista digamos mais “positivo” do que o que tinha sido feito
até hoje. A imagem que tem, ainda hoje, a primeira geração
presente em França continua de ser a do marido que trabalha na
construção civil e a esposa na limpeza de casa. Mas ninguém
fala do que esse casal conseguiu construir em França à força de
muito trabalho e de uma coragem fora do comum (salários, casa em
França, casa em Portugal...). Será que os franceses conhecem
esta realidade ? Se a conhecessem as coisas provavelmente mudariam
“um pouco”. Fazer evoluir as mentalidades é um trabalho de
fundo de necessita muito tempo, muito trabalho e a boa vontade ...
de todos nós !
Como e quem financiou a edição ?
A edição não teve nenhum financiamento. Foi apenas um
contrato assinado com a editora que, após ter lido o trabalho,
aceitou de publicar o livro tomando a seu cargo o risco
financeiro.
Quais foram as principais fontes de referência
?
As fontes principais francesas de estatística foram os censos
do INSEE (Instituto Nacional de Estatística Francês) e o INED
(Instituto Nacional de Demografia Francês) em particular o estudo
MGIS (Mobilité Géographique et Insertion Sociale) publicado em
1995 que foi um estudo que incluía muitos pormenores sobre as
comunidades estrangeiras radicadas em França. A fonte estatística
portuguesa foi o INE - Instituto Nacional de Estatística. Foram,
naturalmente, utilizados uma série de documentos e livros tanto
de autores franceses como portugueses.
Principais dificuldades para obter informação
?
Não tive dificuldades particulares em obter essas informações
devido, principalmente, a um bom contacto no INSEE.
Pensa que as mesmas conclusões se podem
aplicar a outras comunidades portuguesas residentes noutros países
(diferenças Europa/América do Norte e Sul/África) ?
Não. Se bem que a diminuição do número de casos de emigração
é uma realidade para todos os países que acolhem os emigrantes
portugueses, a emigração portuguesa parece ter características
bastante diferentes consoante os país de destino. É me difícil
falar de comparar com outros países visto que não foi um tema
desenvolvido no livro. No entanto, penso que se observamos a
emigração norte-americana e a europeia, podemos distinguir
alguns pontos de divergência entre outros a concentração (mais
concentrados na América mais dispersos na Europa) ou a ligação
a Portugal (Viagens a Portugal mais frequentes para os emigrantes
portugueses da Europa muito menos para os da América).
Que se pode fazer - além do seu livro -
para alterarem os “clichés” ?
Como disse, é um trabalho de fundo de demora muito tempo mas
mais que tudo necessita do apoio de todos. Como todos sabem a
criticar por criticar é fácil e sem inte-resse. Seria, sem dúvida,
muito mais construtivo criticar para melhorar. Mas o melhor seria
de apoiar para melhorar. Apoiar as iniciativas que dão voz à
nossa comunidade. Aquelas que contribuem corrigir esses “clichés”
como : Divulgar os casos de sucesso na comunidade quer em termos
pessoais, profissionais, sociais ou culturais. Naturalmente isto
é, por parte, da responsabilidade da imprensa e dos diversos
meios de comunicação (rádio, Internet,..) mas também de
algumas personalidades públicas que tem impacto junto da
comunidade francesa civil ou política. É necessário alguma
solidariedade entre todos aqueles que tem capacidade de comunicação
par que todos nós possamos usufruir duma melhor imagem.
A.C.
Março 02
Entrevista com
Mariana Otero
A primeira vez que li o nome de Mariana Otero
foi através de um artigo num jornal francês que destacava o belíssimo
trabalho de realização dum filme documentário sobre a televisão
comercial e neste caso a SIC do ex. Primeiro-ministro, Pinto
Balsemão.O filme passava no canal ARTE. Gravei e, ainda há pouco
tempo, para convencer um conterrâneo reticente da pobreza da
televisão portuguesa lhe fiz descobrir este filme que tornou
Mariana Otero famosa e reconhecida como realizadora de talento.
Mariana Otero é de origem espanhola, fala português porque viveu
cinco anos em Portugal e não esconde que tem grande carinho pelo
nosso país e pelos portugueses.Soubemos que estava a preparar um
filme sobre um casamento luso-francês. Quisemos saber mais e marcámos
entrevista num café em Paris.
Un nouveau projet avec le Portugal, de
quoi s’agit-il et qui le finance ?
En effet, c’est un filme de 52 minutes pour la télévision,
il y a déjà un financement portugais et, en ce qui concerne la télévision
française, ce sera une télévision câblée. Plus tard, on
pourra peut-être passer à une télévision nationale. En ce qui
concerne le Portugal c’est la télévision publique et l’Etat
qui subventionnent le filme.
Donc 50/50 entre le Portugal et la France
?
Oui, c’est l’idée, ce n’est pas fini en ce qui concerne
la production, mais en gros on prévoit que cela fera du 50/50. On
peut démarrer, il n’y a pas de problème avec le financement
portugais. L’idée est de raconter des noces entre un français
e une lusodescendante portugaise ou réciproquement, dont le
mariage se ferait au Portugal. Ce qui nous intéresse ce sont des
français qui descendent au Portugal à l’occasion du mariage,
qui rencontrent et découvrent le pays à travers la famille
portugaise, les préparatifs des noces… On voudrait tout suivre,
les préparatifs, avec tout ce que cela comporte : le choix et la
nationalité des chanteurs, le rite à l’église qui n’est pas
forcement le même ici et la bas, comment ils vont organiser tout
ça, etc.Nous voudrions les suivre depuis le départ de la famille
française et de la famille portugaise au Portugal, et les suivre
la bas, suivre la rencontre des deux familles.
Vous cherchez la confrontation des
coutumes ?
Confrontation, non pas forcement de la confrontation, je ne
pense pas qu’il y a beaucoup de différences entre les Portugais
et les Français. Il y des choses similaires, enfin, les Français
ont quand-même des tas de clichés sur le Portugal donc, c’est
intéressant de voir comment ils réagissent. L’image du
Portugal a énormément changé en quinze ans, il y a des choses
qu’on n’a même pas ici, je prends un exemple :
l’autoroute, t’as ta carte c’est très rapide, en
France tu t’arrêtes pour prendre le ticket, puis tu t’arrêtes
je ne sais pas combien de fois pour payer.
Vous partez déjà avec une idée toute
faite !…
Non, c’est simplement une image qu’on a mais il y a des
contrastes très
forts au Portugal. Parfois on voit des paysans qui travaillent
encore avec des ânes etc., et simultanément on voit des trucs
hyper modernes, j’ai parlé de l’autoroute, mais il y a
d’autres choses qui ont énormément changé. Cette image, les
Français ne peuvent pas l’avoir d’ici et un mariage c’est
une occasion de voir deux univers qui se rencontrent.
Comment comptez-vous faire ?
On commencera avec le mariage civil, qui en général se fait
quelques mois avant, puis on suivra toute la préparation.
Souvent, les familles font cela ensemble. On ira jusqu’aux noces
où la, il y aura vraiment la rencontre des deux familles et des
deux cultures.
En fait, votre idée c’est de montrer
l’erreur des clichés à travers ce filme…
Oui, c’est cela, voir un peu où en est l’intégration. La
communauté portugaise est quand même très bien intégré, les
gens ont évolué. C’est intéressant de voir leur trajet, de
les retrouver au Portugal dans leur village où les parents ou les
grands-parents sont restés. Voir l’histoire de la famille
portugaise à travers le mariage puisque tout le monde se
retrouve, toutes les générations à la fois, c’est une
dimension un peu historique.
Ce sera un peu romancé ou plutôt
documentaire ?
Ce sera un documentaire, ce qu’on appelle le cinéma direct,
c’est-à-dire vraiment l’idée de filmer la vie comme elle
est. Il n’y a pas d’interviews, on filme plutôt le gens qui
se réunissent pour discuter du mariage et de la préparation.
Nous filmerons la fête, les gens qui parlent, les gens qui vivent
leur vie. Nous sommes une toute petite équipe, il y aura juste
quelqu’un à l’image, la réalisatrice (moi), deux pour le
son, une petite caméra, une perche, vraiment un tournage simple,
glamour. Il n’y aura pas d’éclairage, enfin, vraiment comme
si on tournait un filme de famille, sauf que ce ne sera évidemment
pas le cas, on va construire.
Est-ce que vous allez évoquer aussi la
difficulté de la réintégration des portugais au Portugal ?
Cela peut venir au cours des différents événements. Par
exemple, la façon dont la famille est accueillie dans le village,
dans les relations avec les autres, cela peut venir à
l’occasion du filme mais on ne va pas le provoquer. Si on voit
effectivement que la famille est mise un peu de côté, s’il y a
des réactions particulières au village, on peut filmer
effectivement.
Connaissez-vous des exemples de couples
mixtes ?
Moi-même, je vis en couple avec un portugais, je suis française
d’origine espagnole, j’ai toujours vécu en France, je vis
avec un portugais, on n’est pas marié mais c’est pareil. Je
suis parti cinq ans pour vivre avec lui au Portugal, maintenant
c’est lui qui est parti pour venir vivre ici.
On vous a découverte il y a quelques années
au cours d’une émission diffusée sur la chaîne “ARTE”, un
documentaire que vous avez réalisé sur la télévision
portugaise “SIC”, on peut en parler ?
Oui, oui bien-sûr.
Cela n’a pas été organisé de manière
à provoquer des réactions polémiques ?
C’est vrai que cela a été un peu mouvementé après filme,
mais organisé comment cela, les scènes que j’ai filmée ?
Ce sont des questions que peuvent se poser
ceux qui connaissant Emídio Rangel, le directeur de SIC de l’époque.
C’est une personne très compétente dans sa profession, qui a
un sens du marketing très développé et certains prétendent
qu’il voulait provoquer des réactions violentes pour faire
parler de “sa chaîne”.
C’est possible, en tout cas, à moi il ne m’a rien dit.
Quand je suis allée le voir pour lui présenter le projet en
disant que je voulais faire un filme sur une télévision
commerciale, et montrer comment cela fonctionnait, les rapports
entre les gens, les programmes etc., il m’a dit, “pas de problème,
je suis tout à fait d’accord, allez’ y”. Après j’ai eu
le temps, j’ai pu repérer le temps que je voulait, il y a eu le
tournage pendant deux ou trois mois et je n’ai eu aucun problème.
Tout à fait libre ?
Tout à fait libre, comme je voulais sauf une fois, une scène
m’a été interdite car ils discutaient d’un nouveau programme
et ils ne voulaient pas que la concurrence soit informée. C’est
la seule contrainte à part évidemment les réunions de Conseil
d’Administration.
Quand Emídio Rangel dit qu’il achète
des programmes pour insérer dans la publicité, vous n’avez pas
l’impression qu’il cherche à faire de l’effet, avec ce
genre de provocation ?
Il ne le dit pas ainsi…
Oui, peut-être d’une autre manière
mais c’est ainsi que les gens dont moi-même l’ont interprété.
Vous n’avez jamais eu l’impression d’avoir été manipulé ?
(Rires) Quand il a vu le film, il n’était pas mécontent,
toutefois après les réactions que cela a provoqué il ne
semblait pas ravi. Il a précisé qu’il n’était pas
d’accord avec le film.
Il ne pouvait avoir de l’impact que
s’il manifestait son profond désaccord…
Je ne pense pas avoir été victime de manipulations de la
part de qui que ce soit. La télévision commerciale est tellement
dans son univers qu’il ne s’est peut-être pas rendu compte de
l’impact que cela pourrait avoir de montrer cette réalité.
Ce nouveau projet c’est pour le mois
d’août ?
Oui, on cherche un couple mixte qui se marie au mois d’août
au Portugal. On voudrait les suivre, avec une caméra. On s’intègre
dans le décor, sachant qu’on est souvent la, au moment de la préparation,
on est vraiment souvent avec eux ce qui facilite les contacts. Les
gens s’habituent peu à peu à la caméra, se décontractent
davantage, sont plus à l’aise et ils sont mieux à l’image.
Si on vient que de temps en temps, les gens restent un peu coincés.
Est-ce qu’il y aura un casting ?
En principe non, on prend l’histoire telle-quelle, sauf si
vraiment on trouve plusieurs candidats, dans ce cas on sera obligé
effectivement de faire une sélection, mais nous n’avons aucun
critère concernant les candidats.
António
Cardoso
Dezembro
01
"Lua
Vistà", novo nome para uma discoteca antiga
Marcámos
entrevista com o Senhor Antunes, proprietário de uma célebre discoteca
de la Queue-en-Brie, Val de Marne, região de Paris.
A
discoteca “Cohyba”, era bem conhecida dos nossos compatriotas, agora
tem um novo nome, “Lua Vistà”. Não é um pouco confuso para a
clientela ?
Efectivamente
pode parecer confuso mas não houve mudança de proprietários.
Fizemos
simplesmente trabalhos de restauro na segunda sala, renovámo-la
completamente.
Tive
a ideia de criar um céu de luas e estrelas em fibra óptica, e ao mesmo
tempo mudar de nome, um nome que corresponde mais a esta nova decoração.
Lua Vistà é um nome mais latino. A empresa continua a ser a mesma, é
uma das mais antigas empresas da noite em França, foi criada em Maio de
1990.
Esta
discoteca foi também conhecida com o nome de “Tcha-Tcha-Tcha” cujo
proprietário era Toni Apolinario ?
Exactamente,
eu comprei ao Toni, e desde então não voltou a mudar de proprietários,
a sociedade continua a ser a mesma.
Aparentemente,
a mudança de nome de “Cohyba” para “Lua Vistà” não foi só
devido à mudança da decoração ?
De
facto, “Cohyba” foi um nome inspirado por uma das viagens que fiz a
Cuba, e lembrei-me de baptizar a discoteca com esse nome. Ora acontece
que, “Cohyba” é uma marca de tabaco, que me contactou,
informando-me que só podia vender aquela marca, e além disso teria que
pagar uma importância relativamente elevada, sobre direitos de utilização
da marca.
Como
renovámos a discoteca, decidimos mudar simplesmente de nome, e como já
disse, atribuímo-lhe um nome mais português, sobretudo mais latino.
Os
vossos clientes são jovens, principalmente?
Temos
duas salas e um espaço VIP, completamente privado, com capacidade para
60 pessoas, um espaço que pode ser reservado para uma festa ou outro
evento com bar privativo.
A
sala “Lua Vistà”, está efectivamente destinada aos mais jovens,
mas ao lado temos a sala “Fiesta”, onde se passa mais música
portuguesa e latino-americana. Essa sala, é mais frequentada por
pessoas a partir de 35/40 anos, bem que as pessoas possam transitar de
uma sala para a outra sem problema.
O
D'J Valdo é bastante conhecido, qual é a função dele?
O
Valdo já “faz parte dos móveis da casa”, anima a sala
“Fiesta”, porque é um género de música que ele gosta, e é uma
das salas que começa a ter um grande sucesso, assim como uma clientela
própria.
Pode-se
ver pelo programa, que todas as semanas há um tema diferente. É uma
programação anual ?
Sim,
temos um programa diferente, todas as sextas-feiras, desde o artista ao
vivo até às noites a tema. Temos que variar, para não cair em
monotonias, e não podemos esquecer que as pessoas querem sempre coisas
novas, e diferentes.
Há
bastantes discotecas portuguesas, sente a concorrência ?
Sim,
mas nós temos uma discoteca de referência, e cada qual tenta inovar
para atraír a clientela. Quem visita a casa diz que, com respeito à
decoração, é a melhor, neste momento. Quem conheceu o Tcha-Tcha-Tcha,
que citou, não tem nada a ver.
As
tendências também não são as mesmas...
Isso
é uma realidade !
Quais
são os dias de abertura da discoteca ?
Sextas-feiras,
sábados e vésperas de dias feriados.
Quais
são os critérios de ingresso na discoteca ?
Tentamos
deixar entrar toda a gente na discoteca, as meninas têm entrada grátis
até a meia-noite, claro que a nossa clientela é mais portuguesa ou de
origem portuguesa, mas também temos clientes franceses.
Têm
aqui um serviço de segurança bastante importante, e rigoroso. Nunca
tiveram problemas com a polícia ou com a municipalidade ?
Não,
pelo contrário, temos amigos, mas é como em todas as casas, não pode
haver barulhos todos os dias, não temos problemas nem com a polícia,
nem com a municipalidade. Quanto à segurança, é verdade que temos um
serviço eficiente porque desde o início, tentei impor um pouco mais de
rigor e ser restrito a nível da clientela. Por exemplo, se vier uma
pessoa que não tenha boa apresentação, não é fácil entrar, se
cheirar a álcool é ainda mais difícil. A partir das duas horas da
manhã, se vier sozinho também é difícil. Entendo que deve haver um
certo rigor para se ter uma casa correcta, e como lidamos com pessoas
correctas, se por um motivo qualquer surge um problema, tentamos resolvê-lo
e as pessoas compreendem que se o sistema é assim, é para que toda a
gente se possa divertir e sentir à vontade.
Ainda
há bem pouco tempo vieram a público vários problemas de discriminação
em discotecas, já tiveram percalços desse género?
Não,
felizmente nunca tivemos esse tipo de problema, mas na nossa casa também
não podemos receber três mil pessoas, e, tudo o que podemos dizer, é
que a nossa casa na origem está vocacionada para um público português.
Se
vier aí um português com amigos africanos, ou de outras origens, qual
é a vossa posição?
São
recebidos como todos os clientes da casa, mas se vier um grupo de
pessoas de outras origens, que nos faça pensar que o ambiente não lhes
agrade, tentamos explicar, fazendo compreender qual é o público da
casa. Geralmente, as pessoas bem intencionadas, compreendem.
José
Lopes
.
Junho
01
Filho
de peixe sabe nadar
Anthony
Michael tem 16 anos, nasceu em França e vive actualmente em Portugal.
Fomos
encontrá-lo no Cantinho dos Artistas, o Bar Dancing de Vasco Jorge, na
Praia da Rocha.
Anthony,
se te dissermos : Vasco Jorge. O que significa para ti ?
Anthony
Michael : (Risos) A autoridade parental !
Agora
a sério, Vasco Jorge é o meu pai, alguém por quem sinto muito
orgulho.
Foi
o facto de teres um pai cantor que te fez ir para o mundo da música ?
Penso
que sim, embora até há pouco tempo atrás não me passasse pela cabeça,
cantar, mas a música sempre foi uma das minhas paixões. Já em pequeno
tinha a mania de agarrar em qualquer coisa para fazer de instrumento,
uma raquete a fazer de guitarra, qualquer coisa servia para tocar
bateria. Enfim acho que já estava predestinado.
Como
é que foi a primeira vez que cantaste em público ?
Um
drama ! Pus uma sala inteira a chorar. Tudo começou o ano passado, no
dia do pai. Eu já tinha tocado piano e sintetisador em público, mas
cantar nem sonhava. Nesse dia quis-lhe fazer uma surpresa. O meu pai
tinha gravado há uns anos uma canção que se chama “Meu pai meu herói,
meu amigo”, e eu achei que cantá-la, seria para ele uma grande
homenagem. O resultado foi surpreendente e comovente. Chorou o pai, o
filho e os clientes. A partir daí as pessoas começaram a pedir-me para
cantar e até agora tem sido assim.
Há
pouco dizias que a música era uma das tuas paixões. Qual é a outra ?
O
futebol ! Isto faz-me lembrar uma velha canção que se chamava “eu
tenho dois amores”, bem, contando a namorada tenho três ! É um
grande problema porque jogo futebol, e não consigo de maneira nenhuma
escolher entre a música e a bola.
Mas
além disso continuas a estudar. Como é que concilias isso tudo ?
O
mais difícil são os jogos, quando na véspera estou a tocar até as 5h
da manhã e tenho que me levantar às 8h para ir jogar. Os meus pais até
se passam ! Para a escola não tenho esse problema, até porque
levanta-se logo a voz da “autoridade parental” a dizer : “É tudo
muito bonito, mas há prioridades !” Durante a semana só trabalho à
quarta-feira, porque no dia seguinte entro à 1h da tarde.
Talvez
os nossos leitores não saibam, que tu começaste a jogar nos Lusitanos
de Saint-Maur. Saudades desse tempo ?
Muitas
!! Gostei muito de jogar nos Lusitanos. Tive um excelente treinador, o
Jorge Plácido. Aproveito para enviar daqui o meu abraço. Foi uma boa
escola e no fundo uma referência, porque quando vim para cá entrei
logo no Portimonense.
Voltemos
à música. Actuas habitualmente no Cantinho dos Artistas, já tiveste
oportunidade de actuar noutros locais ?
Já
sim. Até já ganhei uma taça. (Não é só no futebol que se ganham taças).
Já animei a semana gastronómica aqui no Algarve, o convívio de Natal
dos idosos, foi uma experiência muito engraçada e tenho feito algumas
animações. Infelizmente tenho recusado alguns convites, porque
enquanto estiver a estudar não posso fazer tudo.
Como
é que os teus pais reagem a toda essa actividade ?
Mal
! Todos os fins de semana é uma guerra lá em casa. Mas só
“refilam” no Sábado à noite, quando eu digo que tenho que me
levantar às 8h da manhã. Depois quando chego a casa e digo que marquei
um golo ou dois, dão-me um grande abraço e mandam-me dormir.
Numa
coisa estamos de acordo, é que o que muitas vezes falta aos jovens da
minha idade, é actividade.
Seres
filho de um cantor é uma vantagem ou um inconveniente ?
Só
pode ser um inconveniente. Qualquer músico que vá ao bar, pode fazer
as “fífias” que quiser, que o meu pai não vai lá discutir com
ele. Se for eu, é um problema.
Além
do mais considero que é uma grande responsabilidade, porque as pessoas
vão ali para ouvir o Vasco Jorge, sabendo que eu sou filho, vão
comparar e prestar mais atenção. Por tudo isso acho que é um
inconveniente.
Mas
ser filho do Vasco Jorge tem uma grande vantagem, porque é um pai
amigo, chato como todos os pais, mas um Pai Herói.
Gravar
um disco é uma ideia que te seduz ?
Por
enquanto não. Não quero para já lançar-me num mundo que me parece
muito viciado. Agora estão na moda os Boys Band e não é exactamente
isso que eu quero fazer. Vou esperar que a moda passe. De qualquer modo,
como tenho um bom conselheiro, quando chegar o momento, logo se vê.
Estás
em Portugal há três anos, que balanço fazes ?
Muito
positivo. Gosto de Portugal, vivo ao pé do mar, tenho mais liberdade,
é “bué da fixe”. Mas tenho muitas saudades de Paris, que é a
minha terra.
Que
mensagem gostavas de deixar aqui aos jovens da tua idade ?
Para
já que procurem alguma actividade. Enquanto estamos ocupados não
pensamos em fazer asneiras. Que é bom viver sem drogas, sem tabaco, sem
álcool e é tão bom namorar, dançar, fazer desporto etc.
Aqui
fica esta mensagem de um jovem de 16 anos. Futuro músico, futuro
futebolista, quem sabe ?
Isso
não importa. O que importa mesmo é que seja um HOMEM no futuro.
Abril
01
Entrevista
a Alex
Francisco
António Alexandre Rodrigues, conhecido por Alex, nascido em Portimão,
iniciou a sua carreira artística nos anos 60. Actuou pela primeira vez
em África, Moçambique, Angola, África do Sul entre outros países. Em
Portugal, participou na revista “Vinho Novo”, no teatro ABC e começou
em seguida uma longa trajectória no estrangeiro desde a Europa ao
Brasil até ao Japão, onde ganhou o primeiro prémio do Festival
Internacional de Sappóro de 1978 com a canção, “Mitchió, Mitchió”.
Em digressão pela Europa para a apresentação do seu novo álbum,
“Segredos”, aproveitámos para entrevistar este simpático cantor.
Vida
Lusa : - Já não vimos o Alex aqui por França há volta de 15 anos,
que tem feito ?
Alex
: - Vim de África para França há uns 30 anos com os meus pais. A
minha pátria é Portugal mas sou filho do mundo. Voltei quinze anos
depois a França mais para matar saudades e para mostrar o meu novo
trabalho. A minha vida tem sido feita mais com base na América, Canadá
e obviamente Portugal.
O
continente americano é bastante atractivo para os artistas pois tem
também muita imigração oriunda de Portugal…
Sim
principalmente dos Açores e da Madeira, menos do continente.
Como
se define o Alex enquanto artista ?
Eu
canto tudo e, como sou autor compositor de todos os meus trabalhos, já
são 46 álbuns, só em Portugal, desde que haja uma guitarra canto
fado, canto técno, dance musique, folclore, rap ; tudo.
Um
cantor generalista ?
Sim,
vem-me uma ideia à cabeça, faço o poema, a música, a orquestração
e por isso nos meus trabalhos é sempre difícil escolher uma canção
para pôr nos topes porque as pessoas têm gostos diversificados e eu
tento propor-lhes um pouco de tudo.
Geralmente,
cada cantor tem um estilo próprio, você não se pode catalogar ?
Não,
eu não tenho estílo específico, canto em português, inglês, francês,
italiano, espanhol, etc. Gravo em português, na América gravei canções
em inglês e também gravei três temas em francês há uns 20 anos
assim como um tema muito bonito chamado, “je ne peux pas” que eu vou
refazer agora no Natal, no meu próximo disco.
Considera-se
um cantor português ?
Considero-me
um cantor do mundo, sou Português de nascença, sou algarvio de Portimão,
mas sou um cantor que nunca sabe o que vai fazer num palco pois
adapto-me ao público. Se estiver numa aldeia, vou interpretar música
dita “pimba” fazer aquelas brincadeiras que as pessoas gostam. Como
é lógico, se estiver num casino, ou num espectáculo com maior dimensão,
vou adequar o meu estilo de música.
O
facto de viajar pelo mundo inteiro nomeadamente na América, permite-lhe
encontrar comunidades portuguesas com modos de vida diferentes, qual é
a sua opinião sobre os artistas que se produzem habitualmente para este
público e como tem sentido as eventuais diferenças entre essas
comunidades.
Na
América, o respeito pelo emigrante é muito grande, é gente muito
educada e tudo o que é Português, eles adoram. No Canadá, é
exactamente a mesma coisa, além disso há uma colónia muito importante
de gente maravilhosa de África, pessoas que me conheceram há 40 anos
em África e que contribuíram a que eu tivesse salas maravilhosas.
No
meu tempo, para se ser artista tinha de se fazer um exame na Emissora
Nacional, tínhamos de prestar provas à frente de uma orquestra de 50,
60 músicos, um júri de três maestros, e, passávamos ou não. Hoje
quem tem dinheiro faz uma cassete, torna-se artista. Portanto há muita
gente que não representa a nossa música com condições. É claro que
há nos dias de hoje uma maior abertura para o artista, seja ele qual
for, desde que tenha um bocadinho de nível, que saiba interpretar. Eu não
vendo música, eu gasto-me, porque sinto aquilo que dou e costumo dizer
que cada interpretação minha tira-me meio quilo de cima do corpo, pois
gosto do que faço. Agora há aqueles que querem entrar no meio à força,
vivem uns tempos disso e desaparecem, ora nós, já cá estamos há 40
anos.
E
a diferença entre os emigrantes da primeira geração e os
lusodescendentes ?
O
que eu acho interessante é que a nova geração continua a gostar muito
de fado, é impressionante. Parece incrível, fado tornou a abrir
portas. Os jovens gostam evidentemente da música moderna mas o fado está
sempre presente. Os antigos, é a saudade, aquela ternura da terra onde
nasceram mas a juventude que já nasceu fora de Portugal, que sejam
Americanos ou Franceses que por vezes nem sequer querem ir de férias a
Portugal continuam a gostar de fado. Mas Portugal evoluiu muito nestes
últimos vinte anos e acredite que a nossa música, hoje está muito bem
defendida. Há trabalho para toda a gente e, eu felizmente não me
queixo.
O
Alex já tem uma pontinha de pronuncia americana…
É
normal, estou lá há muitos anos e o inglês é a minha segunda língua
depois do português e em seguida o francês, no qual como costumo dizer
: “desembrulho-me pas mal”.
Disse
que gravou 46 álbuns em português, 68 na totalidade, em 42 anos de
estrada, o que deixa adivinhar que já não é propriamente um jovem…
A
idade não me assusta porque sou uma pessoa que no palco não tem idade.
Estou duas horas num palco a dar a música que o público quiser, a dançar,
pular sem qualquer problema. Eu tenho um grupo de bailarinos em Portugal
que acompanha o meu espectáculo mais as minhas duas filhas. Eles ao fim
de meia hora estão cansados e eu estou lá a dar… E, venha o segundo
espectáculo se for preciso.
Fevereiro
01
Entrevista
a Carla Sofia
Carla
Sofia pode ser considerada com uma das mascotes da Vida Lusa. Foi de
facto o seu bonito rosto que ilustrou a capa do primeiro número em
Dezembro de 1997.
Desde
aí, Carla Sofia tem estado quase permanentemente em Portugal, onde
continuou no teatro e gravou um novo álbum que saiu no ano passado. De
volta “por uns tempos a Paris”, Sofia, - nome pelo qual muitos
portugueses a conhecem - concedeu-nos uma nova entrevista.
Vida
Lusa : - Fez em Dezembro três anos que foste entrevistada pela Vida
Lusa. Que fizeste durante esse período ?
Carla
Sofia : - Continuei as actuações junto da Comunidade Portuguesa, em
França e noutros países, principalmente na Europa. Num desses espectáculos
em França, vieram ter comigo e propuseram-me para gravar um álbum em
Portugal. Como era o meu principal objectivo, aceitei e fui para
Portugal novamente. O álbum saiu há alguns meses, com letra e música
de Ricardo..., de Tony Carreira e uma versão de uma canção de Jean
Jacques Goldmann. Não tem músicas minhas, é um álbum de Pope, Rock e
música country, que tive de estudar para tentar ser diferente do que
era habitual na Carla Sofia. O nome foi alterado de Carla Sofia, para só
Sofia e também a maneira de interpretar assim como o visual.
Qual
é a razão da alteração do nome, do estilo e da interpretação ? A
produção desejava cortar completamente com o teu passado de artista e
apresentar-te como uma novidade ?
Sim,
não queriam que se falasse na Carla Sofia, mas sim de uma nova artista.
Mandaram-me cortar o cabelo e enviaram-me a uma estilista. Teve de haver
também um investimento da minha parte, do ponto de vista físico, tive
que emagrecer. É verdade que hoje em dia, o mercado está de tal
maneira saturado que não nos podemos limitar simplesmente a cantar e
ter um rosto bonito. Temos de ser esbeltos, elegantes etc. Portanto tive
que perder uns quilos para que fosse também um investimento de ambas as
partes.
No
entanto constatei que durante as muitas entrevistas que dei um pouco por
todo o país, que, as pessoas conheciam o meu trabalho anterior e tinham
os meus discos, portanto nesse aspecto a mudança de nome e outras
coisas, não tiveram qualquer influência.
Como
falas de investimentos, quem os fez do lado da produção e que tipo de
contrato te foi proposto ?
A
produção foi da Carreira Produções e ocupou-se dessa parte do
visual, e a editora foi a Espacial que também ajudou bastante nessa
parte, nomeadamente fornecendo roupas e noutros aspectos. No início
entre a produção e a editora, eles ocupavam-se disso tudo, mas a certa
altura, julguei que algumas coisas não tinham a ver comigo e comecei eu
própria a cuidar da minha imagem em relação directa com a Editora.
Carreira
Produções, é a empresa do Tony Carreira, essa mudança reflecte que
alguma coisa falhou na tua relação com a produção?
Não
digo que falhou, mas não estava propriamente ao meu gosto. Como se
constatou que também não estava ao gosto da Editora, decidimos optar
pelo meu gosto próprio e os conselhos da Editora.
Como
se têm passado as vendas desse álbum ?
Em
relação às vendas não sei pois não tenho qualquer controle, já que
não tenho temas meus, não posso saber, mas em relação à aceitação
do público tem sido boa.
Há
algo que não compreendo, dizes que não tens temas teus mas és
interprete, portanto, normalmente deverias ser remunerada em função
das vendas desse trabalho e obviamente estar a par das vendas.
No
contrato que assinei, eu abdicava das vendas para investimento por parte
da produção e da edição em publicidade na televisão.
Ainda
não percebi qual é a vantagem, já que aparentemente só podes ser
remunerada pelas actuações em espectáculos. Parece-me impossível que
uma sociedade de produção ou de edição possa reter os direitos
devidos ao interprete, seja qual for a razão.
Não
sou a única neste caso, há muitos e já o meu anterior contrato foi
assim. A única maneira de escapar é que o artista já seja muito
conhecido, que bata o pé e exija receber os royalties.
Mas
no início, o artista tem de se sujeitar a certas condições.
Foi
um contrato para um só álbum ou tem outras condições ?
No
meu caso foi um contrato de quatro anos.
Continuo
a não compreender como é que um artista, seja ele qual for, aceite de
estar ligado a uma empresa de produção durante quatro anos, durante os
quais só pode ser remunerado pelos eventuais espectáculos que as
campanhas de publicidade podem gerar.
Nem
é bem assim porque isso seria bom demais para mim. A produção tem
também a exclusividade dos espectáculos. Não me posso queixar porque
as condições do contrato eram estas e eu aceitei-as. Eu tinha
necessidade de editar um novo álbum para as pessoas começarem
novamente a ouvir falar de mim, portanto tive que me sujeitar à
exclusividade.
De
facto o sistema posto em prática por essas empresas é fácil de
compreender e é simplesmente escandaloso. Trata-se sem a menor dúvida
de um abuso de posição dominante, que coloca quem quer começar ou
reactivar uma carreira, - sem brincar com as palavras - numa total
dependência.
Então
como têm corrido esses espectáculos exclusivos ?
Não
muito bem. É uma realidade que o mercado em Portugal está muito
saturado, cada vez há melhores e novos talentos, o que é muito bom
porque valoriza a nossa música. A concorrência é salutar porque nos
faz evoluir e faz com que sejamos mais exigentes com nós próprios.
Esperamos
que não haja muitos na tua situação porque se não têm outras
actividades para viver, morrem de fome...
Infelizmente,
há alguns. De facto se não tiverem uma situação paralela...
No
meu caso, sou autora-compositora, não me limito só a cantar, também
escrevo para os outros. Vai sair brevemente em Portugal um álbum de um
grupo novo que se vão estrear com dois temas meus e faço bastantes
trabalhos de estúdio, dobragens, etc. Portanto é uma situação que eu
tenho tido em paralelo com a música, senão era impossível.
Também
tem que se ter em conta os investimentos que realizam as produtoras e as
editoras, no meu caso, eu não gastei um centavo. Daí o facto de me
sujeitar a certas coisas. Se tivesse de produzir, era diferente, tinha
de assumir esses gastos.
Sim,
não gastas mas também não recebes. Como se traduz a dita
exclusividade em relação aos espectáculos ?
O
artista está em casa descansado e o produtor é que entra em contacto
com os empresários, com as comissões de festas em toda a parte do
Mundo mas principalmente em Portugal. Marcam os espectáculos, tratam do
correio do envio do material de promoção e nós apresentamo-nos no
local com estadia e transportes pagos. Mais uma vez são eles que
investem, deslocam-se quando é necessário e depois nos espectáculos
organizam tudo, incluindo o som as luzes etc.
Antigamente
quando eu produzia, tinha de levar e fazer montar o som e as luzes,
pagar aos músicos, aos técnicos e organizar essas coisas todas.
É
evidente que um artista tem necessidade de alguém que trate da produção
e longe de nós a ideia de pôr em causa a seriedade de quem quer que
seja ou o trabalho que realizam e os riscos que os produtores correm. No
entanto depreende-se por tudo o que nos relatas que nestes casos, o
artista fica de pés e mãos totalmente atadas à produção durante
quatro anos, sem o direito a receber o que quer que seja das vendas do
seu trabalho.
Presumo
que no mínimo, exista uma garantia de poder actuar num determinado número
de espectáculos ?
Essa
foi uma clausula recusada. Não existe nenhuma garantia.
Isso
revela que o artista pode ficar em casa indeterminadamente à espera que
o telefone toque. No teu caso, o telefone tocou muitas vezes ?
Infelizmente
não. Nesse aspecto não correu muito bem mas noutros foi positivo, pois
o meu objectivo era que as pessoas voltassem novamente a ouvir falar de
mim. Ora esse objectivo foi atingido e abriram-se novas portas e novos
horizontes. Como já não gravava nada há muito tempo teria de
apresentar às editoras um trabalho já feito e acabado. Neste caso, o
risco que as editoras não quisessem o trabalho, foi a produtora que o
assumiu. Eles correram o risco de perder o investimento. Agora que tenho
este trabalho feito já tenho outras editoras que graças à promoção
e por gostarem da voz e provavelmente do visual, se mostraram
interessadas. Portanto esta é a parte boa deste contrato e era no fundo
o que eu pretendia.
Como
é lógico, o risco faz parte do dia a dia de todas as empresas. Os
produtores fazem sempre uma avaliação dos riscos e não apostam em
quem não corresponda a determinados requisitos. Mas em qualquer parte
do Mundo, os artistas são remunerados em função dos resultados das
vendas dos trabalhos que interpretam. O tipo de contrato que dizes ter,
parece mais um golpe de um produtor que quis ganhar uns tostões, sendo
claro que o artista, tendo ou não sucesso, não terá qualquer
interesse em o renovar.
Em
relação à produção de facto, deixa um bocado a desejar, no entanto,
devo dizer, que fui muito bem tratada pela editora, não tenho razão de
queixa deles, fizeram o que era necessário. Investiram num video-clip,
pagaram deslocações, hotéis, comida etc. Não tive qualquer problema
com eles.
Agora
voltaste a Paris. Contas ficar algum tempo ?
Sim,
fiz uma pausa, uma pausa para novos projectos. Actualmente estou a
analisar qual será o melhor caminho, ver que tipo de propostas serão
as mais interessantes para a carreira que quero seguir e também o
estilo de música pelo qual devo optar. Gostei muito de gravar este último
álbum mas talvez agora vá para um estilo mais ligeiro, estou a
ponderar e logo se vê.
Qual
é o teu estilo de música ?
O
romântico sem dúvida, a balada, embora também goste de cantar outro
tipo de ritmos mas o que tem mais a ver comigo, é a balada romântica.
A.C.
Janvier
01
Interview
avec Philippe Seguin, candidat à la Mairie de Paris
Vida
Lusa : - Une des questions les plus importantes que les Portugais se
posent par rapport à votre candidature à la Mairie de Paris, est le
fait que vous ayez fait une énorme campagne contre le traité de
Maastricht. Beaucoup de personnes, et pas seulement les Portugais,
croient que vous êtes contre l’Europe. Pouvez-vous nous expliquer
votre position ?
M.
Philippe Seguin : - Certainement. Moi, je suis pour la construction
européenne et comme beaucoup de portugais, pour une Europe qui soit
respectueuse de la spécificité de chacun des pays membres. Je crois
qu'on ferait une très mauvaise Europe si les Portugais se mettaient à
ressembler aux français et si chacun perdait sa spécificité ; je vous
donne un exemple : Ce n’est pas parce qu’on a fait des
structures régionales en France, en Italie, en Allemagne, qu’il
fallait les imposer au Portugal. Or, au nom de la conception européenne
que je combats, on a essayé d’inventer des régions portugaises. Les
Portugais ont dit très logiquement qu’ils n’en voulaient pas, parce
qu’ils voulaient garder leurs habitudes. Ils participent à la
construction européenne mais ils ne veulent pas qu’on leur impose des
choix de l’extérieur. On construit ensemble mais on ne se renie pas
soi même.
Ce
que j’ai surtout reproché au traité de Maastricht, c’est le fait
qu’il enlève la démocratie au niveau national, ce que je comprends
tout à fait, mais on ne la rapporte pas au niveau européen. Par
exemple : ce qu’on prend aux Parlements nationaux, on le donne aux exécutifs
au niveau européen. Là, on a un déficit démocratique de la
construction européenne qui a été consacré et aggravé par le traité
de Maastricht, ce qui à mon avis nous interpelle tous.
Nous
connaissons tous une crise politique dans nos pays actuellement, la
France en particulier, l’Italie, les Allemands, etc… Pourquoi ?
Parce que les gens ont en face d’eux, des élus qui n’ont plus de véritable
prise sur les problèmes, alors qu’en revanche, ils n’ont aucune façon
de désigner ou de sanctionner ceux qui décident. Donc, ma critique à
la construction européenne, ne s'applique certes pas à ce principe,
c’est une évidence absolue mais, en revanche, il faut que nous
construisions ensemble quelque chose qui reste un ensemble démocratique
et qui préserve nos valeurs.
Si
le Portugal, l’Espagne, la Grèce, sont rentrés si rapidement dans
l'Europe, après leur accession à la démocratie, c’était précisément
pour les aider à conforter leur démocratie. Il y avait toutes les
raisons économiques du monde pour leur dire : attendez à la
porte. C’est dire que, si nous voulons faire l’Europe, c’est aussi
pour parfaire notre démocratie commune. Et, c’est grave de
l’oublier, au nom de je ne sais pas quelle technocratie et quelle
bureaucratie.
Peut-on
dire que vous êtes contre l’idée des états unis d’Europe ?
Pas
du tout, mais je suis contre un système non démocratique. Or
actuellement l’Europe, ne fonctionne pas de manière démocratique. Ce
qu’on enlève aux parlements portugais, français etc… on ne le
donne pas au parlement européen. On le donne à la Commission ou au
Conseil des Ministres.
L’Europe
vient de décider d’interdire l’utilisation des farines animales.
C’est quand même une décision importante pour l’avenir…
Oui
bien sûr. Il y a des décisions intéressantes mais vous avez aussi des
décisions qui vous tombent sur le dos sans que vous sachiez d’où ça
vient et sans avoir eu la possibilité de discuter, de dire de faire
attention. Par exemple : tous les poissonniers, les marchands de fromage
qui sont dans la rue aujourd’hui à Paris ou à Lisbonne, ils ont
appris qu’il y avait des normes qu’ils devaient absolument respecter
et qui ont été inventées sans qu’il y ait eu débat démocratique.
Plus
de deux tiers des européens non français qui sont en France, sont
d’origine portugaise. Vous avez pris dans vos listes un représentant
de cette communauté. Sachant que traditionnellement cette communauté
n’a pas été habituée à voter, quelles sont vos attentes ?
Au-delà
du profil électoral, j’avoue que je ne suis pas sans arrière-pensées.
Dès lors que c’est la première fois que cette possibilité est
ouverte, je crois qu'il est de mon devoir d’amorcer la pompe. Et donc,
même si à la limite ça n’apportait rien, d’appliquer la loi dans
son esprit - ce qui n’est pas le cas, compte tenu de la personnalité
que j’ai choisie - cela permettra qu'il y ait encore plus de portugais
inscrits sur les listes électorales dans 6 ans.
Nous
avons décidé librement une règle du jeu pour les élections locales,
il faut qu’elle joue complètement.
Janvier
01
Interview
du Maire du 12ème arrondissement de Paris,
M.
Jean François Pernin
Vida
Lusa : - Quelles sont vos perspectives pour cette campagne électorale,
M. le Maire ?
M.
Jean-François Pernin : - Naturellement, nous serons avec M. Philippe
Seguin que nous voulons voir Maire de Paris. Nous avons une mission très
importante dans cet arrondissement puisque nous avons 140 000 habitants,
c’est un des arrondissements les plus importants de l’Est parisien.
Nous sommes à l'origine d'un certain nombre de réalisations, notamment
des espaces verts ce qui fait du 12ème, l’arrondissement le plus vert
de Paris. De même, nous avons œuvré pour l’accueil des communautés
européennes, comme dans le quartier de la gare de Lyon où il y a une
très forte communauté portugaise que je connais bien.
Vous
dites que c’est l’arrondissement le plus vert de Paris mais vous
avez déjà le bois de Vincennes…
Oui,
le Bois de Vincennes fait partie du 12ème arrondissement mais en plus
nous avons fait ce que nous appelons la Coulée Verte. C’est une
promenade plantée qui va du bois de Vincennes à la Bastille, nous
avons réalisé 13 hectares de parc à Bercy et surtout, le plus
important pour les habitants, nous avons créé de nombreux petits
espaces verts dans les quartiers. Ce qui fait que chaque habitant de cet
arrondissement est à moins de 500 mètres d’un espace vert.
Votre
famille est dans le 12ème depuis très longtemps, votre père, M. Paul
Pernin, a été Maire de 83 à 1994 et vous lui avez succédé.
Ma
famille habite cet arrondissement depuis plus de 100 ans, j’habite près
de la gare de Lyon et mes enfants y sont nés.
Si
ma mémoire est bonne, c’est dans le 12ème que Jacques Chirac a lancé
sa première campagne …
Tout
à fait, c’était au cours d’une réunion dans le 12ème. C’est un
arrondissement très aéré du point de vue de l’urbanisme, très agréable
à vivre et représente donc un peu tout ce qu’on aimerait voir dans
sa ville et dans son pays.
Est-ce
que vous savez combien de résidents européens non français habitent
votre arrondissement ?
Environ
10% (14 000).
Pensez-vous
que cela risque d’influencer de manière significative les résultats
électoraux ?
C'est
très important que ces communautés se sentent bien intégrées dans
l’arrondissement, cela me semble primordial. De nombreuses personnes
de la communauté européenne viennent
me voir à la Mairie et cela se passe très bien. Alors, naturellement
leur vote est fondamental parce qu'avec plus de 10% de votes pour le
mois de mars, finalement ils ont le résultat entre leurs mains.
La
population portugaise représente plus de 2/3 de ces européens, le fait
de prendre un candidat portugais dans vos listes, c’est un clin d’œil
et une manière d’essayer de les faire voter en votre faveur ?
Un
candidat, et quel candidat ! Si je peux me permettre…
C’est à la fois un clin d’œil et c’est aussi reconnaître que
ces communautés ont leur place dans la vie de la cité.
|
Dezembro
00
Entrevista
a João Carlos Cardoso
Um
dos melhores operários de França é Português
Sem
entrar em demagogias como alguns colegas da Comunicação Social em
Portugal, particularmente da rádio e da televisão ao afirmarem, sem
outras explicações que “um Português tinha sido considerado o
melhor operário de França”, quisemos este mês dar relevo especial
ao nosso compatriota João Carlos Cardoso, que foi o vencedor na
categoria 5 (trabalhos em mármore), do Grupo 3 (Métiers du patrimoine
architectural) do concurso “Meilleur Ouvrier de France”, (MOF). Este
concurso, criado por decreto de Mallarmé - a não confundir com o poeta
autor de “Un coup de dés jamais n'abolira le hasard” - decorre
todos os três anos, e distingue o melhor operário (ou artesão) de
cada uma das cento e poucas especialidades inseridas em 19 grupos que
entram no concurso. Também há poucos anos um pasteleiro de origem
portuguesa foi galardoado com esta distinção.
Marcámos
naturalmente uma entrevista com João Carlos Cardoso. Ficámos agradados
com a modéstia e as qualidades humanas do personagem e impressionados
com o talento do artista.
A.C.
VL
: - O Sr. João Carlos Cardoso é o “Meilleur Ouvrier de France” na
categoria de trabalhos com Mármore. Sabe quantos concorrentes
participaram nessa categoria ?
JCC
: - Não exactamente, sei que eram mais de cem no início e que nas
provas finais éramos 3.
O
Senhor ainda é jovem, há quanto tempo trabalha no mármore ?
Há
18 anos, tenho trinta e cinco.
Começou
cedo !... Foi a sua primeira profissão ?
Foi,
o meu pai já trabalhava no mármore e fui iniciado por ele. Ele era
marmorista em Pêro Pinheiro, veio para França em 1965 e depois
continuou esse trabalho aqui.
E
o Senhor, vive em França há muito tempo ?
Vim
com 9 meses e dos 11 até aos 17 fui estudar para Portugal.
O
mármore é uma das artes que tradicionalmente os portugueses dominam
bem, não é verdade ?
Sim,
pode-se dizer que em Portugal houve sempre grandes escultores e obras de
grande qualidade desde há vários séculos.
Sabe-se
que há em todas as áreas, artistas com grande talento mas que têm na
maior parte dos casos grandes dificuldades para as fazer conhecer do público
e obviamente dos clientes potenciais. Pensa que o facto de ter sido
distinguido como, M.O.F. , lhe vai trazer um acréscimo de notoriedade e
que assim poderá vender mais facilmente as suas obras ?
Penso
que sim mas devo dizer-lhe que antes do concurso eu já era conhecido
como um dos quatro melhores escultores do mundo pelos franceses e pelos
italianos. Já fui convidado de honra na Itália, em Verona numa exposição
onde estavam os 250 melhores escultores do mundo. Portanto considero que
é natural ter ganho o concurso do “Meilleur Ouvrier de France”.
Digamos que já podia ter acontecido há muito mais tempo.
É
verdade que uma maior notoriedade em França e no estrangeiro, já que
este concurso tem uma reputação mundial e particularmente nos Estados
Unidos, vai certamente permitir um contacto mais fácil com clientes que
procuram os melhores em cada ramo.
Sente-se
totalmente realizado ou considera que ainda não atingiu os seus
principais objectivos e neste caso que lhe falta ?
Em
primeiro lugar, talvez vender umas peças em Portugal e poder expor no
meu país de origem, seria uma boa coisa e trabalhar com grandes deste
mundo, - já trabalhei para o Rei Fahd da Arábia Saudita, trabalhei
para o Sultão de Brunei e com alguns grandes arquitectos.
Quando
diz que trabalhou para... Quer dizer que executou encomendas ?
Sim,
encomendaram-me peças e uma delas foi feita em Ryad.
Presumimos
que estes trabalhos demorem bastante tempo a ser realizados. Disse-nos há
pouco que foi necessário um bloco de 20 toneladas de mármore para
fazer a pantera. Quanto tempo demorou a realizar esta obra e qual é o
preço que conta vendê-la ?
Demorei
três anos à razão de 12 horas de trabalho por dia, espero vendê-la
por 3 milhões de francos (100 000 contos).
E
durante esse tempo, como ganha a sua vida, o benefício da venda das peças
que realizou anteriormente dá para financiar as seguintes ?
É
um pouco isso, se não as vender é complicado mas agora também tenho
uma empresa que me permite ter um movimento de obras e ter um movimento
de dinheiro que me possibilita fazer esculturas sem ser obrigado a vendê-las.
O que eu pretendo antes de tudo é fazer uma colecção e poder expor de
capital em capital no mundo inteiro. Vender as peças é bastante bom do
ponto de vista monetário mas não ter peças para expor torna-se
negativo.
O
facto de ter uma empresa, ter empregados e provavelmente sócios que
esperam ter benefícios, quer dizer que vai de certa forma
industrializar a sua actividade ?
Não,
a minha arte só eu é que a exerço no meu atelier. Sou o único a
fazer escultura. A minha empresa faz decoração interior, são casas de
banho, halles de entrada, apartamentos de luxo sobretudo em Paris e de
uma maneira geral, a decoração em tudo o que tem a ver com mármores,
granitos, pedras semipreciosas, mesas, colunas etc. No fundo esta
actividade permite-me sobretudo de não ser obrigado a vender as peças
que faço. No caso da pantera, ela tem olhos de jade e para poder
comprar o jade é preciso bastante dinheiro.
Nunca
tentou recorrer a financiamentos externos, por exemplo dos bancos ou de
instituições de arte para realizar os seus projectos ?
Por
enquanto não. Não tenho nenhuma instituição que ajude. Indicaram-me
uma associação de marmoristas que aparentemente fornecem matéria
prima com melhores condições. Foi a única solução que até agora me
foi sugerida.
Outubro
00
Entrevista
a Dulce Pontes
A
entrevista com Dulce Pontes estava marcada pela editora Uniersal num
grande hotel da zona dos Champs Elysées. Dias antes, tinha visto um
filme com a bonita Julia Roberts no qual um jovem livreiro apaixonado
pela actriz se fazia passar por jornalista para iludir os guardas
costas, secretárias e agentes. Senti alguma semelhança com a cena pois
se estas entrevistas fazem parte do meu trabalho habitual, reconheço
que sou um dos numerosos admiradores desta fabulosa artista. A Universal
concedeu-nos o máximo 3/4 de hora com a nova diva portuguesa. Dulce
Pontes apareceu radiante e descontraída na “suite” e começámos a
falar naturalmente. Não me apercebi que afinal a entrevista durara 1
hora e meia. Podíamos continuar indefinidamente se a agente não me
olhasse de uma forma reprovadora mas simpática.
Dulce
falou-nos com paixão, da sua profissão, da sua vida e da sua luta para
continuar a cantar o que sente sem ter que obedecer forçosamente às
regras do sistema e obviamente do comércio.
Vida
Lusa : - Temos reparado que muitos portugueses dizem-nos ter comprado a
versão francesa da Canção do Mar, interpretada por Helene Segara.
Este disco tornou-se efectivamente um grande sucesso, talvez o maior
desta cantora. Não acha que é pena não ter sido a Dulce Pontes a
gravar em francês ?
Dulce
Pontes : - Quando gravei essa música, embora ela tenha tido uma altíssima
exposição, não só a nível de uma telenovela no Brasil por exemplo,
como no filme Primal Fear, não tinha nessa altura uma multinacional ou
uma editora que fizesse aquele esforço no sentido de promover a música
e poder expô-la. Os discos não existiam à venda, eram difíceis de
encontrar. Não aconteceu nesse tempo de qualquer forma, fico contente
que uma pessoa estrangeira se interesse pela música portuguesa, só nos
valoriza.
Como
explica o facto que salvo raras excepções, tais como por exemplo a Amália
ou noutro registo, Maria João Pires, a canção portuguesa e geralmente
os artistas portugueses, tenham tão pouca saída no estrangeiro ?
Eu
acho que não é só a questão dos artistas portugueses, embora neste
momento as coisas estejam a mudar muito lentamente. E, estão a mudar
graças ao público porque cada vez existem mais festivais de música étnica,
a chamada “world music”, música mais ligada às raízes e cada vez
se vende mais esse tipo de música. Só que por outro lado, todos os
meios que fazem com que a música chegue às pessoas, estão viciados,
estão muito estandardizados : as rádios internacionais só passam as músicas
que tenham aquele formato, com 3,5 minutos, nem mais um segundo, faz-se
música a metro, e a música acaba por perder - isto no âmbito geral,
estou a falar na música em geral e não só na portuguesa - no chamado
“music business” actual no mundo inteiro porque as pessoas querem é
fazer dinheiro rapidamente, acaba por perder a sua missão principal e
primordial. Se formos ao livro que eu considero mais importante, a Bíblia,
no princípio era o verbo, era o som, existe uma função muito
importante no som. Não se podem pôr as pessoas a funcionar como
carneirinhos, todos atrás uns dos outros, porque afinal esses grupos
aparecem e desaparecem ao cabo de um ou dois anos. Tem de se propor música
que toque profundamente as pessoas. Tanto os artistas, que são apenas
instrumentos, eu pelo menos considero-me só um instrumento e mais nada.
Foi-me oferecido o privilegio de comunicar através da música, e sinto
essa responsabilidade e sinto também a responsabilidade de sensibilizar
todas as pessoas que estão ligadas a essas estruturas nesse sentido.
Pode ser numa grande utopia na minha cabeça, mas é a única coisa que
me faz permanecer e me faz continuar a insistir porque não faço
qualquer tipo de cedências para ir pelo caminho mais fácil. Para mim
seria muito fácil cantar em francês ou em inglês, aliás, já faço
isso de vez enquanto em espectáculos ao vivo ou com o maestro Ennio
Morricone mas são coisas pontuais, são temas de filmes, digamos que é
um caminho paralelo, aquele principal que eu quero levar, ou seja,
cantar em português e pesquisar música portuguesa na sua essência e
compor a partir daí. Esse é o caminho que eu quero seguir. Agora, não
é fácil fazer essa opção porque essas estruturas têm uma
mentalidade tão viciada e é tão fácil vender uma coisa que já tem
uma formula que é muito difícil, não só a música portuguesa mas
para qualquer músico que faça música mais ligada à essência, que
procure realmente uma elevação espiritual, essa é a missão da música.
A música é uma linguagem universal que nos transcende. A música tem
uma função específica, há músicas que fazem parte da nossa vida,
que marcam determinados momentos que vivemos…
Está
a tentar dizer-nos que as “Majors” controlam também os gostos do público?
Não,
as “Majors”, nem as rádios controlam, só controlam parcialmente
com música “fast food”, com música que vende rapidamente. E as
pessoas compram porque não têm oportunidade de ouvir, não podem
escolher. Têm de ir à procura mas já existe um grupo de pessoas que
faz isso. É um problema grande e difícil de ultrapassar porque é uma
questão de mentalidade e não venham culpar o público, não venham
dizer que o público é ignorante porque não é, isso não acredito e
nunca acreditei. Quando gravei o “Lágrimas”, nessa altura ninguém
se atrevia a cantar Amália Rodrigues ou Zeca Afonso, disseram que era
um suicídio artístico, ainda por cima com guitarras eléctricas e
essas coisas todas, também tinha fados acústicos embora não fossem
tocados da forma tradicional. O que é considerado tradicional hoje, não
é a mesma coisa que há 30 anos atrás. Quando a Amália Rodrigues começou,
também foi muito contestada, as pessoas diziam que não era fado, que
era flamengo e quando começou a introduzir poesias de altíssimo
calibre no fado, até os guitarristas costumavam dizer na brincadeira :
“lá vamos nós às óperas !”. Hoje são considerados fados
tradicionais ; aliás, alguns dos que eu gosto mais, foram compostos por
um francês, o Alain Ulman. O fado é um estado de espírito que pode
estar presente em pessoas de diferentes culturas… mas já estou a
falar de muita coisa ao mesmo tempo…
Só
demonstra que fala e sente essas coisas com paixão…
Sim,
com paixão e uma pontinha de revolta porque as coisas andam muito
devagar e eu não estou na música à procura da fama porque essa fama
tem um lado pernicioso e feio que eu não gosto. Estou na música porque
é a minha forma de estar na vida, não quero dizer que sacrifico porque
é uma palavra muito forte mas dou-me completamente e abdico de muita
coisa por causa da música. Foi-me dado esse privilégio, esse dom de
comunicação então eu vou respeitá-lo. Só sendo verdadeira comigo é
que consigo ser verdadeira na música que faço e só assim é que posso
comunicar.
Como
começou a sua carreira ? Pode considerar-se que os seus primeiros
passos na música tinham mais a ver com a música ligeira ou com o rock
e que a mudança foi ter vencido o festival da canção ?
(Dulce
deu uma gargalhada) - Não, isso foi mais uma coisa local, Montijo,
Alcochete, não passou daí e do meu sótão. A polícia apareceu lá no
sótão um dia às dez e meia da noite e acabou-se aí o grupo de rock
urbano. Comecei a estudar música com 7 anos, a tradição da música
existe na minha família, tenho um tio fadista, o Carlos Pontes, uma
figura muito carismática, um verdadeiro boémio e comecei a assistir às
fadistices desde miúda. Sempre que haviam festas adorava ir. Lembra-me
que o meu tio pediu-me para cantar a “Igreja de Santo Estevão” numa
dessas festas. Já gostava de cantar fado, só que não sabia a letra,
então ele estava atrás de mim a dizer-me a letra baixinho e eu
cantava. O meu avô paterno tocava concertina, nunca o vi dançar o
fandango mas segundo rezam as crónicas das pessoas locais, ele
costumava ganhar todos os concursos de fandango que faziam nessa altura.
O meu pai tem uma excelente voz, é tenor e da parte da minha mãe também
existem boas vozes mas nunca ninguém se profissionalizou. O meu irmão
canta muito bem e toca na minha banda, é engenheiro de sistemas.
Portanto comecei a cantar e a estudar música desde muito pequenina, os
meus primeiros “concertos” foram no Montijo, na rua do Norte, onde
nasci. A rua era como se fosse uma casa que se prolongasse, era como se
fosse uma só família. Comecei a fazer as minhas primeiras composições
num xilofone, foi assim que descobri que conseguia reproduzir os sons
que ouvia. Era daqueles xilofones que tinham bonequinhos, sabe ? Comecei
a procurar as notas e os sons do “parabéns a você” e do “malhão
malhão”. A minha mãe percebeu que eu estava a apanhar música de
ouvido mandou-me para uma escola de música, fiz o 4° ano de piano no
conservatório, estive numa escola de dança, fui professora de dança.
Nessa fase, estava quase a terminar o liceu, comprei um jornal onde vi
um anúncio que dizia, “procuram-se jovens entre os 18 e os vinte e
quatro anos, se gosta de cantar responda, temos uma boa oportunidade
para si”. Respondi a esse anúncio, foi no final de 88, andavam a
fazer essas audições há dois meses e de um dia para o outro a minha
vida mudou completamente. O Carlos Cruz escolheu-me para substituir a
Dora numa comédia musical que se chamava “Enfim sós”, onde tive
oportunidade de contracenar com Eugênio Salvador, com Virgílio
Castelo, Henrique Viana, Luisa Barbosa e foi assim mais ou menos a história
da Cinderela, foi assim que tudo começou. Em seguida, fiz uma outra comédia
musical, cantei publicidade para a rádio e para a televisão, cantei
tudo e mais alguma coisa, desde batatas fritas até pensos higiénicos.
Mas foi muito bom porque cantar em estúdio é completamente diferente
de cantar ao vivo e é importante para um cantor ter a experiência de
gravar publicidade pois tem oportunidade de aprender a relacionar-se com
o microfone em estúdio que é muito mais sensível. Em 1991 tive o
convite para ir cantar para o Casino Estoril onde estive durante um ano.
Uma noite em que o Júlio Isidro foi assistir, ele pensava que eu era
inglesa, propôs-me de integrar o elenco de cantores residentes e
resistentes do “Regresso ao Passado”. Foi também nesse ano que o Zé
da Ponte, (não temos nada em comum, não somos da mesma família) foi a
pessoa que me fez a primeira audição, me telefonou a perguntar se eu
queria ir ao festival da canção. Aceitei mas disse que tinha de ser o
Fred a escrever o poema. Gostei da música e correu bem. Depois foi a
Eurovisão e quando voltei houve um interesse enorme, muitos jornalistas
presentes, lembro-me que não tinha material de produção nenhum, não
tinha editora e tive a minha primeira grande desilusão. As pessoas
queriam comprar o CD e não havia nenhuma editora em Portugal que
quisesse gravar. Só gravei a “Lusitana Paixão” um ano depois. Sem
querer estar armada em vítima, tenho tanta sorte como azar, é igual,
andam sempre de mãos dadas. Há pessoas que dizem que foi muito fácil,
que foi muito rápido mas não têm realmente um conhecimento profundo
do que foi esse tempo.
Então
foi nessa altura que a sua vida se transformou radicalmente ?
Não,
a minha vida transformou-se a partir do momento em que eu gravei o “Lágrimas”,
e não foi imediato porque quando saiu em Portugal, foi assim um
bocadinho à experiência. Nos primeiros dois meses quase não vendeu
pois as pessoas não sabiam que esse disco existia. De repente, acho que
foi aquela publicidade de “boca-a-boca”, o disco começou a vender,
fizeram-se então os “clipes” e depois foi uma bola de neve. Em
seguida foram uma serie de coincidências, bem que não sejam só
coincidências : um Senhor chamado Donald Cohen, que eu não conheço de
lado nenhum, comprou o disco em Portugal e levou-o para um amigo dele
que tem uma Rádio em Los Angeles que é apaixonado por “World
Music”. Ele gostou e começou a passar a “canção do mar” todas
as manhãs. O produtor da Paramount que andava à procura duma música
com um certo caracter para dar mais ênfase a umas cenas dum filme, terá
ouvido o disco na rádio e de repente recebo um fax da Paramount a
perguntarem-me se a música poderia integrar o filme e se o Richard Gere
podia ter o meu CD na mão numa das cenas. Com o Ennio Morricone, também
foi assim : uma amiga dele comprou o disco e levou-lho precisamente na
altura em que ele estava à procura duma cantora portuguesa para uma
banda sonora. A partir daí foi realmente uma bola de neve com altos e
baixos, com uma coisa sempre boa que são os concertos.
Não
acha que a predominância actual do inglês e do espanhol na música
obriga os artistas que querem ter uma projecção internacional, a
cantar nestas línguas ?
Penso
que não, é verdade que há ainda essa visão um bocado limitada por
parte das multinacionais, é uma realidade. Elas próprias têm essas
limitações e quando têm música diferente já não sabem onde a
inserir.
Assinei
com a Universal, eles propuseram-me em Janeiro de gravar 5 temas do
“Primeiro Canto” em espanhol, ao que eu respondi redondamente não.
Não se consegue imaginar flamengo cantado em português ! É ridículo,
não faz sentido ! Por isso, aceitei gravar dois temas em espanhol, num
outro CD, por causa do mercado sul-americano. Eu sempre tive uma paixão
enorme pelo tango e pela “Balada para un loco” que por acaso foi
composta no ano do meu nascimento em 69 ! Experimentámos gravar um tema
que está no “Primeiro canto” que é plausível ser cantado em
castelhano : o “Pátio dos amores” e a “Balada por un loco” .
Foi o que foi acordado, e assim se fez.
Claro
que isto ao mesmo tempo é uma espécie de jogo de xadrez, é preciso
muita perícia, muita paciência e sobretudo conseguir um equilíbrio, o
que não é nada fácil conseguir.
Mas
a Amália também teve de cantar em inglês nos Estados Unidos e também
gravou em francês…
Também
já cantei em inglês e noutras línguas, até em basco, em japonês ou
em catalão em determinados concertos mas isso são coisas diferentes…
Insistimos
– A Celine Dion começou a cantar em inglês sem perceber o que
cantava, para responder às exigências do produtor e do mercado…
Sim,
mas se pensarmos na quantidade de pessoas que falam português, (200
milhões), somos a terceira língua europeia mais falada no mundo,
depois do inglês e do espanhol. Há de facto um largo trabalho e muita
luta a travar, e essa eu quero travá-la. Nem que tenha de recomeçar a
zero a cada vez. Não é uma questão de ambição, é porque isto é
importante que aconteça para as gerações que hão de vir.
É
a sua cruz ?
Não…
Pronto, acaba por ser… (riu). Tem a ver com o meu caracter. Se não
tenho uma coisa porque lutar, desmotivo-me, nasci assim.
A
ONU, (Organização das Nações Unidas), convidou-a a cantar por ocasião
do 52° aniversário em Nova York e acedeu também ao convite a Madrid
da Amnisty Internacional . Sente-se próxima das Instituições de
beneficência ?
Eu
acredito numa coisa que o Zeca Afonso dizia numa música que se chama
“Utopia” : “gente igual por dentro, gente igual por fora”.
Infelizmente, vivemos num mundo cheio de sombras, não se sabe muito bem
onde está a verdade e onde está a mentira. De qualquer forma, dentro
da minha intuição e daquilo que eu posso fazer, numa perspectiva
positiva, eu estou presente. Não tenho qualquer partido político ou
religião. Acredito em Deus, em Jesus, numa energia muito forte e
positiva que existe e acredito nas pessoas, naquilo que as pessoas têm
de bom. Portanto estou sempre pronta a participar e faço muitos espectáculos
de beneficência.
Que
impressão teve no seu primeiro contacto com Ennio Morricone, esse
monstro da música ?
Foi
uma experiência muito gira. O estúdio ficava nas fundações de uma
igreja que se chamava Dulce Maria. Tinha comprado uma garrafa de vinho
do Porto para lhe dar. Quando entrei no estúdio, só vi as mãos dele e
a orquestra. Aproximei-me, ofereci-lhe a garrafa tentando explicar-lhe
que não a devia mexer. Ora ele só fala italiano e eu nessa altura não
falava nada, agora já falo qualquer coisa, acenou com a cabeça,
deitou-a muito devagarinho, como se fosse um bebé e cobriu-a com o
casaco. Foi assim uma coisa muito bonita e que eu nunca mais vou
esquecer. Ele mandou a melodia, só tocada em piano e pediu-me para
gravar em estúdio para ouvir como eu cantava e depois faria o arranjo.
Fiquei muito surpreendida porque não é normal existir esse tipo de
atenção, sobretudo duma pessoa daquele nível. Cheguei ao estúdio,
fechei os olhos, comecei a cantar num silêncio de tremer. Não costumo
soar, nem quando faço grandes esforços mas terminei a transpirar das
pontas do cabelo até aos dedos dos pés. De repente ouvi a voz do técnico
: “O.k.”. Saí do estúdio, ele abriu-me a porta, tinha os olhos
cheios de lágrimas e deu-me um beijo na testa. Ficou gravado à
primeira.
Segundo
Miguel Sousa Tavares, este seu novo álbum, “O primeiro Canto” é
uma viagem quase antropológica “às origens da música”. Qual é a
sua definição desse trabalho ?
Esse
trabalho partiu dum conceito : os quatros elementos - Fogo, Terra, Água
e Ar. Não há nada mais universal. Depois houve uma busca o que me
levou a fazer uma viagem por terras de Portugal, deu-me um prazer enorme
contactar com todas aquelas pessoas mas isto já numa fase avançada da
composição do CD. Quando estava a compor, já estava a pensar nos
arranjos, quando pensava nos arranjos e nas sonoridades pensava nos músicos.
Era explorar em todos os sentidos e multitudes possíveis que eu
conseguia, todas as significações dos quatro elementos, tendo como
base a essência da música portuguesa e trazendo essas reminiscências
doutras culturas que estão presentes. Nós temos uma identidade muito
própria mas impregnada de impressões digitais de outras culturas.
Historicamente temos influências da África, da Índia, da Ásia. Sendo
assim, existe uma matéria prima de tal maneira multifacetada que
existem numerosos caminhos que se podem percorrer sem trair essa mesma
essência.
Partindo
de um conceito e fez uma viagem através das terras para o realizar.
Mudou alguma coisa em relação ao projecto inicial, depois dessa viagem
?
O
que mudou foi que em seguida apeteceu-me gravar o CD só sobre folclore
e é uma coisa que eu hei de fazer se Deus quiser. Inspirou-me muito
essa viagem. Quando parti para essa pesquisa, eu já estava a pensar
integrar determinados elementos dessa pesquisa em composições, como
foi o caso dos Pauliteiros de Miranda ou os cantares de Castro Verde
porque tinha a necessidade de ter uma presença masculina muito ligada
à terra. Quando pensei nos quatro elementos, embora seja uma coisa
simples, também podia ser uma coisa tão linear que se tornasse
absurdo, então quis manter uma coisa simples e deixar como uma abertura
para que as pessoas possam ouvir e voltar a ouvir redescobrindo novas
coisas. Não é um álbum que se ouça a primeira vez e que se descubra
imediatamente. Vou parecer um bocado pretensiosa mas citando Fernando
Pessoa : “Primeiro estranha-se e depois emprenha-se”. Por outro
lado, também foi uma aventura para mim : poder exprimir as minhas
ideias, escrever as minhas intuições que vêm da comunicação, do
contacto com as pessoas e com o mundo que me rodeia, poder compor,
cantar, fazer parte da produção…
Definiu
um público alvo ?
Não,
eu não penso assim porque não existe criatividade sem liberdade. Se nós
vamos partir para um trabalho a pensar : não vou fazer isto porque
não agrada a determinado público, isso não resulta. A criatividade é
uma coisa que nos foi dada por alguma razão e se nos foi dada, temos de
a respeitar na sua essência e essa essência só é respeitada se
existir liberdade e se não estivermos condicionados com medos. Na
altura falei com o Carlos Cruz sobre este trabalho, ainda não tinha
nada gravado e ele disse-me : - Não faça isso, isso não dá
resultado. É disco de platina em Portugal desde Janeiro. Parecia que
naquela altura tudo estava contra. Quando gravei o CD, ainda não tinha
Editora, estava a resolver problemas com a Editora anterior, paguei eu
própria o CD mas fiz exactamente como queria.
Assinou
com a Universal que é uma das “Majors” mais importantes do mundo. Não
se vai sentir encurralada pelo sistema?
Encurralada,
nunca, isso é que era doce ! Estou a tentar lutar contra um sistema que
muita a gente me diz que é impossível. Eu acredito que é possível
lutar contra. Se não for duma forma há de ser de outra.
A.C.
Setembro
00
Entrevista
a Carlos Pereira
A
nova geração de lusodescendentes não aceita uma atitude passiva face
ao evoluir dos tempos. Querem agir, tomar partido na tomada das decisões.
Carlos
Pereira, director da Coordenação das Colectividades Portuguesas de
França (CCPF), luta contra os preconceitos, ainda existentes, face à
emigração. Natural de Vila Real, este jovem luso de 35 anos, vive em
França desde os 18.
Porquê
a necessidade de formar a Coordenação das Colectividades Portuguesas
de França (CCPF)?
A
Coordenação das Colectividades Portuguesas de França nem sempre se
chamou assim. Inicialmente tratava-se do Conselho das Comunidades
Portuguesas, com delegações em todos os países do mundo onde residiam
Portugueses. Tratava-se, pois, de um órgão consultivo junto do Governo
Português. Entretanto, os Conselheiros eleitos por França decidiram
constituir uma associação, à qual deram o mesmo nome (o CCPF). Quando
o então Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Dr. Correia
de Jesus decidiu acabar com o Conselho, ficou em França a associação
com o mesmo nome. Seguidamente decidimos mudar de nome, guardando no
entanto a mesma sigla : CCPF. A CCPF tem pois mais de 15 anos, mas a sua
vertente actual só existe desde Outubro de 1990. Actualmente, a CCPF é
um colectivo nacional de associações e de federações de Portugueses
em França, com mais de 170 colectividades aderentes. O apoio à rede
associativa é a principal razão de existência da CCPF.
É
verdade que os lusodescendentes se vão afastando cada vez mais da Pátria
Mãe ou, pelo contrário, há uma nova geração que quer saber,
conhecer e participar activamente na cultura portuguesa ?
Actualmente
verifica-se que uma parte importante dos jovens de origem portuguesa
residentes em França (e também em outros países da Europa) querem
reforçar os laços que os une a Portugal. Durante alguns anos houve um
corte, essencialmente devido grande à desfasagem (cultural, social e
economicamente) entre a cidade onde viviam e a aldeia donde eram originários
os pais... único ponto de Portugal que conheciam ! Actualmente,
consideram que Portugal é um “país normal”, vão passar férias a
Portugal, visitam o país de norte a sul, vão fazer estágios a
Portugal no quadro dos programas europeus de mobilidade juvenil, e o
sonho de qualquer um deles é trabalhar em França para uma empresa
portuguesa, ou em Portugal para uma empresa francesa.
Considera
que o interesse emergente pelas raízes é consequente ao culminar da
nova era digital, em que podemos percorrer o mundo em minutos, esbatendo
diferenças culturais e derrubando fronteiras ?
O
interesse por Portugal é também consequência da entrada de Portugal
na União Europeia, o facto de Portugal fazer parte do “pelotão da
frente” da moeda única, da Expo'98, do Prémio Nóbel da Literatura,
da mobilização à volta de Timor, da digressão mundial dos Madredeus,
da RTP internacional, dos sucessos da selecção nacional no último
Europeu de futebol, etc. Tudo isto junto, faz aumentar o interesse que
os jovens lusodescendentes têm por Portugal. A internet permite aproximá-los
mais e levá-los a dizer, sem complexos, que conhecem melhor Portugal do
que os seus próprios pais.
O
seu trabalho vai muito na direcção de “quebrar e fugir dos estereótipos
da emigração”. O que quer dizer com isso ?
Há
imagens estéreotipadas que dificilmente conseguimos apagar. Uma grande
parte da nossa acção vai nesse sentido. Os Portugueses residentes no
estrangeiro são muitas vezes associados a classes
socio-culturo-profissionais que já não correspondem à realidade. Como
se todos os emigrantes fossem uniformemente iguais. Ora, uma comunidade
de um milhão de pessoas (é o número de Portugueses residentes em França)
é forçosamente heterogénia. Muitos são pedreiros e mulheres a dias.
Mas outros são engenheiros e doutores. Ainda bem que há uns e outros,
mas existem os dois ! Têm, pois, de parar de nos etiquetar todos de
consumidores de música foleira. O Festival de Teatro Português que a
CCPF organiza anualmente em França veio mostrar que há também um público
português para o teatro, e isso surpreendeu muita gente...
É
através da motivação para o movimento associativo que a CCPF
trabalha. Qual a real importância do associativismo ?
França
tem a rede associativa portuguesa mais intensa. Existem actualmente mais
de mil associações de Portugueses !!! Inicialmente criadas para
recriar a “aldeia” e o “terreiro” deixados para trás, as
associações foram, pouco a pouco, evoluindo para novas vertentes,
nomeadamente a do ensino da língua portuguesa (que não era devidamente
assegurado pelos governos). Recentemente, as associações que se criam
têm mais uma tendência criativa, são viradas para as artes
(fotografia, vídeo, teatro, cinema,...). Mas continuam a existir
bastantes associações cujo objectivo principal é a organização do
bailarico de fim de semana, que têm o seu grupo de folclore (há
actualmente mais de 260 grupos de folclore portugueses em França) e a
terem as suas equipas de futebol (não estão contabilizadas, mas
fala-se em mais de 2000 equipas no activo).
A
luta é por uma população, lusa, activa em França ?
Durante
muitos anos, a Comunidade portuguesa esteve virada para si própria,
fazia acções para consumo próprio, passava despercebida. Eramos os
bons trabalhadores simpáticos... Hoje, queremos ser muito mais do que
isso. Queremos fazer acções com visibilidade, para nosso consumo, mas
também para mostrar à população que vive connosco. Queremos que
falem mais de nós... Por exemplo, a CCPF tem actualmente uma campanha
para sensibilizar os Portugueses a se inscreverem nos cadernos
eleitorais de forma a poderem votar nas próximas eleições municipais
previstas para 2001. É a primeira vez que os Portugueses vão poder
eleger o presidente da Câmara Municipal da cidade onde residem. Mas,
para isso, é necessário estar inscrito... o que não acontece! Os
Portugueses de França não têm uma formação política e não estão
a ser muito activos neste domínio. Ora, uma Comunidade que não vota,
também não existe...!
A
CCPF leva a cabo, anualmente, uma iniciativa que pretende reforçar a
confraternização entre a comunidade de falantes do português mais
jovem - o Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes - Qual a
finalidade ?
O
Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes enquadra-se num projecto
muito mais vasto. Regularmente, a CCPF organiza encontros regionais de
jovens, em várias cidades de França, para debater temas como “a
dupla identidade cultural” ou agora “a implicação dos jovens na
vida associativa”. Mas pensámos que seria mais interessante se comparássemos
com o que se passa nos outros países europeus. Como vivem os jovens
desses países, se têm os mesmos problemas. Foi assim que nasceu o
Encontro Europeu que se realiza anualmente. Para além disso, temos
agendado em França, acções que permitem comparar com o que pensam os
jovens de outras comunidades (senegaleses, turcos, caboverdianos, espanhóis,
tunisinos, marroquinos...). Ainda antes do fim do ano, vamos organizar
um encontro entre jovens lusodescendentes e a Ministra francesa da
Juventude e Desportos. Como pode reparar, a nossa acção é muito mais
alargada.
Este
ano, o encontro teve lugar em Sintra, qual o balanço final ?
O
Encontro deste ano foi particularmente interessante porque optámos por
ter menos jovens do que habitualmente e foi um Encontro com uma vertente
formativa bastante importante. A maior parte dos jovens presentes já
está integrada nos corpos gerentes das associações onde militam, mas
todos reconhecem que não tem sido tarefa fácil. Não chega motivar os
mais novos para tomarem postos de responsabilidades nas direcções, é
também necessário que se ouçam de facto as suas reivindicações.
Ora, isto não acontece sempre. Vários jovens queixam--se de entrar
para as direcções porque sabem escrever na língua do país de residência
e porque têm um computador em casa. Ora, este critério começa a não
interessar verdadeiramente os jovens que se querem agentes de
desenvolvimento activo da associação, participando nas decisões
tomadas. Apesar de tudo isto, estamos optimistas quanto ao futuro, mesmo
sabendo que a transmissão de poderes não será fácil.
A
base do programa era a Formação, aliada ao intercâmbio entre
culturas, falado em português. Como foi aceite essa seriedade na ordem
de trabalhos ?
Esta
vertente foi-nos solicitada pelos jovens que participaram nos últimos
encontros (Aveiro em 1998 e Olhão em 1999). Os jovens necessitam deste
tipo de formação, ganhar motivações, saber como se montam projectos,
como se comunica. O nosso balanço é bastante positivo. Pensamos que
eles gostaram.
Depois
de dada a formação, os utensílios de trabalho, contactos, ideias e
conselhos, o que sentiu que lhes ficou ?
Quisemos
que os jovens saíssem de Sintra com contactos de organismos que os
podem ajudar e isso parece ter acontecido. Também conseguimos que os
jovens saíssem motivados e cheios de projectos. Isso é bom sinal. Os
encontros que tiveram com associações juvenis portuguesas, com
instituições, para além do próprio contacto entre eles, fez com que
nascessem ideias novas e, sobretudo, contactos inter-comunidades
portuguesas.
A
resposta e a forma de encarar o encontro, por parte dos jovens
participantes, correspondeu às espectativas ?
Pensávamos
que os participantes iam achar o programa do Encontro demasiado denso.
De facto, era denso... mas eles participaram sempre e mostraram sede de
querer saber sempre mais. Esta atitude deles reconforta a nossa maneira
de ver as coisas : o Encontro foi para trabalhar, depois cada um
continua de férias !
Paralelamente
ao Encontro Europeu de Jovens Lusodescendentes, a CCPF procede a outro género
de iniciativas, quer falar um pouco da agenda da CCPF...
Ainda
antes do fim do ano, vamos organizar a acção mais mediatizada da CCPF
: o Festival de Teatro Português em França que está na nona edição
e que já trouxe a França muitas das melhores companhias de teatro de
Portugal. Durante um mês, vamos organizar mais de cinquenta espectáculos
em 25 cidades diferentes, de Paris a Estrasburgo, passando por Dijon,
Canes, Bordéus, Pau... Outro dos eventos mais conhecidos da CCPF são
os Encontros Musicais Lusófonos, um festival de músicas portuguesas
que se inscreve na multiculturalidade e diversidade de influências das
sonoridades portuguesas. Já em princípios de Setembro vamos
co-organizar em Girona (Espanha) um Fórum sobre Acções de Mediação
Escolar, no quadro do programa europeu com parceiros de Espanha, França,
Bélgica e Alemanha. Para além disso, fazemos acções de formação de
dirigentes associativos, gerimos exposições e digressões artísticas,
temos um departamento de comunicação, etc. A CCPF tem hoje uma equipa
de nove profissionais da animação a apoiar as associações aderentes
e a realizar as nossas próprias actividades.
O
que acha que deveria ser feito, por parte do Estado Português, em prol
das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo ? Quais as
necessidades mais vigentes ?
A
maior necessidade é sem dúvida o apoio ao movimento associativo
português no estrangeiro. Os cinquenta mil contos que o Governo destina
anualmente para apoiar essas associações é ridículo. Estamos
conscientes de que as associações devem ser apoiadas pelos países
onde estão sediadas, mas também queremos afirmar que Portugal tem o
dever de apoiar estas associações que se batem para manter bem vivas a
língua e a cultura de Portugal. Também consideramos que faltam
incentivos para que as diferentes comunidades portuguesas se conheçam.
É importante que os Portugueses de França conheçam os Portugueses da
Bélgica, saber o que eles fazem, quais as suas acções, como estão
organizados. Quando a “malha” dos Portugueses do estrangeiro estiver
de facto a funcionar, Portugal só pode ganhar com isso. Estivemos
durante algum tempo esperançados que a RTP internacional fosse servir
precisamente para esse diálogo entre as Comunidades portuguesas. Enganámo-nos.
Porquê
uma certa “aversão” à palavra “emigrante” ?
Recentemente
tem havido uma tentativa de “eliminar” a palavra “emigrante” e
de a “substituir” por “Portugueses residentes no estrangeiro”.
Pessoalmente, continuo a ser emigrante - saí dum país para viver e
trabalhar num outro - e não creio que a “imagem” e os
“preconceitos” mudem só porque já não nos chamam de
“emigrantes” !
No
seu entender, qual o papel da emigração na troca e transmissão de
culturas e saberes ?
Os
Portugueses terão uma função importantíssima, mesmo fundamental, no
intercâmbio cultural, a partir do momento em que decidirem que vão
deixar de falar entre eles sobre Cultura portuguesa, mas que vão passar
a falar para os outros da Cultura portuguesa. Por vezes, estamos a
promover mais a cultura e a língua portuguesa, se falarmos em francês...
parece paradoxal, mas não é. É necessário que os Portugueses sejam
efectivamente (enfim) os reais Embaixadores da Cultura portuguesa no
estrangeiro. Não só a cultura popular. Não só para que os nossos
filhos conheçam a nossa cultura, mas também para que os filhos dos
nossos vizinhos nos conheçam melhor.
Cláudia Rodrigues,
redacção do Terra Natal
Junho
00
Entrevista
a Vasco Jorge
Em
Outubro de 1998, a Vida Lusa noticiou a abertura de um Bar Dancing,
O
Cantinho dos Artistas, na Praia da Rocha em Portimão. A notícia
mereceu destaque já que o criador deste projecto foi o conhecido cantor
de música portuguesa, Vasco Jorge. A Vida Lusa quis saber o que era
feito dele.
Vida
Lusa : - Olá Vasco Jorge, depois de teres vivido quase 20 anos em França
e sempre a viajar de um lado para o outro, como é que vives agora
debaixo do sol do nosso país ?
Vasco
Jorge : - Eu costumava dizer que vivia nos aeroportos ou na estrada,
cheguei mesmo a fazer uma canção chamada “Eu sou um vagabundo”.
V.L.
: - Que aliás teve muito sucesso !
V.J.
: - Teve sim. Continua a ser uma canção ouvida em Portugal. Mas penso
que o “vagabundo”, por mais voltas que dê acaba sempre por voltar
ao ponto de partida. O sol do nosso país foi sempre o meu objectivo. Eu
quando fui para França não fui para ficar, fui sim, para cantar.
Mas... há sempre um mas, acabei por ir ficando porque tinha sempre
trabalho e depois surgiu o amor na minha vida e a França começou a ter
outro encanto. Foram 18 anos com alegrias e tristezas mas a ideia de me
instalar definitivamente em Portugal, sempre foi uma ideia fixa. Assim
que surgiu a oportunidade não hesitei. Estou bem.
V.L.
: - Mas tu nasceste e foste criado em Lisboa, porquê o Algarve ?
V.J.
: - Primeiro porque necessito de ver o mar, (risos) creio que o meu pai
era marinheiro antes de conhecer a minha mãe. Ainda pensei na Costa da
Caparica, que foi sempre o meu local de “estacionamento” mas só de
pensar nos engarrafamentos da ponte e no stress das grandes cidades,
perdi logo a vontade. Além disso, durante muitos anos fui um
“chou-chou” aqui em Portimão, todos os anos era convidado para
participar nos eventos que aqui se faziam, senti muito carinho desta
gente criei amizades, por isso não estou em terra estranha e o mais
fantástico é que se quiser ir à praia vou a pé e não há
engarrafamentos.
V.L.
: - O Cantinho dos Artistas já festejou o seu 1° aniversário. Que
balanço fazes quando está prestes a festejar o 2° ?
V.J.
: - O balanço é positivo. O primeiro ano foi um pouco difícil. Era
preciso dar a conhecer a casa, adaptar-se à maneira de viver, estar e
ser das pessoas aqui etc. Mas quando festejamos o 1° aniversário já
as coisas tinham entrado nos eixos. Foi uma noite emocionante porque
senti que tinha ganho a batalha. A casa estava super lotada, toda a
gente quis festejar connosco. Oferecemos um bolo gigante e a festa foi
marcada com a presença do padrinho, o meu amigo e colega José Malhoa,
que aliás sempre que possível não deixa de marcar presença, a
madrinha é a Ana Malhoa mas não pode estar presente pois vinha de
nascer a pequena Índia Malhoa.
V.L.
: - O teu projecto era esse mesmo, um Cantinho de Artistas. Os teus
colegas têm aderido ao projecto ?
V.J.
: - Sim sem dúvida. Já se fizeram grandes noitadas naquele Cantinho.
Tem por ali passado grandes nomes da música portuguesa e não só,
curiosamente sempre que um artista estrangeiro compreende o nome da casa
vem sempre apresentar-se e já tive mesmo o privilégio de cantar em duo
com uma cantora inglesa, muito em voga no seu país, que é a Laureen.
Por ali têm passado cantores de música ligeira, fadistas, humoristas,
pintores, músicos, nomes conhecidos da radio e televisão etc. todos
com mais ou menos valor, mas o ARTISTA que têm estado sempre presente e
têm contribuído para o sucesso desta casa têm sido sem dúvida alguma
o público, todos os clientes que nos visitam e nos felicitam pelo bom
ambiente que temos.
V.L.
: - Falando de artistas, o teu último álbum data de 1997. Para quando
o próximo ?
V.J.
: - Boa pergunta ! É caso para dizer : como o tempo passa ! Bem,
acontece que tenho um álbum preparadíssimo a sair desde 97. Ainda não
tive disponibilidade, porque sair o álbum para o mercado é fácil,
ninguém precisa de mim. A editora trata do assunto, mas o meu contrato
implica também grande disponibilidade para promoção e aí é que está
o problema. Quando tenho um projecto entrego-me de alma e coração e o
Cantinho dos Artistas têm tragado o meu tempo por inteiro. Mas agora
que as coisas estão sobre rodas, muito em breve poderei dedicar-me a
esse álbum que já tem uma história para contar.
V.L.
: - Mas tempo para cantar encontras sempre, e tivemos mesmo o privilégio
de te ouvir cantar em inglês, espanhol, italiano etc.
V.J.
: - E isso dá-me um prazer enorme. Quando gravo os meus discos, tenho
que ter canções inéditas, não vou gravar sucessos internacionais que
toda a gente conhece, e nem sempre surge a oportunidade de cantar esses
sucessos nos espectáculos que faço porque as pessoas querem ouvir as
minhas canções e não aquelas que conhecem de cor. No meu bar é
diferente, até porque se cantasse as minhas canções todos os dias
apesar de ter uma grande colecção de álbuns gravados as pessoas
certamente fartar-se-iam, da minha voz, (modéstia à parte), não se
fartam, pois todos os dias me pedem para cantar.
V.L.
: - Notamos que o Fado também marca presença no Cantinho. Não é por
acaso pois não ?
V.J.
: - Claro ! O contrário seria como impedir um ex. futebolista de ver
futebol. O Fado foi o meu primeiro amor. Gravei o meu primeiro disco com
17 anos e sempre pensei acabar a minha carreira artística tal como
comecei, com um álbum de Fado.
O
facto de ter uma noite de fados no Cantinho, fazia parte do projecto e
espero poder levá-lo avante durante muito tempo. Todas as quartas
feiras fazemos um apontamento com viola e guitarra, temos sempre um
fadista convidado, mas os amadores também.
V.L.
: - Mas às quartas feiras apesar de haver Fado, também se pode dançar
?
V.J.
: - Sim, O Cantinho é um Bar Dancing com música ao vivo. A ideia
surgiu precisamente porque eu não sou grande adepto (agora) de
discotecas e gosto muito de dançar. Temos uma selecção musical
variada onde não faltam o tango, a valsa, o passo doble etc. Tentamos
sempre ter um músico diferente e se possível aqueles que os clientes
nos pedem. Às quartas feiras estão entregues, com grande orgulho meu,
ao meu filho Anthony Michael que está a seguir os meus passos na música.
V.L.
: - Vasco Jorge, saudades de França ?
V.J.
: - Muitas. Deixei em França grandes amigos, sempre dei muito valor à
amizade e graças a Deus foi coisa que nunca me faltou. Mas de vez em
quando tenho uma surpresa, aparece sempre um ou outro que vem de férias
e não deixa de vir ao Cantinho fazer uma visita. É sempre um prazer
quando vejo entrar pela aquela porta alguém que conheci em França ou
até noutro país. Já tem acontecido, simples anónimos que têm
seguido a minha carreira no estrangeiro, saberem que eu estou ali e
entrarem para dar uma palavrinha e pedir um autografo. Isso é para mim
um reconhecimento muito grande dos emigrantes para quem cantei tantos
anos.
V.L.
: - Vasco Jorge para terminar esta conversa queres deixar uma mensagem
para França ?
V.J.
: - Para os meus amigos um grande abração e espero vê-los em breve.
Ficam também aqui os meus votos sinceros para todos aqueles que desejam
regressar a Portugal o possam fazer e se possível nas melhores condições.
O
nosso país apesar de ser um país burocrático está em plena evolução
sócio económica. A nível da saúde existem já bons seguros que nos
permitem de ter uma assistência correcta. E a boa notícia : desde o
dia 1 de Maio 2000 foram aprovadas várias medidas sobre actos notariais
que facilitam espantosamente a nossa vida, sobretudo quem vem do
estrangeiro e têm montes de papeladas a tratar.
As
férias estão à porta, aqui fica a sugestão da Vida Lusa, passe pela
Praia da Rocha em Portimão e vá divertir-se no Cantinho dos Artistas.
Maio
00
Entrevista
a Casimiro Silva
Casimiro
Silva, é um dos fadistas e músicos mais conhecidos e reputados em França.
Só agora foi possível trocar impressões com ele sobre a sua vida de
fadista e sobre o fado em França.
V.L.
: - Casimiro, há quanto tempo estás em França ?
C.S.
: - Cheguei em Dezembro de 78, portanto há cerca de 22 anos.
V.L.
: - Como começaste a tua carreira ?
C.S.
: - Comecei em 67 no restaurante A Tipóia no Bairro Alto que ficava nas
traseiras do Solar da Hermínia por onde passei posteriormente.
V.L.
: - Mas não aterraste assim numa casa dessas por acaso ?
C.S.
: - Estudava no Passos Manuel, fazia um curso nocturno que se chamava na
altura Curso Geral de Comercio, as aulas terminavam cerca das 11, meia
noite, ou seja precisamente no momento em que começavam as noites de
fado. Eu habitava no bairro do Charquinho nas Portas de Benfica e um dia
fui convidado pelos pais de um amigo de escola, como andava sempre a
cantarolar lá em casa deles, convenceram-me a ir jantar com eles a uma
casa de fados que era “A Tipóia” no Bairro Alto. Foi assim a minha
primeira experiência numa casa típica de fado. Antes só tinha cantado
naquelas casas ou associações que davam fado vadio onde estava-mos à
espera da nossa vez com um papelinho na mão para mostrar-mos o que valíamos.
A Tipóia convidou-me em seguida a ficar como artista na casa, por
sugestão do celebre guitarrista Casimiro Ramos e do fadista Manuel de
Almeida. Portanto acabei logo com a escola pois não podia conciliar as
duas coisas e foi assim que enverdei no fado. Em seguida fui contratado
pelo marido da Hermínia Silva para cantar no Solar que me pagava nessa
altura mais oitenta escudos por noite.
V.L.
: - Mas tu és muito conhecido como violista. Já tocavas viola nessa
altura ou só cantavas ?
C.S.
: - Eu tinha 17 anos e era muito difícil nos tempos da ditadura, um
jovem menor ter carteira profissional o que era indispensável para
formular um contrato. Ora a minha primeira ambição era obter esse
famoso documento e a Hermínia Silva, o marido e o Manuel de Almeida
trataram dos trâmites necessários para o exame que era muito rigoroso.
Tratava-se de interpretar correctamente em termos de dicção, sentido
melódico, compasso musical sem falhas e, facilidade de colocação de
letras conhecidas noutras músicas. Assim que obtive a carteira de
interprete comecei a dedicar--me à viola nos tempos livres e os próprios
guitarristas das casas, sabendo da minha vontade de tocar viola,
deixavam-me praticar durante os intervalos e corrigiam-me ao mesmo
tempo. Foi assim que aprendi. Cinco anos mais tarde, obtive também a
carteira profissional de músico.
V.L.
: - O facto de trabalhares numa casa de uma das fadistas mais famosas de
Portugal, deve-te ter permitido de conviver com a fina flor do fado ?
Quem são ou quem foram os artistas portugueses que mais te marcaram ou
com os quais de identificas ?
C.S.
: - Indiscutivelmente, foi o Fernando Farinha, a Dona Maria Teresa de
Noronha, Fernando Maurício e Beatriz da Conceição, entre outros para
não alongar. Lamento todavia não ter tido a ocasião de cantar ou
acompanhar a nossa divina Amália Rodrigues.
V.L.
: - Porque vieste para França ?
C.S.
: - Nessa altura trabalhava numa casa do Porto com a Beatriz da Conceição
e o guitarrista Arménio de Melo, fui contratado para uma conhecida casa
de Versailles para acompanhar Carlos Macedo e Filipe Duarte, com um
contrato de 30 dias. A facilidade de tocar e cantar levou a que o patrão
da casa, o Agostinho, me convidasse a ficar. A morte dos meus pais
levou-me a esquecer um bocado o nosso país e por cá fiquei. Inaugurei
algumas casas de Paris, entre as quais o Petit Cardoso, o Expresso, o
Avril au Portugal etc…
V.L.
: - Sabemos que és um dos fadistas mais solicitados pelos empresários,
como vai o fado em França ?
C.S.
: - Conforme as pessoas o permitem ; faço minhas as palavras do meu
colega Joaquim Campos que a Vida Lusa entrevistou recentemente e cuja
analise coincide com a minha. Há uma mão cheia de praticantes, entre
guitarristas, violas e interpretes e também há quem procure aperfeiçoar-se
com mais ou menos vontade. Estes últimos têm facilidades que no meu
tempo não existiam assim como, a diversidade da discografia. Nós tínhamos
de recorrer ao contacto directo e não havia outra hipótese.
V.L.
: - Nas diversas categorias que compõem o fado em França : guitarras,
violas ou interpretes qual é a que melhor está representada em França
?
C.S.
: - Para mim são os violistas.
V.L.
: - São teus concorrentes, não ?
C.S.
: - Eu digo o que penso, também acho que nos outros sectores existe
qualidade, embora em quantidade mais reduzida. Acrescento umas palavras
de apreço para Manuel Corgas, guitarrista da autêntica escola de fado,
o nosso querido José Machado, viola, interprete e o homem que me
acompanha mais assiduamente, António de Almeida.
V.L.
: - Algum espectáculo recente que na tua opinião mereça relevo ?
C.S.
: - Sim, o da minha amiga Maria José em Bry-sur-Marne.
V.L.
: - Já que frequentas muito os restaurantes, como vai a cozinha
portuguesa em França ?
C.S.
: - Há muito boa qualidade, não gostaria de citar nomes mas gosto
muito de comer na Belle Epoque (da São) onde aliás trabalho e no Beirão
do Alfredo, a tal cozinha que faz a diferença. Há também restaurantes
que tentam implementar algumas das nossas tradições como por exemplo o
restaurante A Lareira em Montreuil que leva a efeito no domingo dia 21
de Maio, um convívio fadista. Trata-se de uma sardinhada com pimentos,
frango na brasa, vinho à descrição e claro o velho fado.
V.L.
: - Os teus detractores dizem que a tua excelente interpretação de
“Um copo mais um copo” é uma autobiografia.
C.S.
: - É verdade porque eu não bebo às escondidas mas já estou a
reduzir muito…
António
Cardoso
Abril
00
Entrevista
a Joaquim Campos
Informados
que Joaquim Campos estava a preparar um concurso de fado no Palácio das
Guitarras, marcámos encontro neste restaurante da simpática
Mariazinha, para entrevistar o conhecido fadista.
V.L.
: - Temos o hábito de o ver por terras de França desde há uns anos.
Ausenta-se por largos períodos mas volta sempre…
Joaquim
Campos : - Sim, vim com o Toni de Matos em 1985, nessa altura havia
alguns restaurantes onde havia fado em permanência tais como o Abril em
Portugal, o Petit Cardoso ou o Saudade em Versalhes para não falar em
mais. Existia um “mercado” satisfatório, chame-mos-lhe assim, cá
andei durante alguns anos e em seguida voltei para Portugal.
V.L.
: - Dizem que nessa altura o fado estava na moda em Paris e que era tudo
mais fácil…
J.C.
: - Não, o que havia era talvez mais seriedade no fado que se fazia, o
fado é sempre o mesmo. Desde que eu me conheço, o fado é sempre
igual, as pessoas é que vão alterando as situações do fado.
Costuma-se dizer, atrás virá, quem pior fará. Se calhar nas andanças
do fado, é assim que se está a passar.
V.L.
: - Que fez quando regressou a Portugal ?
J.C.
: - Abri um restaurante em Lisboa, correu realmente bem mas devo
dizer-lhe o seguinte : eu sou um emigrante de mala na mão, emigrei
pela primeira vez em 1961 e não deixo de emigrar porque se amanhã as
coisas virarem, eu tanto estou na França como no Estados Unidos como
noutro país qualquer. Onde me tratam bem é onde eu estou, tenho a veia
de emigrante, sempre de mala na mão para ir para fora. Portugal para
mim tem sido um bocado padrasto, digo bem padrasto, para uns as coisas são
fáceis e para outros muito difíceis. Talvez porque aqueles que têm na
ponta da língua a verdade e a sinceridade, as coisas se tornem mais difíceis
e é provavelmente o meu caso.
V.L.
: - Considera-se um forasteiro permanente que de tempos em tempos volta
a casa ?
J.C.
: - Considero-me um homem que vai a todas, como dizia o Chalana. Desde
que haja fado, eu estou lá ; aqui, na Grécia, na Turquia, seja a
onde for.
V.L.
: - Quais são as suas intenções e perspectivas ao voltar a França ?
J.C.
: - Voltar a França tem a ver com o facto de eu ter deixado aqui um
mercado satisfatório. Tenho a certeza absoluta que aqui o fado não é
mais nem é menos que noutro país qualquer. O que era preciso realmente
era dividir o “trigo do joio” e não meter as pessoas todas no mesmo
saco, saber distinguir aquelas que têm realmente valor. Não é aquela
que tem mais dinheiro que tem mais valor, o dinheiro para mim não é
inteligência. Penso por vezes que aqui, o mercado do fado está a ficar
saturado, com uma qualidade que talvez não seja a melhor, na medida em
que todos os restaurantes querem fazer fado, uns anunciam fado e não há
e outros quando a gente lá chega, falta-lhes a viola, ou falta a
guitarra ou ainda, o fadista é daqueles que de fado não têm muito mas
desenrasca a situação. O que interessa por vezes é pagar pouco e daí
a falta de qualidade.
V.L.
: - Lemos um artigo num jornal luso-americano sobre o sucesso da sua
recente digressão aos Estados Unidos com o Nuno de Aguiar. Temos o hábito
de ouvir em França inúmeras queixas dos protagonistas do fado :
os restaurantes lamentam a falta de artistas de qualidade e os fadistas
queixam-se da falta de profissionalismo dos empresários da restauração.
Como se passam estas coisas nos US ?
J.C.
: - Efectivamente fui encontrar nos Estados Unidos uma casa que dá fado
há 23 anos, fui encontrar um leque de artistas que cantam muitíssimo
bem, fui encontrar uma rádio, uma das rádios portuguesas que emite 24
horas sobre 24 e devo dizer-lhe que durante o tempo que lá estive, não
ouvi uma única vez uma música que não fosse portuguesa ou brasileira,
fui encontrar duas televisões a emitir em português. Sendo nós aqui
em França, o tal milhão de habitantes, não temos uma televisão, há
uma rádio só. O que me apraz dizer-lhe é o seguinte :
os
espectáculos que nós fizemos estavam repletos, as pessoas aderem,
tinham um ar feliz e durante o mês que lá estive vi pelo menos 7
espectáculos entre os quais o do Tony Carreira com grande êxito também
e os órgãos de comunicação fazem sistematicamente a promoção dos
artistas em digressão. Considero realmente os Estados Unidos da América
uma casa muito grande mas muito bem arrumada.
V.L.
: - Os comportamentos também têm a ver com as distâncias e em França
não há tanto saudosismo nem tanta expectativa em relação ao que
chega de Portugal…
J.C.
: - Estou de acordo com isso mas como sabe a televisão mata a saudade,
a televisão que chega aos Estados Unidos chega a Paris e eles estão tão
bem informados como se está aqui. O problema em França é que nada se
faz de novo, tudo se faz copiando outros que já fizeram qualquer coisa.
Mesmo em termos de discografia, se quiser fazer alguma coisa terá de ir
a Portugal, se quiser falar com poetas tem de ir a Portugal, falar com músicos
que fazem músicas para o fado, a mesma coisa, isso impede por vezes
aqueles que têm qualidade e há gente com qualidade, de se deslocar a
Portugal com a frequência que seria necessária para ouvir a voz, ouvir
os poemas, ter contactos com as pessoas. Tudo isto misturado faz a
dificuldade.
V.L.
: - Parece-nos que existe uma desproporção entre a oferta de fado
pelas casas e o que o público pede e que esta adequação não se
consegue estabelecer da melhor maneira. Qual é a sua opinião ?
J.C.
: - A primeira etapa é a seguinte : todos os empresários, chamo
empresários aos restauradores, que querem praticar o fado nas suas
casas, não façam só uma semana ou duas, porque têm que dar mais
tempo para se conseguir fazer fado a serio num restaurante. Por outro
lado, também é de bom tom, não pensar que o fado vai tapar todas as
mazelas que possa ter um restaurante. O fado é um complemento do prato
que é servido e que terá de ser servido com qualidade para que o
cliente esteja contente e alegre para que possa receber depois o fado de
bom tom e aplaudi-lo com o merecimento que ele tem. Agora se vamos
confundir as coisas e vamos por fado no prato, estamos a aniquilar o
fado e a aniquilar o restaurante. Eu não duvido da qualidade da
restauração em França, em alguns lados é extraordinária e em
maioria, os restaurantes portugueses estão cheios ao fim de semana,
penso é que no dia em que houver fado, seja fado a serio. É preciso é
que haja respeito por quem canta e que tenhamos a certeza que o dinheiro
que se paga pelo prato naquele dia no restaurante seja compensador e que
as pessoas, primeiro, estejam satisfeitas com aquilo que comem e depois
satisfeitas com o espectáculo que possa aparecer. E eu gostaria
realmente de ver espectáculos de qualidade e que tratassem o fado da
forma que ele merece. A minha máxima é esta : se o Fado fosse a
Country, se fosse americano, tenho a certeza que estaria no top.
V.L.
: - Não acha que o fado estagnou e não soube evoluir da mesma forma
que os portugueses em geral, não conseguindo nomeadamente adaptar-se às
novas gerações ?
J.C.
: - O fado tem uns quilómetros grandes de dimensão mas também não são
tão grandes como isso. O fado são quadras, quintilhas, sextilhas, décimas
e decassílabos, isto é o que nós podemos chamar fado. Mas o fado
musicado ou o fado canção não tem princípio nem fim, é eterno, é
comprido porque tudo o que se tocar com uma guitarra, logicamente cheira
a fado. Se um tango é tocado por uma guitarra portuguesa, deixa de ser
tango para ser fado. As pessoas evoluíram realmente, intelectualmente,
financeiramente mas a razão da vida é sempre a mesma porque vai haver
o desgosto, vai haver a saudade, a desgraça e tudo isto é fado. Quer
queiramos quer não, isso toca na sensibilidade daquele que nasceu
português. Agora, dentro daquele fado que falei, temos centenas de músicas,
dentro de uma quadra, há vários fados de quadras, dentro de uma
quintilha, há vários fados de quintilhas, ora isso multiplicado dá
umas boas centenas de fados. O que acontece é o seguinte, as pessoas são
pouco criadoras, então ouvem alguém cantar e vão cantar o mesmo fado
na mesma música e aí vai matar o fado. Até certo ponto estou de
acordo consigo, isto é assim : se eu aprender hoje um fado cantado
por outra pessoa, numa sextilha, numa música e se eu o cantar na
mesma música, não vou fugir muito ao que a pessoa fez mas se adaptar
essa poesia noutra música já será diferente. Dou-lhe como exemplo o
“Povo que lavas no rio” que toda a gente canta no Fado Vitória.
Porque é que não se poderá cantar numa outra música ? Portanto, foi
um recalcamento musical sistemático de abuso com as cantigas de outros
durante anos e anos que matou o fado. É preciso que as pessoas tenham
mais trabalho na escolha do repertório, nas músicas e que sejam
inovadoras, que não bebam da mesma fonte de onde os outros bebem. Todos
nós começamos pelo peito da mãe mas depois temos de ir à vida.
V.L.
: - Para terminar fale-nos dos seus projectos...
J.C.
: - Olhe desde que vim para o fado tentei sempre fazer algo diferente
para fugir àquela monotonia de que falou. Vou trazer aos palcos das
nossas associações de França, uma vez que nos restaurantes é
praticamente impossível, as culturas que alguns portugueses e mais
exactamente os “alfacinhas” (lisboetas), não conheceram : são
os Pregões de Lisboa. Como sabe, o grupo que eu trabalho é o “Tudo
isto é Fado” onde vou incluir os Pregões de Lisboa. Há pouco
disse-me que viu duas varinas em Alfama, baterem-se cada uma com seu
peixe espada na mão. É verdade porque a varina de Lisboa era uma
mulher magoada pela má sorte, por ter de ir à Ribeira carregar com 20,
30 kg e andando uns bons km em Lisboa para ganhar a vida, o que não era
nada fácil. Era uma mulher que tinha de dar luta de língua a tudo o
que lhe aparecia pela frente. Então ninguém se metia com a varina de
Lisboa porque ela tinha troco para dar e vender. Portanto trago a varina
de Lisboa a este espectáculo, trago também o Ardina, (vendedor
ambulante de jornais), trago o “ferro velho” que era uma figura típica,
um homem já idóneo com um chapéu meio amarrotado na cabeça com um
cestinho, comprando garrafas, trapos, vidro ossos e metais, trago o
cauteleiro que era uma figura típica de Lisboa de Segunda a
Sexta-feira, o amolador, que sendo oriundo da Galiza, veio para Portugal
muito cedo e tornou-se uma figura de Lisboa com a sua boina e a sua
gaita de beiços, calça de bombazina e bota de borracha para combater o
frio, trago o “petrolino” que eram os homens que vendiam o petróleo,
o carvão, a benzina, velas etc... Depois trago a “mulher da fava
rica” que era a mulher que se encontrava às 4 ou 5 da manhã com uma
panela de favas quentes que eram uma delícia e à tarde temos a mulher
dos “figos da capa rota” que era um figo de época que deve o nome
ao facto do seu invólucro por fora abrir greta e outros mais que Lisboa
tem ou tinha. Portanto é isto, “Tudo isto é fado” com Nuno de
Aguiar, Cinda Castelo e Joaquim Campos a cantar, Flaviano Ramos na viola
e Filipe de Sousa na guitarra que vamos apresentar às nossas associações
a partir do mês de Maio.
Março
00
Entrevista
a Mané Santos
Direitos
de Intérpretes... um Escândalo
Mané,
tive a agradável surpresa de escutar um disco chamado Planete Fado que
inclui vários artistas sobejamente conhecidos, tais como a Amália, o
Rodrigo o Carlos Zel etc. e constatei que incluía também dois fados
interpretados por ti, um deles, Terra Lavrada, é aliás o primeiro do
Álbum. Fiquei com a ideia que eram gravações muito antigas. Queres
contar-nos a história desta compilação ?
M.S.
: - Devo dizer-te que este
álbum é também uma surpresa para mim. De facto esta gravação, é
uma história simples. Alguém escreveu-me este lindíssimo poema, a
Terra Lavrada em 1969 ou 1970 e foi gravado entre 1971 e 73 numa casa
que se chamava o Arreda em Cascais, que foi posteriormente a casa do
Rodrigo, o fadista que toda a gente conhece. Portanto cantei ao vivo
essa cantiga que eu cantava frequentemente, até antes de me tornar
profissional e é com grande surpresa que descubro essa cantiga agora
neste álbum.
V.L.
: - Isto parece-me um assunto grave… Queres dizer que não assinaste
nenhum contrato com uma editora para a difusão deste trabalho ?
M.S.
: - Absolutamente nada, tínhamos consciência que se estava a gravar,
havia outros artistas nessa noite, no entanto, nunca ninguém me abordou
para me propor o que quer que seja. Nós éramos amadores, com excepção
do Rodrigo e do Carlos Zel, íamos lá tomar um copo e cantava-mos.
Soubemos que tinham saído várias edições em Portugal, o Rodrigo,
quanto tomou conta da casa, fez também uma nova capa sem qualquer
autorização dos interpretes, mas como era nosso colega, não quisemos
criar problemas. Agora ao fim de tantos anos, mesmo se é com agrado que
vejo dois títulos interpretados por mim neste disco distribuído na
Fnac ou na Virgin, não deixa de me admirar que tais coisas possam ser
feitas sem qualquer autorização. Penso que este género de coisas não
deveria acontecer.
V.L.
: - Isto é realmente estranho, contactaremos obviamente a SPA e a
SACEM, (sociedades dos autores compositores em Portugal e em França),
para obter esclarecimentos sobre este assunto, no entanto não nos
parece que seja necessário ser especialista de direito, para concluir
que uma editora não pode publicar e distribuir qualquer obra que seja
sem a autorização escrita dos autores.
M.S.
: - Podes verificar que as minhas interpretações foram gravadas ao
vivo, pois ouvem-se distintamente os aplausos, o que não é o caso da
maior parte dos outros títulos que fazem parte desta compilação. Tive
um só contrato com uma editora em Portugal que não tinha nada a ver
com este trabalho e que além disso não teve seguimento pois abriram
falência.
V.L.
: - Não queremos de maneira nenhuma duvidar das tuas afirmações mas
este assunto pode ter consequências importantes. Neste disco existem
mais gravações de outros artistas nessa famosa noite ?
M.S.
: - Não, sou a única. Não
vale a pena citar nomes dos presentes nessa noite mas se for necessário
também o farei. O que é verdade é que o disco tem aparentemente
sucesso pois até o põem em concurso em emissões da rádio Alfa e os
locutores citam com frequência a minha participação.
V.L.
: - Este disco é distribuído pela Sony Music, que não é propriamente
uma casa desconhecida e editado pela Globe Music que tem também
bastante notoriedade. Não acreditamos que estas empresas tenham aceite
de distribuir esta obra sem a autorização de quem pretende deter os
direitos, neste caso a autorização foi cedida pela Íris Musique. Se
as tuas afirmações são exactas, toda esta gente anda a ganhar
dinheiro à custa dos interpretes sem lhes dar qualquer satisfação ou
remuneração.
M.S.
: - A minha opinião é
que, com excepção dos artistas muito conhecidos como Amália
Rodrigues, o Carlos Zel, a Maria Armanda ou o Rodrigo, poucos devem ter
dado autorização de publicação deste trabalho. Que fique bem claro
que é só o meu parecer. É obvio que autorizamos a gravação ao vivo
mas nenhum dos presentes, que eu saiba, autorizou a edição do
trabalho.
V.L.
: - Fechamos aqui provisoriamente este capítulo, prometendo indagar e
obter as informações necessárias dos diversos intervenientes para
voltar a este assunto nas próximas edições.
Podemos
constatar através deste disco que começaste a tua carreira de fadista
muito jovem. Podemos saber mais ?
M.S.
: - Claro, nasci num dia qualquer de um mês qualquer de 1947, na altura
dessa gravação, era assistente de bordo da Tap e quando os voos me
permitiam, metia-me num taxi para ir cantar as minhas cantigas. Só me
tornei profissional em 1976.
V.L.
: - Já lá vão uns anitos. Habituámo-nos a ver-te e ouvir-te cantar
em algumas das melhores casas de Paris e de Lisboa, aparentemente agora
decidiste de ficar por cá.
M.S.
: - É exactamente isso, quando cá estive entre 1983 e 1988, uma das
boas casas onde trabalhei foi no “Petit Cardoso”, não é
publicidade porque essa casa já não existe, tive o privilégio de
estar cá esses anos, nessa altura vim para cá com apenas um contrato
de um mês e acabei por ficar. Havia realmente muito trabalho e fui
muito bem recebida. Fui embora em 88 e voltei há cerca de cinco anos
porque realmente gosto muito de França, gosto muito de Paris. Sei que
posso chocar algumas pessoas mas esta é a única razão, além disso,
como não tenho família nenhuma em Portugal, optei por viver em França.
Não esperando fazer uma grande carreira artística, quando isso não
acontece até uma determinada altura, é mais complicado, a não ser
algumas excepções como é o caso da Cesária Évora. Reconheço no
entanto que fiquei verdadeiramente decepcionada que o fado estivesse e
esteja tão mal em França. Lamento que, com tanta gente a cantar tão
bem o fado, com “cabeça tronco e membros”, não é só ter boa voz,
as pessoas sabem ao que me refiro, e que por razões que eu desconheço,
uns dizem que são razões económicas, outros, porque alguns
interpretes de fado que cá estiveram nestes últimos anos, estragaram o
ambiente, isto ande tão mal. Quero acreditar em uns e outros mas enfim
eu cá estou e penso ficar. Não tenho intenção nenhuma de ir para
Portugal, por isso vão ter que levar comigo.
V.L.
: - Vou fazer uma afirmação sobre a qual solicito o teu comentário :
- Estive há dias, no
restaurante Ribatejo, onde tive o prazer de escutar a tua bonita voz,
assim como a de outros fadistas que eu aprecio tais como, o Zéni
d’Ovar, o Augusto Graça, o Casimiro Silva ou o José Machado. Tive a
impressão de voltar quinze anos atrás, àquelas noites de outrora,
ainda para mais com a presença dos mesmos artistas e sobretudo dos
mesmos clientes.
M.S.
: - Efectivamente estavam ali reunidas algumas das pessoas que faziam
partes dos tempos áureos do fado em Paris. Os Corgos, é realmente um
dos melhores guitarristas que aqui estão, que está por dentro do que
é o fado mais antigo, o fado mais novo e que consegue acompanhar
qualquer artista aqui ou em Portugal, temos o José Machado que é
simultaneamente viola e interprete e sobre o qual não vale a pena
adjectivar pois é sobejamente conhecido e apreciado e eu própria que
pertenço também a essa época áurea que referi. Tentámos criar esta
nova dinâmica estas novas noites de fado e tenho pena que esta gerência
que tanto fez por aquela casa não renove o contrato. Isto não
significa que outros não façam tão bem ou melhor, quero simplesmente
dizer que esta gerência participou da melhor forma na elevação do nível
daquela casa que é a meu ver uma das mais lindas de Paris e que agora
por razões que não me dizem
respeito vá tudo por água abaixo. Nós temos todos muita pena disso e
fico satisfeita que tu tenhas tido esse sentimento em relação àquilo
que viste e ouviste.
V.L.
: - Há cerca de 400 restaurantes portugueses em França. Como sabes
conheço relativamente bem o meio da hotelaria e tenho consciência das
dificuldades dos proprietários dos restaurantes em propor e manter com
regularidade, noites de fado de qualidade. Qual é a visão da artista
Mané sobre este problema ?
M.S.
: - Desses 400, haverá provavelmente 50 ou 100 que pretendem dar espectáculos,
isto porque de certeza os espectáculos dão dinheiro, se não ninguém
daria espectáculos. A maioria dos donos de restaurantes não têm formação
musical, muitos, nunca tiveram também nenhuma formação relativamente
à profissão. Abrem um restaurante, porque pode ser um negócio
familiar, é uma das razões.
O
que é preciso é vontade ; é qualidade, independentemente das crises
económicas, o que funciona sempre é o que tem qualidade. No fado é
exactamente a mesma coisa, com todo o
respeito
que eu possa ter pelos meus colegas que cá estão, se em vez de
formarem grupos para de poderem impor ; grupos sem qualidade, com
cantores e músicos sem qualidade, tentem impor quantidade em vez de
qualidade. Compreendo que toda a gente necessita de ganhar a vida, mas
quando um cliente vai a um restaurante onde não tem um bom serviço e não
tem fado de qualidade, obviamente não volta.
Nota
da redacção :
Infelizmente as coisas não são assim tão simples. Mesmo nos
restaurantes que têm um excelente serviço e bons profissionais à
frente, a grande maioria dos clientes portugueses que regra geral, só
frequentam os restaurantes nos finais de semana, não estão prontos a
pagar a refeição mais cara, pelo facto de haver espectáculo. Os
encargos sociais para declarar os artistas são exorbitantes e estes não
aceitam por vezes as devidas deduções do salário. Por outro lado, as
facilidades do tempo onde grande parte das receitas dos restaurantes
eram em líquido, terminaram há vários anos com a vulgarização dos
cartões de crédito. Teríamos de entrar em pormenores extremamente
precisos e que não interessam os leitores, para explicar aos artistas e
a outros a complexidade da gestão de um restaurante.
Por
fim, enquanto os proprietários de restaurantes portugueses não
compreenderem que não podem “viver” só com a clientela portuguesa
e que terão forçosamente de se adaptar à clientela francesa, que
representa o maior potencial, nomeadamente na apresentação da cozinha,
nas regras de serviço, de higiene etc., continuaremos a ver os
restaurantes portugueses vazios toda a semana e cheios ao sábado. Se
ainda para mais têm de pagar artistas, lá se vai o benefício.
António
Cardoso
Février
00
Tony
Carreira
V.L.
: - Alors l’Olympia, çà
était un succès extraordinaire ! ! !
T.C.
: - L’Olympia a été un spectacle pour moi très émouvant. J’en
garde un souvenir extraordinaire.
V.L.
: - Cela voudrait dire qu’enfin les chanteurs portugais sortent de
l’anonymat ?
T.C.
: - Je pense qu’avec le temps un jour nous aurons une vedette
portugaise internationale. En tous cas je le souhaite. Nous avons déjà
Nuno Berttencourt, guitariste du groupe Extrême. Et Amália Rodrigues
fut et restera aussi fameuse que Edith Piaf.
V.L.
: - Te considère-tu un chanteur de l’immigration ?
T.C.
: - De cœur oui ! Et j’en suis fier.
V.L.
: - Est-ce que tu fais parti de ceux qu’on considère comme faisant de
la musique “Pimba” ?
T.C.
: - Je laisse le public en décider.
V.L.
: Est-ce que le type de musique que tu interprètes a le prestige
qu’il mériterait ?
T.C.
: - N’importe quel type de musique mérite le respect, à partir du
moment ou l’artiste est sincère dans ce qu’il fait. J’ai toujours
essayé de faire mon métier avec le cœur. Et pour cela on me respecte.
V.L.
: - Tu es jeune et pourtant
tu as déjà une longue carrière. Comment cela a commencé et quelles
sont tes perspectives d’avenir ?
T.C.
: - Cela a commencé comme guitariste chanteur dans le groupe Irmãos 5.
En 1988, début en solo avec le festival de l’Eurovision au
Portugal. Le premier succès en 1993 avec A Minha Guitarra.
En
95 Ai Destino a été le premier grand pas dans ma carrière et j’ai
pu cette même année imposer définitivement les musiciens dans mes
concerts.
Les
projets, je prépare actuellement le live de l’Olympia et la vidéo.
Et cette année deux grands spectacles, Coliseu de Lisbonne et Porto.
Mais avant, il y a la tournée Parisienne et celle d’été, au
Portugal.
V.L.
: - Tu voyages énormément, est-ce que ton public de France, du
Portugal, des Etats Unis, du Brésil et de l’Afrique du Sud apprécie
ta musique de la même manière, ou y’a t-il des différences
importantes ?
T.C.
: - Ce sont des émotions différentes a chaque concert.
V.L.
: - Tu habites simultanément au Portugal et en France ; probablement
cela te pose quelques problèmes pour concilier ta profession
avec ta vie de famille ?
T.C.
: - Si j’ai choisi de vivre entre ces deux pays, c’est parce que je
pense être plus heureux ainsi. La vie de famille n’est jamais simple
pour un artiste.
P.
Cardoso
Janeiro
00
Entrevista
a Tony Gama
“Quando
estou em Portugal sou o homem
mais
feliz do mundo”
V.L.
: - Tony, que tens feito ?
T.G.
: - Tenho feito tanta coisa. Podemos partir da última opereta que fiz
com a Micheline Dax, desde aí, fiz 4 revistas ou seja entre 80 e 100
espectáculos por ano. As tournées começam geralmente em Outubro e
acabam em Paris num grande teatro, como por exemplo, o Palais des
Glaces, no teatro Renaissance etc… onde fica-mos à volta de 15 dias
em média. Mas na província era quase todos os dias numa vila ou uma
cidade diferentes, passei por vezes semanas sem vir a casa ver os meus
filhos ou vinha passar um ou dois dias e arrancava novamente.
V.L.
: - Isto torna a vida de casa complicada.
T.G.
: - Sim, por vezes saturava. Mas arranjei sempre maneira de também
trabalhar com a Comunidade Portuguesa. Decidi também de investir-me um
pouco mais em Portugal. É verdade que em determinada altura comecei a
pensar que era demais, porque virei um pouco as costas a pessoas com
quem trabalhei durante muitos anos como é o caso do Pascal Sevran ou
dos produtores de operetas. As pessoas telefonavam-me para fazer espectáculos
mas estava sempre ocupado. Aconteceu-me vir a casa quando os meus filhos
já estavam à dormir, ia vê-los ao quarto e partia sem que eles
acordassem.
V.L.
: - Presumo que os contactos para os espectáculos começaram a diminuir
pelo facto de estares sempre ocupado ?
T.G.
: - Sim, é verdade que quando era só opereta, era Paris, algumas
representações na província, Bélgica, Luxemburgo, Suíça, enquanto
que as revistas era por
todo lado. Acabava uma tournée apareciam logo produtores a propor
outra. Além disso desde há 4 anos para cá, trabalhei muito no
estrangeiro, nos Estados Unidos, na Grécia, Turquia, Noruega, etc.
Portanto foi muito trabalho durante estes quatro anos. Agora decidi de
alternar um ano de tournées e um ano parado a gravar e a fazer espectáculos
na zona de Paris, em Portugal e algumas idas ao estrangeiro.
V.L.
: - Consideras que o teu público é mais francês ou mais português ?
T.G.
: - O facto que tenha trabalhado muito mais no meio francês, é por
oportunidade mas nunca descorei a comunidade portuguesa. Além disso
aproveitei por vezes as tournées para realizar espectáculos para os
portugueses, como foi o caso recentemente na região de Bordéus. O que
é verdade é, que quanto mais trabalhas, mais gente vem ter contigo e
quando estás em baixo as pessoas desviam-se.
V.L.
: - Já conheceste períodos
“em baixo” ?
T.G.
: - Sim, nomeadamente a seguir aos problemas da Rádio. Não me
arrependo absolutamente nada, mas há pessoas que tiveram receio de me
contactar. Passado algum tempo as coisas voltaram ao normal. Fiquei com
uma etiqueta devido à ignorância de muita gente e sobretudo por culpa
de alguns empresários oportunistas portugueses. Há alguns que fazem um
muito bom trabalho a nível empresarial, mas há outros que são
oportunistas e que só fazem trabalhar aqueles que lhes dão muito
dinheiro a ganhar e inventam histórias sobre os outros. Diziam por
exemplo que eu já só cantava opera e as pessoas assustavam-se. Ora
como se sabe a opereta não tem nada a ver com opera, a opereta é
variedade, é música variada, que tem uma componente teatral. Foram
essas pessoas a quem abri as portas no tempo das rádios, dando-lhes
possibilidade de ganhar a vida, que por detrás foram dizer mal de mim.
Como sabes tenho muitos amigos no meio associativo e que obviamente me
vieram dizer o que essas pessoas andavam a contar.
V.L.
: - Há nomes ?
T.G.
: - Não quero dizer nomes, além disso, muito honestamente, estou-me
“marimbando” porque a comunidade continua a seguir-me e não é
porque essas pessoas dizem mal, que as coisas mudam. Além disso, aos
meus espectáculos franceses vêm muitos portugueses. Ainda ontem numa
aldeia chamada Bayeux l’Eveque na zona de Chartres,, apareceram
portugueses que vieram porque tinham visto o meu nome nos cartazes. No
ano passado, no Palais des Glaces havia em média, entre 200 e 300
portugueses. Não é porque certas pessoas que têm lugares de relevo me
viraram as costas, que a Comunidade faz o mesmo.
V.L.
: Depreendemos que a tua participação nas rádios portuguesas,
prejudicou a tua carreira artística. É isso ?
T.G.
: - Não digo que isso me perturbou verdadeiramente a minha carreira artística.
Tive sim um pequeno corte de relações com certos dirigentes
associativos na região parisiense. Fora de Paris, não tive qualquer
problema. Quando me investi nesta aventura das rádios, foi para
defender a comunidade à qual eu me orgulho de pertencer. Em certa
altura, uma jovem veio perguntar-m,e se era verdade que eu tinha vendido
a Rádio Portugal FM à Rádio Alfa. Respondi-lhe que isso era impossível
porque o CSA (Conselho Superior do Audiovisual) não permitiria que uma
rádio fosse vendida a outra.
V.L.
: - Quando é que começaste a cantar ?
T.G.
: Comecei a cantar era pequenito mas iniciei uma carreira artística há
mais de vinte anos.
V.L.
: - Quais são as tuas perspectivas ?
T.G.
: - Vou continuar como até hoje, tenho-me investido muito em Portugal
onde sempre trabalhei muito bem. As aldeias de norte a sul abriram-me
sempre os braços, mas ultimamente tenho passado muito nas rádios e nas
televisões. Já percorri 36 países no mundo com a canção, como é lógico
quero continuar, e ir o mais longe possível, continuando a cantar para
os portugueses para os franceses e outros. Tenho orgulho em ter as
folhas de salários do Olympia onde já passei oito vezes. Uma coisa é
alugar o Olympia para fazer um espectáculo e outra é ter sido
convidado e ter folhas de salário com o nome do Olympia de Coquatrix. A
única sala de prestígio que me falta em Paris e neste país é Bercy,
em contrapartida o meu filho Marco já lá cantou e obteve o 2° prémio
da canção francesa diante 17 000 pessoas. Espero regressar ao Olympia
no próximo ano e será provavelmente umas das últimas coisas bonitas
que farei neste país, porque
em seguida penso regressar a Portugal. Quando estou em Portugal sou o
homem o mais feliz do mundo. Posso estar aborrecido vou dar uma voltinha
à praia perto de minha casa na zona de Salgueiros, passo umas horas
sentado a ver o mar e encho-me de energia.
Mas
também tenho uma serie de projectos, entre os quais é o espectáculo
que eu lancei e que funciona muito bem no meio francês e que queria
apresentar aos portugueses com a introdução de coisas portuguesas,
assim como o fado de Coimbra e de Lisboa e o folclore, com pessoas
trajadas à maneira do Minho, de Trás-os-Montes e do Sul. O resto será
opereta e variedade. Sempre tive a impressão que não sabemos
aproveitar e valorizar aquilo que é nosso. Ainda há tempos na Noruega
cantei o “Coimbra do Choupal”; comecei como costumo fazer em português
para acabar em francês e foi engraçado e comovente ser acompanhado por
toda a sala numa língua que eu desconhecia completamente. Sou muito
sensível e já não sabia se devia continuar a cantar ou ceder às lágrimas
que me vinham aos olhos.
É
pena que em Portugal, as rádios passem tanta música estrangeira.
A.C.
Décembre
99
Interview
à Bevinda
V.L.
: - Bevinda, pour ceux qui ne te connaissent pas suffisamment dis-nous
qui tu es.
B
: - Qui suis-je ? Et bien je pense que je suis une vraie, de plus en
plus mélangée.
Ma
musique se transforme de plus en plus en musique du monde. Dans mon
dernier album Chuva de Anjos, on retrouve un vrai métissage culturel,
d’autant plus qu’il y a des chansons en français, dont un duo avec
Daniel Lavoie, chanteur québécois. C’est une chanson qui parle des
anges et qui va bientôt sortir en single.
Je
suis née au Portugal il y a 38 ans, je suis une fille banale, très
simple. J’aime bien les choses simples, les repas en famille qui
s’étendent sur des heures.
C’est
amusant, j’aime beaucoup la famille sans jamais penser à en fonder
une par contre.
Je
respecte beaucoup les valeurs familiales, j’adore me retrouver en
présence de grandes scènes familiales, sans jamais l’avoir imaginé
pour moi.
Je
crois que c’est du fait que j’ai toujours eu un grand désir
d’indépendance, une recherche de liberté.
V.L.
: - C’est contradictoire !
B
: - Complètement. J’aime l’idée de la famille, j’aime ma
famille, mais je ne m’imagine pas moi-même en fonder une.
D’ailleurs à mon âge je n’ai toujours pas d’enfant, je n’ai
pas l’intention d’en avoir pour le moment, ni de me marier. C’est
paradoxal, mais qui n’a pas de paradoxes comme celui-ci !
V.L.
: - Tu aimes les réunions familiales. Mais est-ce toi qui réalises ces
réunions, est-ce toi qui décides, ou te laisses-tu guider par des gens
qui les organisent ?
B.
: - Je me laisse guider, je me laisse aller. L’an dernier, je suis
allée passer un mois au Portugal dans ma famille. C’était super
parce que je ne les voyais pas depuis longtemps. On a fait de vrais
repas de famille, avec les tantes, les cousines. J’avais emmené ma
mère, on était parti toutes les deux, c’était vraiment un plaisir,
que je ne pourrais pas retranscrire.
V.L.
: - On pourrait dire que c’est portugais, que c’est méditerranéen
?
B.
: - Je ne sais pas si c’est portugais. Mais c’est vrai que, mes
frères et sœurs, ma mère, mon père, qui n’est plus là
malheureusement, sont des gens très importants pour moi. J’ai besoin
de les avoir autour de moi, de les appeler plusieurs fois par semaine,
de parler avec eux. C’est mon sang.
V.L
: - Te considères-tu comme une immigrée ?
B.
: - Oui quand même. Je suis immigrée mais je suis très bien
intégrée, je pense que c’est parce que je suis là depuis longtemps,
mais je suis une immigrée dans les deux sens aussi.
V.L.
: - Pour toi, c’est quoi l’intégration ? Dans le précédent
numéro de Vida Lusa on parlait justement de l’intégration, du sens
que certaines personnes donnaient à ce mot.
B.
: - Je pense que l’intégration c’est vraiment réussir à faire un
savant dosage de choses de notre enfance ou de notre environnement
familial et culturel et de l’adapter au pays dans lequel on vit et de
se faire un potage mélangé avec différentes saveurs. Pour nous ce
seraient des saveurs portugaises avec des saveurs françaises.
C’est
vraiment réussir à ne pas se sentir divisé. J’ai eu un moment
conscience de cette division, et cette division c’est évanouie.
Maintenant je me sens vraiment moi-même, je ne me sens pas forcément
portugaise, pas forcément française, je me sens moi, avec ces deux
identités. L’intégration c’est çà, c’est réussir à se sentir
bien.
V.L.
: - Quand tu es au Portugal pour tes vacances ou pour tes concerts,
est-ce que tu te sens portugaise ?
B.
: - Pas complètement, non. Je me sens appartenant à cette terre,
appartenant à ce lieu, je me sens venant de là. Mais je ne me sens pas
appartenir au Portugal d’aujourd’hui. Je ne pense pas, parce que je
n’y vis pas, par contre je me sens portugaise.
V.L.
: - Cela veut-il dire que tu ne te sens pas intégrée au Portugal ?
B.
: - Non, je n’y vis pas, pour que je me sente intégrée, il faudrait
que j’y vive ou que j’y passe beaucoup de temps. J’y vais
régulièrement, mais je n’y passe jamais plus d’un mois. Je suis
très touriste quand je vais au Portugal. J’aime bien visiter mon
pays, apprendre des choses.
J’avais
deux ans quand je suis arrivée en France, donc ça fait un bout de
temps. C’est compréhensible.
V.L.
: - Parlons musique. Tu es arrivée en France mais en Province, en
Bourgogne plus précisément, ensuite tu es montée à Paris comme on
dit.
B.
: - Oui, je suis montée à Paris mais pas pour la musique, pour les
études, que j’ai rapidement abandonnées d’ailleurs et je suis
partie dans le sud de la France. C’est là-bas que j’ai commencé à
chanter, dans les bals populaires, bals de pompiers etc…
J’ai
décidée de partir toute seule, enfin avec mon amoureux, sans ma
famille. C’était mon choix, ma décision.
V.L.
: - Pourquoi ?
B.
: - Je vivais avec une personne qui travaillait toute la journée, et
moi je ne faisais pas grand chose. Je lui préparais des repas,
j’attendais qu’il rentre. Un jour, il m’a dit qu’il connaissait
un ami qui avait un groupe et qui faisait passer des auditions pour une
chanteuse. J’y suis allée, je n’avais jamais chanté et c’est
comme ça que cela a commencé. Ils m’ont accepté pour l’audition,
j’y suis restée un an, je chantais les tubes de l’été, pour les
bals du 31 décembre, 14 juillet et autres avec les ambiances
d’orchestre.
V.L.
: - Un jour tu décides de revenir à Paris et d’essayer d’en faire
ton métier.
B.
: - Oui, essayer de faire des chansons à moi, parce que chanter des
chansons d’autres chanteurs ne me satisfaisait pas complètement, la
scène me plaisait par contre. Je voulais faire mes chansons.
Je
suis arrivée à Paris, j’ai été pendant deux ans à l’école
“le studio des variétés” où j’ai eu des cours de chant, de
scène, de danse, de piano et de solfège.
J’ai
ensuite commencé à chanter dans des bars, les restaurants, les petits
cabarets de Paris avec un accordéoniste et un guitariste et puis tout
doucement, j’ai commencé à avoir un répertoire assez cohérent de
chansons françaises ensuite j’ai commencé à inclure un titre en
portugais, un deuxième… Et finalement j’ai eu envie de chanter de
plus en plus dans cette langue. Pendant plusieurs mois je suis allée
vivre au Portugal pour essayer d’avoir l’ambiance un peu plus de
là-bas. De m’intégrer en fait.
De
retour en France, j’ai eu des cours à la Sorbonne.
Par
la suite, j’ai rencontrée des personnes qui vivaient dans le monde de
la lusophonie. J’ai fait mon premier disque en 1994 en portugais, ça
a été un déclenchement puisque il y en a eu d’autres.
Aujourd’hui
pour la première fois, je suis revenue à la langue française, comme
si c’était une boucle, une recherche qui se terminait, pour passer à
autre chose.
V.L.
: - En fait, tu as démarré ta carrière comme n’importe quelle
française qui voudrait se lancer dans la chanson, sauf qu’à un
moment déterminé, tu as eu la nécessité de revenir aux sources au
travers la chanson.
Est-ce
que l’on peut dire que dans les chansons françaises que tu
interprètes dans ce dernier album, il y a une influence de la musique
portugaise ?
B.
: - Et bien non. C’est cela qui est étonnant, ce sont des petites
chansons légères, des chansons de variétés très douces, très
simples. Ce sont vraiment des chansons que l’on chantonne et non une
recherche de réalisme que l’on peut trouver dans certaines chansons
portugaises. C’est tout à fait autre chose. Je sais par contre, que
pour le prochain album, j’ai envie de prendre une reprise d’Edith
Piaf qui s’appelle “emporte-moi” et de la faire en fado, mais en
français. Je vais demander également à un ami, de m’écrire un fado
en français.
V.L.
: - On peut reparler de revirement de carrière ?
B.
: - Non, ce sont des expériences, je suis toujours en train de
chercher. Tu sais quand j’ai fait l’hommage à Pessoa, c’était
une envie. Je fonctionne beaucoup comme ça, par envie ou par rencontre.
Pour
cet album Chuva de Anjos j’ai retrouvée un ami qui s’appelle Pierre
Gros qui écrit de très belles chansons notamment pour Michel Jonas
dont “les vacances au bord de la mer”, ou pour Diane Dufrène. Nous
sommes partis ensemble au Népal, il a eu envie d’écrire des chansons
pour moi, on a donc co-écrit deux des chansons en français, il y a
aussi une reprise de Charles Trenet dans cet album que j’aime beaucoup
qui est “que reste-t-il de nos amours”.
C’est
juste une petite esquisse, des vacances supplémentaires.
V.L.
: - Ton album s’appelle Chuva de Anjos, pourquoi ?
B.
: - Parce qu’il y a une chanson qui s’appelle Anjo dedans, les anges
sont là, à plusieurs reprises, la chanson avec Daniel Lavoie parle
également des anges.
Dans
cet album, il y a 14 titres, dont 4 en français, on reste donc dans une
tonalité complètement lusophone, avec une instrumentation très
cordes.
V.L.
: - Tu voyages beaucoup. Tu me parlais tout à l’heure d’une
expérience tout à fait intéressante au Népal.
B.
: - Oui, tu dois parler du moment où je suis allée au monastère de
Bigugompa. C’etait quand j’écrivais pour mon album Chuva de Anjos.
J’aime bien aller dans des endroits un peu perdus, pour me retrouver
seule. Pour Terra e Ar j’etais allée à Goa où j’avais écrit la
plupart des chansons, pour Pessoa em Pessoas j’avais fait la
composition avec un ami capverdien, j’étais donc partie au Cap Vert.
Pour Chuva de Anjos la plupart des chansons ont été écrites dans ce
monastère. J’étais toute seule, j’avais emmené quelques livres et
c’etait amusant car du matin jusqu’au soir, je suivais le soleil
dehors. Je me levais vers 6h00 du matin, je prenais mon petit déjeuner,
toujours sur la même pierre, je lisais tel livre au même endroit, bref
je suivais le soleil toute la journée.
Je
prenais tout l’espace du monastère en suivant le soleil. Je suis
restée comme ça 8 jours, à écrire, à rigoler avec les nonnes qui
sont très bonnes vivantes.
V.L.
: - C’est quoi cette envie de voyager et d’aller dans des endroits
pareils ?
B.
: - Je suis très attirée par l’Asie. C’est vrai que j’aime
l’Asie, l’Inde etc…
J’aime
me retrouver dans ces ambiances, parce qu’il y a une espèce de
liberté dans ces pays que je n’ai pas forcément ici par rapport aux
autres. Il y a une simplicité des rapports qui me fait beaucoup de
bien, une simplicité dans le regard, dans l’approche de l’autre,
dans la communication. Il n’y a pas de bla, bla, bla, c’est très
direct.
C’est
de l’énergie, j’ai besoin
de me ressourcer. Je rentre du Népal, j’y suis restée trois semaines
et je me sens beaucoup plus vivante que lorsque je suis partie.
V.L.
: - Dans ces pays, il n’y a pas des moments où tu es critique par
rapport à leur civilisation ? Etablissant par exemple des comparaisons
avec l’Europe ?
B.
: - Si, bien sûr. Mais tu sais à chaque fois que je vais à la
montagne je me dis - tient, il faut vraiment que je m’achète une
maison à la montagne. J’ai l’impression que ma vie n’est vraiment
pas dans une grande ville. J’aime bien y être mais j’aime bien
disparaître et me retrouver dans un coin tranquille toute seule sans
personne sans le bruit.
Mais
je ne vis pas en ermite, je suis cosmopolite, je parle beaucoup de
langues, j’aime bien le contact. Mon rêve en fait, serait d’avoir
deux points d’attache, un point d’attache ici, et un autre dans un
coin de montagne où je peux aller de temps en temps et vraiment ne plus
entendre parler de rien, ni de personne.
Quand
on écrit des chansons, on a tout de même besoin d’espace intérieur
pour que cela vienne ! Si tu es toujours pris du matin jusqu’au soir,
tu n’as pas d’espace à l’intérieur. Cet espace, moi je l’ai
dans le voyage. Quand je pars, il y a un trou qui se fait, je deviens
plus réceptive à ce qui m’entoure, à mon intérieur. Donc les
choses viennent plus facilement. Les mots viennent tout seuls.
J’écris rarement ici.
V.L.
: - Te considères-tu comme une artiste ?
B.
: - Une artiste... Je pense avoir une âme artistique de par le fait que
j’ai une certaine idée de la liberté et de la vie, qui n’est pas
forcément une idée du 9h00 / 18h00. Pourtant, j’ai fait des boulots
qui me plaisaient dans des bureaux, des choses comme ça. Mais c’est
vrai que je n’étais pas dans une satisfaction totale, alors que là,
j’ai une espèce de joie intérieure et extérieure que je n’aurais
pas forcément trouvé dans un autre travail. Parce que c’est un
travail aussi. Ça ne se fait pas tout seul, il faut ramer.
V.L.
: - Quand tu vas dans un pays lointain pendant une semaine, deux
semaines, pour écrire, tu as quand même cette pression, qui est de
faire des chansons ?
B.
: - Oui, mais comme je suis seule j’ai des moments de vide où il ne
se passe rien et tout arrive. Je suis là et d’un seul coup des mots
vont venir, une ouverture se fait. Ça vient plus vite. Si j’écris à
Paris, je peux rester deux jours sur une feuille.
V.L.
: - Est-ce que tu gagnes beaucoup d’argent ?
B.
: - Beaucoup non, pas encore malheureusement mais suffisamment pour bien
vivre.
V.L.
: - Est-ce que tu aimes te produire devant le public ?
B.
: - Oui, j’aime me produire, j’ai un peu de trac avant mais de plus
en plus j’aime chanter en plein air. Cette année, j’ai fait
plusieurs festivals en Italie, en Suisse. En plein air, il y a vraiment
une sensation de nature très forte.
C’est
l’union de l’homme avec la nature contrairement à une salle
obscure, tu as des lumières et j’ai l’impression que comme si on
t’apportait un rêve supplémentaire. Ça me fait vibrer d’être
dans un espace où l’homme, c’est à dire le public, les musiciens
sont unis dans un espace imaginaire ouvert, magique. Le plein air
accentue ça, tu as les éléments en plus. Dans une salle tu vas
reproduire la nature, en plein air, tu es vraiment dans la nature.
J’ai
chantée dans un jardin, quand on sent le vent dans le micro, qui
caresse les cheveux, on sent que les gens sont aussi dans cet état. La
cohésion qui existe dans les salles obscures est retrouvée dans le
plein air.
V.L.
: - Quelles sont tes perspectives pour la suite de ta carrière ?
B.
: - Pour ma carrière, je pense que j’ai des ambitions, mais pas
toutes. C’est à dire que je ne suis pas prête à sacrifier une
partie de ma vie pour ne faire que de la musique sous prétexte de faire
400 000 albums. De m’acoquiner avec une grande maison de production ou
une multinationale ne me tente pas.
Je
suis chez un label indépendant et j’y suis bien car j’ai une totale
liberté artistique et ça, tu ne peux pas l’avoir dans une
multinationale où évidemment on va te faire vendre plus de disques, on
va mettre plus d’argent dans la promotion etc… Par exemple chez Sony
ou Virgin peu importe, si je me retrouve chez eux ils vont me donner un
chiffre à atteindre, ils vont me pousser en promo. Imaginons que
j’atteignais ce chiffre pour le 1er disque que je fais avec eux et que
le second ne fonctionne pas, la rupture de contrat est le plus souvent
l’issue de cette relation. Il n’y a pas vraiment de travail sur la
durée.
Avec
un label indépendant nous n’avons pas les mêmes aspects, notamment
promotionnels, mais il y a une autre façon de travailler. Il n’y a
pas autant de pression.
António
Cardoso
Novembro
99
À
minha amiga Amália
Entrevista
a Zeni D’Ovar
V.L.
: - Zeni D’Ovar estávamos habituados a vê-lo sempre em companhia da
Amália de quem era amigo íntimo. Tentando pôr de lado a artista,
gostaríamos que nos falasse da mulher.
Z.O.
: - Contrariamente ao que se poderia pensar, não está tudo dito sobre
a artista, nomeadamente em Portugal, lembro-me particularmente quando
ela fez um regresso triunfal a Madrid onde cantou num auditório. Na
imprensa espanhola referia-se que as pessoas aplaudiram de pé durante,
creio dez minutos e nos jornais portugueses traduziram para metade.
Talvez porque julgassem que era demais para uma artista portuguesa.
Ainda tenho os jornais espanhóis e portugueses dessa altura.
Eu
acho, que o que fez que Amália fosse aquela grande vedeta, não foi só
aquela voz única, que nunca tivemos nada assim em Portugal, nem vamos
ter tão cedo. Para lá da voz, havia a personalidade, havia uma
generosidade imensa e ilimitada.
V.L.
: - Era sobretudo esse aspecto da personalidade de Amália que gostaríamos
de desenvolver consigo porque a conheceu e a acompanhou mais de 40 anos.
Z.O.
: - Sim em contas redondas 40 anos. Fiz um filme com ela “As Ilhas
Encantadas”, uma coprodução Franco-Portuguesa onde ela era a vedeta,
mas não cantava, tinha um papel dramático. Numa mesa redonda na
televisão com Frederic Mitterrand onde ela era a convidada, tive a
oportunidade de falar disso.
Tinham
prevenido o realizador do filme que a Amália era uma pessoa muito difícil,
caprichosa, que se um dia não lhe apetecesse aparecer no platô, não
vinha, mandava dizer que estava cansada etc.… O realizador estava
muito preocupado, porque num filme prepara-se um plano de trabalho, que
não pode exceder determinado tempo e cada dia que passa para além do
previsto, custa muito dinheiro à produção. Disse-lhe que essa fama não
tinha nada a ver com a realidade. Passado um mês, o realizador
chamou-me e disse-me que não tinha esquecido o que lhe tinha dito sobre
a Amália. De facto ela era de um profissionalismo raro. Era a primeira
a chegar ao local de filmagem, aliás sempre comigo porque a
acompanhava sempre, e realmente a Amália era um exemplo para
todos os outros.
V.L.
: - Mas contava-se que, quando ia gravar, se não estava bem disposta,
parava tudo e ia-se embora.
Z.O.
: - Isto faz parte do profissionalismo e da lucidez que ela possuía. Se
ela entendia que não estava com boa voz, deixava para outra altura.
Porquê gravar quando se pensa que não vai ficar bem ? Além disso ela
podia permitir-se isso, tanto mais que era amiga íntima do editor,
o Valentim de Carvalho. As gravações em Portugal passavam-se
assim. Se uma noite ela estava bem disposta, chamavam-se os técnicos
todos, telefonava-se a toda a gente, reuniam-se nos estúdios e a Amália
cantava até às 2 ou 3 da manhã. É o que temos como herança, os
melhores discos dela foram gravados assim. Numa altura, em 1952 ela
gravou em Londres. Chegou ao estúdio, estava tudo a espera para gravar.
Começou e de repente parou dizendo que não estava capaz de cantar.
Estavam previstos vários dias para gravar e varias sessões. As pessoas
ficaram aterradas por pensarem que era mais uma vedeta caprichosa. Na
segunda sessão, ela chegou e gravou tudo numa vez e já não foi
preciso fazer mais sessões. Ela tinha a noção que gravar era uma
responsabilidade muito grande, portanto acho que ela tinha razão de o
fazer quando se sentia bem. Não fez isso muitas vezes, mas como sabe
fica a fama.
V.L.
: - Qual era o tipo de ralação que o Zeni D’Ovar tinha com ela ?
Z.O.
: - Era a melhor. A minha relação com a Amália, é das boas coisas
que me aconteceram na vida. Conhecer uma mulher como a Amália, é uma
coisa que não se esquece mais.
Costumo
dizer sempre que sou um privilegiado. Naquele círculo de amigos que
rodeava a Amália, alguns até tinham ciúmes porque ela dizia que, eu
era como se fosse o irmão mais novo e não gostavam disso. Portanto
tentaram duas vezes criar enredos para perturbar a nossa relação. Na
primeira vez, ela chamou-me e resolveu-se imediatamente. Mais
recentemente, exactamente em 1992, no último Olympia, algumas pessoas
por inveja, criaram-me uma situação complicada. Afastei-me na altura
porque não aceitei o que se passou. É uma longa história que não
interessa os seus leitores. Mas tratei de arranjar todas as provas e
testemunhas e foi tudo esclarecido. Quando estive com ela a seguir, ela
disse-me que não queria falar dessas coisas. Eu retorqui-lhe que tinha
de falar porque estava ferido. Ela não teve culpa nenhuma porque
encheram-lhe os ouvidos mas nunca deixou de ser minha amiga. A prova é
que, há dois anos telefonou-me quando eu estava a passar férias de verão
e disse-me - “Então você está em Portugal e não vem me ver ?
Ela ia para o Alentejo passar o mês e convidou-me a passar
alguns dias com ela. Como não podia, estive em casa dela em Setembro.
Estivemos a falar até às 5 da manhã, entretanto chegou a Celeste (irmã
da Amália) que estava a cantar numa casa qualquer, estava a Lili, a
secretaria, que sempre foi uma pessoa muito boa para ela, muito devota e
vários outras amigos. E ali na frente de toda a gente, ficou tudo em
pratos limpos.
V.L.
: - A imprensa nunca falou muito dos amores de Amália, mas existiram
sempre muitos rumores…
Z.O.
: - Claro, e muitos sem qualquer fundamento. Quando se tem o nome que a
Amália adquiriu, dizem-se sempre coisas muito bonitas e paralelamente
coisas menos agradáveis, por vezes sem fundamento.
Ainda
hoje, há pessoas que dizem que ela cantava muito bem, mas ainda cantava
melhor quando já tinha uns copos. Eu sempre a vi beber chá antes, no
intervalo e depois. De vez enquanto
bebia uma taça de champanhe, não ia para lá da segunda, e que eu
saiba, duas taças de champanhe nunca fizeram mal a ninguém. Este rumor
começou há alguns anos, tímida como era, o champanhe criava-lhe uma
certa boa disposição, então antes de cantar, para enfrentar o público
com mais coragem bebia uma taça de champanhe. Daí veio o boato dos
copos. Mas houve outros muito mais graves, como na altura do 25 de
Abril, onde inventaram que ela pertencia a PIDE. Até inventaram um túnel
subterrâneo que iria da casa dela até ao Parlamento para as
entrevistas secretas.
V.L.
: - Os rumores também diziam que ela era infeliz com os amores.
Z.O.
: - No tempo do primeiro marido eu não a conhecia. Foi aliás um
casamento de curta duração. O filme “O Fado” inspirou-se um bocado
disso, só que, para o agrado do público, ela volta, mas na vida real,
ele foi para a África e ela continuou a sua carreira. Sou do tempo do
segundo casamento com o César Seábra que era de Anadia. Tinha feito o
curso em Coimbra mas estava radicado no Brasil onde conheceu Amália.
Casaram e foi um casamento que durou até ele morrer, dois anos antes
dela. Portanto eu acho que um casamento que dura esse tempo todo perde
naturalmente aquela chama do início, mas fica depois outra coisa mais
importante, que é aquela amizade que torna uma união mais sólida. A
tal ponto que só a morte os separou. Haverá provavelmente outros
amores que aconteceram mas na minha opinião, grande parte são boatos.
V.L.
: - Fale-nos da sua paixão pelo fado e por Amália.
Z.O.
: - Na minha casa não se ouvia fado, era completamente banido.
Ouviam-se cantores líricos, muita música clássica, e opera, que eu
continuo a ouvir e a gostar e nunca pus de parte. Quando ia para a praia
ouvia os fadistas nos alto-falantes, mas o que eu mais gostava era dos
guitarristas. Por vezes parava a ouvir outros fadistas celebres antes da
Amália assim como ; a Hermínia, o Alfredo Marceneiro, a Maria
Albertina, a Berta Cardoso etc.… Não me tocava muito. Quando escutei
a Amália pela primeira vez em casa de amigos, nunca tinha ouvido nada
igual. Perguntei quem era, disseram-me que se chamava Amália Rodrigues
e que regressava do Brasil com muito êxito. Como sabe as primeiras
gravações foram no Brasil. Aquilo entrou-me nas veias. Penso também
que todos os que conheceram a Amália de perto como eu, apaixonaram-se
por ela. Toda a gente. Eu percorri o mundo inteiro com ela e constatei
isso por todo o lado.
V.L.
: - Se tivesse de lhe apontar alguns defeitos, qual seriam os principais
?
Z.O.
: - Eu acho que toda a gente tem defeitos. A Amália também tinha com
certeza, não era a Nossa Senhora de Fátima, só que eu não lhos
conheci. Nunca lhe conheci defeitos, para mim só tinha qualidades.
V.L.
: - Fale-nos então de algumas qualidades da mulher, mais que da
artista.
Z.O.
: - Eu tenho de começar pela voz : Única, sem possibilidade de haver
outra que chegue lá. A inteligência, a lucidez, a generosidade. Sem
essas qualidades, mesmo com a voz que tinha, não teria sido o
que foi. Se temos gente que canta bem em Portugal e que vêm cá para
fora, são todos devedores da Amália. Foi ela que abriu as portas aos
outros. Acho injusto que alguns não se lembrem de dizer isso, quando
actuam em países onde não se fala a nossa língua.
Gostaríamos
de poder transmitir aos leitores a emoção dificilmente contida de Zeni
d’Ovar quando fala de Amália e
de prolongar esta entrevista. Estamos todavia condicionados pelo espaço.
São algumas das desvantagens da imprensa escrita em relação aos meios
audiovisuais. Conservamos no entanto a enorme vantagem de guardar e
tornar acessível a todos, aquilo que se escreve. Com Zeni d’Ovar,
poderíamos continuar a falar da importância de Alain Ulman na carreira
de Amália, de Camões que já falava de fado nos seus poemas, de José
Régio, de Pedro Homem de Melo, que terá dito que os seus poemas tinham
chegado ao povo através da voz de Amália. Não faltarão ocasiões
para prosseguir-mos esta extraordinária conversa.
Outubro
99
Joaquim
Botelho lança novo disco
Joaquim
Botelho canta fado há 40 anos. É um desses fadistas que têm
felizmente mantido bem vivo o fado em França. Acaba de lançar
um novo disco e não podíamos por isso falhar a oportunidade de o
entrevistar.
V.L.
: - Joaquim Botelho, fala-nos deste teu novo disco...
J.B.
: - É um disco de fado, é um trabalho que considero muito bom e julgo
que vai ter êxito porque foi feito com muito amor e ardor. Com a minha
idade já não espero grande coisa mas penso contribuir com a minha
vontade à divulgação da música portuguesa. O fado é a primeira
cultura musical portuguesa, é o meu slogan e aqui está uma das razões
de eu ter feito este disco.
V.L.
: - Já gravaste muitas cassetes, mas é o primeiro CD, não é verdade
?
J.B.
: - Sabes que um fadista que aqui vive e trabalha nos restaurantes
portugueses em França, tem grandes dificuldades para arranjar um
editor, portanto é complicado porque são necessários investimentos
importantes. Tive agora a oportunidade de poder eu próprio investir por
isso fiz um CD com verdadeiros músicos, mas cassetes tenho feito
muitas. O facto de ter músicos daqui de França é também muito
importante, porque em Portugal ainda há quem pense que os músicos de cá
não tocam como deve ser, que têm este ou aquele defeito, que não estão
habituados etc. Não se pode pensar assim, aqui também temos músicos
com muito talento, é como em Portugal, há bons e maus.
V.L.
: - O Armindo Campos por exemplo, é um músico bastante conhecido e
apreciado em Portugal....
J.B.
: - Sim o Armindo Campos fez os arranjos, a mixagem e o necessário para
o disco ficar bem gravado, que é o caso, mas como músicos tenho o José
Machado e o Manuel Corgas, que em Portugal têm lugar em qualquer espectáculo
de qualidade.
V.L.
: - Como poderíamos resumir em poucas palavras a tua carreira artística
?
J.B.
: - Vim para França em 66, regressei a Portugal e voltei em 68 cantar
para o restaurante Ribatejo onde estive um ano e depois comecei a cantar
noutros restaurantes mas havia dificuldades para arranjar guitarristas.
Muitos devem lembrar-se que lancei muitos guitarristas e violas aqui em
França e até cantores. Por isso quando ouço na rádio algumas pessoas
dizerem que foram eles que trouxeram o fado para França, dá-me vontade
de rir. Tenho um documento que demonstra que o Hilário esteve a cantar
em França há mais de um século. Tivemos uma senhora que tu conheces
que teve o primeiro restaurante de fado em França, vê se adivinhas
quem...
V.L.
: - Referes-te à Clara e ao Zeni D'Ovar ?
J.B.
: - Sim claro. Então porque é que as pessoas dizem que foram eles a
trazer o fado ?
V.L.
: - Têm vindo muitos fadistas de Portugal com intenção de aqui
permanecer. No entanto acabam por regressar porque dizem não ter
trabalho suficiente para viverem correctamente. Qual é o problema ?
J.B.
: - Eu poderia responder de uma maneira mais directa mas vou tentar
ponderar. Há pessoas que têm muita vontade de cantar
e de tocar fado mas não têm capacidade pois nunca aprenderam o
que é realmente o fado. Temos por exemplo o Manuel Miranda que tem
feito imenso pelo fado, é um guitarrista que eu aprecio muito, como
amigo e como homem que tem lutado pelo fado. Mas há outras pessoas que
se consideram muito grandes e que não têm feito nada pela cultura e
pelo fado. Estou à vontade para falar porque eu já canto fado há 40
anos.
V.L.
: - Para que o fado tenha sucesso em França não seria necessário que
fosse mais comercial de maneira a agradar a um maior número de pessoas,
franceses e portugueses ?
J.B.
: - Exactamente, mas também não temos sido ajudados e agora falo por
todos os meus colegas. Desculpa tu estás na imprensa e vocês não nos
têm ajudado, nem a imprensa escrita nem as rádios. Temos aqui gente de
valor e precisávamos de apoio, estou a falar dos artistas de fado
porque os pimbas, esses têm sempre êxito. Não é que eu tenha alguma
coisa contra o Pimba porque eu também danço o pimba-pimba.
V.L.
: - Pensas que há público suficiente para o número de fadistas que há
em França ?
J.B.
: - Eu tive o prazer de estar em vários restaurantes a cantar
o fado como é o caso deste onde estamos, (Europa), onde o público
foi formidável. Não se ouvia uma mosca. E porquê ? Porque os artistas
que cá estavam, não por eu também estar, mas a verdade anda sempre em
cima da água, eram de boa qualidade. Agora por vezes vais a
restaurantes que anunciam fado e quando chegas, não ouves fado nem
ouves nada. Nem é fado nem é canção. As pessoas pensando que aquilo
é que é o fado, não voltam.
V.L.
: - Qual é a melhor maneira de transmitir aos estrangeiros, que não
podem falar enquanto se canta o fado, tendo em conta ainda por cima não
percebem a letra ?
J.B.
: - Eu posso-te dizer que tenho cantado em vários sítios, onde são os
portugueses que fazem barulho e não os franceses. Isto é a realidade,
já me aconteceu dezenas de vezes e eles é que me vêm agradecer, que
compram os meus trabalhos.
V.L.
: - Na realidade, sabe-se que grande parte dos nossos compatriotas aqui
residentes, sendo maioritariamente oriundos do norte ou do centro
preferem música para dançar. Quem é que se deve adaptar ? É o público
ao fado, ou o fado ao público ?
J.B.
: - Eu já passei por tantas que estou adaptado a tudo. Se quiserem dançar
que dancem. Se me quiserem deixar cantar em silêncio, agradeço, porque
o fado é como uma oração e na igreja não se dança.
T.C.
Setembro
99
Jornadas
Parlamentares do Partido Socialista Português em Pantin
Entrevista
com : Francisco Assis
Presidente
do grupo Parlamentar do Partido Socialista
V.L.
: - Começamos pelas jornadas do PS que decorreram em França. Ficamos
com uma impressão desordem e que os militantes do PS presentes não
conheciam a ordem do dia nem os objectivos. Qual é a sua opinião ?
F.A.
: - Creio que a maior parte deles conhecia a ordem do dia.
V.L.
: - Uma sala de biblioteca de uma Câmara dos arredores de Paris era um
local apropriado para uma reunião com este nome ?
F.A.
: - Foi o local escolhido pelos organizadores da reunião, a Federação
do PS de Paris, e não temos nada a opor. É um local público com toda
a dignidade, é uma biblioteca nos arredores de Paris. Sabemos que a
maioria dos nossos emigrantes estão essencialmente sediados nas zonas
periféricas.
V.L.
: - Isto leva-nos a pergunta seguinte : como vão as relações entre o
PS francês e o PS português ?
F.A.
: - Penso que as relações são as melhores possíveis. Embora a minha
responsabilidade seja estritamente a condução do Grupo Parlamentar
nessa perspectiva devo dizer que as relações são boas segundo o nosso
deputado parlamentar sobre a emigração o Dr. Carlos Luís e do ponto
de vista do funcionamento partidário também são excelentes. Não há
nenhuma razão para que assim não seja.
V.L.
: - Há grande diferença com o período Miterrand Mário Soares ?
F.A.
: - Não posso responder em primeiro lugar porque não vivi esse período
e em segundo lugar porque não conheço em pormenor a natureza das relações
que neste momento são mantidas entre
os dois partidos. Não tive oportunidade de ter nenhum contacto
com os socialistas franceses porque estavam a decorrer as férias
parlamentares. Limitei-me a contactar os socialistas portugueses aí
residentes. Não estou em condições de fazer uma avaliação objectiva
séria sobre a natureza das relações entre o PS francês e o PS
português mas presumo que no âmbito das relações internacionais,
fazemos parte da Internacional socialista, do Partido Socialista
Europeu, mantemos as melhores relações.
V.L.
: - Falemos das comunidades portuguesas que residem no estrangeiro.
Sabemos que votam muito pouco. Afinal que importância têm para os políticos
em Portugal ?
F.A.
: - A importância é enorme, nós temos consciência que os emigrantes
têm um capital de conhecimento muito vasto que obtiveram ao longo de
uma vida passada em países mais desenvolvidos que o nosso na maior
parte dos casos, sobretudo quando se trata de países europeus. Portanto
esse capital deve ser colocado ao serviço do país e foi nessa
perspectiva também que eu quis valorizar
este encontro que nós desenvolvemos. Do ponto de vista da
participação eleitoral, é natural que ela seja menor do que no próprio
território, uma vez que apesar de tudo, há uma distancia física que
condiciona o comportamento eleitoral.
V.L.
: - Grande parte dos países ditos industrializados e não só, temos o
caso da Argélia, organizam a votação dos seus expatriados nos
consulados. Porque não Portugal ?
F.A.
: - Não sou a pessoa mais indicada para responder a essa questão, uma
vez que não tenho responsabilidade nessa área, agora penso que devem
ser feitos todos os esforços para que se garanta a votação nos locais
onde esta possa decorrer em melhores condições. Se verificar-mos no
futuro que é nos consulados, presumo que não haverá nenhuma objecção.
V.L.
: - Finalmente os portugueses residentes no estrangeiro vão poder votar
para as presidenciais. Qual é a razão da oposição do PS durante
estes anos todos e porquê tanta restrição ?
F.A.
: - O PS apenas exigiu que se clarificassem algumas condições, o que
de resto vai acontecer na alteração
da legislação eleitoral, no sentido de garantir que as pessoas
que venham a votar tenham um mínimo de vinculação com o país. Não
podemos permitir que se atribua a mesma capacidade eleitoral a quem
tenha uma ligação permanente com Portugal apesar de estar no exterior,
que aqueles que já não têm nenhuma ligação com o nosso país.
Portanto é essa distinção que é preciso estabelecer com nitidez e é
isso que nós nos empenharemos em fazer. Feita essa distinção, nós
somos claramente a favor da participação daqueles que mantêm um vínculo
claro com o país.
V.L.
: - Em relação à dupla cidadania, guardar a nacionalidade portuguesa
não é suficiente para justificar esse vínculo ?
F.A.
: - Em absoluto não se pode responder a isso, porque se pode optar
pela cidadania portuguesa por variadissimas razões e algumas não
têm que ver propriamente com a preocupação de manter a ligação a
Portugal mas com razões de oportunidade como sabe. De forma que é
preciso estabelecer precisamente essa distinção e estabelecer critérios
claros e é isso que nós estamos empenhados em encontrar.
V.L.
: - Tem-se falado num rendimento mínimo garantido para emigrantes. Como
é que isso está ?
F.A.
: - É uma questão a explorar tendo em vista a avaliação do que se
fez já a nível do território nacional e a avaliação dos resultados
obtidos através do recurso a esse instrumento. Haverá agora que o
alargar se porventura se vier a revelar adequado e é isso que nós
estamos a estudar neste momento.
V.L.
: - A nossa revista tem um “site” internet, onde publicaremos
evidentemente também esta entrevista. Temos “links” ou mais
exactamente ligações directas aos princípais partidos políticos
portugueses assim como a diversas instituições, Presidência, 1°
ministro, ministérios e órgãos de comunicação social. Podemos por
este meio ver e ouvir a sua última intervenção na Assembleia da República.
Pensamos
que o Governo deveria investir neste sector para aproximar mais de
Portugal os 4 500 000 de portugueses que residem no estrangeiro, já sem
falar dos outros países lusofonos. Qual é o seu sentimento ?
F.A.
: - Sou claramente favorável a isso, penso que é umas das vias hoje,
que têm que se utilizar para assegurar uma maior ligação entre as várias
Comunidades Portuguesas espalhadas pelo mundo. É recorrer justamente às
novas possibilidades de comunicação que a informática nos
proporciona.
V.L.
: - Umas das críticas que se têm ouvido, é que a RTPI não teria uma
programação adequada para estas comunidades. O que pensa ?
F.A.
: - Não costumo ver a RTPI, portanto não estou em condições de fazer
uma avaliação.
V.L.
: - Uma última palavra para a nossa comunidade ?
F.A.
: - Uma palavra de confiança e de esperança, de apelo a que participem
activamente na construção do futuro de Portugal. A sua participação
é essencial foi aliás aquilo de mais importante, creio eu, que tivemos
oportunidade de dizer quando estivemos aí em Paris.
Entrevista
conduzida por António Cardoso
Julho
99
Entrevista
ao Dr. José Moreira de Castro
V.L.
: - Porquê ter escritório de advogado em Lisboa, Paris e Bordéus ?
J.M.C.
: - Porque há uns anos atrás, por mera coincidência, confluíram no
meu escritório de Lisboa, vários clientes portugueses, residentes em
França e aí emigrantes, usando a terminologia da época.
Acontece
que um advogado, quando se ocupa de um caso, judicial ou não, é-lhe
exigido um quase permanente contacto com o seu cliente, para informação
e esclarecimentos absolutamente indispensáveis, que se só se
processarem pelo correio ou por conversa telefónica, necessariamente
breve, tornarão a sua intervenção num suplício obrigando os clientes
a despesas e grandes incómodos.
Foi
então que lembrando-me da velha sentença que “Quando Maomé não vai
à montanha...” concluí dever ser eu a deslocar-me...
E,
assim, comecei por ter um gabinete em Paris, com advogados franceses e
um segundo em Bordéus, nas mesmas circunstâncias, aonde me desloco várias
vezes no ano, para se proporcionar o contacto directo com os clientes,
daí resultando manifesta vantagem recíproca.
V.L.
: - Como consegue conciliar a sua vida profissional e familiar com esses
três escritórios ?
J.M.C.
: - No aspecto profissional sem problemas, pois tenho uma filosofia de
aproveitamento do tempo que colhi da experiência e que consiste em
verificar que as pessoas muito ocupadas são sempre capazes de enfiar no
seu dia-a-dia, mais uma tarefa, sem sequer darem por isso, enquanto se
pedir, por exemplo a um reformado, a mais ínfima colaboração, a
recusa invariavelmente, com o pretexto de não dispor de tempo...
Quanto
o aspecto familiar, há necessariamente alguns custos, mais suportáveis,
se tiver uma família muito complacente, como é o meu caso.
V.L.
: - Sabemos que correu o mundo. Razões profissionais ou gosto de viajar
?
J.M.C.
: - Permita-se-me rectificar o exagero ; não sou nenhum globe-trotter,
embora conheça em boa verdade umas dezenas de países...
As
razões são maioritariamente profissionais e também institucionais,
mas confesso ter um entranhado e confessado gosto de viajar, uma espécie
de motor de arranque que me embala irresistivelmente.
V.L.
: - Paris é para si uma cidade especial ?
J.M.C.
: - Não é “uma” cidade é “a” cidade especial !
Se
me permitir uma comparação de luxo, inspirar-me-ia na célebre declaração
de Jonh Fitzerald Kennedy, quando em Berlim disse, em alemão “eu sou
um berlinense” para, por minha vez, afirmar “je suis um parisien”.
V.L.
: - Presumimos que tem muitas queixas de pessoas que foram burladas em
questões de imobiliário ?
J.M.C.
: - As questões que refere, serão essencialmente de duas espécies :
as consequentes de casos de arrendamentos e o timesharing.
Os
problemas da primeira, rarissimamente envolvem ilícitos criminais e
relacionam-se essencialmente com rendas não pagas, trespasses, denúncia
de contratos, etc...
Ao
invés, o “direito real de habitação periódica” (nome que a nossa
legislação dá ao timesharing) embora hoje já esteja muito trabalhado
e domesticado, quando se introduziu em Portugal, em finais de 1981, foi
fonte permanente e angustiante dos maiores problemas, esses sim a roçar
de perto formas de burla e que causaram a alguns meus clientes gravíssimos
problemas com a destruição maciça de muitos sonhos de boa aplicação
de poupanças.
V.L.
: - Quem tem pouco dinheiro, hesita em recorrer aos advogados por
pensarem que levam muito caro. Qual a sua opinião ?
J.M.C.
: - Esta é a primeira (e espero que última) pergunta que se me afigura
embaraçosa.
O
meu justificável espírito corporativo, empurrar-me-ia a registar que
tal entendimento das pessoas é falacioso.
Penso
todavia que se impõe considerar que esse pensamento não pode ser
generalizado, reconhecendo embora que aqui e ali há por vezes certos
exageros de honorários...
Lembro
que em todas as profissões, como em todos os rebanhos, há ovelhas
brancas e pretas, pelo que essa má fama abrangendo toda uma classe é
de uma tremenda injustiça.
V.L.
: - Foi um dos fundadores da Prevenção Rodoviária Portuguesa e da
Academia do Bacalhau. Qual é a sua motivação ?
J.M.C.
: - Há presentemente muitas Academias de Bacalhau, sendo certo que me
integrei na Academia do Bacalhau de Lisboa, desde a sua fundação em
1981, mas anteriormente já pertencia a Academia do Bacalhau de
Joanesburgo.
A
minha paixão de “compadre” (nome em que se assumem os sócios
destas academias) tem como pressuposto, os objectivos que as animam e
que se traduzem num sentido ecuménico da nossa portugalidade e na
divinização do gesto simples de ajudar o próximo.
Estas
academias são olarias onde se moldam amizades e se procura dar auxílio
aos carentes na vida, na sua forma mais sublime que é a intencional
discrição.
No
referente à Prevenção Rodoviária Portuguesa, que ajudei a fundar, há
mais de trinta anos, servindo-a deste então quase sem interrupção, a
motivação determinante é muito singelamente, a da minha dádiva possível
a uma instituição que promove uma sublime forma de amor pelo próximo.
Que
se traduz em lutar para que nas estradas se não morra, procurando-se
que em toda a humanidade, haja em cada dia, uma lágrima a menos e um
sorriso a mais.
António
Cardoso
Maio
99
Entrevista
a Tino Costa
O
nosso trabalho em órgãos de Comunicação Social, leva-nos a
frequentar com alguma assiduidade os sítios que estão na moda, a
participar em reuniões, conferências, debates, palestras, visitar
exposições e a aceitar o máximo possível de convites para recepções
e festas de toda a natureza. Somos uma equipa e obviamente dividimos as
tarefas. Tenho reparado desde há alguns anos que encontro praticamente
sempre Justino Costa. Sei que tem múltiplas ocupações particularmente
em estruturas ligadas á Comunidade Portuguesa. Tino Costa teria sido
indigitado últimamente para fazer parte da lista UDF para o Parlamento
Europeu, na sequência de um acordo entre o PSD e este partido político
Francês. A demissão de Marcelo Rebelo de Sousa teria atrasado a
assinatura deste acordo. Por tudo isto e admirados com tanto dinamismo e
determinação, quisemos falar com Justino Costa.
V.L.
: - Justino Costa, nós conhecemo-nos numa altura em que havia o
movimento das rádios, sabemos da sua implicação e dinamismo para que
as "coisas" das comunidades melhorem substancialmente ?
J.C.
: - Sim eu já muito antes das rádios combatia pelos direitos humanos,
para uma vida melhor para os residentes deste nosso planeta. É verdade
que quando vieram as rádios portuguesas, foi uma porta aberta, que
nunca tinha sido de tão grande impacto, para o desenvolvimento em todos
os domínios socio-culturais e políticos da comunidade portuguesa.
V.L.
: - .Presumo que não vive disso, qual é a sua actividade principal ?
J.C.
: - Eu nunca vivi das actividades sócio-culturais, associativas e
sindicais mas também vivo para isso, é um marco muito importante para
mim. Cada qual tem o seu apostolado e o meu seria esse. O meu destino
era ser padre ou dedicar-me inteiramente ao próximo, talvez faça rir
muitas pessoas, mais é sincero. É verdade que eu preciso de viver como
todas as pessoas e tenho exercido vários ofícios. Vim de Portugal onde
só fiz a quarta classe, por razões económicas e para fugir da guerra
colonial em 1965. Em França como autodidacta tirei um curso na Alliance
Française e obtive o diploma nacional de professor de francês. Mas não
fiz carreira de docente por várias razões, as familiares, entre outras
. Desde há 10 anos, é provavelmente o mais importante para os leitores
da Vida Lusa, sou director da Prest'Atlantique Service,é uma sociedade
de apoio para as pequenas e médias empresas no domínio da gestão, da
criação e desenvolvimento. Procuramos fazer o melhor, temos bons
resultados, para nós mas sobretudo para os nossos clientes.
V.L.
: - É uma empresa mais virada para a comunidade portuguesa, ou não só
?
J.C.
: - Inicialmente sim, estamos mais vocacionados para a comunidade
portuguesa porque escrevemos facilmente nas duas línguas, temos o
pessoal competente para gestão, temos como sócio um perito em
contabilidade, (ROC) temos a assistência de advogados portugueses e
franceses. Temos um serviço de apoio completo ás empresas. Os nossos
clientes podem dar-nos qualquer documento escrito em português e nós
traduzimos num francês correcto, para não dizer correctíssimo.
V.L.
: - Essa ajuda em gestão deve ser muito importante, até ao fim dos
anos 80 apareciam muitas empresas portuguesas que desapareciam
rapidamente devido a erros de gestão. As pessoas não tinham uma formação
adequada ás características da legislação francesa que é no mínimo
complexa ?
J.C.
: - Até aos anos 90/91, havia duas características empresariais :
aqueles que tinham realmente a vocação e o desejo de ser empresários,
e havia os que se tornavam empresários por obrigação para obter os
documentos. E isso é muito importante, agradeço-lhe essa pergunta
porque na altura houve muitas empresas de serviços que se aproveitavam
dessas pessoas que necessitavam ter documentos franceses, então
inscreviam-nos como artesãos, ou como uma pequena empresa comercial de
limpeza e outras profissões, quando as pessoas não estavam minimamente
capacitados, nem financeiramente, nem com conhecimentos do mercado que
é o mais importante. Nós nesse campo fizemos sempre uma escolha;
procurámos sempre elucidar os clientes que nos vinham procurar. Em função
da capacidade que os clientes demonstravam, e se nunca tivessem exercido
a profissão para qual eles nos consultavam, aconselhávamo-los a não
se meterem nisso e que procurassem outros meios, porque havia outras
possibilidades. Nunca levámos nada a ninguém por algum conselho, era
grátis, e mesmo se nos ocupávamos do dossier, só nos pagavam as
nossas diligências. Tínhamos muito cuidado porque assumíamos a
responsabilidade do que essas pessoas iriam fazer. Portanto, era
muito importante fazer uma selecção por consciência moral, mas
havia empresas que não tinham essa preocupação. Mas hoje, é um
prazer termos clientes que começaram com a nossa empresa e que
continuam connosco desde 1989, já têm filhos e boas casas e estão
bem, seguiram sempre os nossos conselhos. O nosso lema é "agir
para conseguir", haverá certamente muita gente e muitos dos nosso
clientes que ao ler esta entrevista, se reconhecerão no que digo e que
estão felizes, por trabalharem connosco.
V.L.
: - Tem conhecimento que houve empresas, nomeadamente empresas
portuguesas importantes, que aproveitaram este fenómeno de subcontratação
para enganar artesãos, por exemplo, para fazer moradias sabendo eles á
partida que essas pessoas que construiriam essas moradias não teriam
qualquer hipótese de responder ás regras contratuais dos contratos e
eram por isso obrigadas a trabalhar noite e dia para acabarem o trabalho
no prazo estipulado para não pagarem multas e juros de demora importantíssimos.
Para se instalarem em França estes artesãos utilizavam o primeiro
dinheiro que recebiam para alugar casa, comprar carro e em seguida não
conseguiam pagar os encargos sociais, impostos e ficavam portanto
falidos e em muitos casos na miséria. Tem conhecimento disso ?
J.C.
: - Infelizmente, todos nós temos conhecimento dos casos que me
descreve, é lamentável, mas há sempre aqueles que se aproveitam da
fraqueza do próximo para o explorar, não é somente em Franca, porque
ainda continua hoje mesmo a nível de empresas francesas, deixam as
pessoas iniciar uma obra, sem pedir os comprovativos de seguro, de
responsabilidade civil e decenal e no momento de pagar pedem esses
atestados que garantem o pagamento das caixas de previdência, seguros
etc. A nível das caixas mesmo se estão em atraso, até podem fazer
frente pagando aos poucos, mas a nível dos seguros profissionais assim
como, a responsabilidade civil e decenal, não tenho conhecimento de
nenhuma empresa que tenha a possibilidade de fazer um seguro retroactivo
e então o assunto fica paralisado. A empresa não recusa pagar, mas
como exige previamente esses documentos os subcontratados abrem falência.
Na Alemanha ainda é muito pior, há um escândalo terrível em relação
sobretudo á nossa comunidade e às comunidades turca, e kurda, portanto
está a ver que esses fenómenos, já vêm desde há muitos anos e
talvez até nem será neste século que deixarão de existir.
V.L.
: - Como explica o desaparecimento e a falência de algumas grandes
empresas dirigidas por portugueses que pareciam ir de vento em popa ?
J.C.
: - Eu penso que o fenómeno empresarial é assim feito, as empresas
aparecem e desaparecem. Quando vemos as estatísticas aqui em Franca por
exemplo, todos os anos cerca de 60 000 empresas são criadas e
desaparece mais ou menos o equivalente. É como na vida, desaparecem uns
para dar o lugar a outros. Depois,
há aqueles casos aos quais faz alusão, empresas de alto nível com
pessoas muito bem situadas na sociedade, que faziam a admiração de
muita gente e que subitamente deixaram de ter o sucesso que até ali
tinham tido...
V.L.
: - Alguns até que foram condecorados pelo Governo Português...
J.C.
: - Foram condecorados, alguns, deles até pelo Governo Francês. Na
altura talvez fosse meritório, não vou julgar aqui ninguém, até
porque sou amigo de alguns deles e não me ocupava da gestão dessas
empresas e mesmo que me ocupasse não o diria porque se trata de segredo
profissional. Penso que certas pessoas quando chegam a um certo ponto de
sucesso não têm limites. Isso acontece com artistas, com cantores e
com aquelas pessoas que nós gostamos e que de repente fracassam. No
mundo empresarial é preciso ter muito equilíbrio, trabalhar muito,
sofrer as consequências daqueles que nos deixam de pagar. Muitos são
obrigados a fechar empresas porque outros cessaram subitamente de lhes
pagar. É um problema que não sei como vai ser resolvido muito embora,
nos Tribunais de Comércio já haja possibilidade para que a curto prazo
ainda se possa fazer frente a estes problemas. Mas, para mim, difícil
é o facto de um empresário ter de assumir em 15 dias a decisão de
fechar uma empresa, para não ser condenado.
V.L.
: - Constatámos a falta de estruturas empresariais nas comunidades
portuguesas espalhadas pelo mundo e particularmente aqui em França,
para acompanhar esses problemas e facilitar a vida destes novos empresários,
nasceu por exemplo, no meio dos anos 80 um clube de empresários, que em
seguida aderiu a uma Confederação Internacional, em Portugal. Onde o
Justino Costa teve também funções de direcção.
J.C.
: - Tive e tenho.
V.L.
: - O que é feito desse Clube de Empresários e qual a resposta que têm
dado essas organizações a este género de problemas, ou não têm esse
tipo de funções ?
J.C.
: - O Clube dos Empresários surgiu nos anos 87/88 com a Império e com
o Dr. Santos Teixeira, eu entrei logo a seguir como secretário geral
adjunto e agora desde há 4 ou 5 anos sou secretario geral. O clube dos
empresários também teve uma função muita importante e que deve ser
sublinhada porque foi de grande relevo para a comunidade portuguesa.
Através desta instituição, conseguimos dar uma imagem, sobretudo para
os franceses, daquilo que nós somos e daquilo que valemos, nomeadamente
no mundo empresarial. Hoje em dia, temos um peso económico terrível em
França, as pessoas estão longe de imaginar o que valemos do ponto de
vista económico, social e cultural. Os franceses não nos reconheciam
este mérito. Pensavam sempre que éramos pedreiros, mulheres de
limpeza, gentis, trabalhadores, etc.. Através do Clube dos Empresários
tivemos reuniões a alto nível, debates, não se esqueça que nós, no
ano precedente à eleição do Presidente da República Francesa,
Jacques Chirac, convidamo-lo a uma reunião do Clube, no hotel Georges
V. Fomos sempre muitos criticados por fazer as nossas reuniões nos
grandes hotéis, mas é verdade, digo-lhe sinceramente que nem sempre me
agradava despender 500 francos para participar mas, como se justificava
por ser do interesse geral da comunidade portuguesa para a valorizar,
pois era com muito gosto que eu o fazia. Hoje é mais simples, mesmo
quando vem cá o Sr Carlos Carvalhas do Partido Comunista Português,
também já faz as suas reuniões partidárias num hotel 4 estrelas,
aqui ao lado na Place de l'Etoile, no Hotel Napoléon. Está a ver, que
hoje já tudo é normal, na altura não era bem assim, as coisas vão
evoluindo. Por conseguinte, o Clube dos Empresários teve a sua hora de
glória, agora está um bocadinho em baixo de forma mas vamos ver se
conseguimos dar um novo sopro, uma nova vida, talvez com novos empresários,
não fazer uma escolha selectiva só dos grandes empresários, porque os
grandes também já foram pequenos e eu lutei sempre para que nos ocupássemos
mais dos pequenos artesãos e incentivássemos os pequenos empresários
para que evoluíssem, mostrando-lhes que é preciso ter consciência das
responsabilidades que se assumem ao ser gerente ou PDG duma empresa.
V.L.
: - No fundo o que me está a dizer é que a função principal do Clube
dos Empresários era de mostrar aos franceses que estávamos cá, que
existíamos, que os empresários portugueses existiam e não se
limitavam só a ser pequenos artesãos e
profissões menores. Em termos de acções concretas o que é que
saiu finalmente destes anos de actividade ?
J.C.
: - Saíram várias acções concretas, conseguimos reunir os empresários
e pô-los a falar entre eles e até os próprios bancos, como eram
concorrenciais, não se reuniam. Trocaram-se experiências, objectivos,
consultaram-se vários projectos e nós sabemos que muitos empresários
fizeram negócios entre eles por intermédio do Clube dos Empresários.
Nós não tínhamos nenhuma percentagem sobre isso, mas o nosso
objectivo era de os por a conversar e de se conhecerem melhor. Isso foi
muito positivo. Tanto a nível português, como a nível francês. Acho
que se fizeram coisas muitas interessantes e que se podem continuar a
fazer. É uma questão de boa vontade.
V.L.
: - Porque é que há já 2 ou 3 anos que não se fala deste Clube ?
J.C.
: - É verdade que as actividades do clube diminuíram bastante, desde
que nasceu a Confederação dos Empresários Portugueses no Mundo. Nós
somos co-fundadores desse organismo, muito apoiado pelo ex-governo de
Cavaco Silva e que visava sobretudo grandes empresários. Pessoalmente,
fui convidado para dar a volta ao mundo mas isso era fora dos meus meios
e até para dizer sinceramente dos meus interesses. O meu interesse é a
comunidade portuguesa em França e os portugueses em Portugal, que
queiram trabalhar de uma
maneira bilateral e que precisem de informações.
V.L.
: - O Justino Costa foi eleito para o Conselho das Comunidades
Portuguesas, é membro do Conselho Permanente e representante pela
Europa no Conselho Consultivo da R.T.P.I.. Explique-nos para que serve
este Conselho e qual tem sido a sua acção ?
J.C.
: - A sua pergunta é pertinente mas muito interessante para os
leitores, gostaria de começar por lhe dizer que todas as recomendações
que os Conselheiros apresentam são prioritárias para as nossas
comunidades. Todavia, permita-me relembrar nós somos apenas um Órgão
Consultivo e por conseguinte sem poder de decisão final. No entanto
posso confirmar-lhe que perante a centena de recomendações elaboradas
e depositadas durante o Plenário do C. C. P. assim como outras
depositadas durante as reuniões do Conselho Permanente reunido na
Assembleia da Republica, para além das que já eram de prática
seguidas preza-nos constatar que já foram concretamente implementadas
cerca de 22 recomendações entre as quais 8 são propostas inovadoras,
de conteúdo importante e
com efeito positivo e
imediato para os emigrantes. Sem entrar aqui em pormenores, posso
citar-lhe , por exemplo, o Novo Regulamento Consular que define o novo funcionamento
interno dos serviços consulares cujo antigo regimento era completamente
arcaico visto que já
datava dos anos 1920 ; o novo Estatuto dos professores e dos cursos periódicos
de formação e reciclagem para professores, com frequência obrigatória
; a contratação local dos professores ; o estatuto dos funcionários
consulares ; a dinamização do Instituto de Camões ; no que se refere
à comunicação social foi estabelecido um Canal informativo dirigido
aos órgãos da comunicação social das comunidades - do qual a
Vida-Lusa também pode beneficiar - ; para os profissionais da comunicação
social das comunidades foi-lhes consagrado o Estatuto de Jornalista que
também não existia... Foi criado, também, o Cartão de identificação
do Conselheiro e divulgação dos nomes e endereços de todos os
conselheiros através dos consulados, etc. Tal como se pode apreciar
este Conselho procura trabalhar concretamente em prol de melhorar a vida
sócio-cultural, cívica e educacional, dos emigrantes em geral e no seu
dia a dia procurando coordenar as recomendações mais exequíveis a
curto prazo para ganharmos tempo e obter resultados concretos.
V.L.
: - Que está previsto nos próximos tempos ?
JC:
- Estamos convictos que cerca de trinta outras recomendações de grande
interesse geral para a emigração possam vir ainda a ser viabilizadas
até ao fim do ano em curso. Claro que também não podemos deixar de
frisar a nossa luta pelo aumento do orçamento do C.C.P. com a ajuda dos
Grupos Parlamentares dos partidos políticos que já citei.
VL:
- Então está contente?
JC:
- Fico muito triste e decepcionado quando se houve dizer que os
Conselheiros só falam em orçamentos e em dinheiros. Isso para além de
não ser verdade só significa ingratidão e mal agradecimento pelos
nossos esforços… Lamento dizer mas os que assim pensam são sempre
aqueles chamados da política do "deita abaixo". Inútil seria
acrescentar que sem dinheiro para fazer funcionar qualquer estrutura
sendo ela mesmo uma pequena Asso, considero que isto também é uma
realidade e como tal também não deve ficar aqui omissa...
V.L.
: - Que peso pode ter junto a Assembleia Nacional um Conselho das
Comunidades eleito por uma percentagem ridícula das comunidades
portuguesas espalhadas pelo mundo ?
J.C.
: - O peso do Conselho é sempre o mesmo. Depende do trabalho que fazem
os 100 conselheiros eleitos pelo mundo. Apresentam as reivindicações,
o trabalho do dia a dia. Nós só somos um conselho consultivo, não
executivo. Não podemos tomar decisões. Se pudessemos tomar decisões
muitas coisas já teriam mudado. As pessoas por vezes interrogam-se pelo
facto de termos sido eleitos há dois anos e pouca coisa ter mudado. Há
coisas que mudaram e outras que mudarão devido á nossa insistência e
á nossa perseverança junto das Secretarias de Estado, dos Ministérios
etc. As nossas Instituições não nos consultam regularmente, tomam as
decisões e só depois nos perguntam a nossa opinião. Isto é
tipicamente português.
V.L.
Não pensa que isso se deve á fraca participação eleitoral dos
principais interessados ?
J.C.
: - Eu penso que não. Houve esse factor que na altura chocou muitos,
salvo os Governantes porque eles sabiam á partida que a informação não
tinha circulado normalmente e devidamente e que haveria um número
restrito de votantes. A prova é que eles tinham organizado as eleições
de maneira a que tal como vocês jornalistas denunciaram. Se o número
de eleitores fosse elevado os Consulados teriam de ter porta aberta
durante várias semanas só para o escrutínio. Creio que houve um
jornalista, não sei se foi o António Cardoso, que calculou o número
de votantes por minuto, (fui sim Senhor) e que dava um valor total
impossível de absorver pelos serviços consulares dentro do prazo
estipulado para a votação. Foi positivo porque isso permitiu ao menos
actualizar os ficheiros dos Consulados.
V.L.
: - Então, quando votaram essa lei, já sabiam que o sucesso ia ser
limitado, era afinal uma forma de nos "mandar areia para os
olhos" ?
J.C.
: - Era legitimo pelo facto de se tratar de um sufrágio universal. Há
um começo para tudo, vamos perdoar-lhes esse pequeno pecado de princípio
por ser a primeira vez. Agora o problema que se põe, é saber porque não
funciona bem. Algumas pessoas que foram eleitas, têm o titulo e
limitam-se a criticar, dar umas bocas nos jornais e nas rádios mas
concretamente no terreno não fazem nada. Portanto desses não rezará a
história, porque daqui a dois anos quando houverem novas eleições, os
nossos compatriotas, julgarão quem é quem para os representar a partir
desse momento
V.L.
: - Que devem fazer os conselheiros exactamente ?
J.C.
: - Acho que houve de início um pequeno choque psicológico, porque
julgava-se, talvez, que pelo facto de uma maioria de Conselheiros ser de
tendência pro-Governo, que as coisas se iriam passar da melhor maneira
no melhor dos mundos. Eu falo pela França, vamos esquecer por agora o
resto do mundo. Há Conselheiros e falo por mim, que não fizeram nem
fazem o "jogo" de ninguém, neste ou noutro Governo. Eu fui
eleito pela Comunidade Portuguesa e é a essa Comunidade que eu tenho de
prestar contas e não vou compartizar com quem quer que seja desde que
os interesses da Comunidade estejam em jogo, também é o caso de
Conselheiros como José Machado, João Machado, Manuel Jorge, Jorge
Silva, que mesmo sendo alguns deles membros de um partido, fazem o seu
trabalho apolíticamente. Nem sempre é fácil, mas o dever dos
Conselheiros, é não ver a política em todos os cantos e defender os
interesses gerais da Comunidade Portuguesa mesmo que isso vá contra os
interesses dos seus Partidos políticos.
V.L.
: - Como se traduz a função e os poderes do Conselho das Comunidades ?
J.C.
: - Temos o poder de informar, de solicitar, de reivindicar e exigir mas
nossas funções limitam-se a isso. Somos mal vistos, quando estamos
contra uma ideia do governo ou das instituições e dizemos a verdade
por inteiro. Podemos falar livremente porque não somos pagos por ninguém.
Eu falo por mim. As nossas funções mais importantes são em Portugal
na Assembleia Nacional quando podemos debater com o Secretário de
Estado e Parlamentares, discutindo sobre as lacunas que vem surgindo a nível
mundial.
V.L.
: - Tem bastantes actividades, política, associativa, câmaras de comércio
profissionais como consegue conciliá-las com a sua vida privada ?
J.C.
: - Tenho uma vida associativa muito intensa, a família é que sofre as
consequências, mas acho que nasci para isto e não me vejo viver de
outra maneira, felizmente a minha esposa aceita porque ela já sabia que
eu era assim. Faço o que posso. No entanto os anos passam, para além
de ter sido militante CGT, nos anos 76-77, de ter combatido o antigo
regime e vou dizê-lo pela primeira vez, fui preso pela Pide, nunca o
divulguei publicamente porque não tem interesse nenhum, faz parte de um
passado obscuro, perdi seis meses da minha vida, era na altura em que eu
estudava aqui, para além do meu trabalho, portanto perdi um ano de
estudos mas consegui recuperá-lo no ano seguinte trabalhando de dia e
estudando à noite. Tenho efectivamente uma vida bastante activa e conheço-a
por dentro, por isso sou sensível aos que me pedem ajuda.
As
câmaras profissionais são sindicados profissionais, nacionais ligados
os teleservicos que é uma profissão nova, e outro ligado aos centros
de negócios. Em França são profissões novas, nos Estados Unidos está
bastante desenvolvida. Na Europa está em plena expansão desde há 10
anos, e faltava uma convenção colectiva. Tive muita honra em iniciar
as negociações com o Ministério do Trabalho Francês. Talvez por isso
os colegas me solicitaram para eu fazer parte do Conselho de Administração,
inicialmente nos serviços e agora também nos centros de negócios
sendo ainda responsável pela secção de Ile de France, o que me leva a
passar em média uma hora por dia a informar todos aqueles que solicitam
diversas informações, não só os clientes mas também os colegas
profissionais. Há centros de negócios em França que manipulam milhões
de francos. É uma grande responsabilidade, mas que me dá alguma
riqueza, nomeadamente informação, estou a par de toda a legislação,
o que me é útil tanto para mim como para a minha empresa, a
Prest'Atantique Services. Portanto aqui é mais o lado profissional mas
sempre com a ideia de poder fazer beneficiar os outros da minha experiência.
V.L.
: - Temos a impressão que há um princípio de desaparecimento da
clientela portuguesa dos comércios portugueses, nomeadamente dos
restaurantes, que também não têm uma frequentação suficientemente
por parte dos franceses. Que pensa disto ?
J.C.
: - Isto é tipicamente português. O Português é um aventureiro,
somos uma nação e um povo formidável. Há 10 anos atrás surgiram
entre outros comércios e a área da restauração foi muito abrangida
pela comunidade portuguesa. Todavia, como sabe, as pessoas não tinham
nenhuma formação de cozinha e do serviço. Íamos a determinadas casas
onde estava tudo muito bonito mas o essencial não estava adequado ao
que se procurava, ou seja a gastronomia. As pessoas tinham algum
dinheiro e conhecimentos, julgando por isso que se podiam lançar em
qualquer negócio sem a preparação e a formação necessária. Não é
forçoso que o dirigente tenha conhecimentos suficientes mas deve no mínimo
ter gente com requisitos e capacidade profissional para desenvolverem
essas actividades. Mais isto não é só na restauração, é em todas
actividades. Para mais o que se passa é que os portugueses instalam-se
na maior parte dos casos em lugares onde já há muita concorrência.
V.L.
: - Mas a implantação de vários comércios numa mesma zona atrai
geralmente muito mais consumidores ?
J.C.
: - O problema que se põe é que a restauração é muito especial. O
desaparecimento de alguns restaurantes foi muito saudável porque os que
permanecem ficam com a noção que devem dar a qualidade que o cliente
está em direito de esperar. Em relação ao
desaparecimento de muitos outros comércios, é uma questão de
aventura, querem fazer como o vizinho, têm projectos mas não fazem
estudos de mercado, não têm pessoas competentes para os ajudar, não
fazem cálculos, começam por comprar muita coisa. Por vezes não é um
problema de competência mas de formação.
V.L.
: - Isto também justifica em sua opinião, que os franceses frequentem
tão pouco os restaurantes portugueses ?
J.C.
: - É pena que os franceses não venham aos restaurantes portugueses, nós
vamos sempre aos restaurantes portugueses, somente vamos comer
praticamente sempre a mesma coisa. Conhecemos o menu que os restaurantes
nos propõem, não há diversidade, não inovam. É preciso inovar,
procurar, satisfazer o pedido da clientela.
V.L.
: - Na sua qualidade de Conselheiro, co-fundador de rádios e de
residente, qual é a sua visão sobre a situação da Comunicação
Social para os portugueses em França ?
J.C.
: - Para utilizar uma expressão popular, não estamos descalços mas
estamos quase nas lonas. Nos anos 1980 quando criámos as rádios, era
uma coisa interessante, chamávamos a atenção da comunidade, hoje já
não se vê nada, parece que estamos a andar para trás. Há programas
que têm um sentido destruidor, considero que é inadmissível quando se
trata de uma comunidade, fazerem anúncios ou emissões sobre bruxaria.
Por vezes reflicto se temos realmente as rádios ou os jornais que
merecemos ? Ou simplesmente não sabemos reivindicar aquilo que gostaríamos
de ter. À força de bater na tecla, as coisas mudam, mas as pessoas
criticam, não sou mensageiro do diabo mas dizem que a rádio não vale
nada e os programas são nulos. Também não é assim, a rádio vale o
que vale, tem os programas que tem e tem também o auditório que tem.
V.L.
: - Tem o mérito de existir...
J.C.
: - Exacto, o que eu receio mais é que as pessoas deixem de ouvir a
nossa própria rádio e aí é que será realmente grave. Uma programação
pode ser alterada, eu fui Director de programação durante muitos anos
e sempre fui muito sensível às críticas do auditório e nas nossas
reuniões procuramos sempre adaptar a programação aos anseios da
comunidade. Espero que as pessoas responsáveis e dignas desse nome,
nesta rádio da região parisiense que é a única e por isso tem uma
responsabilidade máxima perante o seu auditório, tenham em atenção
as sugestões e as críticas. Também não está tudo assim tão mal,
muito embora tenha notado ultimamente a ausência de animadores, não
sei se por razões pessoais ou porque foram excluídos. É pena pois
trata-se de pessoas de bom nível cultural, que traziam qualquer coisa
para a comunidade. Mas o que está realmente a deteriorar a nossa imagem
são as horas concedidas aos marabus. Nós não podemos vender uma
comunidade por dinheiro nenhum ao diabo. Essas pessoas só vivem em
detrimento da fraqueza dos nossos compatriotas, pois os que recorrem a
esses videntes ficam por vezes ruinados e penso que os responsáveis
pela rádio terão que ter em conta esse fenómeno. Sei que é difícil
pagar os encargos e todas as despesas, mas é preciso reagir e procurar
sensibilizar as empresas e instituições para que publicitem e talvez
permitir o acesso a empresas mais pequenas com preços mais razoáveis.
V.L.
: - Mais a Comunicação Social não se limita à rádio, temos televisão,
jornais...
J.C.
: - Isso é outro problema, os jornais, a nível da França temos o
“Encontro” que existe há muitos anos e que faz o que pode, por
vezes dá a impressão que vai evoluir e alguns meses depois dá uma
reviravolta não sei porquê e parece estar sempre na “cepa torta”.
Penso que talvez não tenha apoio suficiente do Governo Português.
Depois há a “Vida Lusa” que nasceu há ano e meio, e que parece
estar no bom caminho pois vai aumentando o número de páginas. A nível
do Conselho das Comunidades temos pedido ao Governo para apoiar a
Imprensa regional e a Imprensa da emigração. Depois temos os jornais
que vêm de Portugal que têm o impacto que têm, alguns são muito
politizados, outros menos. A RTPI, foi uma das armas sócio-educacionais
mais importantes que o Estado Português criou. É fenomenal como órgão
de comunicação social, mas nunca foi aproveitado e continua
desprezado, assim como os telespectadores. Estou bem situado para falar
disso, visto que fui eleito pelos meus pares para representar a Europa
junto do Conselho Consultivo da RTPI e até agora ainda estamos à
espera de ser convocados para dar a nossa opinião sobre as emissões.
Agora apresenta
-se
a SIC, com um noticiário muito interessante em directo de Portugal,
assim como na RTPI. O resto, não há evolução, continuam a difundir
programas antiquados, repetidos, “vira o disco e toca o mesmo”.
Investe-se muito mais na RTP África para as ex-colónias, compreendo
isso para que eles continuem a manter viva a língua de Camões, mas não
se podem pôr de parte os cinco milhões de portugueses espalhados pelo
mundo, que estão a ficar desamparados e cujos filhos vão deixar de
falar português.
António Cardoso
Abril
99
Maria
Galhardo...
Depois
do sofrimento, chegou o sucesso
V.L.
: Conte-me a sua vida...
M.G.
: A minha vida, tenho muita coisa para contar... Tinha 13 anos quando
vim para a França com o meu irmão e cunhada, de assalto como a maioria
dos portugueses.
A
viagem até a França durou 4 dias. Cheguei em 1968 no momento das
greves, havia muita fome, não havia trabalho. Acabei por arranjar
trabalho e cá fiquei estes anos todos.
V.L.
: Como se passou essa primeira viagem para França. Tinha pontos de
apoio ?
M.G.
: Tínhamos apoios nos diversos sítios de passagem organizados pelos
passadores. Quando chegamos a Paris, tínhamos também familiares dos
passadores à nossa espera, alias um deles era da minha família.
V.L.
: Como começou a sua vida aqui com 13 anos, foi para a escola ?
M.G.
: Não, só fiz a quarta classe em Portugal. Tinha cá uma irmã e
comecei a trabalhar com ela “ao negro”. Depois aos 18 anos tive os
“meus papeis” e comecei a trabalhar como todas as portuguesas. Fiz
um pouco de tudo, trabalhei em fábricas, fiz limpeza, etc.
V.L.
: Qual foi a sua primeira impressão quando chegou a França ?
M.G.
: Cheguei a um país que para mim era uma coisa fora de série. O que me
impressionou mais, foi ver tanta luz numa
cidade
porque eu não sabia o que era ter luz. Sair da candeia e do escuro para
uma cidade destas !...
Mas
passei muita fome, vivíamos
dezenas de pessoas nas barracas de St Denis em espaços de 15-20 m2 e em
condições de higiene deploráveis.
V.L.
: Qual é a sua pior lembrança dessa altura ?
M.G.
: Foi ter sido enganada, ficar grávida, e sendo tão jovem, ter de me
ocupar do meu filho sozinha.
V.L.
: E a melhor ?
M.G.
: Quando acabou a greve, juntamo-nos várias pessoas e fomos roubar umas
ovelhas de um rebanho. Fizemos um mechoui e enchemos a barriga.
V.L.
: Como foi a evolução desta situação ?
M.G.
: Fui trabalhar para uma casa onde fiquei 9 anos. Em seguida encontrei
outro trabalho, mas não aceitavam o meu filho, portanto comecei nos
restaurantes onde por vezes servia e cantava ao mesmo tempo.
V.L.
: Começou a cantar por gosto ou para agradar ?
M.G.
: Gosto de cantar, canto na casa de banho, na cozinha, na rua, mas também
gosto de agradar.
V.L.
: O facto de ter agora dois restaurantes deve-se à sua vontade de ser
empresária da industria hoteleira ou de possuir um restaurante onde
possa cantar ?
M.G.
: O meu objectivo era de ter um restaurante onde pudesse eu própria
decidir o que oferecer à clientela. Foi sempre o meu sonho e realmente
consegui concretizar.
V.L.
: E o próximo objectivo ?
M.G.
: Trabalhar mais 3 ou 4 anos e depois descansar. Ainda sou nova mas já
trabalhei muito. Em contrapartida, no fado, queria cantar até aos 80
anos (risos...). Gostaria de dar o último espectáculo com 80 anos.
V.L.
: Qual são as suas perspectivas para este novo restaurante “O Palácio
das Guitarras” ?
M.G.
: As perspectivas é ter muitos clientes, portugueses e franceses. A
inauguração foi o mês passado, agora vamos tentar fazer o melhor possível
para que os clientes se sintam bem.
V.L.
: Quantos lugares tem e que vai propor à clientela ?
M.G.
: Temos 80 lugares à vontade no rés-do-chão e 120 na sala de baixo
onde vamos ter guitarras aos finais da semana e cozinha
franco-portuguesa.
E
assim foi a nossa conversa com a simpática e sempre jovem Maria
Galhardo. Cheia de garra e do saber que a dura vida lhe trouxe, não
temos dúvidas que o seu novo restaurante vai alcançar a mesma ou ainda
maior dimensão que o Pátio das Cantigas. Desejamos-lhe o maior
sucesso.
Fevereiro
99
Augusto
Graça
«O
Fado é a expressão da alma portuguesa. A palavra Fado deriva do latim
(fatum) que quer dizer, fatalidade, destino. Mas no fundo, o Fado canta
a Vida, acentuando o amor, vicissitudes e contrariedades. Entretanto,
para nosso orgulho e congratulação, é a única Canção Urbana, que
continua viva na Europa, nos dias de hoje. Portanto, quando se fala de
Fado, falamos implicitamente da alma de todo um povo que se chama
Portugal».
Este
é o texto de apresentação do CD que Augusto Graça lança este mês,
em Paris. Tivemo-lo connosco e, de uma forma ligeira, quisemos saber
mais acerca de si e do seu trabalho.
V.L.-
Como é que entrou neste universo ?
A.G.-
Nasci no Barreiro e, ainda muito cedo, estávamos na década de
sessenta, comecei a cantar e a tocar bateria, em algumas bandas.
Lembro-me, por exemplo, de ter actuado com o Valentim Félix. Mas
entretanto fui chamado a cumprir o serviço militar .
V.L.-
Deixou a música ?
A.G.-
Não. Tive a sorte de durante a tropa estar sempre ligado à música.
Cruzei-me nessa altura com o Zé Nabo que também começava os primeiros
passos musicais. Durante a especialização fui convidado para
representar o meu Regimento, no Palácio de Cristal no Porto. Claro que
fiquei vaidoso e cantei o Fado ao lado do Armindo Fernandes Foi um
sucesso !
A
seguir entrei para o programa militar, na rádio, «Alerta Está», onde
participavam também o Paulo de Carvalho, o Fernando Tordo, o António
Sala, o Carlos Zel…
V.L.-
Quer dizer, quando acabou a «tropa» ficou em Lisboa ?
A.G.-
Sim. Comecei a tocar e cantar em orquestras e a actuar em várias «boites»
de Lisboa. Foi a minha altura da música ligeira e do fado canção, porém
nunca me afastei do fado vadio que foi sempre a minha paixão. Fui também
baterista do António Calvário.
V.L.-
De repente, Paris. Porquê ?
A.G.-
Na altura para além da minha vida artística, era funcionário dos
Correios, quis criar uma empresa e apesar de ser um projecto viável,
faltaram-me os apoios, fiquei revoltado e deixei tudo, vim para Paris.
Estávamos nos anos 80. Comecei a cantar o Fado em vários restaurantes
e surgiu um convite para integrar a Orquestra Portuguesa, do Globo, onde
estive 2 anos. Formei também uma banda, mas teve vida curta. No
entanto, nunca deixei de privilegiar o fado. Participei nos Festivais
organizados pelo José Fernandes e a Publi Portugal. No 1° ano fui à
final ao Olímpia e no 2° fui à final na Mutualité.
Depois
por volta de 1990 comprei um café em Drancy, que explorei até 1997.
Mais uma vez os reveses de vida fizeram-me alterar o meu rumo e cá
estou eu, neste momento dedicado de alma e coração ao Fado.
V.L.-
Este C.D. é então o comemorar de uma nova etapa ?
A.G.-
Sim. Cantei, há tempos, para amigos, num restaurante de Paris. Tinha o
meu neto comigo, que me aplaudiu de tal forma que de emocionado prometi
fazer cada vez melhor. Surge assim a ideia da gravação. A partir daí
tem sido um rodopio de acção. Estou convicto da qualidade deste C.D.
V.L.-
Qual o título ? Quem escreveu e compôs a letra e música ?
A.G.-
Chama-se Cântico Lusitano. São temas de música antigos e as letras são
escritas por mim, pelo Paco Gonzalez. Contei com o apoio da D.C.A.
Production.
V.L..-
Final de século, um C.D. na forja, como é que se sente ?
A.G.-
Triste e desiludido com os homens… Mas com garra para prosseguir !
V.L..-
Escutando os temas «Voz do Sono» e «Que Sonhos Meu Deus que Sonhos»,
acredito que o que expressa ao cantar estes fados é realmente o que me
acaba de transmitir mas também consigo perceber que existe por trás
dessa aparente mágoa uma grande essência de vida !
Sucesso
é o que desejamos ao Augusto.
A.L.
de Castro
Junho
98
TAP
AIR Portugal mais
próxima da comunidade portuguesa
Entrevista
com Francisco Silva, Director em França
O
Senhor Francisco Silva veio de Escandinávia. Há uma diferença muito
grande de mentalidade e de hábitos entre os países nórdicos e os
latinos. Foi fácil adaptar-se aqui a França?
Sim,
são países completamente diferentes. A maneira de trabalhar também é
diferente. Costumo parafrasear um autor de um livro americano que viveu
na Europa muitos anos e que escrevia que poderíamos dividir a Europa em
duas partes totalmente distintas , traçando uma linha em Bruxelas.
Acima dessa linha as pessoas são terrivelmente organizadas, muito
profissionais na sua maneira de actuar e de fazer a sua vida, mas pouco
imaginativos. Abaixo dessa linha, são menos organizados, mais
preocupados com a sua vida privada que propriamente a profissional, mas
agindo sempre de uma maneira muito imaginativa. A adaptação foi
positiva porque apesar de ter vinte anos de Suécia e uma formação
nesse país, sou Português, sou latino e considero que tenho a grande
vantagem de poder aproveitar as coisas positivas de cada lado da tal
linha. Vim encontrar aqui em França gente muito profissional e também
algumas pessoas menos motivadas, mas no fundo é muito positivo.
Como
a Tap muda de escritórios e o endereço do balcão de vendas, a sua
missão em Paris tinha como objectivo reestruturar a delegação ?
Sim,
uma das minhas qualidades a nível de gestão, era de ser um excelente
formador de equipas. Está no meu currículo, já fiz várias equipas
durante a minha vida de gestor. Portanto a ideia de vir cá para França
era de reestruturar de uma certa maneira, de criar uma nova equipa que
se adaptasse às novas exigências que a aviação comercial está neste
momento a enfrentar. Estamos já a criar uma equipa, ainda não está
completa, mas as pessoas já estão a compreender o que é trabalhar em
conjunto para a Tap e essencialmente para os nossos clientes que é a
nossa principal preocupação nomeadamente em relação à comunidade
portuguesa que representa a maioria.
Não
será depreciativo para a Tap ter vindo de Paris 14 para o Boulevard de
la Madeleine e agora voltar para um bairro menos prestigiado ?
O
que é essencial, é o serviço que se presta ao cliente. O importante
para os nosso clientes é na altura em que eles aparecem no aeroporto
para viajar. É prestigiante a Tap voar 4 vezes por dia entre Lisboa e
Paris e 3 entre o Porto e Paris. Temos uma média de 12 voos por dia
entre a França e Portugal, isso é que é prestigiante. Agora o facto
de estarmos na Rue Férrus ou na Opera não vai alterar o serviço que
prestamos aos clientes, bem pelo contrário pois ao diminuir custos
vamos poder melhorar o
atendimento e o serviço aos nossos clientes.
Lembra-me
de um alto responsável da delegação da Tap em Paris me dizer que não
valia a pena gastar dinheiro na comunicação para a comunidade
portuguesa pois esta era uma clientela adquirida e que era mais
proveitoso passar anúncios no meio francês. Está de acordo com esta
afirmação ?
Lamento
uma afirmação dessas, porque em qualquer actividade tem sempre que se
motivar a nossa clientela. Portanto nunca poderemos dizer a nível de
vendas ou de marketing que
temos uma clientela adquirida, a não ser que entrasse-mos talvez numa
situação monopolista o que não é o caso da Tap que tem concorrência
com outras companhias. Portanto eu considero e foi uma das coisas que
antes de chegar aqui já me apercebia tanto pelos jornais como através
de amigos aqui de França que a comunidade era importantíssima e a única
razão que motiva a Tap a ter doze operações diárias neste momento
com a França é a comunidade portuguesa. Sem essa comunidade talvez se
justificasse só um ou dois aviões por dia.
No
último número deste magazine havia um título de capa, Viajar para
Portugal um negócio étnico. E o mercado normal entre dois países ?
Naturalmente
que em França existe algum potencial a nível de turismo. Temos aqui
estudos de mercado que revelam que só 7% dos franceses viajam para o
estrangeiro e desses 7%, 55% viajam para países francófonos. Portanto
o número de francese que viajam para o estrangeiro é reduzido e estão
sujeitos ao marketing dos outros
países assim como a Espanha, Itália etc. Não descoramos isso, estamos
a trabalhar com operadores turísticos com os quais temos acordos, mas a
comunidade é e continuará a ser, julgo eu por muitos anos o factor
mais importante da nossa inserção aqui em França. A própria
comunidade também se está a desenvolver sob vários aspectos e daqui a
uns anos vai ser um factor importante de desenvolvimento do mercado turístico
para Portugal. A Tap tem uma função muito importante nisso e está
muito orgulhosa por isso. Esta nova atitude da Tap não é só aqui do
Senhor Francisco Silva, isto vem da Administração que ao fazer uma análise
do estudo de mercado constatou que, do Presidente ao empregado mais
simples da Companhia, servir a comunidade nos países onde ela está
inserida, é fundamental.
Em
determinada altura foi criado um serviço de apoio nos aeroportos com
pessoal português maioritariamente jovem, designadamente em Orly. Esse
serviço foi extinto pelo seu antecessor. Temos conhecimento que muitos
passageiros ficaram descontentes por isso. Qual é a sua opinião.
Nós
continuamos a ter serviço próprio. Neste momento, quando os nossos
passageiros vão para Orly, têm sempre um representante da Tap no
Chek-in e no nosso balcão. A nova situação em Orly oeste dá-nos essa
facilidade de estar próximos das operações e está sempre alguém da
Tap para qualquer ajuda que os passageiros necessitem. Gostaríamos de
ter todo o pessoal da Tap mas isso implicaria custos suplementares que
teriam repercussão nos bilhetes. Os custos do transporte aéreo em França
são caríssimos nomeadamente os de aterragem são exorbitantes e
portanto temos que pensar na rentabilidade e por isso limitamos o
pessoal, mas a França até está bem servida. No balcão toda a gente
fala português e no embarque temos pessoal próprio.
Neste
momento temos a última exposição mundial do século, a Expo 98 em
Portugal. Temos constatado que exceptuando algumas revistas importantes
que decidiram por conta própria consagrar algumas páginas a Portugal,
a promoção da Expo foi ridícula se compararmos com a de 92 em
Sevilha. Posso também afirmar que ainda há portugueses que não estão
informados. Está de acordo ?
Creio
que o governo português decidiu que os mercados prioritários eram
Portugal e a Espanha. Eu próprio contactei a Expo e pedi ajuda para uma
campanha de marketing conjunta em relação a França e a resposta foi
esta. Julgo que as razões fortes prendem-se com a limitação de espaço,
hotéis etc. Em Lisboa não há neste momento um quarto de hotel disponível. Temos clientes que vão ter de ir para o Porto para visitar a
Expo. Talvez por isso Portugal limitou a promoção ao mercado mais próximo
ao contrário do que fez Sevilha que teve promoção a nível mundial
mas foi confrontada a problemas logísticos enormes. Podemos criticar
pois é uma oportunidade única de Portugal se afirmar a nível mundial
e especialmente num mercado importante como o de França. Nós aqui na
Tap queríamos aproveitar esse acontecimento para através dos nossos
aviões melhorar a nossa rentabilidade e a nossa presença neste
mercado. Reforçamos a capacidade dos aviões, fizemos preços especiais
e temos os aviões completos.
Mas
em Sevilha existiam vários hotéis flutuantes com centenas de quartos e
alguns foram fretados na Rússia. Só estarão aparentemente dois no
Tejo. Ora o espaço disponível no Tejo é certamente muito mais vasto
que o do Guadalquivir...
Claro
que a situação geográfica de Lisboa é muito melhor que de Sevilha
devido nomeadamente à proximidade do aeroporto e provavelmente a Expo
poderia ter aumentado a sua capacidade logística. É de lamentar talvez
, que Portugal não aproveite esta ocasião única mas nós portugueses
somos um pedacinho modestos nestas situações e talvez seja esta a razão.
Está
de acordo que viajam à volta de 5000 pessoas em média por dia para
Portugal ?
Anda
à volta disso temos um movimento extraordinário para Portugal.
Gostaria de realçar algo em relação ao mercado francês e temos aqui
para comprovar um programa de informática que nos permite verificar. O
destino prioritário dos franceses para o exterior é Nova York e logo a
seguir é Portugal. Isto no total de reservas feitas pelos agentes de
viagens.
Porque
é que a Air France não põe mais aviões, nomeadamente nestas alturas
de grande tráfego ?
A
Air France considera Portugal um mercado importante e constata-se pelo
facto de ser o segundo destino dos franceses depois de Nova York, agora,
se eles não põem mais aviões é porque há uma ligação entre nós.
Quando acrescentamos aviões eles acompanham. Em tudo são à volta de
22 aviões por dia neste momento entre os nossos e os da Air France.
Agora vamos ver depois da Expo. Para saber se isto vai continuar se vai
estabilizar. Entretanto a comunidade já vai entrando nas novas gerações
e as razões de ir a Portugal vão-se diluindo e isso é uma coisa que não
podemos prever de uma maneira concreta.
Neste
momento os aviões estão cheios e isso cria problemas enormes para
todos aqueles que viajam com frequência para Portugal como é o meu
caso. Temos a impressão de voltar alguns anos atrás quando a oferta
era muito mais reduzida...
Houve
um crescimento espectacular e também um acréscimo devido à Expo, mas
temos o crescimento natural. A Tap e a Air France estão a estudar neste
momento o aumento de frequências. Nós queríamos aumentar os voos de 4
para 5 para Lisboa e de 3 para 4 para o Porto durante o ano inteiro mas
temos limitações a nível de Orly já que o aeroporto fecha às 23
horas. Estamos a estudar a hipótese de pôr um voo à noite em Charles
de Gaulle. Já temos um ao fim de semana que está a funcionar
razoavelmente. Se pudesse-mos nós decidir sem limitações ao nível
operacional, garanto-lhe que punha um avião a sair de hora a hora
devido à capacidade deste mercado.
Já
confirmou a sua vontade de acarinhar a comunidade portuguesa.
Concretamente como é que isso se traduz ?
Tenho
tido contactos diariamente com conterrâneos nossos a todos os níveis,
neste momento as contratações são efectuadas junto dos
lusodescendentes. A nossa política é de acompanhar e de ser de certa
maneira um suporte da comunidade e estou agradavelmente surpreendido com
a variedade e a qualidade da oferta de algumas empresas dirigidas por
portugueses. Neste momento estamos a dotar os nossos serviços de informática
das novas tecnologias entre as quais a internet e intranet e é uma
empresa portuguesa que está a tratar disso.
Tem
havido alguns atrasos importantes nos voos estes últimos tempos e
ultimamente um avião fretado pela Tap ficou bloqueado em Lyon, segundo
sei por decisão sua, porque
tinha ainda as cores de uma Companhia da Indonésia.
Agradeço-lhe
a oportunidade que me dá de explicar o que aconteceu. Efectivamente a
Tap tem operado nos últimos com certas irregularidades devido a
problemas operacionais essencialmente por falta de tripulação. Pedimos
desculpas aos nossos clientes e aos nossos conterrâneos que esperam da
Tap performances de alto nível. Estamos a tentar por todos os meios e
até o recurso de contratação de charters para limitar ao máximo
estas inconveniências. Esperamos que dentro de um mês as coisas
estejam a funcionar com normalidade. Quanto ao avião que mencionou,
aconteceu o seguinte:
A
Tap em Lisboa contratou um avião francês à Corsair ora o avião ainda
tinha as cores da Garuda, uma Companhia da Indonésia. O avião devia
fazer Paris, Lyon e Lisboa, fui prevenido e o avião já estava no ar. Tínhamos
de tomar uma decisão imediata e julgo que os passageiros compreenderam
e tomavam a mesma decisão se estivessem no meu lugar. Não podíamos
aceitar que um avião da Indonésia aterrasse em Portugal, portanto
exigi que esse avião fosse substituído pela Corasair. Tivemos 5 horas
de atraso. Isto foi uma falta de informação da Corsair e um não
cumprimento de um contrato que propriamente um erro da Tap. Agora já
enviamos uma circular para todas as Companhias para terem os cuidados
necessários e isso será verificado pelos chefes de escala para evitar
que estas situações aconteçam.
António
Cardoso
Maio
98
Viajar
para Portugal
Um
negócio étnico ?
Entrevista
com Carlos Do Vale das agências C. O. Voyages.
Carlos
é um profissional do turismo ?
A
minha carreira profissional iniciou-se na Tap Air Portugal nos anos 90
tendo passado por vários serviços tais como reservas, grupos, serviços
administrativos. Começar nesta profissão por uma Companhia Aérea foi
importante pois ganhei bastante experiência dos diversos aspectos do
transporte aéreo.
Agora
é o outro lado da barreira enquanto agência pois está confrontado em
permanência às negociações com as companhias.
Sim
de fornecedor passei a consumidor, ou melhor sou intermediário dos
passageiros.
Qual
é o melhor ?
Ambos
são agradáveis. Na Tap também trabalhava com clientes directos. Hoje
estando a trabalhar por conta própria tenho simultaneamente negociações
com os fornecedores e com os clientes.
Como
este magazine se dirige especificamente aos lusófonos, vamos falar do
mercado português em particular. Não acha que viajar para Portugal se
tornou de novo muito caro ?
Depende
como é analisado e desde quando. Quando entrei na Tap, o bilhete mais
barato para Portugal eram as ditas tarifas imigrantes ou emigrantes que
hoje deixaram de existir. Um bilhete custava 3 900 francos e as pessoas
viajavam menos porque havia menos oferta.
Apareceram depois vários charters a oferecerem transporte aéreo
para Portugal e os preços baixaram. Por
sua vez a Tap e a Air France, para combater esses concorrentes,
colocaram mais oferta no mercado, mais voos para Lisboa, Porto, Faro ou
Funchal. Automaticamente havendo mais oferta, tiveram que rever os preços.
Pelo facto de Portugal ter entrado na Comunidade Europeia desapareceram
as tarifas imigrante e apareceram os primeiros pex que eram vendidos a 2
220 francos. Portanto hoje não é mais caro que nessa altura. Claro que
com a chegada dos charters houve nesse momento bilhetes mais baratos.
Actualmente o mercado está estabilizado. Não me parece que os bilhetes
estejam caros, possivelmente a evolução do custo de vida não terá
seguido da mesma maneira.
Não
pensa que é desagradável para o cliente saber que é vítima dos monopólios
das Companhias de transporte aéreo e que estas só baixam os preços
quando aparece concorrência no mercado que exploram ?
Hoje
não podemos falar em monopólio com respeito a Portugal, excepto nas
linhas regulares onde a Tap e a Air France reinam, mas existem voos
pontuais que são aviões fretados por tour operadores ou agentes de
viagens que continuam a operar para o nosso país mas não como voos
regulares e assim encontram-se por vezes preços mais baratos mas não
é exactamente o mesmo produto que a linha regular.
Por
vezes as relações e os negócios entre as Companhias e as agências ou
os operadores de turismo parecem complicadas. Depois de guerras terríveis,
surgem acordos fantásticos e vice-versa. Lembra-me por exemplo o caso
da Nouvelles Frontières e da Tap.
Não
estou a par das relações que a Tap tem com as redes de distribuição.
A Nouvelles Frontières tem aparentemente bons acordos com a Tap. Em
momentos pontuais tem provavelmente melhores tarifas que outros. Não
conheço o sistema que utilizam, por isso não posso responder.
As
pequenas agências que vendem menos viagens, não são penalizadas nas
negociações com as Companhias em relação aos grupos importantes género
Wasteels ou Nouvelles Frontières ?
Creio
que não. Os preços pela Tap ou pela Air France que estão no mercado
por intermédio das agências ditas étnicas é o mesmo. Não posso no
entanto garantir que as margens sejam idênticas.
Parece-nos
que as Companhias optaram por ter menos clientes e preços mais caros
que o contrario e que a banalização do transporte aéreo para Portugal
através de preços mais atractivos seria mais benéfico a prazo, devido
ao enorme potencial do mercado étnico.
Em
França, existe efectivamente um enorme potencial de clientela. Em
determinadas datas há falta de oferta e quando alguém se quer deslocar
a Portugal nos períodos da Páscoa, Natal ou nas férias não encontra
bilhetes. Para haver mais oferta, as Companhias teriam de pôr mais aviões.
Mas terá que fazer esta pergunta às Companhias.
Algumas
Companhias que apostaram no mercado do transporte aéreo para Portugal,
desapareceram ou abandonaram as linhas. Dizem os entendidos que terão
sido vítimas da Tap e da Air France.
Estou
a lembrar-me por exemplo da Air Sul, Portugália, Atlantis, Viva Air,
Euralair, Air Litoral, Air Liberté, E.A.S. etc. Qual é a sua opinião
?
Para
citar uma ao acaso, a Viva Air começou com muita força e muita
publicidade a voar para Portugal com preços muito acessíveis. Ainda me
recordo de uma frase publicitária, «Só não viaja para Portugal com a
Viva Air quem é patinho». É evidente que a Tap tinha de reagir para não
perder fatias de mercado de uma das suas linhas mais rentáveis
A Viva Air pertencia à Ibéria, ora a Tap obteve direitos de tráfego
de Paris para Madrid e Barcelona. Se em seguida houve acordos para que a
Viva Air abandonasse Portugal e a Tap a Espanha, é mais uma pergunta
que terá de colocar a quem de direito. A Air Liberté, pelo facto de
ter sido adquirida pela British Airways tinha mais interesse em utilizar
os direitos de tráfego em Orly para destinos de longo curso e abandonar
Portugal que é essencialmente um mercado étnico e por isso tem
características específicas.
Qual
é a razão de a oferta charter ser tão reduzida em relação a outros
países ?
Como
disse, continuam a existir voos pontuais para Portugal em momentos de
grande fluxo, Fátima, Páscoa, Natal etc.. Nestas datas que se fretam
aviões a oferta das companhias é reduzida. Neste momento assiste-se
por exemplo ao desaparecimento da Air Charters e é a Air France que vai
recuperar os seus aviões. Portanto as companhias não tem aviões
disponíveis para fretar. O potencial existe mas não são pedidos
regulares como é o caso para o Magrébe a Turquia ou outros países. Há
também deficiências de comercialização em Portugal e sobretudo as
pessoas deslocam-se quase sempre nas mesmas datas. Um charter para
Portugal que sai à terça e regressa na terça-feira seguinte não é
rentável contrariamente a um destino como a Tunísia ou a Turquia que
beneficiam de promoção turística. A Air Liberté fez um bom trabalho
pois ao reduzir os preços foi buscar clientela ao comboio, ao autocarro
e às estradas.
A
C.O. Voyages abriu inicialmente em Le Perreux e agora uma nova agência
em Paris 16. Os negócios estão de vento em popa ? Foi fácil passar de
empregado da Tap para a vida empresarial ?
Quando
cheguei a França tinha 30 anos e já tinha sido empresário em
Portugal, industria hoteleira, moda. Portanto a agência de viagens não
é a minha primeira aventura empresarial. Abrir a C.O Voyages é uma
continuação, aliás quando entrei na Tap, não pensava minimamente
encontrar-me na área do turismo. Estava na informática e foi uma
casualidade, porque não tinha férias ao mesmo tempo que a minha esposa
que também trabalhava na Tap fui para fazer um biscato de um mês e
acabei por ficar. A Tap é uma grande escola e aprendi o suficiente para
abrir uma agência de viagens e me lançar num mercado que compreende 5
000 agências e com todos os tubarões que existem.
Abrir
uma segunda agência em Paris é prova de sucesso?
Depois
de quatro anos de existência em Le Perreux e de ter consolidado a agência
abrimos em Paris para dar um
melhor serviço aos nossos clientes e desenvolver a nossa actividade.
É
o início de uma rede ?
Para
já estamos abertos em Paris 16 desde há dois meses, precisámos de
quatro anos no Perreux para realizar este objectivo. Veremos dentro de
quatro anos.
Qual
é a razão que leva um cliente a escolher a C. O. Voyages em vez de
outra agência ?
Diferenciamo-nos
pela qualidade dos serviços que oferecemos : entregas dos bilhetes em
casa das pessoas sem suplemento de preço, transferências dos e para os
aéroportos através de taxis e enfim um excelente relacionamento com a
indústria hoteleira e empresas de aluguer de automóveis o que nos
permite oferecer serviços de qualidade.
Abril
98
A
Primavera de Linda
Com
o desabrochar da Primavera de 1998 Linda de Suza ressurge com um novo
trabalho discográfico e com 2 concertos agendados para a prestigiada
sala do Olympia, a 17 e 18 de Abril (1). Um acontecimento que se saúda
não só pela ausência prolongada da cantora luso-francesa como pela
qualidade do trabalho agora apresentado e pela forma como o regresso da
ex-menina bonita dos portugueses de França é preparado, com
profissionalismo e dedicação.
Vida
Lusa acompanhou de perto o retorno da artista aos camarins do «Show Bis»
internacional que mereceu também uma prosa atenta do nosso crítico sócio-musical.
Foi
diva, foi dama, seguida de séquito denso e obsequioso, cortesãos que
às primeiras nuvens negras do que consideravam o opróbrio, logo
abriram guardas-chuva ignominiosos de molde a guardarem intactos os
contactos mantidos à sua sombra.
Ao
encanto do seu canto opuseram outros cantos, de sereias de mares negros,
insondáveis.
Quando
as luzes da ribalta feneceram como papoilas em trigais contaminados, os
amigos contaram-se pelos dedos de uma mão, singela e simples, mão de
trabalho que trabalho também ela conheceu nos tempos em que vedeta era
apenas sonho perseguido, miragem inatingível.
Qual
madrinha de gata borralheira, teve artes de transformar a «valise en
carton» em mala de couro tanado em casas especializadas. As escadas e
corredores que outrora varrera percorreu-os depois como senhora digna de
salamaleques.
Devorou
o mundo e pisou palcos atapetados de tecidos tecidos à mão, paredes
emolduradas em cortinados de veludos carmins, janelas de vidros duplos,
triplos, que filtravam os ruídos da rua e conferiam à azáfama
quotidiana os timbres duma melopeia envolvente.
Curvaram
a espinha à sua passagem e muitos houve que nunca lhe perdoaram o
ter-se alcandorado aos píncaros da glória, efémera, porque terrestre.
Verdade
se diga que em momentos de abandono alimentou a corte e cedeu terreno
aos que lhe vilipendiavam os hábitos e os usos.
Trouxe
à ribalta dos «shows» televisivos a lavagem de peças íntimas do
vestuário familiar e estendeu-as em cordames improvisados, deitadas à
gula sequiosa dos que com dejectos se alimentavam e alimentam as crónicas
de aquém e além sucesso.
Ignorando
a textura vidrada dos telhados que a protegiam, protegeu quem projectou
calhaus aos telhados vizinhos. Ela própria nem sempre soube deviar-se
desses projécteis, nem da tentação de também os arremessar a esmo,
sem se dar conta que, atirados ao ar, nunca se sabe onde cairão, quiçá
voltam ao remetente.
Soube
contudo afastar-se quando compreendeu que o sapateiro tinha ultrapassado
a chinela e a sementeira de ventos pressagiava colheitas tempestuosas. Fê-lo
com mágoa, por certo, pois o contacto com o público, com o seu público,
está-lhe nas veias, alimenta-a, alimenta-lhe o ego como a todo o
artista que se preza, que se entrega.
Abandonou
prebendas e homenagens e atravessou desertos de intolerância, inveja e
indiferença, fustigada por tempestades de aleivosias e ódios
recalcados, cobiças mais ou menos disfarçadas.
No
exílio que se impôs logrou manter um núcleo esforçado que nunca a
abandonou, que jamais atraiçoou os princípios que perseguiam em
conjunto. Os braços nunca os deixou cair ao longo do corpo em atitude
de abandono ou renúncia. Sempre os manteve ao alto, erguidos em direcção
ao zénite como em prece invocadora de inspiração para novos voos,
para mais altos desígnios. Apresenta-nos agora novo trabalho, duplo por
sinal, nas duas línguas que domina e pratica.
Velhos
êxitos e novas experiências. Trabalho de investigação aturada,
pesquisa de sons e tonalidades com profissionais de créditos firmados,
com o desejo de se resgatar perante uma comunidade que a protegeu,
endeusou e depois rejeitou como se de excrescência se tratasse.
Uma
nova equipa, uma forma diferente de estar, de propôr novidades a quem
faz e desfaz os mitos. Nesta maneira de encarar a sociedade que a
espreita, Linda de Suza movimenta-se com relutância, a medo.
Não
o medo que nos assalta perante o perigo que espreita, que se vislumbra
ou lobriga no horizonte ou por entre paredes esconsas e estreitas.
Fale-se antes do medo do desconhecido, do medo de não agradar a quem se
ama. Do medo de ofender mais quem nos acarinha e acalenta os sonhos.
E
Linda de Suza sabe como ninguém como é o seu público, como falar aos
seus compatriotas, como lhes dizer que os ama e lhes pedir que a aceitem
tal como é; com defeitos e virtudes que são apanágio de qualquer ser
humano que se preze.
Confrontada
com a necessidade de explicar a sua perseverança diz que «quem corre
por gosto não cansa» e assume o trabalho como força libertadora de
maus pensamentos que a atirem para as profundezas da angústia.
Mostra-se
admiradora do escritor Paulo Coelho e defende «a procura de nós mesmos
para ver do que somos feitos» e é talvez por isso que inclui no seu
mais recente trabalho canções onde se interroga e assume debaixo de
novos ângulos.
«Dignidade»
e «Mulher ó mulher», por exemplo, constituem viagens ao âmago duma
maneira diferente de encarar a arte de cantar.
Outros
títulos novos como «Menina bonita» e «Shimilimilá» constituirão
por certo sucessos comerciais e serão interpretados por milhares de
vozes nos próximos dias 17 e 18 de Abril na renovada sala do Olympia.
Até
lá o retiro é de rigor pois Linda de Suza prepara com seriedade o seu
regresso ao contacto de portugueses e franceses que não a esqueceram e
pretenderão aquilatar das mudanças que por aqui se narram e doutras
que não serão tão evidentes à vista desarmada, porque mais
profundas.
Nos
contactos recentes Linda assume a proximidade crescente com Deus e a
necessidade que sente de se interrogar sobre o futuro e a maneira como o
encaramos e preparamos. Talvez a procura de que nos fala mais não seja
que o reflexo duma introspecção profunda que realiza e que denota na
forma calma como se expressa.
A
exemplo do filho pródigo que dilapidou teres e haveres antes do
regresso ao remanso e à quietude do lar paterno, também Linda de Suza
gastou talento e usou de si própria antes do retorno ao aconchego do
colo dum público que não a esquece e que estará disposto a segui-la
na senda duma carreira que não recomeça, apenas, porque nunca se
interrompeu, afinal só se atardou em período de hibernação
retemperadora.
Por
António Santos
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