Opiniões
 

 

Opiniões

Opiniões....

- Hei-de ser Político, sim... Julho/Agosto 05

- Uma geração de “choque”! Julho/Agosto 05

- Saber governar é bonito... Junho 05

- A União para a paz Junho 05

- Os “fundamentalistas” católicos! Maio 05

- A RTPi da nossa angústia Maio 05

- Terrorismo! A “moral” do desespero Abril 05

- Terroristas e... terrorismos Abril 05

- Vale a pena acreditar! Março 05

- O “Cabo das Tormentas” Fevereiro 05

- Perguntas (ou adivinhas) muito incómodas Fevereiro 05

- Nem tudo o que luz é oiro!... Dezembro 04

- O “egoismo colectivo” e malsão Dezembro 04

- Ainda a Casa Pia! Novembro 04

- A SIDA continua a matar! Outubro 04

- O Conselho que (ainda) não temos Outubro 04

- Portugueses, um povo “desenrascado”! Setembro 04

- Coitado do Zé Maria Setembro 04

- A “Torre de Babel”! Julho 04

- Cantar Portugal Julho 04

- A “Carta de Macau” Junho 04

- A guerra do Iraque já é comparada à do Vietname Maio 04

- Cowboys Maio 04

- Uma guerra “fresquinha” que ninguém quer Maio 04

- Terrorismo vs. Democracia Abril 04

- Um aniversário ainda sombrio Abril 04

- Pois... Março 04

- Vamos ao trabalho que se faz tarde!... Fevereiro 04
- Ano Novo... Ano Bom (mas pouco...) Fevereiro 04
- Tout à fait inacceptable! Fevereiro 04
- "Vamos ler o livro ao contrário" Fevereiro 04
- Surdo? Eu?... Janeiro 04
- Sem "excelências" desmedidas Janeiro 04
- A emancipação da mulher: uma luta sem sexo! Dezembro 03
- Crise no Luxemburgo: uma factura a pagar por todos... Novembro 03
- Mário Tomás: a generosidade em pessoa: A informação já se esqueceu... Novembro 03
- À margem do encontro de professores... nos Açores Quase... genocídio linguístico Outubro 03
- Vamos ajudar a pôr fim às aldrabices? Julho /Agosto 03
- Um par de óculos para o Sr. Ministro Junho 03
- A Europa dos excluídos Junho 03
- A cena seguinte... Conselhos para um... Conselho Maio 03
- Portugal e os Portugueses: é preciso viver o futuro, se o presente é desagradável Maio 03
- O que todos nós deviamos saber sobre o Iraque: A origem da nossa civilização Maio 03
- Em cada esquina um amigo Abril 03
- Terroristas... e terrorismos Abril 03
- "Guerra" ao automóvel Abril 03
- A RTPi não aproveitou a maré de... remodelação Março 03
- A emigração transoceânica perdida na distância Março 03
- Em Portugal agora, tudo é permitido ou quase Outubro 02 

 

 

Julho/Agosto 05

Hei-de ser Político, sim...

 

Quando eu crescer...

quando eu crescer, quero, afinal, ser Político. Não há vida melhor. Sobretudo se tivermos umas quantas cenouras à mão para ir oferecendo a torto e a direito. Sobretudo se nos tivermos preparado. Sobretudo... se a concorrência não for tão desenfreada assim. Quero ser Político, pronto!

Comecei, desde já, a vas- culhar os meus “émulos”. E mesmo não encontrando muitos, encosto-me à bananeira dos que se afiguram paradigmas de um certo “savoir faire” que nos deixem tranquilos pelo menos enquanto durar o tacho... perdão, o lugar. 

E ao fazer isto naturalmente que terei de encontrar quem me ruborize a face para o que der e vier, me pespegue com um olhar meio bondoso, me dê a mão leve para cumprimentar tudo e todos, quando não for possível dar o beijo da praxe numa senhora ou criancinha, das muitas que hei-de ter sempre à mão de semear. Também para o que der e vier.

Como nome sou capaz de inventar um que lembre aos que o ouvirem. Filósofo ou cientista, que para o caso tanto faz. Se possível, hei-de escolher um partido dito de esquerda (embora não o seja), já que o povo passados 30 anos da grande “desilusão” que terminou quase em “tragédia”, não pode com a direita. Para falar, e quando falar, depois de ter as necessárias lições de dicção, hei-de... dizer que não falo, que falo depois, que só depois das três centenas de inquéritos que hei-de mandar fazer.

Hei-de arranjar uma secretária que saiba de tudo sem saber de nada, mas que saiba encarar o interlocutor a quem passar a ideia de que... é preciso descansar no chefe (em mim, claro) as dificuldades, porque é para isso que ele lá está.

Depois, quando a lição estiver mais ou menos metida na cabeça... hei-de atirar aos céus – mas sem o dizer muito – a má herança orçamental, e não só... – recebida dos malandros que me antecederam. Hei-de decorar, sobretudo neste aspecto, a terrível situação das contas do Estado. A despeito de saber que não vale a pena apostar no drama das coisas – o que pode dar a ideia de não ter confiança nas mi-nhas capacidades – hei-de insistir nesse ponto. É drama, sim senhores.

E quando o Governador do Banco Central vier a terreiro dizer que a situação está pior do que pensava (isto é, do que ele próprio tinha dito), hei-de fechar-me em copas e esperar que a onda passe. O défice é quase o dobro do que ele dizia não há muito? Guardo isso para mim... e hei-de afirmar que irei à luta logo, logo mais, quando tudo estiver esclarecido (o que quer dizer nunca).

Quanto a objectivos... hei-de tentar demorar o mais que puder antes de os alardear. Sobretudo para que a onda passe e para que o povo se esqueça. Hei-de fazer os possíveis para dizer aos meus apaniguados... que não falem. Que se resguardem. Falar... falar, talvez só aquele “primo carnal” que não porei no Governo, mas que, tendo ficado no Partido, tem ordens para zurzir tudo e todos. O máximo que é permitido é dizer que a situação é má. Muito má. O silêncio é de ouro.

E como quero ser um político de peso... tentarei dizer o que todos sabem. Que o Estado gasta mais do que pode. E gasta mal. Se fosse numa família, já há muito que mulher e marido estavam de candeias às avessas. Como todos sabem o que eu sei... o melhor é ganhar tempo. Jogar com as palavras. Não apontar caminhos correctos, porque eles não parecem existir. Atirar culpas para a pouca produtividade. Não esquecer que a realidade de hoje não será a realidade de amanhã. E quatro anos passam depressa...

E mesmo que os meus filhos que cursaram Universidades caras me digam que é indispensável definir uma estratégia coerente, eu hei-de resistir até onde puder. Se o povo me deu a maioria – esqueci-me de dizer, mas eu só vou à luta, no Partido ou na governação se sentir que me “dão” o que eu quero... – acredita piamente que eu sou o melhor. E como melhor que sou... ainda sou capaz de ganhar novas eleições que venham. Quanto a devolver as esperanças ao povo, que é disso que se trata... ora adeus, quem é que acredita? Muito faço eu que ainda vou pensando nisso. Quando crescer... quero ser político. Mas, atenção, não me peçam milagres... porque esses só Deus é que os faz. E às vezes pode acontecer que haja quem acredite que Deus é Português...

 

Fernando Cruz Gomes  

 

 

 

 

Julho/Agosto 05

Uma geração de “choque”!

 

Com um ligeiro sentimento de estarmos um pouco perdidos, no meio de acontecimentos que nos escapam, mas dos quais sofremos as consequências, a minha geração continua na esperança do direito a uma velhice descansada.

 

Fomos educados num regime de grandes restrições. Não podíamos falar mal do governo, do patrão, ...nem mesmo do vizinho.

Crescemos a pensar que havia uns que podiam ter tudo e outros que teriam de conformar-se com a miséria ou, na melhor das hipóteses, serem “remediados”. Os três grandes “efes”: Fado, Família e Futebol eram os valores da época (Fado para cantar a tristeza, Família para elevar o sentido de responsabilidade e Futebol para dar escape aos nervos).

Atirados, em plena juventude, para milhares de quilómetros de distância e de armas na mão, obrigaram-nos a fazer uma guerra contra seres que desconhecíamos e por razões que ignorávamos.

Longe dos problemas no Médio Oriente, sofremos no entanto as suas consequências com os “choques petrolíferos”, no início dos anos 70 e nos anos 80 (e mais recentemente o do  “barril a 60 dólares”, por causas outras). Tudo isto com o inevitável agravamento do nível de vida, com menos “cobres” na algibeira, mas a vida é feita de luta e já estávamos habituados.

Não havia salário mínimo, cartões de crédito, juros bonificados, carros a preços acessíveis, roupas de marca ao alcance de todas as bolsas e... viagens, só a Badajoz, para comprar caramelos.

Da Europa e do resto do mundo, só os ritmos dos Beatles e dos Rolling Stones, para balançar as calças à boca de sino e as camisas às florinhas (compradas nos “Porfírios”), uns livritos e uns jornais atrasados, lidos à sucapa e enterrados em sacos de plástico e uns cigarros de contrabando, para fumar em ocasiões especiais.

Com o 25 de Abril de 74, a minha geração deu largas à imaginação e berrou o incontido no estômago, no coração e na cabeça.

Era preciso repensar os princípios, a moral, a família, a sociedade, o Estado, os sexos, a economia, o País e... até o mundo!

Esta geração de “dadores” queria dar tudo o que não tinha tido, sem perceber que não podia dar o que não tinha!

Hoje, face às dificuldades de um presente não imaginado, mas nem por isso mais difícil do que um passado experimentado, a minha geração de sentimentais recorda, com um sorriso reflectido, que: alguns dos princípios devem permanecer imutáveis, porque actuais; que algumas condutas morais estão acima dos tempos, porque são essenciais; que uma sociedade justa é aquela que resulta do equilíbrio de oportunidades; que a seriedade do Estado, enquanto emanação de uma consciência cívica livremente superior, não se compadece com o laxismo; que uma igualdade de tratamento entre sexos, raças ou etnias, não é uma utopia; que uma economia que conduza ao bem estar efectivo dos seus cidadãos, não se compadece com o consumo das aparências e que um País solidário e um mundo mais humano só é possível com o nosso contínuo envolvimento.

Afinal, quando contemplamos hoje Portugal e o mundo e comparamos a realidade com muita da nossa ficção geracional, parece-nos que muita coisa recuou e outras coisas evoluíram, para além do que se poderia ter pensado.

Só algo (cada vez mais evidente na expressão da minha geração) parece não ter mudado e, curiosamente, é o que de mais antigo foi refinado pela prática da vida. Trata-se do espírito e tenacidade para encarar as adversidades e a vontade de lutar por dias melhores.

Mas será que educámos os nossos descendentes com estas mesmas convicções?

Se calhar não os preparáramos para tal, na esperança de que já não fosse necessário e, agora, com o mundo a girar em sentidos tão diversos e a vida a exigir sacrifícios maiores, corremos o risco de nos sentir culpados e, mais uma vez, chamados a participar na resolução dos problemas que nos afectam.

E nós a pensarmos numa pacífica  reforma!...

 

Luís Barreira

 

Junho 05

Saber governar é bonito...

 

Saber governar é, de facto, uma ciência.

Que tanto pode alegrar o povo a quem se destina como atirar de pantanas o seu optimismo no dia-a-dia. Ora, José Sócrates o actual primeiro-ministro de Portugal tem estado a tactear, à procura de fazer coisas.

Se não avançar com os programas que lhe deram a vitória, não se pode desculpar com a falta de apoio dos portugueses. É que estes deram ao actual governo uma maioria confortável. E nem sequer estão a fazer grande pressão social. Ao contrário, dois meses depois de ter tomado posse, Sócrates não enxerga, certamente, grandes anti-corpos populares.

O estado de graça continua alto. A dar a entender que o povo é bem capaz de estar disposto a fazer sacrifícios. Daqueles que até poderão ser duros se permitirem, no entanto, ver a luz ao fundo do túnel.

Dizia Samuel Johnson, um escritor britânico que viveu em 1700, que “estamos sempre dispostos a acreditar naqueles que não conhecemos, pela simples razão de que esses ainda não tiveram oportunidade de nos enganar”.

O povo não conhecia Sócrates. Por isso lhe deu o mandato de governar. Agora é preciso que a desilusão não se apodere do povo.

E, no entanto, uma ou outra voz começa a fazer-se ouvir. Como a de Marcelo Rebelo de Sousa que chega a comparar o estilo de Sócrates ao “pior do santanismo”, sobretudo numa certa des- coordenação entre os ministros, corporizada no desentendimento entre o ministro da Saúde, Correia de Campos, e o próprio primeiro-ministro quanto à construção dos novos hospitais, como o do Algarve.

Esquece-se o professor que os políticos que temos reflectem o povo que ainda somos. Sócrates não prometeu quase nada. E parece estar entretanto sem condições para cumprir o pouco que prometeu. E mesmo no tal “estado de graça” que ainda tem – o povo o que quer é que lhe resolvam os problemas... – há mais que muitas questões que os analistas já vão atirando ao ar.  

Falam no desemprego que não tem solução à vista, no endividamento colectivo, na (fraca) qua- lidade do ensino e na Saúde que não anda nem desanda...

Falou em 150 mil empregos... mas onde estão eles? Falou na construção de hospitais, sobretudo aquele do Algarve, e logo que teve oportunidade mandou às malvas as “decisões” que o seu ministro da Saúde ia tomando.

E por muito que se queira “esconder a realidade”, para não se criarem desânimos, há dados a mais para dois meses de governação. A solução para o aborto vai ficar para as calendas gregas, porque o tal referendo não pode andar por não parecer agradar ao todo poderoso Presidente da República.

Saber governar é, de facto, uma ciência. E os políticos que ainda vamos tendo – do Governo à Oposição – parece terem de voltar à Escola. Para aprender mais umas coisas e sentirem na pele o que o povo pensa das “velocidades” que não temos quando se trata de governar. Dizia alguém, não há muito, que na nossa Política não temos “As” nem “Bês”. Temos, ao invés, meia dúzia de “Cês” e um batalhão de “Dês”. O que é dramático. Sobretudo porque o Povo que nós somos queria, de facto, acreditar no Partido a que deu a maioria absoluta.

 

Fernando Cruz Gomes  

 

 

 

 

Junho 05

A União para a paz 

 

A evocação do 60° Aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, associada ao dia da Europa, que foi um dos grandes palcos da guerra, opondo os aliados às potências do Eixo (Alemanha, Japão e Itália), merece alguma reflexão.

 

Não gostaria de falar sobre os “resquícios” daquele enorme conflito, que ainda hoje alguns teimam em utilizar como arma de arremesso político, quando lhes convém, ou como justificativo de outras barbaridades, sempre que cometem actos mundialmente condenáveis. Não gostaria de aqui recordar, mas é conveniente não esquecer!

Na minha opinião, o importante a recordar nos dias de hoje e se tivermos em consideração a Europa que estamos a construir é, por um lado, o sofrimento e a morte causados a milhões de seres humanos, tivessem sido eles judeus, minorias étnicas, russos, americanos ou alemães. Nesse aspecto e à luz da nossa sensibilidade actual, tal catástrofe humana deve ser evitada a todo o custo e banida dos propósitos de qualquer líder sanguinário.

Por outro lado, a evocação do Dia da Europa, num contexto particularmente pacífico em que se encontra este velho continente há cerca de 60 anos, após séculos de hostilidades, guerras sangrentas e disputas permanentes, é algo que, enquanto for viva a memória da Segunda Grande Guerra, nos faz meditar no quanto de positivo para os nossos povos teve a construção do Mercado Comum e, agora, o da União Europeia.

E porque nos é tão cara, do ponto de vista económico e social, esta construção continental europeia, com todas as suas variantes políticas nacionais e comunitárias, devemos reflectir sobre o futuro desta arquitectura, olhando os problemas do presente à luz das velhas aspirações do seu passado, que tiveram em Robert Schuman um dos seus grandes mentores.

De facto, se a Europa começou por ser o grande mercado de circulação de pessoas e bens, procurando que os benefícios dessa circulação fossem redistribuídos pelos povos que nela participavam, a Europa de que hoje falamos, com um sem número de instituições autónomas e aspirando a uma Constituição comum, já não é só a Europa das mercadorias, é igualmente dos seus povos, de cada um dos seus seres humanos, que se sentem europeus por direito e por pertença a um projecto comum de vida.

E a ser assim e porque habitamos a mesma “casa europeia”, gostaríamos todos de saber o que tem sido feito para conhecermos todos os inquilinos?! Que esforços têm sido realizados para dar às novas gerações (para já não falar das pessoas de meia idade), um conhecimento mínimo da diversidade cultural, histórica, económica, linguística, etc, destes milhões de habitantes que se agrupam sobre o mesmo “chapéu” da União Europeia? Que trabalho tem sido realizado pelas instituições europeias para encurtar a ignorância mútua entre lituanos e portugueses, entre eslovacos e irlandeses, ou entre gregos e finlandeses, para só falar destes?

Cada um dos países que actualmente compõem a União Europeia teve uma história marcada por séculos de atribulados acontecimentos, que marcaram os povos desta grande região do planeta e que ainda hoje são responsáveis por muitas das suas atitudes, incompreensíveis aos nossos olhos. A única forma de evitar conflitos, como foi o da Segunda Guerra Mundial, é proporcionar um conhecimento mútuo entre os povos e estabelecer uma escala de valores comuns a que todos se sentem ligados.

Sermos apenas produtores de bens e consumidores dos mesmos produtos não é condição segura para a paz. Isso já o éramos, embora em menor escala, antes e durante os conflitos, que aconteciam em grande parte em consequência da disputa de mercados ou de matérias primas.

A paz e a prosperidade que a União Europeia deverá proporcionar tem que assentar em bases mais sólidas do que as que resultam da simples transacção de mercadorias.

Estamos a falar de gente, de pessoas que podem amar-se, detestar-se ou ignorar-se! E não consta que esta última atitude seja sinónimo da tranquilidade essencial a uma paz duradoura.

 

Luís Barreira

 

 

 

Maio 05

Os “fundamentalistas” católicos!

 

Um destes dias, num programa radiofónico da Rádio Latina no Luxemburgo, onde se pedia a opinião dos ouvintes sobre a personalidade e obra de João Paulo II, a opinião de um ouvinte deixou-me perplexo.

Interrogado sobre os aspectos mais conservadores e mais evolutivos, do período em que este Papa esteve à frente dos destinos da Igreja Católica, o ouvinte em questão, reafirmando o total apoio ao Papa agora desaparecido, fez questão em sublinhar o seu total repúdio pelos “ps....” (que deseducadamente não soube ou não quis designar como homossexuais), transmitindo a opinião que o Papa faz muito bem em não aceitar a sua existência e que todos os homossexuais deveriam ser mortos... liquidados!

Com toda a franqueza, já pouco me importa os palavrões utilizados pelo ouvinte, para apelidar os homossexuais. Também, e a avaliar pela ignorância e maldade que grassa no mundo, pouco me importa a opinião deste senhor sobre o referido assunto. O que para mim é importante é que, eventualmente, outras pessoas possam pensar o mesmo, após terem ouvido tais disparates. O que mais me afectou é pensar que, de algum modo, as mensagens de João Paulo II, possam ter causado tão pernicioso efeito nas consciências de alguns crentes. E isso sim, é preciso desmistificar!

É verdade que o falecido Karol Józef Wojtyla, numa eventual contradição entre as suas atitudes verdadeiramente inovadoras: em favor da paz no mundo, da aproximação entre as várias religiões monoteístas, do perdão pelos pecados cometidos em nome da Igreja e da grande aproximação humanista para com todos os seres humanos, independentemente da sua natureza ou fé confessional, assumiu uma postura conservadora em relação a muitos dos aspectos da vida da igreja e da moral social. Mas, sem que queira justificar as eventuais dissonâncias do legado de João Paulo II, a minha opinião é a de que, estas possíveis discrepâncias, entre um papado da actualidade, coexistindo com uma moral preconceituosa, tinham um fio condutor no pensamento do falecido Papa, ou seja, a defesa da vida humana, na óptica da Igreja.

Nunca o Papa desejou ver liquidados os homossexuais! Afirmar isto é uma aberração levada à extremidade da condição humana.

Os homossexuais, homens ou mulheres, não são produto de uma degenerescência social, de um vírus maligno ou portadores de alguma doença epidémica e mesmo que o fossem, deveriam ser tratados como seres iguais a todos os outros, com a compreensão e o respeito que todos os homens e mulheres devem merecer.

Ser homossexual só significa ter uma atitude, em relação ao sexo, diferente daquela que é mais vulgar, mas dessa diferença não advém nenhum mal à sociedade em geral.

Um ou uma homossexual, ama, sonha, trabalha, chora e ri, como qualquer outra pessoa e deseja estar integrado na sociedade, como qualquer outro ser humano.

Todos nós, homens ou mulheres, na nossa constituição genética, contemos elementos do sexo oposto, em menor ou maior quantidade e isso não é obra do diabo. Somos assim cientificamente concebidos e não querer entendê-lo só pode ser consequência da ignorância, de uma deseducação assente em preconceitos estúpidos, ou por pura maldade.

Para o ouvinte que emitiu a opinião citada e para todos os católicos que, no Luxemburgo ou em qualquer parte do mundo, querem posicionar-se em torno dos valores defendidos pela sua Igreja, aconselho a leitura das teses do Jubileu do ano 2000.

No caso concreto da Arquidiocese do Luxemburgo, num documento de 7 de Março de 2000, no seu artigo 4, na página 5, dizem nomeadamente sobre este assunto: “No domínio da moral sexual, o comportamento da Igreja e dos seus representantes, face às pessoas homossexuais, merece ser considerado à parte: a Igreja e os cristãos têm hoje um sentimento profundo, olhando a homossexualidade de maneira muito diferente. Nessa apreciação, é preciso partir do facto de que os homossexuais não escolheram o seu destino (...) e que uma alteração da sua tendência é julgada impossível, por uma grande parte da comunidade científica.”

Face a isto, defender a aniquilação dos homossexuais não é ser “mais papista do que o Papa”, é, pura e simplesmente, ser contra o Papa!

 

Luís Barreira

 

 

 

 

Maio 05

A RTPi da nossa angústia

 

É uma alegria.

Quem tem um Jornal das Comunidades assim… tem de facto tudo para achar que vale a pena esquecer a RTPi da nossa angústia.

A verdade é que é assim a modos que uma mexerufada de coisas ditas e reditas, um lençol de frases feitas, uma salada russa quase sem nexo, uma “rebaldaria” em que vale tudo para encher aquele tempo de pasmaceira. É um ver se te avias…

No último, começámos por ouvir a “menina-pivot” – sabemos que não é assim que se chama, claro – a debitar umas quantas coisas a respeito da menina que perdeu a vida no terrível incêndio. Mas fê-lo como se estivesse a dar uma notícia, esquecendo-se que há uma forma de fazer notícias para o imediato, para a linha das agências e para o segmento do telejornal (diário) e outra, totalmente diferente, para os programas semanais ou de referência. Esqueceu-se, pronto.

A seguir veio o Sindicato dos Trabalhadores Consulares, pela voz e mão do Sr. Veludo… que aveludadamente foi dizendo da sua (in)justiça a respeito de uma questiúncula que há lá pelas bandas de Londres. Tempo a mais para uma coisa que, trabalhada como o foi, tem pouco a ver com as comunidades.

Claro que, até ali, era só a Europa a funcionar. A exemplo do que é habitual naquela que se chama eufemisticamente “RTPinternacional”, mas de internacional vastas vezes tem apenas a componente europeia. E mais Europa ficou quando deu voz e... vez a uns “meninos prodígios” que andam pela França na Comunicação Social francesa a fazer coisas de truz. E trouxeram à liça uma Karine Lima e um Paul Moreira. Uma e outro a dizerem das suas. E a cantar loas à sua forma de actuar. Daí não viria mal ao mundo... se nos lembrássemos de ter visto idêntico critério – naquele inefável Jornal das Comunidades – em relação aos muitos “prodígios” que há pelos Estados Unidos e pelo Canadá, pela Venezuela e pelo Brasil. Mas isso não, que fica muito longe! A distância é capaz de não ser coisa de somenos, mas, de facto, por lá, mesmo em Paris... quem estas linhas escreve poderá dar ideias acerca de vários outros colegas – e de peso no mundo da Informação – a trabalharem em órgãos de Informação “nossos”. E que poderiam dar ao tal Jornal... o verdadeiro prisma das comunidades. Por falar em comunidades... falou-se outra vez – com lágrimas à mistura – nos bairros da lata dos anos 60 e 70, em... Paris (onde é que poderia ser?!) E abordou-se a problemática de uma família pobre... que veio pobre... que viveu pobre... e é agora rica (pelo menos em matéria de dinheiro).

Um Jornal das Comunidades assim... não dá para ver! Desligámos o aparelhómetro e fomos deixar que um café bem quente nos acordasse para a realidade. Uma realidade das coisas que fazem que andam... sem andarem. Como é o caso dos muitos “Contacto” que a RTP vai tendo. E que seria para forçar à triangulação da Informação. Só que serve apenas para nos sensibilizarmos uns aos outros. Paris vai sabendo o que se passa na África do Sul, no Canadá nos Estados Unidos, Macau saberá o que se passa sabemos lá onde. Mas... Lisboa continua a olhar para o seu próprio umbigo. Sem enxergar o tal “Contacto”. E a pensar, paulatinamente, que Portugueses são apenas... os 10 milhões que vivem dentro das fronteiras portuguesas. Não contabiliza os quase 5 milhões de Portugueses e luso-descendentes que vivem no mundo. Não contabiliza porque vale a pena sonhar... que emigrantes são só os de i... já que os outros é até bom que desamparem a loja.

O outro Governo dizia que Portugal era cada vez menos só o rectângulo dos 10 milhões... para ser também os 5 milhões de fora. Só o dizia? É evidente que sim. Este Governo ainda não disse nada a esse respeito. Pelo menos a avaliar pelos discursos que já ouvimos das excelências todas que tomaram posse...

A RTPi da nossa angústia... vai de mal a pior!

 

Fernando Cruz Gomes  

 

 

 

Abril 05

Terrorismo! A “moral” do desespero

 

Realizou-se muito recentemente, em Madrid, uma Cimeira entre especialistas mundiais do combate ao terrorismo.

A sua conclusão foi simples, como a verdade de La Palisse: consideram irrealista colocar como objectivo eliminar o terrorismo, propondo antes combater as suas causas e desenvolver acções concretas, no plano social e na cooperação entre nações, quanto aos meios de combate.

Quer dizer que, enquanto houver injustiças de tal forma gritantes que, em sinal de desespero, façam com que homens e mulheres atem quilos de dinamite à cintura e se façam explodir, não importa onde, todo o combate ao terrorismo apenas pode minimizar os seus efeitos, mas nunca resolverá as suas causas objectivas, ou seja, a enorme miséria que grassa em algumas partes do mundo.

Desenganem-se todos os “cow-boys e robocops” do mundo, que pensam anular este flagelo, através das suas técnicas e poderes militares.

Desiludam-se todos aqueles que pensam poder fazer apelos à razão, para alterar as mentalidades destes suicidas, quando os mesmos têm, como contrapartida, um prato vazio na mesa familiar.

E a religião destes homens/mulheres-bomba não é a causa e muito menos o objectivo destes kamikazes dos tempos modernos. A evocação religiosa serve apenas como passaporte para um futuro no paraíso. Todos têm medo de morrer, mas a morte pode ser melhor que muitas das vidas que se têm e se se é crente numa qualquer filosofia metafísica que lhes é impregnada, justificando os seus actos para atingir fins altruístas, atribuindo-lhes a “categoria” de mártires, ou seja, a felicidade eterna no “além”, todos os fins passam a justificar os meios.

Mártires pela honra, pela pátria, pela seita, pela religião, pelos governantes auto-denominados deuses e por tantas razões objectivas e subjectivas, a história dos homens está repleta de exemplos. Só que hoje, em pleno séc. XXI, quando a vida do Homem atingiu teoricamente, nas sociedades desenvolvidas, o conceito de maior preocupação, custa-nos compreender que tipo de valores podem conduzir estes bárbaros assassinos a cometer os crimes mais hediondos.

Só há uma explicação: o valor da vida humana não é idêntico no conjunto da sociedade que habita o planeta e, em relação directa, o desespero, a fome, a miséria e a fraqueza psíquica e cultural, atingiram tais proporções em certas regiões do mundo, que o seu desnivelamento, facilmente comparado através da comunicação global, atira para o terrorismo homens e mulheres dispostos ao sacrifício suicida, como resposta a tantos problemas sem solução aparente.

Só compreendendo as causas do terrorismo podemos combater, eficazmente, este flagelo que nos afecta a todos.

Nenhuma razão o justifica e nenhuma vida deveria ser sacrificada em nome de uma razão. Este deveria ser o lema para terminar com todas as guerras mas, na impossibilidade actual de uma sociedade perfeita, poupemos, ou menos, os inocentes.

Se é um facto que devemos tudo fazer para inculcar valores morais semelhantes em todas as sociedades humanas, não é menos verdade que temos muito a fazer para proporcionar a todos os seres humanos a dignidade da vida. E é por aí que devemos começar!

De nada vale criarmos leis universais e sanções colectivas, se não formos capazes de dar, ao conjunto das sociedades, condições essenciais para que compreendam e aceitem os valores que lhes propomos.

Se nada fizermos nesta direcção, só nos resta desenvolver modelos de sociedades policiadas, em que os próprios cidadãos acabarão por perder os valores em que agora acreditam e tanto querem preservar.

 

Luís Barreira 

 

 

 

Abril 05

Terroristas e... terrorismos

 

Quando, em 15 de Março de 1961 - há que tempos isso lá vai! - deparámos com toda a tragédia do norte de Angola, aprendemos, então, uma palavra nova: terroristas.      

Eram terroristas os que faziam tudo aquilo. Os que matavam indiscriminadamente. Os que violavam. Os que abriam meninas desde as partes baixas até à boca. Nós vimos tudo isso. Ninguém nos contou. Não lemos em livros. Vimos.

Os poderes instituídos de então chamavam àqueles homens que iniciavam a tal “luta” terroristas. O terrorismo começava, então, para nós, a ser algo hediondo. Avassaladoramente hediondo. Os poderes instituídos de então responderam ao terrorismo... com uma luta sem tréguas nem barreiras. A que se chamou, também, terrorismo.

Aos poucos, porém, vimos outras formas de terrorismo. Aprendemos à força... a entender outros terrorismos. E a isso nem escapou uma “reciclagem” que fizemos à imagem que tínhamos acerca da primeira bomba atómica - a arma-“mãe” de todas as armas de destruição maciça - que fizeram deflagrar por sobre Hiroshima e Nagasaky.

O terrorismo continuou a ser algo de hediondo. Avassaladoramente hediondo. Mas... ganhou contornos diferentes. E teve “faces” também diferentes. Até porque os terroristas de então - 15 de Março de 1961 e outras datas que se lhe seguiram - são hoje os “senhores todo poderosos” daquele País que (ainda) amamos. Sentam-se em cadeiras de deputados. Sobraçam pastas ministeriais. Atiraram-se para as escadas do Poder máximo. A “reciclagem” que fizemos ao conceito de terrorismo continuou. E mesmo hoje, que há outros ismos cada vez mais poderosos... ainda nos interrogamos sobre o que é ser terrorista. Há dias, a Imprensa atirou-nos para a mente uma frase que não deixa de nos matraquear o pensamento. O senador norte-americano Robert Byrd escreveu: “Hoje choro pelo meu país. Depois da guerra temos de reconstruir mais do que o Iraque. Temos de reconstruir a imagem da América um pouco por todo o mundo”.

Reconstruir a imagem da América? - O que temos, de facto, é de reconstruir a palavra e o conceito de terrorista. Se o fizermos a tempo... ainda somos capazes de evitar que um pensador espanhol de que nos não lembramos o nome tenha razão quando diz não saber ao certo como iria ser a terceira guerra mundial. Sabia, isso sim, como seria a quarta guerra mundial. E essa, na sua óptica, seria... a paus e pedras, porque a terceira acabaria com tudo.

O conceito de terrorista. O conceito de pundonor. O conceito de “ser” homem justo. Talvez evitasse até - e nós sabemos que é capaz de não ter nada a ver com o que deixamos escrito... - que, há tempos, logo após a cimeira das Lajes, na página oficial da Casa Branca, Aznar, que era o chefe do governo de então, aparecesse como presidente da Espanha, que é (ainda) uma Monarquia. E que Durão Barroso aparecesse como... Durão Burroso! Está lá escrito!

 

Fernando Cruz Gomes

 

 

Março 05

Vale a pena acreditar!

 

P ronto, já está! O Presidente da República Portuguesa decidiu dissolver a Assembleia da República, considerando que a coligação PSD/PP já não tinha condições para governar. O povo português votou,... e deu-lhe razão!

Esse mesmo povo modificou radicalmente o seu sentido de voto, atribuindo ao Partido Socialista uma larga maioria  e aos restantes partidos da oposição, uma situação mais confortável na Assembleia da República. O povo responsabilizou-os e vai ser exigente com eles!

Mas, pese embora a maioria absoluta do Partido Socialista, que lhe vai permitir governar sem sobressaltos e sem o quebra-cabeças do “queijo Limiano”, a responsabilidade deste partido é de tal ordem que, a não ser que se modifiquem muitos dos procedimentos governativos habituais, deste histórico partido, a sua acção vai ser constantemente posta em causa, pela oposição e por largos sectores do eleitorado que, desta vez, lhe deram a preferência do seu voto.

Ficou provado, mais uma vez que, em Portugal, nenhum partido se pode arrogar de ter um eleitorado substancial e estável.

Todos os partidos políticos que, a 20 de Fevereiro de 2005, ganharam votos, vão ter, mais tarde ou mais cedo, que prestar contas a quem os elegeu.

O Partido Socialista deve a sua vitória aos sectores da população mais inclinados à social-democracia moderna, descontente com o seu partido natural.

O Partido Comunista, contra todas as expectativas, atingiu a estabilidade perdida, pela postura humanizante do seu novo Secretário-Geral.

O Bloco de Esquerda triunfou, eleitoralmente, porque soube dar voz inteligente às minorias produzidas pelas nossas modernas sociedades.

Mas,...todos os que obtiveram ganhos eleitorais, conseguiram-nos, não tanto pela força das suas ideias, mas mais pelo descontentamento que a anterior governação lhes provocou.

Por isso se espera, dos partidos vencedores, uma nova forma de fazer política.

Por isso se aguarda que, os partidos perdedores, saibam recolher os ensinamentos necessários do que se passou e assumam, nesta legislatura, uma oposição responsável, séria e construtiva.

O País não se pode permitir de outra atitude!

Como gerir, da melhor maneira, o social e o económico, é o grande desafio que se coloca ao Partido Socialista. Por isso, este partido tem agora uma enorme responsabilidade : se a Administração Pública é pesada e obstrutiva; se o nosso sistema de saúde está doente; se o ensino está mal estruturado ; se a justiça enferma de vícios processuais ; se o nosso aparelho produtivo está desadequado; se a nossa Defesa Nacional  está aquém, da eficácia necessária e muito para além das nossas possibilidades; se a nossa fiscalidade se assemelha a uma “rede de pesca de carapaus e deixa passar tubarões” ; se o endividamento das famílias portuguesas atingiu níveis insuportáveis ; se a miséria grassa, de forma exposta e encoberta ; se as auto-estradas para o interior são uma ponte, entre uma prosperidade aparente e a terra de ninguém; se a população envelhece desprotegida e os novos evitam ter filhos, com medo da vida; se os valores sociais de referência, continuam a ser os carros de alta cilindrada e os telemóveis de nova geração. Mudar tudo isto, para melhor, sem perder de vista as grandes preocupações sociais, como: o emprego, o nível de vida, a saúde e a justiça social, é um trabalho gigantesco, no tempo e no espaço de uma legislatura.

Por isso a maioria absoluta não chega!

Se os partidos, que agora ficam na oposição, se afirmarem pela positiva e não pela obstrução sistemática, mais tarde ou mais cedo serão recompensados eleitoralmente, pelo seu empenho nacional e, o País, ganhará.

Se o partido que agora assume o poder, independentemente da sua não dependência governativa formal, souber escutar, analisar e decidir, em conformidade com as críticas justas e mobilizar um povo que, fora e dentro do seu País, está disposto a colaborar para o progresso da sua terra e das suas gentes, então podemos dar passos de gigante, em direcção a um futuro melhor.

São talvez demasiados “ses”, mas vale a pena continuar a acreditar!

 

Luís Barreira

 

 

 Fevereiro 05

O “Cabo das Tormentas”

 

Dentro em breve os portugueses, no interior e exterior do País, vão ser chamados a escolher os seus deputados. Vão ser chamados a designar os homens e mulheres que, independentemente das suas convicções e dependências politico-partidárias, virão a ser os legítimos representantes do povo português e os responsáveis pelos destinos de Portugal, durante os próximos quatro anos.

Quatro anos que, por razões internas e externas (com impacto interno), não se afiguram como um simples passeio no “jardim à beira-mar plantado”, mas mais como o enorme desafio (já vivido no passado) de dobrar o “cabo das tormentas”.

Penso que já se falou suficientemente sobre as dificuldades internas do nosso pequeno Portugal : uma economia fraca e em recessão ; um déficit público elevado ; uma competitividade empresarial abaixo das necessidades ; um desemprego elevado, com consequências graves, ao nível das estruturas de apoio social ; um descrédito na eficácia das instituições ; um pessimismo elevado das populações e dos agentes económicos ; etc, etc.

Penso, igualmente, que muito já se disse sobre os desafios externos de pertença a uma comunidade de 25 países, que dá pelo nome de União Europeia : critérios financeiros dolorosos, para continuar na zona euro ; diminuição dos subsídios ao desenvolvimento ; rigor na aplicação das suas directivas ; política externa condicionada e política interna estável ; contas públicas transparentes ; pressão sobre a nossa capacidade de inovação ; etc, etc.

Os portugueses também já sabem que vão ter uma legislatura (ou mais), plena de sacrifícios, para ultrapassarem as actuais dificuldades, alguns anos de paciência e boa vontade, para poderem instituir um País moderno e próspero.

Não sabem ainda, mas vão saber, quais são as propostas político-partidárias para sair da actual situação e encontrar um rumo certo para a Nação.

O que de pouco se tem falado, vejo e oiço, é sobre a correspondente prática social, a um projecto de sociedade a precisar de grandes transformações, ou seja, a necessária mudança de atitude da nossa classe política, para com o eleitorado e para com as responsabilidades da governação.

Críticos oiço muitos. Até parece que virou moda ser-se meramente crítico e critica-se cada vez mais sem substância, confundindo os fait-divers, com os assuntos de importância decisiva.

Apartidários, envergonhados das suas verdadeiras convicções ou sem elas, a gente partidária, com objectivos inconfessáveis ou por mero despeito, os “velhos do Restelo” têm vindo a assumir um papel preponderante na paisagem mediática, sem que a sociedade, embriagada por muitos dos programas televisivos de cha-cha (sem h), se contraponha de forma séria e responsável.

Até parece que é preciso bater com a cabeça no muro para saber que os média (e nomeadamente os canais televisivos) não são o primeiro poder do Estado, não são eleitos por ninguém, não têm que ter nenhuma responsabilidade sobre as decisões governativas. São, exclusivamente, veículos de expressões várias, algumas interessantes e a ter em conta, outras, autêntico “lixo”.

Por isso se justifica cada vez mais uma clareza e frontalidade da nossa classe política. Os partidos e os seus partidários devem, cada vez mais, apresentarem-se pela positiva, pelas suas próprias ideias e projectos e muito menos por oposição a uns e a outros. Os responsáveis partidários, que aspiram submeter-se ao eleitorado e ganhar a sua confiança e solidariedade, não podem (devem) afinar os seus discursos pelo diz que disse, pelos títulos bombásticos da imprensa, pelas suas ambições pessoais ou de grupo. O País precisa de dirigentes nacionais que saibam conduzir um povo, sem olhar ao seu emblema da lapela.

E não me venham dizer que é preciso esperar por uma nova geração de políticos, para que as coisas melhorem. Daqui até lá morremos de fome e,....a fome, nunca foi boa conselheira.

 

Luís Barreira

 

 

 

Fevereiro 05

Perguntas (ou adivinhas) muito incómodas

 

“Os factos não deixam de existir só porque são ignorados”. A frase é do escritor britânico Aldous Huxley. Nunca como hoje, no Portugal moderno, teve tanto sentido. Com as eleições à porta... ignoram-se factos. Atropelam-se corações. Viram-se latas de ódio. Destila-se veneno. E quando se ignoram os factos, há quem pense que eles não existem.

Talvez por isso - e lá voltamos nós a citar um escritor, desta feita escocês - “as verdades mais cruas são, muitas vezes, ditas em silêncio”. Robert Louis Stevenson sabia o que dizia. E tentava, nos seus romances e poemas, dizer aos homens seus irmãos... que talvez o silêncio faça muito barulho.

São mais que as mães... os que falam agora na viagem de Morais Sarmento a São Tomé e Príncipe. No preço da viagem. Nas “férias” que o Ministro teria feito durante 24 horas. No pouco resultado que se vê e se há-de ver. E a Comunicação Social -a nossa querida Comunicação Social - bate na mesma tecla. Que é imoral. Que não deveria ser feita a viagem quando o Governo está em gestão. Que...

A verdade é que, por esta mesma altura, ninguém fala na luzidia comitiva que o inefável Presidente da República levou à China. Foram mais de 100 pessoas. Até dizem que foi a maior comitiva que algum dia acompanhou o Chefe de Estado a uma visita oficial. A Imprensa, neste caso, enche páginas e preenche telejornais. Canta loas à iniciativa que pode ser - será mesmo? - do maior interesse para Portugal e para os Portugueses.

Nos casos em apreço... todos sabem - saberão mesmo?! - quanto custou a viagem de Morais Sarmento a São Tomé. Os rios de dinheiro que ele gastou... Não sabem - e, pelos vistos, nem querem saber - quanto custou a viagem de Jorge Sampaio e dos seus apaniguados a terras chinesas.

E se nos interrogarmos sobre tudo isto, não poderemos deixar de nos interrogar também sobre muitos outros casos. Sabemos quais são os gastos do Governo. Quantos “amigalhaços” eles metem nas secretarias dos Ministérios.

Ninguém se interrogou, ainda, quantos funcionários - alguns a funcionar muito pouco... - estão na Presidência da República. Quanto gastam por ano. Como é que foram feitas as respectivas nomeações e a que critérios obedeceram.

Naturalmente que são perguntas incómodas. Daquelas a que ninguém quer responder. O que interessa a uns quantos é dar relevo e ênfase às asneiras - ou pseudo-asneiras - de... uns quantos. O que interessa, na mesma direcção, é esquecer as asneiras de outros.

Ainda ninguém reparou, por exemplo, que o PS prometeu resolver o intrincado problema do défice numa legislatura (4 anos). Ninguém pergunta aos seus dirigentes porque é que o mesmo Partido sempre exigiu que os outros fizessem esse “milagre” em dois anos ou mesmo num. Ninguém se interrogou sobre isso. Ninguém pensou que a clubite da esquerda... tem sempre razão, enquanto que o que parece direita é sempre... execrável.

 E se entrar em Lisboa... e já que estamos com a mão na massa, pergunte porque é que será tão importante culpar uns por terem iniciado uma obra que foi interrompida durante 8 meses (o tal túnel do Marquês), e ninguém dar importância ao facto do Supremo Tribunal afinal ter dado razão a quem iniciou a obra?

Perguntas incómodas, nós sabemos. Perguntas a que ninguém quer responder. Sobretudo nas Redacções dos Jornais, das Rádios ou das Televisões.

Chega a parecer que estas perguntas incómodas não são feitas porque o “lobby” da Comunicação Social, em Portugal, num crescendo que todos fingem não ver, está a tentar manipular a opinião dos Portugueses. Condicionando assim os resultados destas e das próximas eleições.

 

Fernando Cruz Gomes  

 

 

Dezembro  04

Nem tudo o que luz é oiro!...

 

Um recente estudo do Eurostat, a pro- pósito dos salários mínimos praticados em diversos países e, nomeadamente, nos países da União Europeia, dá-nos conta de uma realidade estatística que nós, os que vivemos no Luxemburgo, há já algum tempo, temos vindo a sentir no “bolso”.

De cada vez que comparamos o nível de salários praticados no Luxemburgo, com aqueles que se aplicam nos restantes países, ficamos estupefactos com o desnível existente.

Só para vos dar um exemplo, no Luxemburgo, o salário mínimo nacional, cerca de 1 403 euros, é o maior de toda a União Europeia e o dobro do praticado nos Estados Unidos. O nível mais baixo dos salários, entre os países da União, é o da Letónia, apenas com 121 euros mensais e em Portugal, o salário mínimo é cerca de 1/3 do praticado no Luxemburgo.

Quem quer que seja que viva noutro país, olhando os montantes dos salários praticados no Luxemburgo, deve considerar que todos nós somos ricos, vivendo como uns nababos e com um mealheiro capaz de fazer inveja ao “tio Patinhas”.

De facto, no Luxemburgo e de uma forma geral, não se vive mal, em termos económicos. Os salários, os esquemas de protecção social, os níveis suportáveis de desemprego e a qualidade de vida, de que os residentes desfrutam, corresponde a um padrão elevado, em comparação com a maior parte dos povos de outros países.

No entanto e correspondendo à percepção de muitos de nós, a estatística da União Europeia, também nos revela que, enquanto no Luxemburgo, o salário mínimo é praticado em cerca de 15% dos assalariados, na Holanda, o país que pratica os salários mínimos mais próximos do Luxemburgo, esta percentagem desce para cerca de 2,3%, o que deixa antever que, uma parte muito superior da população holandesa, ganha acima do salário mínimo.

Por outro lado, outro factor, aparentemente contraditório, vem à luz do dia com esta recente estatística. Entre 1999 e 2004, o salário mínimo no Luxemburgo, aumentou 24%, o que, à primeira vista, parece uma evolução muito positiva, em relação a um país vizinho como a França, onde os salários só aumentaram, no mesmo período, cerca de 13%.

Mas, se formos mais longe e quisermos saber o que os assalariados beneficiaram realmente, com esse aumento dos salários, verificamos que esses 24% de aumento, entre 99 e 2004, só resultaram em 4% de aumento efectivo no poder de compra. Olhando para os vizinhos franceses constatamos que, o aumento de 13% nos salários mínimos, no mesmo período, se traduziu em mais 19% no seu poder de compra. O que quer dizer que, no período referido, o custo de vida, ou seja, o que pagamos : pela alimentação, transportes, vestuário, saúde e tantas outras coisas indispensáveis ao nosso quotidiano, aumentou muito mais no Luxemburgo, do que em França.

Se de facto a situação média de quem vive no Luxemburgo, em condições regulares de emprego e habitação, não pode ser considerada má e, antes pelo contrário, ela está bem acima da média europeia e muito mais da média mundial, só olhar para um lado dos números, como é o caso do nível dos salários mínimos praticados, não chega para ter uma ideia real da evolução do País em que vivemos. Além disso, cria-se a ilusão noutros países de que “o Luxemburgo é que está a dar”, o que é cada vez menos verdade!....

Razões de sobra para avaliar que, tal como diz o povo, ,.... “nem tudo o que luz é oiro”!

 

Luís Barreira

 

 

 

Dezembro  04

O “egoismo colectivo” e malsão

 

As comunidades são, por norma, egoístas. Há quem se reveja no próprio umbigo e entenda mal o dito cujo dos outros. Vai daí, há pequenas ou grandes mazelas sociais. Daquelas que, de uma forma geral, todos dizem abjurar. Que chegam mesmo a condenar. E a jurar, a pés juntos, que não estão nos seus hábitos.

Bertold Brecht, que viveu de 1898 a 1956, deixou-nos um poema que é um portento de chamada de atenção a essa mesma gente. E que, em tradução, vale a pena aqui deixar.

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro.

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário.

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável.

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho o meu emprego

Também não me importei.

Agora estão a levar-me a mim

Mas já é tarde.

Como eu não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.

 

Talvez que a fraseologia seja demasiadamente cáustica. Dura. De cortar, com a verdade, pedras rijas e aparentemente inacessíveis ao golpe até do diamante. Talvez. Só que, de facto, parece destinada a caricaturar pelo menos caricaturar - muitas das cenas que a nossa própria comunidade comporta. Que enchem os nossos quotidianos. E brincam à “cabra cega” com a nossa cegueira. Sim, porque muitos não conseguem enxergar coisas que estão à vista de todos.

Talvez nem valha a pena tentar o jogo da adivinhação, no sentido de saber a quem nos estamos a referir. Interessa-nos, cada vez mais - e felizmente também a este magazine - o colectivo do que o indivíduo. Este interessa-nos, quando muito, como amigo ou conhecido. O colectivo, não, uma vez que ele está connosco e com os outros. Que compõem uma comunidade, um País, um Mundo. O colectivo, mesmo parecendo que não, come connosco à mesa, vive paredes meias connosco. Está ali mesmo... ao pé de nós e dos que são nossos familiares.

Mas, mesmo assim, ler alguns escritos que vemos por aí leva-nos a pensar que estamos todos necessitados de uma grande dose de humildade. De caridade cristã. De amor verdadeiro à solução do real problema das comunidades. Que é, de facto, o egoismo colectivo e malsão.

 

Fernando Cruz Gomes

 

 

Novembro  04

Ainda a Casa Pia!

 

Quando todos já nos interrogávamos sobre o estado actual do “processo Casa Pia”, deixado de lado pelos grandes títulos da imprensa, eis que o Procurador Geral da República de Portugal, Souto Moura, desenterrou mais algumas críticas à forma como o processo foi conduzido.

Desta vez, segundo ele, o embrólio que tem motivado todo este processo judicial, só foi possível devido à notoriedade dos acusados. Quer dizer que, se fosse o Sr. Manuel da mercearia ou o Sr. Joaquim do talho, o processo já teria sido concluído há muito tempo.

Como também afirma que, pelas mesmas razões, não foram acautelados os interesses das vítimas, pode depreender-se que os acusados foram beneficiados em toda esta tramitação legal, em prejuízo dos miúdos abusados.

É curioso como afirmações desta natureza podem ser bem aceites pela opinião pública. O povo, em geral, fica satisfeito por ver os ricos e poderosos serem igualmente julgados e se os crimes que cometeram, forem sobre crianças desprotegidas das famílias, como é o caso, os nossos sentimentos são ainda mais arrebatadores.

No entanto, estas declarações do Dr. Juiz-Procurador Geral, não podem escamotear outras verdades mais profundas.

Como membro do corpo judicial de Portugal, o Sr. Dr. Juiz sabe perfeitamente que, se os acusados utilizaram a “engenharia jurídica” para complicar o desenrolar do processo, foi porque a lei o permitia e permite!

Independentemente do juízo que cada um faz sobre as culpas de tudo o que se tem produzido neste processo, os advogados de defesa dos acusados não cometeram nenhuma injustiça. Foi a justiça existente que lhes permitiu agir assim e não me lembra de ter visto, até agora, o Dr. Souto Moura a combater as injustiças da justiça portuguesa. Por outro lado, se os direitos das vítimas deste processo não foram acautelados, pergunto-me o que é que está lá a fazer o Procurador Geral da República, enquanto juiz da causa pública?

De tudo aquilo que se passou até agora, o povo já tirou uma lição : a justiça não é cega ou, pelo menos, não é cega para todos! Há uns, cuja posição social ou a riqueza económica, têm o privilégio de ver todos os “buracos” da lei e outros, menos bafejados pela sorte, que andam completamente às cegas pelos meandros da justiça.

Era isto que o Sr. Procurador deveria ter afirmado. Só que, se o fizesse, corria o risco de ter que pôr em causa, muito da estrutura profissional em que se insere.

Só falta alguém vir à praça pública dizer que, a culpa de toda esta trapalhada jurídica, é dos órgãos de informação e de toda a mediatização que foi feita.

Ainda não ouvi ninguém afirmá-lo de forma contundente, mas tenho a certeza de que não será o Sr. Procurador Geral a fazê-lo, ainda a braços com as fugas de informação para os jornais, por parte do pessoal dos seus serviços e a propósito do processo Casa Pia.

Esperemos que o processo chegue ao fim, sem mais alfinetadas e com a verdade acima dos preceitos administrativos da justiça portuguesa. E esperemos que a imprensa continue a preocupar-se com a divulgação da verdade e não com a criação de “vedetas ocasionais” que, cada vez mais, abundam na vida pública do país que nos viu nascer.

 

Luís Barreira

 

 

Outubro  04

A SIDA continua a matar!

 

Já não é a primeira vez que falo neste assunto e, infelizmente, não me parece que vá ser a última!

Trata-se de, mais uma vez, vos alertar para o problema da SIDA.

Não me vou repetir sobre os milhões de seres humanos infectados pelo HIV e os muitos milhares de mortos, em continentes como a África e a Ásia, para já não falar no continente europeu e americano.

Também não vou fazer prelecções sobre a moral dos costumes e a moral religiosa, no que diz respeito às formas de evitar este contágio mortal. Todos sabem o perigo que constitui as relações sexuais não protegidas, nomeadamente quando acontecem fora do âmbito da fidelidade entre os parceiros habituais, ou da utilização de seringas já utilizadas por outros, no caso de pessoas atingidas pelo vício das drogas.

Acho que também já todos sabem como agir quando têm dúvidas. Basta fazer um teste gratuito e anónimo num dos hospitais amplamente anunciados.

Quero nesta ocasião dizer-vos (mais uma vez...) que a SIDA está aqui, na nossa sociedade luxemburguesa, a matar mais do que deve!

Desde o ano 2000 que assistimos a um aumento regular do número de novos casos (40 em média anual) e, só nos primeiros 8 meses deste ano, já foram detectados mais 44 casos de novas infecções, segundo um relatório da associação Stop Aids Now.

O Luxemburgo está na primeira linha de 15 países países da União Europeia, com a mais alta taxa de novas infecções.

Portanto, a morte está de facto aqui, espreitando entre os incautos e todo o cuidado é pouco, pese embora a descoberta de novos medicamentos que evitam o desenvolvimento da doença, mas não a curam.

Não sei porque não se fala mais nisto! O que eu sei é que, o facto de o não fazer, pode dar a falsa ideia que esta “peste” está controlada ou que já se cura. Infelizmente não é assim e a continuarmos a iludir o problema da prevenção, não agindo, não falando, não discutindo, nem reclamando, estamos a tornar-nos cúmplices destas mortes anunciadas.

Não gostaria de falar sobre a morte, preferia falar sobre a vida e ela, é um bem tão precioso, que é um perfeito disparate deitá-la para o lixo numa atitude irreflectida. Por isso, se não podem evitar os vossos impulsos, protejam-se!

Pior ainda, é o desprezo pela vida humana dos outros, daqueles a quem podemos infectar, por negligência nossa. Se não tem pena de si, tenha pena dos outros, que não têm culpa nenhuma da sua loucura pessoal.

Portanto, meus amigos, a escolha é vossa mas... depois, não digam que não sabiam.

 

Luís Barreira

 

 

Outubro  04

 O Conselho que (ainda) não temos

 

O tempo voa. 

Mesmo sem asas, encastela-se por sobre a cabeça dos que (ainda) pensam e só não ensina nada... se nada quisermos aprender. Nas “ondas” da Internet, chega a dar a ideia de que o tal tempo... não tem tempo e surgem “conversas” que só poderão surpreender um que outro incauto. Aos outros, decerto a maioria, já não causa surpresa.

Agora é o Conselho das Comunidades Portuguesas que está em foco. João Machado, Conselheiro de França, eleito no Círculo de Nogent-sur-Marne, diz que não vai à reunião de 25 e 26 de Setembro e explica porquê. O seu “Porque é que não vou a Lisboa” é, no fundo, um grito de alma que já outros lançaram. E que só não ouve... quem não quer ouvir.

Quando, há uns bons 25 anos, fomos à primeira reunião do Conselho das Comunidades, salvo erro ao Palácio Foz, em Lisboa, ainda havia demasiadas expectativas. Acreditávamos todos -e quem estas linhas traça era por essa altura delegado do Canadá, juntamente com um sacerdote de Kingston, Ontario - que as comunidades iriam ser “bem servidas”. Que era possível acreditar na pureza de intenções do Governo de então. Que, com um pouco de jeito e boa vontade... éramos bem capazes de levar a carta a Garcia. Ajudá

-mos, então, depois de dois ou três dias de trabalhos, a redigir as conclusões e as recomendações. Acreditávamos e João Machado também (se for quem temos na mente).

Como a fé é que nos anima... tínhamos fé. As recomendações iriam ser postas em prática. O Governo - aquele e os outros que se lhe seguissem - ia ter em conta a diáspora. Ia, afinal, entender que somos cada vez menos os 10 milhões de Portugueses, de que se cuida, mas sim os 15 milhões de que também se deveria cuidar. E o Conselho das Comunidades Portuguesas ia, assim, fazer a sua parte.

Pois... Os anos rolaram. Os tempos deram tempo... ao tempo da indecisão. E cinco ou seis anos depois, na última reunião do Conselho das Comunidades Portuguesas, na fase que então era a legal, até a fé nos roubaram. Ficamos sem nada. Estamos sem nada. É que voltámos a ser nós a redigir as conclusões e as recomendações. Mais do que isso... delegaram em nós - e cremos que quem fez mais força foi até a França, face ao “ar humanista” que o Canadá sempre teve - falar, na sessão solene (que nós nem sabíamos que era a última...) e dizer alto e bom som... que tivemos extrema dificuldade em alinharmos as recomendações porque, em boa verdade, e para sermos coerentes, teríamos de fazer as mesmas que cinco anos tínhamos feito na primeira reunião do Conselho das Comunidades Portuguesas.

Recordamos até que, no final da reunião, o bom do Correia de Jesus, que era então o secretário de Estado, se virou para nós e com um ar quase “sofredor”... nos perguntou ao ouvir tantas críticas formuladas por nós próprios: “Tu... também?!” Cremos bem que ele não entendia, na altura, que ser militante de um Partido não é, de forma alguma, sinónimo de ser amorfo, sem espinha dorsal. Hoje é bem capaz de já o ter aprendido...

Nessas recomendações - há 25 anos - uma das que mais gritante se tornava era do ensino de Português no estrangeiro. E quando o conselheiro de França nos fala... no pouco caso que se dá a esse item... não podemos nós esquecer que, nesta parte do Mundo - Canadá, Estados Unidos, Venezuela, etc. - não se fez “pouco” pelo Ensino. Fez-se “nada”... Faz-se ainda “nada”. O mesmo se pode dizer da RTP onde “triangulação de informação” é desconhecida e continuamos - mesmo com os “Contactos” - a sensibilizarmo-nos uns aos outros, porque não temos direito a ser ouvidos em Portugal. Há, de facto, um divórcio entre os 10 milhões de Portugueses (em Portugal) e os 5 milhões de Portugueses no exterior.

Quem nos acode? - João Machado - seja ele de que quadrante político for - tem razão.

Ir a Lisboa para ouvir o que já ouviu... discutir o que já discutiu... e voltar com remorsos de ter perdido o seu tempo... é menos que nada. Não vá. E pena será que outros não lhe copiem o exemplo...

 

Fernando Cruz Gomes

 

 

 

 

Setembro  04

Portugueses, um povo “desenrascado”!

 

Acabaram-se as férias para muitos de nós e, para muitos, renovaram-se as saudades pela gente da terra, que continua viva e feliz, pelos campos que não arderam, pelas praias que não estão poluídas e pelo sol,... quando não fazia “caretas”!

Para aqueles que raramente vão a Portugal é também motivo de orgulho as grandes obras que entretanto se fizeram, as necessárias e as outras, aquelas de usufruto temporário, cujos montantes investidos, poderiam dar para resolver muitas das assimetrias do nosso desenvolvimento.

Outro aspecto que nos impressiona, é o notável apetite das nossas novas gerações pelas novas te-cnologias : os últimos gritos de telemóveis ; os novíssimos computadores “XPTO” ; os carros de grande cilindrada, que se amontoam nos stands e o “xiriri” dos televisores de écran plasma e as aparelhagens sound, de último modelo. É impressionante ver toda a gente interessada em consumir o conforto do futuro, num presente insuficiente.

Mas o mais curioso e que nos deixa tantas vezes estupefactos, é a observação de que quase toda a gente se queixa : “isto está muito mal,..”, “..o negócio não dá nada...”, “não há trabalho...”, “...estamos cada vez pior...”, mas vamos encontrá-los mais tarde, alegres e sorridentes, à mesa de um restaurante ou às compras em lojas chiques.

Naturalmente que não são todos e a crise não é virtual. Muitos vivem mal e o seu mau estar económico é bem real. No entanto, a vida social, é cada vez mais comandada pelas aparências.

A surpresa vai para além dos limites com a nossa modernidade urbana rural. As pequenas vilas e muitas das aldeias, têm já um ar lavado, bons restaurantes, em vez de tascas, ruas floridas, em vez de amontoados de lixo e muito pouca gente, porque há muito pouco trabalho e, em consequência, é preciso partir. Mas os que ficam, nomeadamente os mais jovens, têm hoje à sua disposição enormes discotecas e grandes centros comerciais (onde tudo se compra a prestações), para passear ao domingo e gastar uns “cobres”, do orçamento familiar, em cocktails exóticos e em roupas de grandes marcas.

Já nada é como dantes! Já não se cosem meias, não se disfarçam colarinhos gastos, não se manda pôr meias solas, não se reparam rádios ou televisores, não se repintam os carros, não se come em tascas (salvo as que são caras), nem se leva o farnel para a praia.

A Europa é que nos ensinou e a Europa também somos nós, caramba!

O que é que nos interessa se o PIB, de Portugal, já é mais baixo do que o da Grécia e cada vez mais longe do espanhol? Não temos culpa!?...

O que é que nos importa se há muito desemprego? Talvez com o subsídio de desemprego e o “biscate” se ganhe mais!?...

Que nos interessa haver pouco dinheiro no bolso? Temos o Visa!?… As pessoas têm direito a férias e até parece absurdo não sair do País, o que é que diriam os amigos?...

Porque é que devemos estar sempre a carpir as mágoas por causa do déficit, da burocracia das instituições, dos problemas da justiça e da injustiça, dos impostos que muita gente não paga, da desorganização e falta de meios para combater os fogos, da pouca produtividade das empresas, do partido A e do partido B? O País esteve de férias e o governo também!

É preciso descansar para voltar a embaralhar e dar de novo e, nesse sentido, parece que as melhores conversas para férias, são aquelas que nos fazem rir e sonhar, do género : a “Cindinha”, que deu uma festa nos seu palacete ; o ministro X, fotografado com uma actriz X ; o tipo que roubou as K7, ao tipo que roubou as declarações do amigo ; o novo visual da casa do casal mais badalado da praia dos tomates ; o barco do desamor, que não atraca nem ataca ; a festa da sardinha, do marisco, do chocolate e do pão de ló e, se houver tempo, fazer as palavras cruzadas dos jornais.

Com todos os exageros que este comentário contém, há algo de verdade repetida, em tudo o que antes foi dito, o que me leva a considerar que, de facto, os portugueses,... são um povo “desenrascado”!

 

Luís Barreira

 

 

 

Setembro  04

Coitado do Zé Maria

 

As sociedades têm destas coisas. Enrolam-se em contradições, vociferando paixões que nem sempre o são. Deixam, no ar, imagens que, inatingíveis, já que ireeais, metralham os corpos daqueles que se deixam iludir no jogo do faz-de-conta. Acredita-se muito no que se vê na Televisão. E nos Filmes. Abomina-se o normal viver. E sonha-se com... situações que às vezes não passam de simples miragens.

Helena Sacadura Cabral contava, há dias, no DN de Lisboa, que Zé Maria, o vencedor do primeiro Big Brother nacional, foi há dias impedido por elementos da Brigada de Trânsito de se atirar da Ponte 25 de Abril. O candidato a suicida foi depois levado para um Hospital e depois para o outro, que achou que ele estava “bom” e deixou que ele reentrasse, novamente, na tal sociedade de onde se queria afastar.

Passadas algumas horas, já o bom do Zé Maria andava nu pela Avenida 24 de Julho. Nuzinho de todo. Como a mãe o trouxera ao mundo. Internado, novamente, no hospital, chegaram os médicos à conclusão mais do que lógica de que ele deveria ser  internado num Hospital para doentes mentais.

A história só não termina aqui, por se revestir de contornos tristes e mais tristes parecendo. A darem a entender que os Big Brothers da nossa angústia são capazes de transformar um homem simples, humilde e até digno num farrapo humano onde as coisas más só não acontecem por haver quem… sirva e proteja. O Zé Maria é, mesmo assim, exemplo. E exemplo que não pode deixar de ser sopesado. É que deram à sua mente um “escape” demasiadamente irreal, que ele não soube destrinçar. Deram-lhe uma notoriedade para a qual não estava preparado.

Os valores da sociedade que criámos - todos nós, como importa não esquecer… - pautaram na mente do Zé Maria uma psicose que o traumatizou. Deram-lhe a entender ser… o que não era. De simples jovem mais ou menos anónimo de Barrancos passou a ser um vencedor. Um vencedor que muitos milhares de pessoas idolatravam. Vencedor sem cuidar de entender - porquê não sabemos - que tudo aquilo era efémero e passageiro. Que não era real. Que a sua vitória era, afinal, fruto de ingredientes que não pesavam na balança certa de uma mente equilibrada.

A sociedade tem destas coisas. A sociedade, nas suas fronteiras reais, não disse ao Zé Maria que não levasse muito a sério tudo aquilo. Que a Televisão e o Cinema só mostram os “melhores” - mesmo que feitos de um barro menos bom - porque as audiências exigem isso. Que as trombetas da fama só tocam quando é necessário dar uma ideia demasiadamente risonha do mundo… para efeitos de comércio.

Os “momentos de glória” por que muitos passam - em Toronto como em Lisboa e na China como na Venezuela - são apenas fugazes. Para se tornarem famosos, os nossos Zés Maria fazem o que for necessário. Homens e mulheres transformam-se em “palhaços” que até têm de rir para não chorar… a troco desses tais momentos de glória. Depois… é o sonho inatingível. Sonham ser jornalistas, apresentadores, actores. Alcandorados aos galarins da fama, julgam-se mesmo aquilo que não são.

A seguir, para alguns, vêm as tentativas de suicídio. As excentricidades. O querer ser, à força, aquilo que se não é. Talvez para manterem os tais momentos de glória que não souberam entender. Vêm, afinal, as “contas da modista”, já que é preciso pagar, e com juros, a glória para a qual se não estava preparado.

Coitado do Zé Maria! Deste… e dos muitos que enxameiam as nossas comunidades. E que não conseguem entrar no jogo do faz de conta. Sem pensar que tudo aquilo é mesmo irreal. Coitado do Zé Maria!

 

Fernando Cruz Gomes

 

 

 

 Julho 04

A “Torre de Babel”!

 

Decorreram no Luxemburgo, no passado Domingo, 13 de Junho, as eleições europeias e as eleições legislativas do País.

Se, no caso das legislativas nacionais, os estrangeiros residentes apenas se limitaram a assistir, na condição de  para o qual não foram convidados, mas para o qual contribuem, construindo os cenários, pagando o seu bilhete e aguardando que ele seja um sucesso de bilheteira, no caso das europeias, um número razoável dos já inscritos participou, elegendo os seus deputados ao Parlamento Europeu.

E é sobre as Europeias, enquanto cidadãos de pleno direito nesta Europa a 25, que gostaria de expressar algumas considerações.

Em média, a abstenção verificada nestas últimas eleições europeias, foi de cerca de 56%, ou seja, o pior resultado de sempre.

Toda a gente o previa, a alguns dias das eleições. Um pouco antes do acto eleitoral, uma boa parte dos políticos vieram à praça pública suplicar aos cidadãos para votarem. No entanto, uma grande maioria não veio e não votou!

Entretanto, e o que é mais curioso, é que, salvo algumas excepções, o maior nível de abstenção não se deu entre os países mais antigos da União Europeia, aqueles em que se poderia pensar que, face ao habitual divórcio entre os cidadãos e os seus representantes, os povos decidissem mostrar a sua apatia, desligando-se dos seus órgãos europeus.

O que é curioso (e perigoso...) é que a maior percentagem de abstencionistas veio de alguns dos países que entraram muito recentemente na União, quando se esperaria que o entusiasmo que rodeou a sua entrada tivesse, como resultado, uma ampla participação no acto eleitoral.

A Eslováquia, a Polónia, a Estónia, a Eslovénia, a República Checa, a Letónia, Lituânia e a Hungria, países que representam mais de 70 milhões de pessoas, no interior da União Europeia, tiveram níveis de abstenção superiores a 60%. Se juntarmos a este lote alguns dos mais antigos e que também ultrapassaram, em abstenção, essa percentagem, como é o caso de Portugal, a Holanda e o Reino Unido, com cerca de 84 milhões de cidadãos, no seu conjunto, então a situação é ainda mais complicada, exasperante e perigosa.

É complicada, na medida em que, a euforia do alargamento, nem sequer mobilizou os novos países, dos quais se esperaria que refrescassem o vigor das instituições europeias, fazendo antever grandes dificuldades na crença destes povos, nos ideais da União e na sua adaptação às regras de um novo jogo, que iniciaram agora.

Exasperante, porque demonstra, mais uma vez, a ausência e a má qualidade do trabalho político, desenvolvido pela instituições europeias e seus representantes, junto dos povos que presumem representar.

É perigosa, na medida em que, face ao déficit de participação popular, os eleitos não têm legitimidade real para representar tantos milhões de cidadãos que englobam esta Europa, enfraquecendo as instituições europeias nas suas decisões e tornando-as presa fácil de qualquer “solavanco” político, nacional ou internacional.

Um outro facto assinalável, na análise dos resultados destas eleições é que, a esmagadora maioria dos cidadãos que votaram, fizeram-no, não a pensar na Europa, mas com os olhos postos na política dos seus respectivos países, ou seja, premiando ou penalizando os respectivos governos, pelo seu desempenho governativo nacional.

Mais uma vez se consubstancia o divórcio, entre as pessoas e os responsáveis pela política europeia.

Mais uma vez se apela para o tanto que há fazer no domínio da cidadania europeia e na valorização dos seus ideais de democracia participativa.

Mais uma vez se alerta para os perigos de se estar a enveredar pela construção de uma “Torre de Babel”!

 

Luís Barreira

  

 

 

 Julho 04

Cantar Portugal

 

O “Dia de Portugal” tem muito mais visibilidade nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo... do que em Portugal. Certo. Sabido. Comprovadamente real. A saudade é bem capaz de ter a ver com isso. A saudade e um certo apego as tradições que já o eram em tempos recuados, perderam a força nas fronteiras portuguesas e reganharam uma nova forma de ser no estrangeiro. Com excepções?     

- Decerto que sim... mas com factos palpáveis e reais que podem ser comprovados nas Paradas de Newark e de Toronto.

Na Parada da Semana de Portugal, em Toronto, mais de 100 mil pessoas postaram-se ao longo das ruas a ver passar um cortejo quase etnográfico, à falta de melhor termo, onde as actividades da comunidade e do Portugal de ontem passavam em revista.

E mesmo quando, no nosso jeito atávico de “dizer coisas” - normalmente apelidado de maledicência - acentuamos que “para as comunidades só nos mandam figuras de segunda categoria...”, hemos de refutar a ideia, pelo menos no que toca ao Canadá. Durante 5 dias, esteve na cidade principal (Toronto) o ministro dos Assuntos Parlamentares, Luís Marques Mendes, que conseguiu vestir a pele do emigrante, deu “dicas” de quanto baste, abordando temas que eram como que tabu - como o fez no caso do Ensino da Língua Pátria - e cantou, com os desta parte do mundo, o Hino Nacional melhor que nós temos, ou seja, o apego ao trabalho, a dedicação à Pátria, o reconhecimento do que a “gente de fora” vai fazendo.

Dizem-nos, e não seremos nós a negar, que Marques Mendes é um dos poucos ministros “desalinhados” do actual Governo, não comungando de um certo “seguidismo” a correntes de opinião ou a tendências que existem sempre nos Partidos. Talvez entronque aí a sua forma de actuar. Só que ficou, na mente de muitos, a ideia de que as comunidades desta parte do mundo - as comunidades da Europa, embora pareçam, não são iguais... - ganharam mais um “advogado”. Gratuito, por que não o pediram. Voluntário, porque se interessou ele próprio por ver coisas. Consciente, por que falou, sempre, de improviso, ao sabor do coração.

“Para se entender verdadeiramente Portugal e os Portugueses” é imperioso que se saia de Portugal. A frase, talvez com outra roupagem, é deste ministro que se deslocou pela primeira vez a “estas” comunidades.

Quem estas linhas traça, mercê da profissão, tem vindo, nos últimos tempos, a acompanhar a realização das Festas oficiais do 10 de Junho. Nenhuma... que se compare às de Toronto ou Newark. Ou antes... grandiosas como estas só as que, no ano passado, tiveram sede na cidade de Angra do Heroísmo, na Terceira. Mas isso, talvez, porque os Açores sempre foram, também, considerados “muito longe” da Pátria-mãe, que é às vezes madrasta...

 

Fernando Cruz Gomes

 

 

Junho 04

A “Carta de Macau”

 

Os jornalistas e órgãos de informação de expres-são portuguesa, na diáspora, acabam de dar um passo decisivo para a sua organização e afirmação, junto de Portugal e seus governantes.

Numa luta, que dura há anos, para conseguirem ser considerados como elementos fundamentais de uma rela-ção entre os portugueses, vivendo no seu País e as diversas comunidades portuguesas espalhados por todo o mundo, os órgãos de informação em língua portuguesa, do Canadá à Austrália, ou dos Estados Unidos ao Luxemburgo, viram agora em Macau realizar-se um sonho que ocupava a sua preocupação, há já longos anos e que constituí uma etapa fundamental para os objectivos que têm em mente.

Assim, através da sua associação e o respectivo reconhecimento que tal estatuto lhes confere, a nova associação está em condições de se assumir como um parceiro efectivo: na relação entre o País e a metade da sua população, que vive no exterior; entre si próprios, difundindo informação interessante, entre as comunidades e fazendo conhecer as suas particularidades e entre os portugueses, residentes fora de Portugal e o os que vivem no seu interior.

Há muito que acusávamos os governos e os órgãos de informação de Portugal, de dar uma imagem inexacta da realidade actual das comunidades portuguesas. Para muitos deles, os emigrantes, continuavam a arrastar as “malas de cartão” nas gares dos combóios e a “vegetar” nas sociedades de acolhimento.

Habituados a ver o resto do mundo pelo seu umbigo e ignorando completamente a dinâmica de desenvolvimento social, que entretanto se processou nas nossas comunidades, os jornais, televisões ou rádios de Portugal “esqueceram-se”, sistematicamente, de publicitar a vida e a obra de alguns milhões de portugueses e luso falantes que, por condições mais diversas, saíram um dia do seu país, mas não deixaram de ser “teimosamente” portugueses.

Habituados à aritmética política de “quem não vota, não conta” e tendo apenas como horizonte da sua acção pública, o período da sua legislatura, muitos representantes do povo de Portugal, entre o qual nos encontramos, deram pouca ou nenhuma importância aos portugueses que se encontravam no exterior, fazendo-nos notar que, sem a nossa participação eleitoral, em Portugal, éramos portugueses de “segunda”, ou nem sequer portugueses seríamos.

Mas,... talvez porque as remessas dos emigrantes baixaram e Portugal não está em condições delas prescindir ; talvez porque Portugal precisa de exportar, como “pão para a boca” e muitas das acções económicas passam pelas suas comunidades no exterior ; talvez porque, a actual sociedade política portuguesa, despertou para esta imensa riqueza, cultural e económica, que representam os mais de cinco milhões de portugueses fora do seu país, nas mais diversas sociedades deste planeta e a ocupar lugares sociais e profissionais de relevo.

Mas sem dúvida, pela persistência com que, nos mais diversos palcos e ocasiões, muitos portugueses residentes fora do País, reclamavam o reconhecimento das suas comunidades, como parte integrante do povo português, esta realidade esquecida, durante décadas, começa a ter um certo impacto junto das consciências públicas portuguesas.

O caso da recente organização dos órgãos de informação, fora do Portugal, que há anos fazem um esforço desesperado para manterem a língua portuguesa viva, nas mais longínquas paragens e com todo o sacrifício e “carolice” que tal disponibilidade implica, é também um reflexo do crescimento responsável, das suas respectivas comunidades e uma mudança, na sua atitude para com o país de origem.

É bom que tal tenha acontecido em Macau, enquanto prova de que, não importa a distância quando os sentimentos são fortes e partilhados.

Razão pela qual e com o acordo estabelecido, que se designou como “Carta de Macau”, não queremos mais pedir que nos oiçam, queremos exigir que nos sintam!

 

Luís Barreira 

  

 

 

Maio 04

 A guerra do Iraque já é comparada à do Vietname

Ser Kennedy tem, ainda, nos Estados Unidos, alguma vantagem. Dá, pelo menos, a possibilidade de se dizerem coisas… que outros não poderiam. E que, mesmo que o pudessem, talvez preferissem ficar calados.

Há dias, num discurso no Centro de investigação Brookings Institution, em Washington, Ted Kennedy afirmou que “o Iraque é o Vietname de George W. Bush” e defendeu que os Estados Unidos precisam de “um novo presidente”. Se tivermos em linha de conta que a afirmação vem de um senador democrata, poder-se-á pensar não se tratar mais do que uma “operação política”. Só que este Kennedy, com o peso que o nome familiar lhe dá, veio dizer algo do que muitos norte-americanos - e muito mais estrangeiros - já pensam.

E de tal maneira que o próprio secretário de Estado norte-americano, Colin Powell, teve de fazer, logo a seguir, o que os jornalistas já chamam “uma incursão inesperada” na campanha eleitoral para as presidenciais de Novembro, atacando, naturalmente, aquele senador. Powell  foi afirmando, desde logo, que o senador democrata devia ser “mais contido e prudente” quando fala do Iraque, já que os Estados Unidos estão “em guerra”.

Powell defendeu, naturalmente, o “seu” presidente e o “seu” Partido. Não pode é esquecer - como, anteriormente, lembrara Ted Kennedy - que “ao partir para a guerra no Iraque com pretextos falaciosos e ao descurar a verdadeira guerra contra o terrorismo, o presidente Bush deu à Al-Qaida dois anos - dois anos inteiros - para se reagrupar e reposicionar nas regiões fronteiriças do Afeganistão”. Frase que, de facto, define algo parecido com uma tragédia, face ao que se está a ver um pouco por todo o mundo.

Esta tomada de posição de Kennedy ocorreu depois de a coligação no Iraque ter enfrentado num fim de semana os combates mais mortíferos desde o derrube do antigo presidente iraquiano Saddam Hussein, a 9 de Abril de 2003. A verdade é que Ted Kennedy censura, desde há muito, a política externa e de defesa da administração Bush e da maioria republicana no Congresso, acusando-os de porem os Estados Unidos “em perigo”. Uma outra voz que ultimamente se levanta contra o estado de coisas que decorrem no Iraque é a do antigo chefe de desarmamento das Nações Unidas, Hans Blix. Para já, insiste que a única solução no Iraque é a ONU assegurar a transição em vez dos Estados Unidos cuja ocupação é sentida como “uma humilhação”. Para ele, “a ocupação foi um erro” e os iraquianos acham que se trata de “uma humilhação que contribui para o terrorismo”.

Blix foi insistindo, ainda, que Bush e Blair “não tiveram sentido crítico” e “deveriam ter sido prudentes nas suas declarações” quando afirmaram que Saddam Hussein (o deposto presidente iraquiano) possuía armas de destruição maciça que não foram encontradas”.

 

Fernando Cruz Gomes  

 

 

Maio 04

Cowboys

Habitualmente não divulgo aqui os comentários que recebo a propósito das crónicas que escrevo. Hoje abro uma excepção. Alguém me disse que o texto do mês passado era um pouco tarado. Resposta : Concordo. Era esse o objectivo. Assunto encerrado.

Nesta crónica “Cowboy” será usado em lugar de George W. Bush e “Pai Natal” em substituição de Saddam Hussein.

Desde que o Cowboy decidiu salvar o mundo do Pai Natal, nunca tínhamos assistido a um mês tão negro como Abril. O número de civis raptados no Iraque foi tão grande que qualquer dia o Cowboy vem anunciar aos Estados Unidos do Mundo, vulgo Estados Unidos da América, que afinal a sua administração estava enganada : O Pai Natal era o único iraquiano respeitador e os outros são todos uns terroristas de segunda linha.

Que as coisas não lhe andam a correr bem lá para a terra do petróleo, até o próprio já sabe, mas de certeza que nunca esperou que lhe corressem tão mal. Se à desgraça juntarmos o facto de que os cidadãos do mundo, perdão, os cidadãos norte-americanos vão a votos ainda este ano, então o que se está a passar para lá do sol posto é não só o espelho da própria política do Texano dono do Mundo, como assume contornos de Crime Contra a Humanidade, isto se o Cowboy (também conhe-cido por Bush) continuar a cair nas sondagens, em benefício do seu mais directo adversário, John Kerry.

O que eu não consigo definitivamente perceber é como é que os cerebrais americanos não adivinharam que a desgraça ia acontecer, mesmo depois do nefasto Pai Natal cair nas mãos dos seguidores do Capitão América. É que qualquer um de nós, meros mortais, percebeu, desde logo, que o caldo não ia parar de verter, lá porque o ditador tinha sido apanhado.

Quem acredita em alguém, não deixa nunca de acreditar lá porque esse alguém está preso. Ganhando até a motivação extra de estarem a lutar por uma dupla causa : A ocupação do seu território e a prisão de um líder, ainda que não tenha grandes dúvidas que uma parte significativa daqueles que hoje se revoltam fossem, até há pouco, anti-Pai Natal, mas aos seus olhos tudo é melhor que made in USA.

Longe do meu vazio cerebral pensar em assinar por baixo os actos terroristas que têm sido cometidos, quer sejam eles praticados contra civis indefesos ou militares fortemente armados, mas agora, como em 2001, os Estados Unidos estão a pagar a factura daquilo que mais gostam de mostrar à aldeia dita global : o seu poderio e a sua prepotência.

Quando ligo a televisão e vejo o que se passa no Mundo, cada vez mais me convenço que, bem vistas as coisas, de cada vez que se dispara uma arma contra quem não se pode defender, quer seja americano ou iraquiano o autor do disparo, se comete, nesse mesmo instante, um acto do mais puro e repugnante terrorismo.

 

Nuno Ferreira

 

 

 

 Maio 04

Uma guerra “fresquinha” que ninguém quer

Ninguém a quer e ela continua. Todos dizem que a fizeram por amor à democracia e à verdade e, no entanto, tem ceifado vidas e mais vidas de um lado e do outro. Se é facto que a guerra no Iraque -injusta, porque à revelia das Nações Unidas - está para lavar e durar, não é menos facto que está a fazer nascer toda uma panóplia de atitudes e posições que seriam impensáveis há meia dúzia de semanas atrás.

Para já, deixem-nos dizer que um leigo, mesmo um qualquer leigo bem intencionado, entende que a saída das tropas espanholas do Iraque é… bom sinal para Portugal. A partir de agora, os espanhóis são capazes de ter, como aliados preferenciais - é um aborrecimento ter de o dizer… - os extremistas muçulmanos que estão a “remar contra a maré”, em várias frentes, designadamente no Iraque e no Afeganistão. Esses são, de facto, os novos aliados de Madrid. E tanto assim que assistimos logo ao gesto de al-Sadr a dar instruções aos seus apaniguados para não actuarem contra as tropas de Espanha.

Zapatero é bem capaz de perceber isso mais tarde. Só que por essa altura já os rios carrearam muita água e é capaz de ter havido mais umas quantas centenas de mortes aqui, além, mais acolá.  E se tivermos em linha de conta que a Espanha é presentemente membro do Conselho de Segurança… hemos de crer que poderia ali tentar que até 30 de Junho a própria ONU se comprometesse com qualquer atitude que… limpasse a face do Governo de Madrid de forma a não o empurrar para uma decisão tão drástica, como a que lhe é ditada pelos parceiros da esquerda e pelos que emocionalmente ainda têm nos olhos e no coração o morticínio de 11 de Março.

Retomando o fio à meada, diremos - e nem sequer somos só nós a dizê-lo - que a decisão do novo Governo espanhol beneficia a posição de Portugal. Talvez como interlocutor privilegiado de Washington, em termos da Península Ibérica. Se a decisão até é capaz de reforçar uma certa aproximação a um eixo que passa por Berlim e Paris! Tudo isto é, de facto, um ligeiro “empurrão” a Portugal para se pôr mais em bicos de pés e entrar, assim, em corredores onde até há pouco seria impensável entrar.

De qualquer modo, tudo isto irá por água abaixo se Portugal não souber tirar partido da situação. Se continuar a navegar “só” nas águas de uma das partes do conflito, esquecendo as outras. Durão Barroso, que foi um óptimo ministro dos Negócios Estrangeiros, no tempo em que o timoneiro era Cavaco Silva, tem de saber sopesar todos os “balanços do Poder” e entender aquilo que mais útil nos poderá ser.

Se assim não fizer, se Portugal não souber tirar partido da situação de privilégio - que agora lhe foi dada de bandeja por Madrid - decerto que as gerações futuras se terão de interrogar sobre o que estávamos todos a fazer, naquele dia e naquela hora, em que quatro políticos se encontraram na Terceira, antes de começar uma guerra que já entrou - está a entrar - na História. E que ceifou - está a ceifar - milhares de vidas.

 

Fernando Cruz Gomes  

  

 

 

 Abril 04

Terrorismo vs. Democracia

 

Os recentes atentados terroristas em Madrid têm feito gastar muita tinta de jornais e revistas e já causaram a morte e a chaga, (para além das infelizes vítimas físicas destes bárbaros criminosos dos tempos modernos), de alguns dos políticos do nosso país vizinho.

No entanto e para além das incertezas e das dúvidas, que nos possam merecer os factos provados, algumas certezas podemos, desde já constatar, como incontestáveis verdades.

O “amigo, (ou inimigo), americano”, ou os seus aliados, não são o único alvo destes sacos-bomba, homens-bomba, viaturas armadilhadas ou simples engenhos destruidores teleguiados!

E mesmo que estes facínoras tentem fazer crer que assim é, está por explicar o atentado contra os xiitas, durante as suas recentes celebrações religiosas no Iraque. E, que eu saiba, o Irão, pátria desta comunidade, não é propriamente um amigo do “Tio Sam”.

Portanto, esta nova e impiedosa mafia internacional, só tem um objectivo fundamental: afundar todo e qualquer sistema social democrático que possa, de alguma forma, influenciar e alterar o modelo esclavagista em que assentam as sociedades que controlavam, ou controlam de forma indirecta, como foi, no primeiro caso, o Afeganistão.

Mas, para que estes novos acólitos do crime organizado, possam cumprir a sua missão destruidora de vidas humanas, com o apoio suficiente que lhes garanta o sucesso das suas missões assassinas, inventaram, numa leitura enviesada do Corão, um guia espiritual para o sacrifício dos seus militantes e, na exploração económica de alguns povos do mundo, a razão prática para obterem o favorecimento de algumas populações.

Sendo assim, este tipo de “Mafia” ou “Cosa Nostra”, nada tem a ver com o antecedente destas organizações e, como tal, não pode ser combatido da mesma maneira. Não pode ser combatido criando sociedades policiadas, destruindo a liberdade e direitos dos cidadãos e, mesmo que o fosse, a vulnerabilidade das nossas sociedades é de tal ordem que, tais medidas, só teriam eficácia para impor pequenas e grandes ditaduras das instituições, não conseguindo erradicar o flagelo do terrorismo.

Por outro lado, se foi criticável e bem criticado nas urnas, o comportamento do governo espanhol, face à origem dos atentados, não são menos lesivas da humanidade, as declarações precipitadas do novo líder que, mesmo antes de ser nomeado 1° Ministro de Espanha, já afirmava que iria retirar os soldados espanhóis do Iraque. Circunstâncias que, na minha opinião, deram mais fôlego aos propósitos destes bárbaros que, para além de constatarem a influência do atentado, no curso da democracia espanhola, obtiveram o que reivindicavam: o anúncio público da retirada das tropas daquele país do Iraque, não pela vontade expressa demonstrada pelo povo espanhol, no início da guerra, mas interpretada como uma cedência à chantagem terrorista.

Em nome de evocadas explorações dos povos, de conquistas de poder e de crenças religiosas, a humanidade já sofreu que baste!

É tempo de impor os valores que, até agora, mais garantiram a paz e o progresso dos povos, ou sejam, a liberdade e prosperidade dos seres humanos, o respeito pela diferença, o humanismo dos princípios, o exercício permanente da democracia.

Este é o único e melhor combate, à escala planetária, contra o terrorismo, em todas as suas vertentes. A justa democracia nas relações entre os cidadãos e entre as nações, num planeta que tem, obrigatoriamente, de se desenvolver harmoniosamente.

E isso é tarefa de todas as nações e povos do mundo e, até agora, a única organização mundial que pode oferecer um tal serviço à humanidade, são as Nações Unidas e não nenhum país arauto da democracia, ou um clube de amigos ricos, por mais poderosos que sejam.

 

Luis Barreira

 

 

 

 Abril 04

Um aniversário ainda sombrio 

 

Há pouco mais de dois anos, Durão Barroso afirmava, alto e bom som, que “o País estava de tanga”. A frase foi ouvida. Comentada. Doeu a muitos. Mas, pelos vistos, o país estava mesmo “de tanga”. E o Governo PSD/PP, agora a completar dois anos de mandato, estava consciente do que iria ter de fazer. Do sofrimento colectivo - ou quase colectivo - que iria desencadear.

Como meta prioritária, importava pôr as finanças públicas em ordem. Com uma conjuntura internacional desfavorável e herdando “doenças” demasiadamente graves, não era fácil a tarefa. Até porque era necessário reganhar credibilidade designadamente em Bruxelas, face à União Europeia que anotava, desde há muito, o despesismo desenfreado do (des)governo de Lisboa. O défice orçamental tinha de ser agarrado com unhas e dentes para não disparar ainda mais. E como a retoma internacional demorou mais do que se previa... Durão Barroso e a super-ministra Ferreira Leite foram tapando fogos, deixando de lado, até, promessas feitas. O estilo era o de que “vão-se os anéis mas fiquem os dedos...”

E o “remédio” foi tão forte - ou melhor, está a ser tão forte - que tomando a nuvem por Juno, continuam algumas cassandras da desgraça... a dizer que o País não só não está a viver melhor, como nunca mais viverá melhor. Na Assembleia da República, e não só, verbera-se o pendor de poupança que se vai notando, aqui e além, neste Governo que, de facto, não está a cumprir tudo o que disse ir fazer. E não cumpriu nem poderia ter cumprido, face ao descalabro económico que o “salto para trás” dos tempos de Guterres, o António de boa memória, foi ensaiando.

A economia portuguesa tarda, de facto, na recuperação que se impõe. Há desemprego a mais. Há fábricas a fechar. Há gente a fugir ao fisco. Recuperar a economia, neste ambiente, é, de facto, difícil. E nem sequer há a certeza de que seja objectivo a atingir nos tempos mais próximos.

Entendamo-nos. Atirar com todas as culpas para os ombros do anterior Governo não é mais do que “sacudir água de um capote” já de si esburacado. Mas levar por diante uma tarefa quase hercúlea que importava realizar, é bem capaz de queimar os neurónios de qualquer mortal.

Dois anos se passaram sobre a data em que o PSD assumiu o controle do Governo. Dois anos pejados de dificuldades e de problemas que nasciam como cogumelos. Dois anos em que o povo - que só vê e aprova ou desaprova o que lhe bate à porta - sofreu mais do que seria de esperar. E mesmo que se entenda o sacrifício que está a ser pedido ao povo, ninguém vai perdoar que haja “traições” e “desvios” a uma melhoria geral do viver do País. Ninguém perdoa e não há melhor maneira de deitar tudo a perder... se o povo entender que era possível fazer muito melhor. Como as sondagens começam a dizer…

 

Fernando Cruz Gomes

 

Março 04
Pois...

Ao ler a carta aberta que José Machado enviou ao Dr. José Cesário (que aqui publicamos), tive, evidentemente, de estar de acordo com o problema de fundo que ela trata.
Na realidade custa, numa altura (mais uma) em que as dificuldades para obter subsídios são tão grandes, e que tantas associações com iniciativas bem concebidas, equilibradas, pertinentes e pragmáticas estão encalhadas nas docas do desespero, ver-se atribuir lautas somas, a outras que não souberam gerir, custa a engolir...
Tanto mais que, se bem percebemos, as somas não são para “tapar buracos”, o que talvez fosse admissível - há sempre que dar uma segunda oportunidade às pessoas de boa vontade - se se pretende manter uma estrutura útil, por quanto se verifique que há capacidade para que ela continue utilmente.
Mas aqui trata-se de somas para novos projectos. A questão é esta : Como é que eles vão ser equacionados e resolvidos? Com que meios humanos? etc... E lá volto eu à questão de capacidade e de utilidade. Por isso compreendo bem a reacção de José Machado. Só compreendo menos bem é porque é que ele mistura tudo! Mas sobre isto já temos conversado várias vezes. Quanto a mim deve ser a vontade deste respeitado Membro da nossa Comunidade, de querer muito dizer duma só vez.
É pena, pois o testo perde em clareza e a acção em eficácia. Eu explico (sem pretender ter razão, claro está) :
Primeiro não compreendo porque é que José Machado fala hoje da Recomendação ao Governo, que co-assinou há anos, sobre a forma como deveriam ser atribuídos, analisados e controlados os subsídios ao movimento associativo. Nessa altura, em ele que era presidente do Conselho Permanente do CCP (e da FAPF) as coisas estavam bastante claras, quem mais e melhores projectos apresentasse, mais subsídios tinha. Era simples e eu lembro-me muito bem!
Depois, para quê desvalorizar o trabalho dos outros para por o seu próprio trabalho em valor? Quando este já é reconhecido por si próprio?
Quando o Presidente da FAPF fala no Concurso Literário, que em 2003 teve a participação de mais de 800 alunos portugueses, comparando-o aos Festivais de Teatro da CCPF “que têm engolido, ao longo dos últimos anos, milhares e milhares de contos”, segundo ele, chama respostas do estilo : “que é que divulga melhor a nossa língua? Mais uns “deveres” feitos pelos alunos, com a ajuda dos seus professores? ou 50 peças de teatro em toda a França às quais assistem mais de 5000 pessoas e nas quais participam dezenas de associações de há 11 anos a esta data?”.
É claro que nem vale a pena falar em termos de organização dos dois eventos, nem do que eles custam. O que eu quero dizer é que não vale a pena dividir os esforços que as associações fazem ou têm feito, isto enfraquece a Vida Associativa, que já tão pobre vai andando.
Também no que diz respeito à participação activa dos portugueses na vida local e na sociedade portuguesa, “questão que o senhor SECP tem sempre na boca, mas que tem sido a minha Federação, em França, a dar-lhe o principal impulso...quase sem apoios”!
Pois é, mas não basta afirmar qualquer coisa para que isso se torne verdade. Sem menosprezar o trabalho da FAPF, é evidente constatar que há em França Coordenações que têm, tradicionalmente, uma vivência bastante superior à da FAPF e que neste domínio trabalham sem apoios financeiros (não há apoios para a cidadania...).
Se a dinamização do movimento associativo e a organização dum grande Encontro Associativo Anual é um marco de valor do trabalho da FPAF, também a CCPF tem realizado vários encontros associativos anuais, em toda a França ; Encontros anuais de jovens associativos de todo o Mundo, em Portugal, que até já deram nascimento a uma Federação Internacional de Jovens, encontros esses que até foram copiados pela SEC há já alguns anos.
A FAPF ajudou a fundar o Museu da Emigração, situado na cidade de Fafe, para a defesa da memória da nossa emigração, mas a CCPF fez dezenas de estudos sociológicos publicados em revistas como “Hommes et Migrations”, entre outras, e muitos catálogos, discos e CD sobre os Portugueses de França (folclore, associações, música tradicional, imprensa, 25 de Abril, teatro, etc...).
O que isto quer dizer é que sempre houve e há trabalho para todos, mas com a política que temos para as Comunidades, hoje não há mais nada para ninguém.
É por isso, que temos de trabalhar em sintonia! Pois...

Aurélio Pinto

 

Fevereiro 04
Vamos ao trabalho que se faz tarde!...

Várias vezes tenho criticado a forma “politiqueira” de fazer política em Portugal. Não que, neste aspecto, seja o pior país do mundo, mas porque nos interessa muito vê-lo desenvolver-se, do ponto de vista social, económico e político e porque sentimos, “no coração”, tudo o que de mal lhe acontece.
Sabendo nós que, no nosso país, a política tem um peso enorme sobre todos os outros aspectos, é particularmente importante voltarmos ao assunto.
Compreende-se que, num país que viva na abastança, o comportamento dos políticos seja, muita vezes, uma simples rotina, salpicada, aqui e além, por alguns “faits-divers” e escaramuças parlamentares.
Sou capaz até de entender que, os homens e mulheres que se dedicam inteiramente à política, são seres humanos normais, com virtudes e defeitos, com boas e más escolas de serviço público, circunstâncias que se revelam nas suas atitudes pessoais e políticas.
O que eu não entendo é que, num país, unanimamente considerado com graves problemas estruturais, para já não falar nos conjunturais, (que se acentuam há medida que os outros países se afastam), a linguagem e os actos públicos dos políticos, continuem a acentuar e a privilegiar, exclusivamente, as contradições que os afastam, os novos e velhos ódios partidários, a crendice na sua perfeição, atirando, consequentemente, os cidadãos portugueses para o confronto, a crítica vazia de conteúdo e, pior que tudo isso, para a sua saturação, face à política e aos políticos que os governam, ou que estão na oposição.
E neste caso, não se iludam todos os profissionais da política, se considerarem que este seu comportamento surdo e belicoso, lhes traz vantagens eleitorais. O resultado deste seu comportamento vai é aumentar o abstencionismo, o descrédito das populações, nas instituições políticas e, cada vez mais, o “salve-se quem poder”.
A propósito da crise económica que afecta gravemente Portugal e os portugueses, os nossos políticos têm um comportamento exemplificativo do que antes afirmei.
Esquecendo-se de que, quase todos, já passaram pelo governo, insistem em atribuir culpas das más heranças recebidas, uns dos outros, para a actual situação em que o país se encontra. Se continuarem a recuar sucessivamente nas suas argumentações culpabilizadoras dos outros, só falta voltarem ao velho slogan de que “a culpa foi do fascismo”, para esconderem as suas deficiências e a falta de senso ou coragem, de afirmarem uma verdadeira política nacional, de convergência, em torno de objectivos suprapartidários e consensuais.
Mas, o mais curioso e perigoso, no meio de tudo isto e a propósito da análise que fazem da actual situação económica, é que todos (partidos do governo e da oposição), estão de acordo com as palavras e recomendações do Governador do Banco de Portugal e não são capazes de se entenderem entre si. Como se a única plataforma de entendimento possível, tivesse de ser encontrada fora das instituições políticas.
E nisto, o perigo é ainda maior, não porque o actual Governador do Banco de Portugal não seja um democrata com provas dadas mas, adicionado ao elevado abstencionismo e à campanha de descrédito das instituições, levada a cabo por gente sem escrúpulos, a propósito do caso Casa Pia, um destes dias aparece mais um “salvador da pátria”, com cara de democrata (como todos surgem) e com as habituais soluções mágicas dos tempos de crise. E essas, já nós as conhecemos e as rejeitámos.
Portanto, políticos de Portugal, é tempo de mudar de atitude e, quem sabe, talvez de rosto, em nome de um povo que, por muitos defeitos que tenha, sabe e quer trabalhar.
Tal como diziam os antigos habitantes de Molelos, no seu dialecto muito particular e utilizado para escapar à compreensão dos esbirros : “polemo-nos ao moreio que se fagunda tardízio”, o que em bom português significa dizer: “vamos ao trabalho, que se faz tarde”!

Luís Barreira

 

Fevereiro 04
Ano Novo... Ano Bom (mas pouco...)

Já se foi. Vaiado por quase todos. Apupado em variados tons e em todas as Línguas. Poucos serão aqueles que gostaram dele, pelo menos nos seus últimos tempos. E se gostaram um pouquinho... não o disseram quando ele, alquebrado, se postava no estertor da agonia. No fundo, talvez até nem ele merecesse tantas vaias. Talvez que ele não fizesse mais porque nós... não lhe demos a colaboração que ele quereria... talvez!
Agora... já se foi. Deixou-nos mazelas em demasia. Aleijões sociais que nos vão acompanhar muito mais tempo. Centelhas de um inferno que muitos andam a atear com fins inconfessáveis. Em Portugal, então, foi um ver se te avias... Houve de tudo para todos os (maus) gostos. Com algumas das turbulências e aleijões ficou o pobre país em coma social de que não se cura tão depressa, se houver cura para desmandos que nos atolaram de vexame internacional.
Ai não... não foi tanto assim? Então que dizer daquela vergonha que se abateu por sobre a Casa Pia? O faz que anda sem andar... da história do aborto, de que ninguém diz o que (realmente) pensa? E a Economia... a economia que não ata nem desata e pretende pautar os nossos interesses pelos de outros maiores e maiores parecendo? - Não foi tanto assim...?
De resto... vamos batendo recordes sobre recordes... em tudo o que seja mais... em menos. Há explicações para tudo, nós sabemos. Se até há explicações para nos dizerem que as nossas águas territoriais vão agora ser visitadas por tudo quanto é União Europeia e dizem aos nossos pescadores que também podem ir aos outros mares... sem lhe explicarem como é que conseguem fazer isso com as cascas de noz que vão tendo.
E aquela vergonha de nos matarmos nas estradas portuguesas?! Como é que explicamos isso? Dos Açores a Trás-os-Montes, passando, especialmente, nós sabemos, pelas estradas que demandam as fronteiras de Espanha, vamo-nos matando alegremente, por norma, regados com bons vinhos em caros manjares. Claro que não se ressuscita ninguém, mas às vezes, consegue-se o “milagre” - tão banal que não é tão miraculoso assim - de não sermos multados pela nossa diligente polícia de trânsito. A troco de uns cobres, como é evidente.
Pois... mas agora já se foi. Já anda lá pelas alturas em demanda do seu assento etéreo. Ainda quis dar um conselho final ao substituto... mas este não o aceitou. Nem para ele olhou, embebedado como estava com o estoiro dos foguetes, o pipocar das garrafas de champanhe e a vozearia da turbamulta.
Claro que vamos ter o Euro do Futebol. E aí sempre somos capazes de dar umas alegriazitas cá ao pessoal. Isto se até lá não houver tempestades em algumas consciências que os portugueses sempre inventam em situações delicadas. Como aquelas do México... ou as que aconteceram na Coreia. E se não houvesse mais razões, essa seria uma para gostarmos do Sr. Scolari. É que, pelo menos, não é Português e não alinha pelo nosso “não te rales” que tão maus resultados tem dado...
E mesmo que ele não leve o Sr. Baía... ou outro Baía qualquer... ele responderá que também não levou o Sr. Romário... e ganhou o Mundial da Coreia! E aí nem sabemos se não haverá um qualquer “portuguesinho” que se empertigue e diga que também é capaz de ganhar o Europeu com uma equipa como aquela que já vamos tendo... Falar por falar... é fácil.
Mas como ele já se foi... pode ser que o “2004”, o senhor que se lhe segue... possa alterar tudo. Pode ser! A despeito de continuarem as mesmas pessoas, com as mesmas rugas e os mesmos aleijões, os mesmos queixumes e as mesmas raivinhas

Fernando Cruz Gomes

 

Fevereiro 04
Tout à fait inacceptable!

Dans la “société de consommation” qui est la nôtre, où innombrables sont ceux qui s’adonnent, de façon quasi hystérique, au culte du dieu Mammon - c’est-à-dire de la richesse - la règle d’or, fréquemment, hélas!, n’est pas la recherche de la qualité mais celle de la quantité, en fait : d’amonceler le maximum de bénéfices le plus vite possible. Alors que nous avons souvent à notre disposition des moyens beaucoup plus efficaces que ceux de nos ancêtres, nombreux sont ceux qui ne cherchent pas du tout à faire mieux ni même aussi bien que ces derniers, mais seulement plus vite.
Les méthodes, pour y parvenir, sont parfois abracadabrantesques. Récemment, il nous a été énoncé le fait qu’un chercheur israélien venait de mettre au point une poule… sans plumes. Cela non pas pour tenter d’améliorer la saveur de sa chair, mais seulement… facilité le travail dans les abattoirs !
Des poulets sont élevés dans des hangars où ils ne voient jamais le soleil et dans lesquels, ils sont si nombreux que ce sont de véritables camps de concentration. Des dispositions sont prises pour qu’ils dorment le moins possible, cela pour qu’ils mangent le plus possible et croissent donc le plus vite possible… Ces pauvres bêtes sont à ce point stressées qu’elles se battent entre elles, ce pourquoi les éleveurs n’hésitent pas… à leur faire douloureusement couper une partie du bec!
Des éleveurs de bétail considèrent… que les cornes des bovins sont gênantes! Il leur arrive dés lors, de prendre des dispositions pour qu’elles ne puissent pas pousser, c’est-à-dire, d’injecter de l’acide sur la tête des veaux.
Dans tous les cas, redisons-le, ces Messieurs ne cherchent pas du tout à être en mesure de nous proposer des viandes plus savoureuses, mais à faciliter leur tâche, un point c’est tout, quitte à utiliser, pour cela, des produits chimiques interdits parce que nocifs pour la santé!
À ceux qui utilisent, sans vergogne, ces méthodes fort regrettables, je voudrai demander de réfléchir en regardant avec attention la photo ci-jointe. Aimeraient-ils avoir une vie comparable à celle qu’ils imposent à leurs volailles?
Ne pas donner de temps au temps et ne pas hésiter à se croire supérieurs à la Nature et être capable d’en améliorer les règles, est dramatique car, comme l’a écrit, six siècles avant notre ère, dans sa Neuvième Olympique, le poète lyrique grec Pindare : “C’est à la Nature que nous devons tout ce qui est excellent”.
Cette situation est tout à fait inacceptable car l’on cherche, de toute évidence, à nous tromper.
“Trompeurs, c’est pour vous que j’écris! Attendez-vous à la pareille” lit-on dans la fable “Le renard et la cigogne” de Jean de La Fontaine (1621-1695).
La clé de voûte du temple de l’alimentation doit être la saveur. Dans Mélanges, Paul Valéry (1871-1946) a mis en lumière que : “Le corps veut que nous mangions et nous a bâti ce théâtre succulent de la bouche tout éclairé de papilles et de houppettes pour la saveur. Il suspend au-dessus d’elles, comme un lustre de ce temple du goût, les profondeurs humides et avides des narines”.
Face à cette situation et dés lors qu’il est du devoir de chacun de ne pas nous laisser berner par ces trompeurs, nous devons ni nous résigner ni nous soumettre.
Dans le commerce, c’est à l’acheteur que revient la décision finale. Nous devons catégoriquement refuser tout produit de basse qualité.

François Baradez

 

 Fevereiro 04
"Vamos ler o livro ao contrário"

Portugal tem neste momento duas preocupações com as Comunidades e a comunidade portuguesa de França não escapa à regra:
- A primeira é que os portugueses não votam.
- A segunda é que o envio das remessas baixou de 10,9%.
É verdade sim senhores, esta rapaziada não vota em coisa nenhuma!
E cada vez manda menos “cacau” para a terra!
E estão admirados com isto?
Eu não! e não porquê?
Deixem-me então, ser o advogado do diabo e vão ver que se calhar tudo se explica.
Antigamente, (mesmo assim há pouco tempo) era costume dizer-se cá “por fora” : enquanto não tiver direito de votar pelas presidenciais, não voto em coisa nenhuma!
Balelas, ninguém estava preparado para votar, isto era uma simples desculpa, a prova é que desde que foi possível votar nas presidenciais, também ninguém votou.
Na realidade, como é que se pode pretender que nas comunidades as pessoas se interessem pela utilização dos direitos cívicos, se a maior parte nem sabe do que se trata?
Os que vieram para França nos anos 60, ou mesmo antes, vieram à procura de melhor vida do que a que tinham em Portugal.
Tiveram que construir tudo, debatendo-se com mil problemas e conseguiram sozinhos, atingir os seus objectivos principais, isto é : constituir um património e educar os filhos.
Para mais não houve tempo, nem sabedoria.
Basta de lhes atirar pedras. Vamos ler o livro ao contrário!
Quem é que explicou ao emigrante para o que serve votar, em Portugal ou na terra de acolhimento?
No nosso país, todos se preocuparam sempre (exigência do ventre), com as remessas enviadas pelos emigrantes - há que saber que elas sempre foram por exemplo, superiores aos subsídios da UE - mas não passou pela cabeça de ninguém que, sendo a França o país onde há mais portugueses (Paris e arredores, são segunda cidade de Portugal) e que na Suiça, Alemanha, Luxembourgo, etc., também há muitos, talvez fosse justo que houvesse na Europa, um número de Deputados em adequação com a quantidade de compatriotas, nela residindo.
Se assim acontecesse, se em vez de dois “pobres Deputados” que passam a vida a correr, quase sem tempo para parar em lado nenhum, houvesse um número de Deputados suficiente, talvez eles tivessem tempo para ajudar os “carolas” que já o fazem, a educar civicamente esta população. Talvez nesse caso os “portugueses de fora “ servissem para mais alguma coisa, do que para enviar as tais remessas.
E cá estamos a chegar à segunda preocupação : as remessas diminuíram de 10,9%… que espanto!
Então os nossos “economistas” ainda não perceberam que uma vez a obra acabada já não se gasta mais dinheiro em materiais?
Os “primeiras gerações”, investiram muito para fazer as casas, agora, antes de emigrar, desta vez definitivamente, para o Céu dos emigrantes, só gastam uns tostões quando vão de férias à terrinha, e isso sai mais barato.
Mas cuidado, se não olharem pelo futuro senhores “economistas”, ainda vão achar estranho que o problema se agrave.
Estão convencidos que, sem se preocuparem com eles, sem contarem com eles, os filhos dos “primeiras gerações” vão conservar o património que os pais constituíram em Portugal, e pagar os gordos impostos preparados pelos vossos Gabinetes?
Não os quero desanimar, mas o mais certo é que essas lindas casinhas sejam vendidas nos próximos anos, e que os Euros que resultarão das vendas, sejam empregues na compra de outras casinhas aqui em França, aonde felizmente haverá um galo de Barcelos na chaminé, único elo de ligação entre o País e os filhos, que para ele não contam, por isso não votam.

Aurélio Pinto

 

Janeiro 04
Surdo? Eu?...

Quando há cerca de 15 dias me desloquei a Portugal e percorri alguns centros comerciais de Lisboa, dei conta que, na terceira semana de Novembro, já era Natal. Decorações, músicas, prendas, promoções especiais e fitas multicores, animavam já todo o ambiente natalício. Pessoas curiosas e em quantidades apreciáveis, percorriam os corredores das grandes superfícies, sem se atreverem a entrar nas lojas.
Surdos aos slogans comerciais, os portugueses fazem contas à vida e não se deixavam levar na “onda publicitária” da antecipação do Natal.
O Governo, fiel à sua disciplina do “pacto de estabilidade e crescimento”, continuava a pedir mais sacrifícios aos portugueses para não ser penalizado pela União Europeia, no caso de ultrapassar o déficit exigido. A oposição, surda às razões apontadas pelo Governo, que já ultrapassavam o receio das penalidades da Europa, com a necessidade de corrigir estruturalmente a economia portuguesa, continuava a alimentar a fogueira da contestação social, justificando a necessidade nacional de mudar de política.
O Governo, surdo às razões apontadas pela oposição, acabou por votar internacionalmente contra o “pacto de estabilidade”, pondo em causa a sua política interna de contenção e defende agora uma alteração ao referido pacto, fazendo orelhas moucas às críticas anteriores da oposição. A oposição diz agora que o governo se fez surdo às suas anteriores críticas e adopta agora as suas posições.
As estatísticas mostram que, Portugal, possui uma das mais elevadas taxas de gente contaminada pelo vírus da Sida. O Governo finge que não ouve os reparos feitos pelas associações, que requerem mais meios para combater este flagelo e as pessoas continuam surdas aos cuidados a ter, para não se deixarem contaminar.
Senão todos os dias, quase todos os dias, há acidentes mortais no IP5 e nalgumas estradas portuguesas, mal construídas e perfeitamente identificadas. As autoridades policiais e os bombeiros estão sempre a gritar-nos isso às orelhas, mas, os responsáveis pelo estado das estradas, continuam surdos e os automobilistas continuam a acelerar, para não ouvirem a morte anunciada.
Antes do verão passado, os bombeiros contestavam os meios e a competência de quem tinha sido designado para defender o país dos incêndios, mas o governo colocou umas rolhas nas orelhas e “deixa arder que o meu pai é bombeiro”. Após o trágico desfecho, mudaram o coordenador e, no meio de tanta cinza, ninguém mais ouviu falar nas medidas tomadas para reparar os estragos e prevenir outra catástrofe.
No futebol, os dirigentes são surdos às razões dos árbitros, os árbitros surdos às críticas dos agentes desportivos, o seleccionador nacional surdo aos reparos que lhe são feitos e o público que vai aos estádios, faz um barulho ensurdecedor.
E, nesse “diálogo de surdos”, onde não escapam os parlamentares e outros à espera de assento, muitos outros exemplos de surdez deliberada poderiam ser aqui invocados, para demonstrar a evolução desta doença crónica da sociedade portuguesa.
É evidente que o país passa por um mau bocado! Também me parece que ninguém contesta que há causas, internas e externas, que têm contribuído para esta situação, justificando alguns erros apontados, a uns e a outros, e denunciando a extrema fragilidade e dependência da economia portuguesa, face às convulsões da economia mundial e às pressões dos compromissos internacionais.
Mas, para além disso, esta falta de comunicação, entre uns e outros, esta surdez deliberada, entre responsáveis, e entre eles e os simples cidadãos, é um verdadeiro obstáculo, para a resolução de problemas, que estão ao alcance do País e cria um profundo mau estar entre todos, sempre que é preciso unir fileiras para nos defendermos dos problemas externos.
Não seria bom mandar o país ao Otorrino? Ou será que chega um valente puxão de orelhas?

Luís Barreira

Janeiro 04
Sem "excelências" desmedidas

Portugal tem, desde há dias, um novo Embaixador no Canadá. João Pedro Silveira Carvalho acaba de assumir funções, numa altura em que a comunidade está a viver a recta final das celebrações do cinquentenário da chegada dos primeiros emigrantes oficiais portugueses ao Canadá.
Nas suas palavras de então, quando da entrega de credenciais, e frente a alguns representantes das forças vivas comunitárias, a certeza de que algo parece ter mudado no relacionamento de Portugal com os diferentes países do mundo. Ao definir as linhas gerais do que julga dever ser o envolvimento do Embaixador e cônsules-gerais nas estratégias que hão-de fazer as comunidades ainda maiores, falou na certeza de que é preciso atingir objectivos, “mas os objectivos terão de ser aqueles que a Comunidade identificar como seus e se propuser materializar”.
Se entendermos bem as palavras, hemos de convir que se tratou de uma declaração de intenções que pode significar muito para a prossecução de objectivos e ideais comuns. Nada de imposições. Nada de “forças”. Apenas o acompanhamento activo do que as comunidades quiserem. É capaz de se tratar mesmo de uma “iniciativa” pioneira no acto dos “pioneiros”. É que, para além do mais - devagar que... temos pressa e já não é cedo - falou-se de um lobby político, que pode ajudar a consolidar posições que até já teriam sido “passeadas” mas de uma forma desgarrada, com gente interesseira, eventualmente disposta a coçar demasiadamente o respectivo umbigo.
Agora, não. O colectivo é capaz de estar “espicaçado” para se sobrepor ao pessoal. No fundo, acentuou-se que, enquanto não houver uma participação e presença políticas, com deputados federais eleitos de origem portuguesa, o Governo Canadiano não levará a sério a grande (em termos quantitativos) Comunidade Portuguesa e não será levado a considerar devidamente os seus legítimos anseios. O tal lobby político... é capaz de ter muito que se lhe diga. Vários participantes na reunião com o embaixador consideraram que para além das organizações de cúpula, ACAPO e Congresso Luso-Canadiano e, eventualmente, a Federação de Empresários, outras individualidades luso-canadianas de todo o espectro social deverão ser identificadas e envolvidas no projecto. Também em Ottawa/Gatineau e em Montreal.
Entendeu-se, desde logo, que deverá ser encontrada uma plataforma abrangente para fazer ligação entre as várias organizações que poderão ser envolvidas e será necessário que não fiquem excluídos aqueles que não estejam enquadrados nas organizações existentes. Tudo abrangente portanto.
E isto é tanto mais importante quanto é certo que, após as mais recentes eleições, a nível provincial e camarário, houve “baixas” importantes nessa cadeia de relacionamento de que se fala.
Ao Embaixador, pede-se que seja assim como que um “facilitador” deste processo de adesão à causa comum, com estudos adequados e actividades pensadas.
De qualquer modo, ainda é cedo para entendermos toda a complexidade da “luta” primeira deste Embaixador que parece adequado ao momento. Já esteve noutras “lutas” como a da Guiné-Bissau - onde teve consigo, também, o actual cônsul de Toronto, Artur Magalhães - e delas se saiu a contento.
Ainda acreditamos que o “elo mais fraco” de todo este “jogo bom”, não será o diplomata agora em foco. Pretendemos que não haja até “elos mais fracos”. Mas eles já se aprestam a tomar posições. Como no xadrez. Só que, por enquanto, são ainda e apenas os mesmos. O que pode deitar tudo a perder...

Fernando Cruz Gomes

Dezembro 03
A emancipação da mulher: uma luta sem sexo!

Vivemos num século, num ano e numa sociedade, em que falar dos direitos iguais, entre homens e mulheres, nos parece já absurdo.
Mesmo que saibamos que, nem sempre isto é aceite, como verdade universal e muitas vezes, por motivos de uma cultura tradicional inculcada nas nossas cabeças, as mulheres sofram discriminações, em relação aos homens : no trabalho, na política ou em casa, toda uma sociedade evoluída como a nossa, já não põe em causa, publicamente, a igualdade entre homens e mulheres.
Se havia dúvidas, quanto à aceitação dos argumentos das sufragistas, no século passado, o trabalho e o valor das mulheres, nas actividades produtivas, desde as duas grandes guerras até aos nossos dias, no plano cultural mundial, na condução da política ou na afirmação social, desde o lar até à sociedade mais vasta, retirou qualquer reticência ao conservadorismo sexista e afirmou a mulher, em todos os planos da vida, enquanto ser que deve usufruir dos mesmos direitos e obrigações que os homens.
Naturalmente, (e para só falar nas sociedades ditas “evoluídas”, mesmo que existam sociedades matriarcais, consideradas “primitivas”) esta afirmação da mulher tem tomado várias facetas, algumas das quais nem sempre no bom sentido que, na minha opinião, só pode ser o de partilhar, com o homem e em igualdade de circunstâncias, todas as esferas de responsabilidade.
Houve e continua a haver movimentos de emancipação feminina que fazem, do homem abstracto, o seu inimigo, lutando contra ele, para tomarem o seu lugar determinante. Como que, o que desejassem, fosse uma pura substituição de poderes do estilo “...ora agora mandas tu,.. ora agora mando eu...”.
Isto não se trata de lutar pela igualdade, mas sim por uma discriminação, desta vez, de sinal contrário! Outros movimentos de mulheres lutam pela instauração de um regime de quotas : na administração pública, na política, nos empregos, etc., etc. Pretendem que se determinem o número de mulheres que, obrigatoriamente, ocupem as funções disponíveis.
Embora compreenda o alcance, a longo prazo, desta medida, não posso estar de acordo (não como homem, mas como ser humano...) com uma regulamentação que dê acesso obrigatório a um emprego, um cargo ou a uma posição qualquer, baseado no sexo e não na competência da pessoas, sejam elas homens ou mulheres.
Outros movimentos, mais radicais, vão ao ponto de disputar com os homens, todas as suas actividades e sobretudo (o que é mais preocupante...), todos os disparates que os homens fazem. Como se, a afirmação das mulheres, tivesse que passar por viver e conviver com os mesmos erros dos homens, caindo no ridículo absurdo de cometer as mesmas faltas.
A mulher não tem de copiar o homem e as diferenças existentes, entre os dois sexos, devem ser valorizadas, porque conferem uma identidade própria e genuína, a cada uma das partes e a diferença não é sinal de subordinação, mas sim de complementaridade.
Por todas estas razões e por outras, que não cabem num simples e despretensioso artigo de opinião, a melhor forma de combater a discriminação sexual é juntar os homens e as mulheres, que acreditam na igualdade, contra a arrogância machista, que reconhecem que só juntos podem alterar as coisas, de forma definitiva e efectiva.
Excluindo os homens desta luta permanente, mais não fazem do que colocá-los nas fileiras do exército inimigo do progresso e esses erros pagam-se caro.

Luís Barreira

 

Novembro 03
Crise no Luxemburgo: uma factura a pagar por todos...

Um recente estudo da OCDE (Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico) sobre o Luxemburgo, veio reafirmar a existência de alguns factores que, segundo a Organização, estão a bloquear o desenvolvimento económico do País e propor algumas medidas que, segundo a mesma, devem ser postas em prática, para evitar uma derrapagem agravada de uma das economias mais prósperas do planeta.
Já há muito que se vinham sentindo no Luxemburgo, os efeitos desta prolongada crise internacional. Neste mesmo espaço, tive ocasião de relembrar que este país não é, nem pode ser nunca, uma ilha paradisíaca no meio de tantos vizinhos aflitos e de uma economia mundial tão entrelaçada.
Tendo esta crise internacional afectado profundamente os mercados financeiros e sendo este sector, só por si, responsável por mais de 30% do Produto Interno Bruto do Luxemburgo, fácil é perceber a queda registada nas receitas do Estado, entre o ano 2000 e o ano 2003.
E se o Estado tem menos dinheiro, entre outras coisas, dificilmente poderá continuar a alimentar o sector das obras públicas, onde trabalham muitas empresas de construção e, consequentemente, muitos portugueses e trabalhadores fronteiriços. Trabalhadores fronteiriços esses, residentes na Bélgica, Alemanha ou França, que são os primeiros a experimentar o calvário do desemprego e que iludem as estatísticas nacionais sobre esta matéria, uma vez que não são contabilizados para este efeito.
Entre outros factores, salientados pelo estudo da OCDE, surge a enorme diferença, que deve ser atenuada, entre os “ricos” salários, praticados na função pública luxemburguesa, em contraste com as muito mais baixas remunerações, praticadas no sector privado.
Também já há muito tempo que tínhamos verificado e comentado o fosso, cada vez maior, entre ao salários de quem trabalha para a Administração Pública luxemburguesa e quem trabalha nas empresas privadas e, todos sabemos, quem é esmagadora maioria daqueles que beneficiam da possibilidade de trabalhar para o Estado. Basta ver os seus anúncios de emprego e as condições impostas a quem pode concorrer a tais empregos. Digamos que é a “factura a pagar” pelos estrangeiros, que aqui vivem e trabalham, para que a paz social continue a vigorar no Luxemburgo!...
Mas, para além das medidas puramente economistas, que a OCDE aconselha, algumas das quais não merecem a aprovação de quem trabalha, por conta de outrem, nem do próprio governo luxemburguês, houve uma que, especialmente, reteve a minha atenção: trata-se de uma sugestão aos governantes luxemburgueses, para que adoptem medidas mais eficazes de integração dos estrangeiros e, nomeadamente, para que o ensino dos jovens se possa fazer em língua alemã, ou em língua francesa, propiciando uma formação menos discriminatória, entre todos os que residem no país. Sobre isto já falámos suficientemente e os recados à Ministra e a todos os responsáveis pela educação no país, já foram dados.
Há no entanto, e a propósito de uma melhor integração dos estrangeiros no Luxemburgo, uma medida que foi sugerida pelo próprio governo em 2001 e, em 2003, continuamos sem saber que passos foram dados nesse sentido. Está, para quando, a tão propalada dupla nacionalidade? Quando é que o Governo, ou os partidos da maioria parlamentar, se decidem a agir neste sentido?
É evidente que, em vésperas de eleições legislativas, o “timing” político, nem sempre coincide com o “timing” social mas, se a uma necessidade social, se junta uma crise económica, latente e já patente, é bom que os estrangeiros residentes neste país sintam o Luxemburgo como seu e correspondam ao esforço necessário ao seu desenvolvimento económico.
A não ser assim todos sofremos, estrangeiros e luxemburgueses.
É bom não esquecer!...

Luís Barreira

 

Novembro 03
Mário Tomás: a generosidade em pessoa
A informação já se esqueceu...

Muitos já se esqueceram. Outros nem sequer entendem quanto a seguir se diz. São mesmo capazes de pensar que alguém estará a querer pagar favores. Que é possível, até, que haja exagero grosseiro nas informações que importa deixar aqui preto no branco. E nós que vamos continuar, ano após ano, a lembrar a efeméride, pelo menos até que “a voz nos doa”... achamos que o esquecimento ronda, às vezes, as raias da ingratidão... e que povo que não é grato e que, por norma, se esquece... é povo que não tem um grande futuro. Mesmo exagerada, a asserção significa, afinal, que passado, presente e futuro, ainda que com graus diferentes de manuseamento da mente... devem andar de mãos dadas. Sobretudo agora nos 50 anos de uma comunidade como a nossa.
Mas... vamos lembrar, uma vez mais, que a 17 de Outubro de 1985, os órgãos de comunicação social de língua portuguesa nas cidades de Toronto e Montreal - então com mais de 250 000 portugueses - começavam a estar ligados a Portugal pelo serviço da Agência LUSA, que chegava através de um contrato estabelecido com a Portuguese Book Store, de Toronto.
A agência passou a suprir, então, muitas carências de Informação graças a um contrato estabelecido com aquela empresa, cujo proprietário, Mário Tomás, era apaixonado pela Informação, sendo, assim, um autêntico fautor de progresso informativo das comunidades.
Só quem fazia, por essa altura, Jornais, Rádio ou Televisão em Português é capaz de imaginar as dificuldades então superadas pelo contrato feito com aquele homem bom, que já deixou o número dos vivos. É que, por essa altura, só os jornais, vindos de Portugal duas vezes por semana, funcionavam como fonte informativa dos órgãos de Informação. A Rádio... chegava mal e com muitas dificuldades de audição. E quanto a Televisão... nem pensar nisso.
O “Portuguese Book Store” continua. Mário Tomás ficou pelo caminho, lembrado, apenas, pelos seus. A comunidade que tanto beneficiou daquele seu gesto - especialmente a comunidade da Informação - foi esquecendo o homem bom, mesmo controverso em muitos casos, que de um dia para o outro, pagando do seu bolso, mensalmente, alguns mi-lhares de dólares, deu mais Informação às comunidades. Mais do que isso : fez, à sua custa, o que os Governos de então tinham obrigação de fazer... e não faziam.
Por isso, ao lembrar o 17 de Outubro de 1985... lembramos Mário Tomás. Com pena de não termos força - e Mário Silva, vereador da Câmara Municipal de Toronto, nunca disso se ter lembrado... - de dar o nome de Mário Tomás a uma das nossas ruas. Por muito menos, alguns outros já tiveram honrarias bem maiores!
Dizer isto é, afinal, tão somente, lembrar um homem bom (mesmo controverso) que entendia a “força” da Informação a quem era preciso dar os meios indispensáveis. E sobretudo agora que se comemoram os 50 anos da chegada dos primeiros portugueses ao Canadá... é bom lembrar isto. Mesmo com a certeza antecipada de que... ninguém vai fazer nada!

Fernando Cruz Gomes

 

Outubro 03
À margem do encontro de professores... nos Açores
Quase... genocídio linguístico

Nos Açores, assiste-se agora a um encontro de Professores de Português dos Estados Unidos e Canadá. Se nos derem licença, havemos de os considerar quase "heróis". A eles e aos pais que, mensalmente, pagam para que os seus filhos aprendam Português. E tanto assim é que partimos, às vezes, da ideia de que o Governo Português - este e os que o antecederam - deveriam, de facto, ser acusados de "genocídio linguístico", para não falarmos, até, em "genocídio cultural". "Genocídio", aqui e além, com laivos de discriminação atroz e com consequências gravíssimas para os povos que se deveriam entender pela Língua.
Se atentarmos nos montes de milhares de contos que o Governo Português - este ou os outros - atira para os países da Europa onde há comunidades portuguesas e traçarmos um paralelo com os montantes que se atribuem aos países fora da Europa -  Canadá, Venezuela, África do Sul, Estados Unidos, entre outros - veremos logo as tais discriminações de que tanto se fala e ninguém é capaz de calar. É que, de facto, os Governos de Lisboa parecem apostados em preservar, para a Língua e para a Cultura Portuguesas, as comunidades portuguesas que vivem na Europa, esquecendo as comunidades que vivem no resto do mundo.
E mesmo quando se atira com a "resolução" do problema do Ensino de Português para os "ombros" dos chamados países de acolhimento... é por mera atitude de pôr algodão nos ouvidos... para não ouvir. É que os governantes portugueses sabem - e se não sabem deveriam saber - que os Governos do Canadá (onde o ensino é de âmbito Provincial) e dos Estados Unidos da América têm outras prioridades. E que, por muito que se lhes diga que um aluno esclarecido... é um cidadão útil e de peso, ninguém lhes poderá dizer que devem injectar mais dinheiro no sistema educacional para ensinar uma Língua diferente do Inglês e do Francês. No Canadá, há até a particularidade de haver mais umas quantas dezenas de outras Línguas que também teriam de ser ensinadas.
O Ensino! A aprendizagem! A Língua da Lusofonia... que, pelo menos nos 3 ou 4 milhões de Portugueses que vivem nos países fora da Europa se vai perdendo... era bem capaz de ser o Português!
Só que, ao longo dos tempos, e com a falta de dinheiro e, especialmente, de vontade de estudar os problemas que se põem ao ensino de Português, o Governo de Lisboa vai matando essa mesma Língua. Os luso-descendentes que ainda a falam - ainda que estropiada e com "nuances" muito "sui generis" - são aqueles a quem os pais quase obrigaram a aprender. São aqueles com os quais os pais gastaram rios de dinheiro. Sim, porque o Pai-Governo - neste caso, Padrasto-Governo - não dá um tostão, nem que seja para um livro. Não manda um professor nem que seja para fazer um curso de reciclagem aos que por cá estão. Pratica "genocídio" de Língua. Faz guerra de "terra queimada" para que, daqui a 50 anos, os tais luso-descendentes falem o Inglês e o Francês, o Espanhol e talvez o Afrikander.
Portugal, pelos vistos, descansou no entusiasmo dos pais. A Portugal, pelos vistos, interessa, apenas, um X de milhões de contos de remessas. O resto... é, de facto, com os pais. Ah, e agora, com os Governos dos países de acolhimento... A Portugal basta-lhe as remessas dos (ainda) chamados emigrantes (com i...), até porque sabe que eles vão continuar - pelo menos por agora - a levantar a Bandeira de Portugal e a fungar saudades pelo país de origem. E continuarão, também, pois claro, a cantar vivas ao Benfica e ao Sporting e aos sucessivos Presidentes que se deslocam quando é necessário "levantar a alma da Pátria".
No Canadá e nos Estados Unidos - e decerto noutros países do resto... do mundo - lembraram-se, não há muito, de enviar uma Coordenadora-Geral do Ensino. Como se fosse possível coordenar um Ensino que Portugal não paga. Como se fosse possível interferir no eventual ensino das Línguas de Origem que os Governos locais (ainda) vão dando! Como se fosse possível um Coordenador-Geral do Ensino substituir-se a umas boas dezenas de professores, a umas quantas toneladas de livros. Quando, a propósito, entrevistámos a então secretária de Estado Ana Benavente... a senhora foi-nos dizendo que "coordenar" não significa "só" coordenar. E que às vezes um bom levantamento das situações... pode ajudar a resolver problemas.
Pois. No Canadá, a senhora já está há um ror de anos, mudou-se o Governo... e, pelos vistos, ainda não teve tempo de fazer o tal levantamento. Mudar a senhora? Acabar-lhe com a tal mordomia (ou quase)? Nem pensar nisso.
Ao invés, terminam uma comissão a uma leitora de Português do Instituto Camões colocada na Universidade de Toronto que, mesmo cumprindo em grande as suas missões naquele estabelecimento de Ensino Superior, fazia "milagres" no dia-a-dia das suas horas vagas para que, pelo menos, a Cultura Portuguesa fosse visível, em várias das suas componentes. E a presidente do Instituto (patrão) de Camões sabia. Em público, em Novembro, foi avisada. Em conferência onde se estudava... também isso.
Não dá para entender.
Não. Algo está, de facto, mal. E para nós que, de longe, vamos anotando o que se faz na Europa e nos países de língua oficial portuguesa (Angola, Moçambique, Timor, etc.), ficamos a procurar nos dicionários uma palavra mais doce do que "genocídio" para explicar o descaso que o Governo Português faz das comunidades portuguesas espalhadas por este resto do mundo... Mas, de facto, não encontramos! 

Fernando Cruz Gomes

 

Julho/ Agosto 03
Vamos ajudar a por fim às aldrabices?

Há muito se sabe que na nossa comunidade certas pessoas vivem à custa do trabalho dos outros. Os casos de burlas, de vendas fictícias, de gestão de bens que só rendem aos “gestores”, fazem infeliz e contentemente parte da actualidade desta comunidade, silenciosa e traba-lhadora, que é a portuguesa de França.
Trabalhadora sem dúvida, silenciosa até demais, por vezes vale a pena exteriorizar o que se passa  no interior.
A nossa função e obrigação é também dar eco aqueles que estão fartos de ser enganados.
No sábado dia 28 de Junho, uma equipa de reportagem da Vida Lusa, esteve a presenciar (o que lhe foi permitido), um evento de que foram iniciadores alguns compatriotas, que nos declaram terem sido lesados por uma advogada portuguesa, exercendo em Paris XV.
Esse grupo de emigrantes, fez individualmente e em datas diferentes, apelo à dita advogada para que ela os ajudasse a resolver diversos problemas, tais como: divórcios, acidentes de viação, cobrança de rendas de casas em Portugal etc.…
Todos afirmam ter pago bom dinheiro, mais do que uma vez, afirmando também que “nunca nada foi feito”.
Declararam ainda que se tornou impossível obter uma audiência com a Doutora. Já tinham reclamado várias vezes um encontro, por entenderem que o tempo ia passando, resultados nem vê-los (ex. : um divórcio = 5 anos) e nunca eram recebidos.
Alguns, já escreveram à Ordem dos Advogados de França e obtiveram o direito a reembolso, só que ainda estão à espera de o receber.
Perante tanta dificuldade a esposa dum cliente da dita advogada, pediu para ser recebida, para tratar dum assunto novo. Apareceram lá com ela, mais cinco dos pressupostos lesados. O objectivo era simples: “diga-nos qual é o ponto de avanço dos nossos assuntos, entregue-nos os processos, guarde o di-nheiro equivalente ao trabalho que fez (?) e devolva-nos a diferença”.
Um telefone indiscreto, permitiu-nos ouvir uma parte da conversa, o que inevitavelmente nos dá ainda mais vontade de esclarecer este assunto.
Depois do encontro, recolhemos as declarações dos todos participantes queixosos e, uma grande quantidade de documentos enviados pela advogada, sendo alegadamente alguns deles falsos.
Tudo o que os nossos compatriotas conseguiram obter, para além de “piropos” como o que nos conta o Sr. Domingos “o senhor não tem nível de estudos para falar comigo”, foi uma declaração, com carimbo e assinatura, na qual é dito que, depois dum encontro em Portugal no próximo quatro de Julho, entre a advogada e os seus correspondentes, que à priori são os únicos culpados, os queixosos serão recebidos por ela em Paris, em princípios de Setembro e tudo ficará resolvido.
Pelo menos uns e outros vão passar umas férias descansadas e para (quase) todos bem merecidas.
Nós não. Vamos verificar a veracidade de tudo o que nos foi declarado e entregue.
Vamos ainda ver, quais são as interligações entre estes assuntos e um outro, que também está a poluir a vida de quem a ganha duramente.
Esse tem a ver com os aldrabões do imobiliário e sabe-se lá, com alguns Doutores que gostam de ganhar os salários dos outros.

Aurélio Pinto

 

Junho 03
Um par de óculos para o Sr. Ministro...

Um par de óculos. Precisamos de um par de óculos para oferecer a um jovem membro do Governo de Portugal, que não consegue descortinar, entre nós - no Canadá, nos Estados Unidos, na Venezuela ou na França - jornais e órgãos de Informação com um mínimo de qualidade. Tanto que têm de ser os Jornais de lá... a virem para a Emigração, com o apoio do Governo, dar mais umas “luzes”...
Mais uma vez... alguém quer brincar aos apoios aos órgãos de Informação. Mais do que isso, pretende-se dar “gato por lebre” em iniciativas governamentais que deveriam ter em conta as necessidades de uma população e... nunca o “parecer bem” na foto que se pretende impingir aos chamados emigrantes.
Agora é o secretário de Estado Adjunto do Ministro da Presidência, Feliciano Duarte - um jovem que até parece ser dinâmico e entusiasta - que fala numa nova legislação para a comunicação social. E diz, preto no branco, que vai contemplar campanhas de promoção dos jornais dedicados aos emigrantes “para cativar as novas gerações”.
E vai mais longe, dizendo que, com cerca de cinco milhões de portugueses no exterior, ninguém pode esquecer que este é um mercado fundamental para a promoção do país. Pelo que - patati-patatá - é preciso uma maior aposta dos títulos nacionais nos países de emigração. Não desconhece, até, por que o disse, que há dificuldades de penetração dos títulos portugueses junto das segundas e terceiras gerações de emigrantes. E, valha-nos ao menos isso, acentua : “Se não tivermos uma estratégia vocacionada para as novas gerações, daqui a dez anos não temos ninguém a ler português”.
Uma “descoberta” que fizemos há montes de anos. Para Feliciano Duarte - um jovem que ainda tem muito que aprender - o Governo está “a trabalhar num sistema que permita chegar mais perto às comunidades portuguesas”. E a legislação vai sair assim... pelo menos coxa.
Na óptica desfasada deste Secretário de Estado não há, portanto, nos países da Emigração, Jornais capazes de cumprir a sua missão. Não conhece, decerto, “O Século de Joanesburgo”, o “Luso Americano”, o “Sol Português”. Não conhece, pronto. E acha então que é necessário apostar nos Jornais de lá. Ainda um dia havemos de perguntar a alguns empresários que conhecemos - mesmo em Toronto - se o Governo Português veio a Toronto, a Newark ou a Joanesburgo ajudá-los a implantar o quase “império” de Informação que têm.
A verdade é que andamos, cada vez mais, a entender que os portugueses emigrados merecem muito mais dos Poderes Públicos que os “forçaram” a partir para a emigração. E, pelos vistos, querem impingir tudo o que em Portugal se faz. Assim a jeitos de nos atirar com um osso... como a inefável RTP (que até nem está má) mas que só interpreta o Portugal da Saudade, dando o que quer... sem receber seja o que for. Os Jornais de lá, a exemplo da tal RTP, quer “dar” coisas de lá. Pouco lhe interessa o estatuto que os tais 5 milhões já têm nos países de acolhimento. Correspondentes entre os emigrantes ? Era o que faltava. Então não se está mesmo a ver que não há jornalistas nos países da Emigração ?!
Um par de óculos... precisamos de um par de óculos para oferecer ao Sr. Secretário de Estado!

Fernando Cruz Gomes

 

Junho 03
A Europa dos excluídos

Aqui há dias, uma parte dos cidadãos que circulavam numa das artérias da capital do Grão Ducado do Luxemburgo, foram surpreendidos por uma cadeia humana de gente, luxemburgueses e de muitas outras nacionalidades, nomeadamente refugiados da antiga Jugoslávia que, entre o Ministério do Trabalho e o Ministério da Justiça, davam as mãos num acto de solidariedade e em sinal de protesto.
Digo alguns ficaram surpreendidos porque, muitos outros já se tinham apercebido, há muito tempo, do drama que afecta algumas centenas de famílias de refugiados da guerra, da fome e da falta de uma perspectiva de vida minimamente decente, daqueles que, na fuga desesperada de um calvário anunciado, procuraram refúgio nesta sociedade de ricos e de teóricos princípios.
Gentes de todas as idades, que há mais de quatro anos aqui vivem, sem poder regularizar a sua situação, trabalhando para poder sobreviver decentemente, ou educar convenientemente os seus filhos.
Gentes que comeram o “pão que o diabo amassou”, para escaparem com vida às atrocidades de sanguinários, que pagaram o que não tinham, para poder chegar a uma sociedade acolhedora, apenas iluminados pela esperança de que, esta Europa dos abastados, lhes propiciasse umas pequenas miga-lhas, que seriam muito para quem nada tinha.
E, ao longo de todo este tempo: algumas associações têm minorado o seu sofrimento, ajudando-os a compreender a complexa sociedade em que se encontram ; muitos patrões oferecem-lhes emprego, na perspectiva da sua regularização ; aprenderam as línguas do país, pensando na sua integração e, o Governo, continua dizendo NÃO !
E assim, cerca de 1.500 pessoas erram pelas esquinas, desesperados, amedrontados pela polícia e de esperança perdida, sendo, quem sabe, o meio social mais favorável para a actuação de todas as engrenagens corruptas da sociedade.
O Governo explica-se : “..mais não faz do que aplicar as leis...” !
A União Europeia determina: “...é preciso controlar a imigração... !
Os povos desta grande Europa, fustigados pelos políticos da desgraça e pelas consequências de uma crise que não criaram, começam a conjecturar que “..não podem acolher tanta gente...” !
Entretanto, essa miséria convive connosco, todos os dias ! Ao nosso lado, nas ruas, nos bancos dos jardins e muitas vezes nos locais de trabalho, a “negro”. Como não podia de ser !
Compreende-se o rigor das leis, no contexto da moralização das sociedades. Percebe-se a hesitação dos grandes centros de decisão internacional, face à indefinição dos caminhos tortuosos das economias e da sua interdependência. Até somos capazes de compreender uma certa reserva da opinião pública, tendo em conta as eventuais dificuldades que algumas sociedades estão a passar.
O que me é difícil de aceitar é que estamos a falar da vida e futuro de algumas centenas de seres humanos, na sociedade luxemburguesa e não de bichos fechados num zoo de qualquer “república das bananas”. O que está em causa é a prática da própria essência dos valores humanistas que pretendemos preservar e que se podem revelar num simples gesto de dádiva das sobras, que nos habituámos deitar para o caixote do lixo, porque consumimos desmesuradamente.
O que é que nos está a acontecer, a nós e àqueles que nos governam ?
Que individualismo, egoísmo, ausência de sensibilidade e desamor, nos levam a esta indiferença e a esta tolerância para quem trata o nosso semelhante, pior do que um caixote de mercadoria.
É fácil criticar governos nos países democráticos. É preciso não esquecer, no entanto, que eles e as suas determinações, são uma emanação da nossa vontade e, nessas circunstâncias, somos todos responsáveis.  n

Luís Barreira

 

Maio 03
A cena seguinte... Conselhos para um... Conselho

Toneladas de palavras. Mentiras e verdades, à compita. Acontece sempre assim, quando termina uma campanha eleitoral. Acontece sempre assim quando o povo português da diáspora é chamado a votar e... não vota. Foi assim nas eleições legislativas e presidenciais. Foi agora, também, nas eleições para o Conselho das Comunidades Portuguesas. O Povo, uma vez mais, sem saber o que responder quando o atacam, dizendo que não sabe, não quer, não está interessado...
E o que se passou, agora, um pouco por todo o mundo, é o mesmo, afinal, que se passa no Portugal inteiro quando das eleições. Enquanto uns falam em “falência técnica” para caracterizar o estado a que chegou o país, vêm outros, logo a seguir, com o mesmo semblante a tentar dourar a pílula, mas a afirmar que... não senhor, o país nunca esteve tão bem. E, naturalmente, por cá, as coisas repetem-se.
Cá de longe, vemos e ouvimos. Com mágoa, na maior parte dos casos. E com a certeza de que, de facto, tudo poderia ser melhor. E como as coisas são o que são, e não se vêem melhorias de estilo ou de facto, os de fora - quase metade da população portuguesa - vai entrando num “não te rales” confrangedor que não vai a lado algum, a não ser ao cortar do cordão umbilical que os ligava ainda à Pátria-Mãe (madrasta). De resto, é até fácil o “corte”. Ainda não há muito, um dos políticos mais mediáticos que esteve na berra, fazia autênticas campanhas de persuasão para dizer aos portugueses residentes no estrangeiro, que, “de facto o melhor era integrarem-se nos países de acolhimento”.
Não era preciso dizê-lo, porque a maioria já o faz. Há menos de 200 000 portugueses residentes no estrangeiro a recensearem-se pelo sistema português.
Se um Governo cuidadoso e criterioso quiser saber, ao certo, porque é que as pessoas se estão marimbando... para Portugal, a despeito de manterem no coração a saudade bem viva, hão-de entender. Visitem a Venezuela, o Canadá e os Estados Unidos. Problemas diferentes. Comum apenas o facto de que Portugal há muito se esqueceu dos seus filhos da diáspora.
Sendo assim, esperavam o quê ? Mais pessoas a recensearem-se ? ! Esperavam, agora, que de toda essa gente, aqui no Canadá, para o Conselho das Comunidades votassem apenas cerca de 3 000 pessoas ? !
Assim... o Conselho das Comunidades Portuguesas vai iniciar funções. É capaz de não representar muita gente. Mas tem de fazer valer o seu estatuto. Aconselhar... quem às vezes é capaz de nem querer o conselho...

Fernando Cruz Gomes

 

  Maio 03
Portugal e os Portugueses:
É preciso viver o futuro, se o presente é desagradável!

Uma curta semana de férias em Portugal deu para perceber que continuamos a ser um país diferente de qualquer outro. É como se, na procura de uma identificação “sui generis”, para um país e o seu povo, Portugal e os portugueses assumissem uma postura que desafia todas as leis económicas e sociais e, tendo em consideração o próximo alargamento da União Europeia e os investimentos portugueses nos novos países, até a lei da gravidade parece estar em causa.
A inflação não pára de aumentar, atingindo superiormente as famílias de baixos recursos. No entanto, continuam a construir-se e a serem visitados por multidões, mega centros comerciais, onde estão presentes as maiores marcas internacionais !
O barómetro de desenvolvimento, que é normalmente medido pelo volume da construção, não pára de baixar. No entanto, mantemos um enorme contingente de profissionais, portugueses e estrangeiros, ligados a essa actividade e os preços da construção continuam a pautar-se pela especulação que caracterizou o fim dos anos 90 !
A falência de empresas aumentou 25 %, em relação ao mesmo período do ano anterior, atirando para o desemprego milhares de trabalhadores, não preparados para novas actividades (se é que elas existem...). No entanto, neste recente período da Páscoa, as cidades estavam quase desertas, as taxas de ocupação dos hotéis do Algarve quase a 100 % e os voos para o Brasil esgotados !
A receita fiscal do Estado baixou, contrariamente às expectativas do governo e, nomeadamente, do seu Ministério das Finanças, mas continuamos a afirmar que cumpriremos as nossas obrigações europeias.
Os comerciantes queixam-se que não vendem, as pessoas queixam-se que não podem comprar, os trabalhadores queixam-se que não recebem e os patrões que não podem continuar. No entanto a vida continua, os restaurantes enchem e os novos modelos de viaturas rodam nas estradas.
Das duas uma ! Ou é verdade que o déficit do Estado e a consequente política governamental que se seguiu, se transformou numa recessão económica, muito mais difícil de recuperar, atendendo ao atraso económico do País, face aos seus pares e ao fim das “vacas gordas” europeias, ou não é verdade e toda esta falácia se destina a que sejamos considerados internacionalmente dignos de pena e, enquanto “coitadinhos”, possamos beneficiar das ajudas exteriores à manutenção das superficialidades a que nos habituámos.
Não pondo de parte a totalidade da segunda hipótese, estou mais convicto da primeira, mas,... com algumas diferenças.
A avaliar pelos indicadores económicos, acima de qualquer suspeita, Portugal está mesmo no meio de uma profunda crise económica. E isto não é culpa do actual governo e, até me atreveria a dizer, que não é culpa de nenhum governo em particular.
O actual estado de coisas é consequência da falta de ideias e da coragem para concretizar um verdadeiro projecto de desenvolvimento nacional, que esteja para além de uma legislatura, de um combate eleitoral, de alguns votos perdidos e que necessita de alguma pacificação política, entre os partidos existentes, a bem do todo nacional.
Mas então porque é que os portugueses continuam a proceder como se nada se passasse ?
Pela simples razão de que os portugueses não são todos iguais: há os que sempre compreenderam que não podem ter acesso, a muito do que é essencial a uma vida digna ; há outros que pensaram ter adquirido um estatuto social imutável e que agora se vêm a braços com a ginástica quotidiana da manutenção das aparências e há os que acumularam suficiente riqueza para viverem em desafogo, mesmo que a actualidade dos seus negócios não seja florescente. Há ainda outros, aqueles que não têm preocupações desta natureza, mas esses não contam para a estatística do povo.
O que é curioso, no meio de tudo isto, é que, uns e outros (à excepção dos que perderam a esperança), consideram esta crise passageira, uma pequena nuvem que vai passar muito em breve (talvez já a partir de 2004...) e que tudo voltará a ser como dantes, ou melhor! Razão pela qual há que manter o “estilo de vida” e aproveitar este período para proceder a algumas rectificações no “tiro” e procurar mais uns “furos”.
Se este governo se comportar como todos os outros e, em vésperas de eleições, “abrir os cordões à bolsa”, sem que tenha sido arrumada a máquina produtiva do país e a despesa do Estado, então os portugueses têm razão !

Luis Barreira

 

Maio 03

O que todos nós deviamos saber sobre o Iraque:
A origem da nossa civilização

Foi ali que tudo foi inventado, naquele país outrora chamado Mesopotâmia, que quer dizer terreno entre dois rios, (o Tigre e o Eufrates), que nasceu a Escrita, a Matemática, a Astronomia… quer dizer o berço da cultura para todos e sobretudo para nós, os Ocidentais.
Aí nasceu portanto, há mais de 8 000 anos, a civilização que forneceu à Europa, todas as bases sobre a Escrita, a Matemática, a Astronomia, as Artes.
Babilónia, no reinado de Nabucodunosor, criou a língua falada por Jesus Cristo.
Também a agricultura, aparece já e bem desenvolvida desde o X milenário. A ourivesaria começou a ser trabalhada na Mesopotâmia, 3.000 anos antes do nascimento de Cristo.
Dominada pelos gregos, romanos, partas, os impérios sucedem-se uns aos outros, os homens vivem, morrem, não restando nessa altura senão ruínas, inscrições em placas de argila, jóias, estatuetas, tudo partido, fragmentado, mas preciosos para a Ciência e para o Espírito.
Os séculos VIII e XII, representaram a idade de ouro dos pensamento e das ciências no Próximo Oriente.
Durante esses séculos os Árabes e os Persas desenvolveram a Álgebra, aperfeiçoaram a Medicina e a Cirurgia, consagraram-se à Geografia, à Etnografia e à Filosofia.
Foi em Medinet-al-Salaam (ou seja a cidade da Paz), criada em 762, que se escreveram alguns originais dos textos bíblicos. Medinet-al Salaam, foi a cidade que deu origem de Bagdad, antiga cidade da Cladeia de Abraão.
A queda do Império Otomano em 1922, conduz à divisão da Mesopotâmia e à criação de um estado moderno, o Iraque, correspondendo ponto por ponto à visão dos colonizadores europeus.
10 000 sítios arqueológicos e um património mundial, único, donde uma grande parte se encontrava no museu de Bagdad, foi hoje, destruído ou roubado.
A destruição mesmo involuntária dos sítios importantes do património cultural iraquiano, pelas bombas anglo-americanas, pode ter graves consequências a longo termo, mesmo se os culpados não têm a noção disso, pois não é aconselhável de bombardear e destruir o seu próprio berço cultural.
Durante o regime de Saddam Hussein, inúmeros bairros antigos, foram deitados abaixo para construir largas avenidas que só desfiguraram a capital. O lindo jardim ao longo do rio Eufrates, foi transformado em 1980 em aeroporto militar pelas empresas jugoslavas.
E agora esta guerra vai acabar com o resto, apesar dos esforços de um grupo de universitários e juristas especializados em História de Arte, ter alertado os militares do Pentágono, no princípio de 2003, sobre a necessidade de proteger as relíquias da civilização iraquiana.
O historiador e especialista de Arte, Henri Stierlin faz-se e faz-nos esta pergunta : será um cinismo chocante de nos inquietarmos sobre as obras-primas em perigo, quando tantos homens morreram ? Somente ninguém nos obrigou a escolher esta situação… e lá disse o grande poeta Heinrich Hein : “aqueles que queimam livros, acabarão por queimar homens”.

M.F. Martins da Cruz

 

Abril 03
Em cada esquina um amigo

No passado Domingo 16 de Março, mais uma vez tive a prova de que nesta vida tudo é um eterno retorno.
Não há dúvidas  que o tempo passa e que os homens continuam a estragar rapidamente o que leva anos a construir.
Pelo menos é o que vou constatando ao analisar as acções de quem governa o nosso país. Não tento aqui alargar a observação a tudo quanto se passa em Porugal, falta-me tempo e espaço, além disso, também não quero acabar completamente deprimido, nem contagiar aqueles que me lerão, tantos são os factores negativos que nos são impostos desde que o actual Governo entrou em acção.
Estou a pensar principalmente na triste actualidade que foi a caução avassaladoura para todos nós, que “Portugal” deu à política imperialista de Bush, que lança o Mundo numa guerra sem nexo, com cheiro a sangue e a petróleo, de cujas consequências todos vamos sofrer.
Só queria aqui falar no que se passou no Domingo 16 de Março em Paris.
No 16° bairro da rua de Noisiel ficou intransitável uma boa parte da tarde : Operação “Embaixada fechada” !
Mas porquê ? Porque meia dúzia (eram 150) de portugueses de França vieram manifestar contra a reestruturação dos Consulados, que conduz ao encerramento de quatro deles, e pedir audiência ao Senhor Embaixador !
Rezultado : seis carrinhas da polícia na rua Noisiel, todas as ruas adjacentes cortadas à circulação e ao acesso dos não residentes, em cada esquina dezenas de agentes en uniforme de intervenção, num dealbar de forças que provocaram gargalhada geral na massa dos agressivos manifestantes, que são os nossos patrícios, como ninguém ignora !
Passado este momento de riso - onde alguém perguntou se eram os portugueses ou os polícias que manifestavam - e todas as proporções guardadas, veio-nos à memória, a lembrança escura, do Portugal triste, do tempo do fascismo.
Uma delegação foi recebida, a resposta que nos foi transmitida era lacónica : “está decidido, não se volta atráz, vamos encontrar algumas alternativas para os Consulados que fecharão…” e boas vendas !
Mas é mesmo assim meus amigos. Só quando na Nossa Terra, os Nossos compatriotas perceberem que somos aqui 10% da população do País, que representamos a sua maior fonte de receita, e que indubitavelmente somos a única verdadeira ponte cultural entre Portugal e a França, com capacidade de acção e orgulho de ser portugueses, só nessa altura, é que se farão estudos antes de fazer restruturações, se farão contas antes de aumentar emolumentos, se prestará atenção aos cidadãos antes de chamar a polícia.

Aurélio Pinto

 

Abril 03
Terroristas... e terrorismos

Quando, em 15 de Março de 1961 - há que tempos isso lá vai! - deparámos com toda a tragédia do norte de Angola, aprendemos, então, uma palavra nova: terroristas. Eram terroristas os que faziam tudo aquilo. Os que matavam indescriminadamente. Os que violavam. Os que abriam meninas desde as partes baixas até à boca. Nós vimos tudo isso. Ninguém nos contou. Não lemos em livros. Vimos.
Os poderes instituídos de então chamavam àqueles homens que iniciavam a tal " luta " terroristas. O terrorismo começava, então, para nós, a ser algo hediondo. Avassaladoramente hediondo. Os poderes instituídos de então responderam ao terrorismo... com uma luta sem tréguas nem barreiras. A que se chamou, também, terrorismo.
Aos poucos, porém, vimos outras formas de terrorismo. Aprendemos à força... a entender outros terrorismos. E a isso nem escapou uma " reciclagem " que fizemos à imagem que tínhamos acerca da primeira bomba atómica - a arma-" mãe " de todas as armas de destruição maciça - que fizeram deflagrar por sobre Hiroshima e Nagasaky.
O terrorismo continuou a ser algo de hediondo. Avassaladoramente hediondo. Mas... ganhou contornos diferentes. E teve " faces " também diferentes. Até porque os terroristas de então - 15 de Março de 1961 e outras datas que se lhe seguiram - são hoje os " senhores todo poderosos " daquele País que (ainda) amamos. Sentam-se em cadeiras de deputados. Sobraçam pastas ministeriais. Atiraram-se para as escadas do Poder máximo.
A " reciclagem " que fizemos ao conceito de terrorismo continuou. E mesmo hoje, que há outros ismos cada vez mais poderosos... ainda nos interrogamos sobre o que é ser terrorista.
Há dias, a Imprensa atirou-nos para a mente com uma frase que não deixa de nos matraquear o pensamento. O senador norte-americano Robert Byrd escreveu: " Hoje choro pelo meu país. Depois da guerra temos de reconstruir mais do que o Iraque. Temos de reconstruir a imagem da América um pouco por todo o mundo". Reconstruir a imagem da América? - O que temos, de facto, é de reconstruir a palavra e o conceito de terrorista. Se o fizermos a tempo... ainda somos capazes de evitar que um pensador espanhol de que nos não lembramos o nome tenha razão quando diz não saber ao certo como iria ser a terceira guerra mundial. Sabia, isso sim, como seria a quarta guerra mundial. E essa, na sua óptica, seria... a paus e pedras, porque a terceira acabaria com tudo.
O conceito de terrorista. O conceito de pundonor. O conceito de " ser " homem justo. Talvez evitasse até - e nós sabemos que é capaz de não ter nada a ver com o que deixamos escrito... - que, há dias, logo após a cimeira das Lajes, na página oficial da Casa Branca, Aznar aparecesse como presidente da Espanha, que é (ainda) uma Monarquia. E que Durão Barroso aparecesse como... Durão Burroso! Está lá escrito!

Fernando Cruz Gomes

 

Abril 03
"Guerra" ao automóvel!

A cidade do Luxemburgo e os seus cidadãos, tal como outras cidades do mundo considerado desenvolvido, debatem-se com graves problemas de circulação e de poluição do meio ambiente.
A concentração de pessoas em torno das grandes cidades, em consequência da concentração dos respectivos empregos, tem criado autênticos dramas quotidianos, a quem tem de chegar a horas aos seus empregos, a quem tem de respirar o ar das grandes metrópoles e a todos os que tentam preservar a qualidade de vida, indispensável aos seres vivos que habitam o planeta.
Algumas cidades do mundo industrial têm optado, timidamente, por medidas restritivas à circulação.
Nalgumas, optou-se por criar um direito de circulação, no centro das mesmas, jogando em alternativa com os números, par ou ímpar, das matrículas dos veículos.
Outras, decidiram proibir a circulação, em certos momentos do ano.
Noutras proibiu-se, definitivamente, a circulação dos veículos privados, no centro das cidades.
Noutras, ainda, tomaram-se e tomam-se medidas, para desencorajar os particulares a trazerem as respectivas viaturas para o centro das cidades, através de uma fiscalização cerrada, sobre a ocupação dos parques de estacionamento de rua.
Até aqui tudo bem! Se os ritmos de produção, a que as sociedades modernas estão habituados, forem compatíveis com o ritmo e eficiência dos serviços públicos de transportes, se as entidades patronais forem tolerantes com a dependência dos cidadãos, face às contingências desses transportes e se isso não corresponder a um muito maior sacrifício, económico e de tempo, dos trabalhadores, acho que todos devemos encarar estes fenómenos de civilização, com uma atitude compreensiva e voluntarista.
Na cidade do Luxemburgo já há muito que nos habituámos a viver a contra-parquímetro, ou seja, contra o relógio destas maquinetas modernas de controle de estacionamento e dos seus zeladores funcionários “caça-multas”, que fazem da sua actividade uma autêntica “espera” aos automobilistas incautos.
O que é novo nesta cidade é que, o seu responsável máximo, decidiu alargar a toda a periferia da mesma, a aplicação de estacionamento pago,... e a que preço!...
Uma medida que, à primeira vista, se justificava, pe-rante o comodismo de muitos de nós, em trazer desnecessariamente as viaturas para o centro da cidade, veio a revelar-se como uma das formas supremas de financiamento da administração pública da cidade, penalizando igualmente os cidadãos que estacionam as viaturas, em áreas não saturadas de trânsito.
Neste embrólio de justificações penalizantes e contra-indicações à circulação, em que o automobilista paga impostos para comprar carro, impostos para circular, impostos sobre o combustível que utiliza, impostos de estacionamento e seguros cada vez mais elevados, um destes dias alguém se lembra de criar um imposto sobre o número de vezes em que utilizamos a nossa própria viatura e, para ser coerente, um imposto que seria mais caro de dia, do que de noite.
(Se calhar não devia ter dito isto?! Ainda alguém se lembra de aplicar mais este imposto!...).
O que interessa aqui sublinhar e para que se compreenda o à vontade com que esta medida vai ser posta em prática, pelo cidadão eleito para gerir os destinos da cidade do Luxemburgo é que, a intensidade do tráfego no centro da cidade, é provocada necessariamente por quem não habita nela, ou seja, quem vem obrigatoriamente de fora. E,... nas eleições para a autarquia, esses não contam!

Luís Barreira

 

 

Março 03
A RTPi não aproveitou a maré de... remodelação

A RTPi entrou em devaneios. Em sonhos. Talvez a pensar que uns e outros são - ou podem vir a ser - realidade. Para já, numa eufemisticamente chamada “nova grelha de programação” atira cá para fora com coisas e loisas que mais parecem uma mexurafada de respostas a críticas e mais críticas... mas sem vontade nenhuma de cumprir. Fala em interactividade entre os portugueses radicados no estrangeiro e Portugal, chamando a isso uma grande aposta.
A grande aposta é, afinal, tão somente uma ligação mais forte ao Canal 1, com vários programas a serem transmitidos em simultâneo. Isto é, passa a “dar” coisas com preços mais baratos. Sim, porque os programas da RTP 1 já estariam pagos, não custando muito mais que o preço do satélite que já se pagava de qualquer modo.
Despudoradamente, anuncia-se logo que esta será a resposta da televisão estatal a uma reivindicação antiga dos portugueses que residem no estrangeiro, que se “queixavam de que a programação não era actualizada com a que passava em Portugal”, como disse o director de programação daquela coisa. Talvez que agora se possa começar a ver, também, qual a temperatura em Freixo-de-Espada-à-Cinta...
Pelos vistos, na óptica daquela gente, o que é preciso é dar aos portugueses residentes no estrangeiro tudo o que se passa em Portugal. Unilateralmente. O que é preciso é atirar cá para fora com tudo o que os portugueses residentes no estrangeiro não ti-nham. Decerto que para isso vão fazer melhor programação que as melhores cadeias de televisão do estrangeiro ! Desde as as 07h00 até às 16h30 a emissão é simultânea para a RTP e a RTPi, sendo retomada entre as 20h00 e as 21h15.
Neste contexto, não poderia fa-lhar o “Portugal no Coração”. Sim, porque é disso que todos nós precisamos. A saudade é tão forte, tão forte, que até nos vai ser mitigada com esta coisa, que pretende ser um ponto de encontro entre todas pessoas que residem em Portugal e os portugueses que residem no estrangeiro. Isto é que é serviço público. Dar, dar, dar...
Ninguém cuidou de saber que, no cerne da RTPi estava implícita uma referência a uma chamada “triangulação da Informação”.
Que poria a saber, em Lisboa, o que se passava em Paris e nesta o que se passava em Toronto, Rio de Janeiro, Newark ou Caracas. Para uma RTPi, o mínimo que se poderia exigir era, de facto, alargar o leque das presenças e pôr assim os portugueses de todo o mundo a dialogar entre si.
E se um dia... sonhassem pôr no ar o Telejornal Nacional seguido de um complemento das comunidades, feito, directamente, de comunidades com uma população portuguesa expressiva?!
- Seria erro, certamente, não?! - É que por essa via, os Portugueses residentes em Portugal... conheciam melhor os Portugueses que vivem fora.
E vice-versa. Pelos Para isso continua uma coisa chamada “Comunidades” que, uma vez por semana, diz o que se passa aqui e além, em comprimidos de segundos e mesmo assim com a “prata da casa”, isto é, com retalhos do que eventualmente se usou nos Telejornais (que não nos tirem ao menos esses, que são, afinal, do me-lhor que há) ou nos programas similares dos Açores e da Madeira. Porque, directos ou “vividos” nas comunidades contam-se pelos dedos de uma só mão...
A única coisa que nos apraz salientar foi o que chamam de reforço “dos laços com a Madeira e os Açores” com a emissão do telejornal produzido nos dois arquipélagos.
Palmas para a iniciativa, que pecará, eventualmente, apenas e só, por não fazerem também a tal triangulação de informação, uma vez que os Açores e a Madeira também não têm correspondentes nas comunidades. De qualquer modo, trata-se de algo que merece encómios. Já não era sem tempo.
Os custos de uma programação assim, naturalmente que serão muito menos elevados. A não ser, evidentemente, que queiram agora guardar em prateleiras douradas alguns dos que faziam a RTPi... da outra forma. Ah... não se esqueceram de dizer que a RTPi chega “a mais de 60 mi-lhões de espectadores”. O que, certamente, não foi (nem será) provado. Potencialmente.... poderia chegar. Até porque a RTPi transmite - e aí acreditamos - para cerca de 38 países de todo o mundo. Uma vez mais... perdemos a oportunidade de fazer uma programação a sério... para uma parcela de portugueses também a sério. Daqueles que não querem ser nivelados por baixo.

Fernando Cruz Gomes

 

Março 03
A emigração transoceânica perdida na distância

Fevereiro 28 é a data limite para a entrega de candidaturas à eleição do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP), que se realizará no domingo, dia 30 de Março de 2003. De acordo com o disposto na Portaria n.º 147-A/2003, emitida pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros e das Comunidades Portuguesas, e que define a composição dos círculos eleitorais para a referida eleição, a comunidade portuguesa fora da Europa poderá eleger 59 dos 100 conselheiros que irão constituir o novo Conselho.
Como é do conhecimento geral, de acordo com os dados do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Direcção Geral dos Assuntos Consulares e Comunidades Portuguesas, a emigração transoceânica representa cerca de 71% de toda a diáspora portuguesa.  Contudo, aquela Portaria parece contestar esse facto, com base numa suposta nova realidade de números que foram transmitidos ao Ministério pelos vários serviços consulares portugueses espalhados pelo mundo.  Essa nova (ir)realidade aponta para uma percentagem de representação transoceânica no CCP de apenas 59% (uma perda de 13 conselheiros), enquanto que a da Europa sobe de 28% para 41% (uma subida de 13 conselheiros).  Será que houve algum engano ?  Ou será que os nossos governantes, em quem devemos depor toda a nossa confiança, nos andam a enganar a todos ?
Embora os dados populacionais aqui referidos não se encontrem convenientemente actualizados, a informação serve para nos dar uma ideia base da disparatada disparidade agora criada pela Secretaria de Estado das Comunidades Portuguesas no tocante à tão prometida e desejada homogeneidade de representação da diáspora portuguesa no CCP.  Este quadro vem demonstrar, sem qualquer equívoco, a incapacidade dos serviços consulares em assegurar uma informação devidamente actualizada e fiável, demonstrando também a negligência e a ineficiência do Governo na prestação de serviços às comunidades portuguesas.  E vem confirmar, uma vez mais, a necessidade urgente de uma política adequada e despartidarizada para as comunidades portuguesas, para que os sucessivos Governos da República possam dar cumprimento aos princípios da igualdade consignados na Constituição.
A Constituição Portuguesa determina, na alínea b) do Artigo 9.º, que uma das tarefas fundamentais do Estado é “promover o bem-estar e a qualidade de vida do povo e a igualdade real entre os portugueses”. E, mais adiante, no seu Artigo 13.º, assegura que “todos os cidadãos têm a mesma dignidade social e são iguais perante a lei”.   Acontece, porém, que em 1997, o então Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, José Lello, enviou uma directiva a todos os Consulados para que fossem eliminadas (ou destruídas) todas as inscrições consulares que não haviam sido movimentadas nos últimos 25 anos.  Essa decisão arbitrária (e diria até ilegal e inconstitucional) do Governo veio prejudicar enormemente a representação no CCP dos portugueses que residem fora da Europa.
É bem sabido de todos que a emigração portuguesa na Europa tem tido, ao longo dos anos, um tratamento preferencial por parte do Governo português (basta ver o número de postos consulares existentes no velho continente, em relação aos outros).
As facilidades concedidas e a relativa proximidade dos serviços consulares na Europa têm proporcionado aos emigrantes portugueses que lá residem uma mobilidade extraordinária, para além de outros benefícios, que não vou aqui focar para não prolongar esta pequena dissertação.  Estas facilidades têm dado azo a que muitos portugueses, nos últimos 25 anos, se tenham inscrito em vários Consulados (e recordo aqui o depoimento do próprio Carlos Luís, deputado pela Europa, que admite ter mantido várias inscrições consulares naquele continente) sem que se tenham tomado, até este momento, as devidas precauções para eliminar as duplicações ou triplicações existentes.  Com tudo isto, quero eu dizer que os mesmos apoios institucionais existentes na Europa não se repercutiram nos outros continentes onde a emigração portuguesa é bem mais numerosa (71% de toda a diáspora portuguesa).  Essa desproporcionalidade, deficiência, ou propositada ineficiência dos sucessivos Governos portugueses, no que respeita à prestação dos mesmos serviços às populações transoceânicas, continua em evidência, discriminando os cidadãos e contribuindo para o facto de muitos portugueses não poderem deslocar-se aos poucos e longínquos postos consulares para usufruir dos seus serviços, deixando por actualizar as suas inscrições.
Para além desta discriminação, apareceu, para cúmulo, a injusta (senão inconstitucional) directiva de José Lello a aumentar ainda mais a desigualdade já existente entre os portugueses que o mar separa.  Digo: que nem só o mar separa...
Sabemos que estas coisas não acontecem por acaso, porque o abandono sistemático da emigração portuguesa transoceânica já vem do tempo do Estado Novo e continua até aos dias de hoje, como se a nova Constituição não existisse, como se os portugueses fora da Europa tivessem perdido a sua nacionalidade (outro assunto que dá pano para mangas...).  Desde a implantação da nova Constituição, os sucessivos governos da República Portuguesa têm, neste e noutros aspectos, praticado criminosas afrontas ao espírito da Lei, de forma impune e com o aval de grandes constitucionalistas portugueses, ao abrigo do conceito da territorialidade, um palavrão que não passa de uma disfarçada forma de discriminação por parte dos que recusam (re)conhecer a nação portuguesa existente para além do rectângulo que delimita as decadentes fronteiras políticas do país.
Tudo isto para dizer que os portugueses se vão afastando cada vez mais uns dos outros, porque não temos tido governos (ou políticos) suficientemente capazes de respeitar o espírito da própria Constituição.  E assim vamos vivendo, com leis e portarias discriminatórias, aprovadas à beira da inconstitucionalidade, por políticos que há muito desprezaram esta emigração transoceânica que, a pouco e pouco, vai desaparecendo na distância.

Ottawa, Canadá,
António Fernando Ázera da Silva
Membro do CCP

Outubro 02
Em Portugal agora, tudo é permitido ou quase

E, a vida, é o tempo igual como que alguém - pensando salvar--se - se assentasse num icebergue desprendido da banquisa, no mar, direcção mais a sul, visto do lado do Árctico, claro.
Não há liberdade sem responsabilidade. É o principio fundador das sociedades democráticas.
Observações relâmpago ao acontece.
No jornal 24 horas do 13 de Julho uma informação de bradar aos céus.
6 GNRs, assaltados e agredidos. A GNR, atacada ? É mesmo para meditar. Isto existe !?
No Jornal Público de 14 de Julho. Dois operários morreram num túnel da Madeira - a tarefa dos jornalistas não foi nada facilitada e um repórter fotográfico foi mesmo agredido a pontapé. Proibido informar, claro.
Lucros do Santuário de Fátima cresceram e - rondam os 8 milhões de euros anuais. E, muitos lares sociais se construiriam.
No jornal Notícias de Viana de 4 de Julho. - Os inimigos de Viana estão em Viana. Então, agarrem-nos já, porque esperam, se assim o são ?
Ou então, não o são !
A Inspecção Geral de Saúde encerrou a III Feira Gastronómica de Viana. O efeito das vacas loucas se é equivalente ao da queda das torres gémeas de Nova Iorque, convém já, procurarem os terroristas que são contra a nossa saúde.
Celeste Cardona, a Ministra da Justiça quer a justiça mais rápida. Então, por quem, ela espera ?
No Notícias de Viana de 11 de Julho com o titulo, - a Romaria da Senhora da Agonia é - O principal emblema de Viana -. Festas e festanças em nada ajudam o cidadão. A renovação de todos os caminhos das freguesias do Concelho, isso sim, seria o Maior Emblema da Capital do Alto Minho.
Num parágrafo, o Governador Civil, em Viana, afirma que há uma mentalidade marcada pela inveja e pelo egoísmo, sendo estes factores os que mais contribuem para o tal estado de situação. Situação deslavrada acrescento eu, na região e no País.
No Monte do Castelo de 7 de Julho, no artigo - Sem Comentários - explica o autor, - um exemplo de dança -, do folclore português, sem caracter elementar e sem intercâmbio respeitador.
Em Chafé, o nosso amigo Zé Silva, desde há anos e cada vez mais hoje, virou-se para reportagens ou temas em nada relacionados com a própria freguesia que intelectualmente ele representa.
Apresenta temas sobre a Z I, Ok tem razão ! Mas esta, com área a 90%, em Neiva.
Nada expus também, sobre as resoluções da assembleia de freguesia do 27 de Junho. Então, como é, Zé !
Depois, fala das cerimónias fúnebres e do monopólio da Igreja Católica, correcto e, também da sopa, como remédio contra o cancro. Em vez de sopa, também pode ser leite, iogurtes, fruta, peixe, carne, legumes, mas, sobretudo, em qualidade e não em quantidade.
Não contesto, mas, Chafé, é prioridade máxima. De notar ainda que, não existem fotos reportagens no Monte Castelo.
Em constatações, constata-se uma verdade - que não deveria ser - que, - só o ladrão tem segurança num mundo capitalista. É o que acontece infelizmente por causa dos políticos serem incompetentes e desonestos.
A seguir, Chafé e Castelo passam a ter códigos em algarismos quase idênticos, - o lugar de Lordelo deixa de existir para ser então, - 4935-587 - assim como o endereço do jornal Monte do Castelo deixa de ser lugar de São Tiago – para ser somente - 4935-573 - em vez dos lugares e dos apelidos dos caminhos que melhor respeitariam a memória colectiva dos habitantes de ambas as freguesias. Valha-vos, Deus ! Não ?
No correio dos leitores, um cidadão ou qualquer outro, está proibido de contestar a agressão sonora e algazarra de frente à sua residência, em resposta, é atacado com garrafas de bebidas alcoólicas. Incrível tal educação.
Na página do movimento religioso, homens reconhecidos nos deixaram. Alguns, ainda em idades de gente nova, outros depois de sofrerem em vida nos seus últimos dias por causa da ganância de alguns filhos incorrectos. Por outra, repare-se a não indicação da idade de 83 anos, na parte óbitos e, na de agradecimento, indicado somente - FAMÍLIA - a Francisco de Brito do Rego , ao contrário de outros - A FAMÍLIA -. Mesmo aqui, o ex melhor enxertador de Chafé, homem polivalente e um dos mais intelectuais lavradores da freguesia, não teve as honras, de todos os seus filhos - sem excepção - por causa de quem o sequestrou para melhor o privar dos seus mais entes e assim melhor o espoliar. Em Portugal, tudo é permitido ?!
No artigo - Serão aos Peixes - na última página. O nosso amigo Zé Gonçalves explica alguns exemplos do caos ancorado na sociedade actual em que ninguém respeita ninguém e, sobretudo as instituições públicas e republicanas, estas, perderam a capacidade de agir, resultando deste modo um mundo sofredor no planeta mais belo do nosso sistema solar.
Acrescentando ainda, actualmente como na maioria dos aspectos da nossa vida, cada um, então, vai fazendo como quer e lhe apetece. Exemplo, de frente ao km 4 da EN 13-3, uma cidadã de Chafé, construi um muro como ela entendeu e sem autorização na parte do vizinho, violando a propriedade alheia, e, de frente à estrada nacional 13-3. Ora, pergunto ; quem mudou a lei que era institucionalizada, há 25 anos ?
Portanto, haja quem diga o contrário, em Portugal, hoje, tudo é permitido, basta haver dinheiro para pagar o mal ! Assim, podem haver sequestros a pessoas, doações ou execução de procurações irrevogáveis ou testamentos, sem que o donatário se desloque ao notário, atestados médicos sem haver consulta médica ao enfermo. Isto é viver normal de seres VIVOS ?
Apelo, ao Estado Português, aos responsáveis das Instituições Públicas, aos executivos das Juntas e das Câmaras, para porem cobro a tais actos de vandalismo a actuar no seio da sociedade.
E, assim vai Portugal.  Para todos os moralistas, intelectuais, humanistas e responsáveis da Nação Portuguesa, apelo mais uma vez ; não deixem Portugal cair nas trevas, quando se sabe que Portugal é um belo País e muito propício para o bom viver. O ser Humano, comporta-se muito mal !
Um cidadão de Chafé que, só pretende viver a vida em harmonia e amizade.

José Rego

 

   

 


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